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Eu conheci um santo

Por Honório de Medeiros

Eu tinha dez ou onze anos quando conheci um santo. Chamava-se Helder Câmara, era Arcebispo da Igreja de Cristo em Recife e Olinda.Dom-Helder-Camara-NE2

A ele fui levado pela secretária particular do Governador Nilo Coelho, que eu suponho ter sido, muitas vezes, um canal de comunicação entre a Igreja, o Poder Civil e o Poder Militar em Pernambuco, dada sua condição singular de amiga pessoal dos líderes dessas instituições.

Fomos eu, ela, uma tia, funcionária da Sudene, minha mãe e minha irmã, no começo da noite, na sede do arcebispado.

Estávamos de férias em Recife.

D. Helder nos recebeu com aquele seu sorriso luminoso, tão característico, olhos pisados pela falta de sono, o corpo mirrado, frágil, em seu ascético gabinete.

Para mim, naquela época, era impossível sequer imaginar que ali estava um gigante moral. Um dique, que com a força de suas palavras, atitudes, e carisma, tantas vezes contivera o furioso redemoinho, em Pernambuco, das águas turbulentas da repressão pós 64.

Pregava defendendo uma Igreja simples, voltada para os pobres, e a não-violência. Orador que galvanizava multidões, também era um escritor cultuado. Dele li o belo “Um Olhar Sobre a Cidade”, depois perdido em alguma das mudanças que minhas muitas vidas me impuseram.

Entretanto, dele, guardei mesmo, em meu coração, em minha mente, sem nunca esquecer, não somente a benção que seus dedos magros desenharam sob a minha testa ainda infantil, como também uma frase sua, lida em algum lugar, que é a síntese, para mim, do seu apostolado, tão bela quanto densa: “me enriqueces quando discordas de mim”.

Eis uma epistemologia em forma de poesia direcionada ao espírito dos homens de boa-fé do povo de Deus. Minha benção, padre. Quando me lembro do senhor, acredito na humanidade.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

*Crônica extraída do livro De uma longa e áspera caminhada, pela Editora Viseu.

Os 70 anos do “Geografia da fome”

Por José Gonçalves do Nascimento

O drama da fome está presente em obras importantes da literatura brasileira, em especial aquela produzida por intelectuais nordestinos. Em algumas obras, o tema chegou a inspirar cenas que, por sua força e dramaticidade, tornar-se-iam verdadeiramente antológicas:

Em “O quinze”, de Raquel de Queiroz, o personagem Chico Bento, após esfolar uma cabra que encontra pelo caminho, e estando cego de fome, leva à boca os dedos sujos de sangue, comprazendo-se no “gosto amargo da vida”. No romance “Vidas secas”, de Graciliano Ramos, a cachorra Baleia, há dias esfomeada, sonha com um mundo povoado por muitos e gordos preás. Em “A bagaceira”, de José Américo de Almeida, João Troculho, em diálogo com Lúcio, revela seu maior desejo: “comer até matar a vontade”.

Muito antes, Rodolfo Teófilo, ilustre humanista nascido na Bahia, mas radicado no Ceará, já havia tratado da temática, produzindo obras que se tornariam importantes peças de denúncia contra o terrível flagelo, caso do romance “A fome”, publicado em 1890.

Todavia, foi com Josué de Castro que a fome adquiriu estatuto científico, político e moral, não sendo encarada apenas como consequência de fatores climáticos e naturais, mas também, e sobretudo, como algo “provocado pelo homem contra outros homens”, a partir de ações políticas sistematicamente deliberadas.

Médico, geógrafo, cientista social, escritor, Josué de Castro é umas das figuras mais proeminentes do pensamento brasileiro.

Pernambucano, nascido em 1908, dedicou a vida inteira ao estudo da fome e da nutrição, escrevendo sobre o tema obras de elevadíssimo valor científico e literário. Uma delas é “Geografia da fome”, publicada em 1946, ao fim da segunda guerra mundial, e tida por Alceu Amoroso Lima como “livro-chave da realidade brasileira”, comparável apenas ao “Os sertões”, de Euclides da Cunha.

O livro foi pioneiro no sentido de trazer à baila a problemática da fome e suas implicações políticas e sociais no momento em que o tema era considerado um tabu. O próprio autor classificará o assunto como algo “perigoso e delicado”, afirmando haver “uma verdadeira conspiração do silêncio em torno da fome”.

“Será por simples obra do acaso – indagará ele – que o tema não tem atraído devidamente o interesse de espíritos especulativos e criadores do nosso tempo? Não cremos. Trata-se – continua – de um silêncio premeditado pela própria alma da cultura: foram os interesses e os preconceitos de ordem moral e de ordem política e econômica de nossa chamada civilização ocidental que tornaram a fome um tema proibido, ou pelo menos pouco aconselhável de ser abordado publicamente.”

Ao lado disso, há que se acentuar também a existência de certo sentimento de grandeza e ufanismo que fez com que a elite política e intelectual do Brasil ignorasse por tanto tempo o problema da fome, optando por destacar apenas elementos que pudessem enaltecer o nome do país, ainda que de forma maquiada. “A ‘Geografia da fome’ – assevera Barbosa Lima Sobrinho – veio desmitificar a ideia de que não havia fome no Brasil.”

Fatores de ordem política, econômica, social e cultural, como a concentração da terra e da renda, o abandono do campo, a urbanização desenfreada, a centralização do poder, a chamada “política de fachada” – sem esquecer, obviamente, a indiferença com que o fato sempre foi tratado – são aqui apontados como as principais causas do problema da fome ou da deficiência alimentar.

O livro divide o território brasileiro em cinco diferentes áreas alimentares, possuindo cada uma delas características específicas e níveis diversos de nutrição e subnutrição, tudo isso condicionado por particularidades históricas, geográficas, econômicas, sociais e culturais. São elas: 1) Área Amazônica; 2) Nordeste Açucareiro ou Zona da Mata Nordestina; 3) Sertão Nordestino: 4) Centro Oeste e 5) Extremo Sul.

Das cinco regiões que formam o mapa alimentar brasileiro, três são consideradas “áreas de fome”: a Amazônica, a da Zona da Mata e a do Sertão Nordestino. Segundo o estudo, estas são áreas onde pelo menos metade da população apresenta “nítidas manifestações de carência nutricional”.

É ONDE, segundo o autor, revela-se a “chamada fome oculta, na qual, pela falta permanente de determinados elementos nutritivos, em seus regimes habituais, grupos inteiros de populações se deixam morrer lentamente de fome, apesar de comerem todos os dias”. Conforme vem definido, fome oculta é aquela caracterizada pela deficiência de ferro, cálcio, sódio e de vitaminas do complexo B, dentre outros.

É a fome tipicamente de “fabricação humana”, nas palavras do próprio autor.

Josué de Castro morreu nos anos setenta em Paris, onde se encontrava exilado por força da ditadura militar, instalada em abril de 64. Morreu de infarto após tentar sem sucesso voltar ao Brasil e retomar a luta contra o terrível flagelo, que mais e mais se acentuava.

Mas sua obra, em especial “Geografia da fome”, ainda haveria de render muitos e bons frutos, inspirando ações de solidariedade, assim como políticas de governo. Alguns exemplos:

Nos anos oitenta, o então arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara deflagra amplo movimento de combate à fome, objetivando erradicar o problema até o ano 2000. No início dos anos noventa, o sociólogo Herbert de Souza cria o movimento da “Ação da Cidadania”, que mobilizou parte expressiva da população e tirou da fome extrema muitos milhões de brasileiros.

O movimento acabou sendo assumido pela agenda oficial, tornando-se política pública. Anos depois, seria implantado o programa federal “Fome zero” que deu origem ao atual “Bolsa família”, o qual tem enormemente contribuído para a melhoria da qualidade de vida de parcelas consideráveis do povo brasileiro, concorrendo assim para a redução da miséria que ainda assola nosso país.

Não obstante os avanços até aqui obtidos, as mazelas apontadas há setenta anos ainda não foram superadas. O problema do latifúndio e da concentração de renda, apontado como principal responsável pela fome, continua a persistir e de modo cada vez mais acentuado. De modo que o livro “Geografia da fome” chega aos nossos dias mais atual do que nunca.

José Gonçalves do Nascimento é poeta e cronista

Encontro afetivo dos ‘pelados’

O lançamento do livro “Além das Ideias – Histórias de vida de Dom Hélder”, do jornalista pernambucano Félix Filho – ontem à noite no Museu Municipal Lauro da Escóssia (Mossoró) foi bastante concorrido.

Oportunidade também de reencontrar uma pá de gente boa. Uma em especial:  padre Sátiro Dantas.

Brinco com ele. Trato-o por “padreco”, sem diminuí-lo. Coisa de pândego para arejar logo a conversa.

Ih, você está pelado… estava preso? – ironiza-me, passando a mão empalmada sobre minha cabeça, de corte quase zero do cabelo.

Estávamos, eu e você, mas em celas separadas, para que não formássemos um motim – reajo de chofre.

Gargalhamos em comum.

Dom Hélder Câmara em muitas histórias

Será às 20h de hoje (sexta-feira, 25), no Museu Municipal Lauro da Escóssia – o lançamento do livro “Além das Ideias – Histórias de vida de Dom Hélder”, do jornalista Félix Filho.

A obra é um passeio com narrativa de diversos episódios que ajudam a conhecer e entender quem foi Dom Hélder Câmara.

O jornalista conviveu com o religioso, que teve destacado papel em lutas sociais e foi uma voz de resistência à violência e a opressão política no país.

Vida de Dom Hélder terá lançamento em livro

A Companhia Editora de Pernambuco (CEPE) lançou recentemente, no Recife, o livro Além das Idéias – Histórias de vida de Dom Hélder, do jornalista Félix Filho. Editado em parceria com o Instituto Dom Hélder Câmara, o livro apresenta o ex-arcebispo de Olinda e Recife de forma inovadora.

Em Mossoró, a obra será lançada no dia 25 próximo, às 20h, no Museu Histórico Lauro da Escóssia.

Surge no formato de pequenas histórias, no cotidiano de sua vida, nos relacionamentos com as pessoas, em gestos simples que encantam e relevam sabedoria, bom humor, simplicidade e fé.

O jornalista Félix Filho nos leva a conhecer Dom Helder na intimidade, revelando histórias só conhecidas dos amigos mais chegados. A originalidade da publicação é apresentar Dom Hélder para além das suas idéias. “É como reencontrá-lo a andar a pé nas ruas ou sentar-se ao seu lado na salinha da Igreja das Fronteiras” explica Félix, que conviveu com o arcebispo como padre na Arquidiocese de Olinda e Recife.

No prefácio, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares, bispo da Diocese Anglicana do Recife (DAR) e biblista renomado, ressalta a forma como foi escrito o livro: “do jeito típico de a Bíblia fazer, contar histórias. Nas Santas Escrituras, história é ‘torah’, isto é, instrução e lei para viver”.

O jornalista Félix Filho conheceu bem de perto Dom Hélder. Foi ordenado padre por ele na Arquidiocese de Olinda e Recife, sendo designado para atuar na Paróquia de Nossa Senhora do Bom Conselho, em Ponte dos Carvalhos, no Cabo de Santo Agostinho.

Trabalhou também no setor de comunicação social da Regional Nordeste II da CNBB. Atualmente é casado, pai de dois filhos, e já ocupou o cargo de presidente nacional da Associação Rumos/Movimento Nacional das Famílias dos Padres Casados, entidade que reúne os mais de cinco mil padres católicos casados do Brasil. Hoje exerce o ministério sacerdotal na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, na Diocese Anglicana do Recife – DAR, onde é membro do Conselho Diocesano.

Como jornalista profissional foi repórter do Diário de Pernambuco e das sucursais do Jornal do Brasil e Estado de São Paulo. Trabalhou também na TV Manchete e na TV Globo Recife, onde atuou por 15 anos como chefe de reportagem e editor-chefe do telejornal Bom Dia Pernambuco. Atualmente é gerente na Secretaria de Imprensa do Governo do Estado de Pernambuco.