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Eu sou, porque nós somos…

Por Marcos Araújo

Apesar do atual uso (e abuso!) de palavras como resiliência, sororidade, solidariedade, tolerância, diversidade, e, por razões de saúde pública, distanciamento e isolamento social, opostos que significam – e ressignificam – o comportamento humano, vale a pena trazer à reflexão a reestruturação social que estamos vivenciando no final deste primeiro quartel do século XXI.

Crianças Xhosa mostram o que é ubuntu - eu sou porque nós somos (Reprodução)
Crianças africanas mostram o que é ubuntu – “eu sou, porque nós somos” (Reprodução)

Tudo que é sólido desmancha no ar, escreveu o filósofo  estadunidense Marshall Berman para criticar a modernidade, e ele tem absoluta razão. Nas últimas décadas, só se falou em energia limpa (solar, eólica e hidráulica), e agora, com a guerra da Rússia x Ucrânia, percebemos que a energia “suja” (carvão mineral e vegetal, energia nuclear, petróleo e gás natural) é quem predomina no mundo.

O risco de desabastecimento de combustíveis fósseis obrigou recentemente Joe Biden a se ajoelhar diante do Conselho de Cooperação do Golfo (a união de seis estados do Golfo Pérsico: Omã, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Qatar, Bahrein e Kuwait).

Também em razão da guerra, as nações estão refluindo suas exportações de alimentos e outros bens de primeira necessidade, buscando a autossuficiência. O mundo em breve deixará de ser a “aldeia global”, na expressão do filósofo canadense Marshall McLuhan, pois barreiras nacionalistas estão sendo erguidas rapidamente. Contam-se já aos milhões os refugiados e apátridas…

O pessimismo, a descrença, a depressão e outras patologias psíquicas avassalam a humanidade. Tem muita gente se armando e outro tanto se matando, sem causa aparente. A prática de doomscrolling (o termo se refere à tendência de navegar na internet e redes sociais em busca de más notícias) está disseminada. Um vazio existencial coletivo tomou de “assalto” a alegria e a vida de nossas cidades. Até Paris (e seus bistrôs), que no dizer de Ernest Heminguay era uma festa, ficou sem graça. O Rio deixou de ser lindo, e Roma não pode mais ser chamada “a cidade eterna”.

A regra agora é a desconfiança, prevalecendo a máxima de Paul Léautaud de que “ser inteligente é ser desconfiado, mesmo em relação a si próprio”.  Nem no médico,  que em tempos de outrora segurava sua mão no momento da cirurgia, nem mesmo no Padre, que amparava suas angústias e guardava suas confissões…

Existirá ainda alguma esperança neste mundo cáustico e caótico?  Claro que sim! A experiencia humana ao longo da história tem demonstrado que a sobrevivência da espécie depende da fórmula racional musicada por Tom Jobim na sua canção “wave”: “fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho”. Somos todos interdependentes. Ninguém é capaz de viver sozinho, ainda que se noticie uma proposta idiota de um hotel para mínimos em órbita espacial.

É PRECISO revitalizar o sentido etimológico da palavra “Sociedade”, que em termos mais precisos significaria “sócio na metade”. Somos todos “sócios” uns dos outros. Como afirma Durkheim, a sociedade não deve ser um amontoado de indivíduos, mas um sistema organizado deles, numa unidade cultural, solidária, econômica, política e plural.

O sociólogo francês Edgar Morin insistia que “não só os indivíduos estão na sociedade, mas a sociedade também está nos indivíduos”.  O sentimento de pertença a uma comunidade deve ser o instinto de sobrevivência prevalente. Se eu sou “sócio” na “metade” do outro, essa outra metade pode estar passando fome, desempregada, sem escola, sem perspectiva, doente, sofrendo preconceito…

As pessoas devem saber que o mundo não é uma ilha. Eu sou humano, e a natureza humana implica compaixão, partilha, respeito, empatia. Uma sociedade sustentada pelos pilares do respeito e da solidariedade faz parte da essência de Ubuntu, filosofia africana que trata da importância das alianças e do relacionamento das pessoas, umas com as outras.

Na língua Zulu, Ubuntu significa “Eu sou, porque nós somos”. Aos que se dizem cristãos a filosofia do Ubuntu deve ser um frontispício mental, posto que, como enfatizado pelo Papa Francisco, “No diálogo com Deus não há espaço para o individualismo”.

Marcos Araújo é advogado e professor da Uern

‘J´accuse’ o seu mal ao desenvolvimento da humanidade (Covid-19)

Por Marcos Araújo

Com muita raiva e indignação, o escritor francês Émile Zola escreveu um artigo no jornal L´Aurore, em 13 de janeiro de 1898, com o título “J´accuse” (Eu acuso).  O artigo era uma carta ao presidente da República Félix Faure, em defesa de Dreyfus.

Sem a habilidade de Zola, escrevo este rabisco a Deus, o Senhor do Tempo, para acusar o Senhor do Mal, o espectro da morte, o Mr. Hell chamado Covid-19, pelo malefício insanável causado principalmente à educação e à cultura, reconhecidamente os melhores agentes do desenvolvimento social humanitário.Montanha, no topo, vitória, êxito, sucesso, não desistir, persistência

Ao Criador, que controla a ação dos elementos da natureza e tem a ampulheta das horas em suas mãos, quero denunciar este desalmado ladrão do saber comunitário e assassino inconfessável do sentimento criativo das pessoas, pelo empobrecimento educacional, cultural, político-social, humanístico, religioso e sentimental de todo o planeta.

Assim como Zola, “Mon devoir est de parler, je ne veux pas être complice” (Meu dever é de falar, não quero ser cúmplice), eu acuso você, Covid-19, não só pelo morticínio dos seres humanos, mas pelo silêncio obsequioso e apagão intelectual que tem causado nos educadores, artistas, escritores, líderes sociais e religiosos.

Comecemos pelo prejuízo causado à educação…É incontestável o valor social e político da educação.  Emile Durkhein dizia no início do século XX que somente a educação implanta valores nos homens, formando princípios exteriores à sua própria vontade. Por isso, Edgar Morin gostava de repetir aos seus alunos nas calçadas da Écoele des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), em Paris: “O saber não nos torna melhores, nem mais felizes. Mas, a educação pode ajudar a nos tornarmos melhores, se não mais felizes, a nos ensinar a assumir a parte prosaica e viver a parte poética de nossas vidas”.

Educadores dizem que 2020 foi um ano perdido. E 2021 já está em vias de perdição. A formação educacional por mediação tecnológica longe de despontar como solução, tem sido um retumbante fracasso. Seja pelas desigualdades sociais que impedem a transmissão do conhecimento, porque não são todos os domicílios e famílias brasileiras que têm suporte para aulas por mediação tecnológica em casa, seja pela má qualidade no processo ensino-aprendizagem.

Se a educação tem um valor político (como defende Henry Peter com essa citação: “A educação faz um povo fácil de ser liderado, mas difícil de ser dirigido; fácil de ser governado, mas impossível de ser escravizado“), recrudescemos no nosso nível de consciência cidadã, capacitad os para pensar que fomos neste último ano apenas pelos rumores das redes sociais.

No campo cultural, também vivemos um período de “apagão”. Pesquisas demonstram que livros, peças teatrais, roteiros cinematográficos e outras produções do gênero, sofreram redução de publicação, ensaio e execução em quase 70% (setenta por cento). Tomados pelo pavor, escasseia a criatividade das autoras/es e animadores culturais, daí a risível – ou quase inexistente – produtividade setorial.

A humanidade não está “morrendo” somente por causas respiratórias, mais, muito mais, por causas “inspiratórias”; falta inspiração para viver, escrever, ler, criar, pensar, falar… Estamos letargicamente paralisados pelo medo. Vivemos dois lockdowns muito danosos à evolução humana: o educacional e o cultural.

Albert Schweitzer, um médico alemão que largou a riqueza para fundar hospitais no Gabão, na África Central, no seio da pobreza, costumava dizer que “A tragédia não é quando um homem morre. A tragédia é o que morre dentro de um homem quando ele está vivo.”

NÃO DEVEMOS “MORRER” POR ANTECIPAÇÃO.  É preciso resistir bravamente! Por isso, conclamo: vamos ao campo de batalha em favor da vida! Uma epígrafe machadiana motiva a lutar: “Que é a vida? Uma batalha, Tiro ao longe, espada à cinta; para os barbeiros, navalha; para os escritores, tinta.”  É preciso que o povo da literatura “carregue nas tintas”, para demonstrarem que estão vivos.

Para quem tem ideal, a morte não chega cedo. Fernando Pessoa poetisa sobre a morte que se antecipa aos sonhos: “O amor foi começado, O ideal não acabou, e quem tenha alcançado, Não sabe o que alcançou.”

É mais do que preciso ressuscitar uma ética de vida e rejeitar veemente a replicação da cultura da morte, senão, restará somente o caos a enterrar as nossas últimas quimeras. Devemos sonhar e esperançar que tudo logo passará! O resgate dos valores humanos, o estimulo à educação e o retorno urgente às atividades criativas e culturais é o nosso grande desafio, pois estes promovem a verdadeira prosperidade e a felicidade no ser humano.

A Deus, clamo para que, caso venha a nos faltar a beleza da saúde, que sejamos confortados com a graça da fé. Dê-nos a esperança de dias melhores, para a educação e para a cultura, ânimo aos professores e aos agentes culturais, para que continuem manifestando em seus eflúvios espirituais, a criação e a formação que nos alimenta a alma e que traz causa para as nossas alegrias.

A sociedade nos precedeu e sobreviverá a nós. Nossas vidas não são mais que episódios em sua marcha majestosa pelo tempo. Você não nos vencerá, Senhora Covid-19!

Marcos Araújo é professor e advogado