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Autorretrato

Por François Silvestre

Essa coisa de autorretrato é uma prática dos pintores. Tenho inveja deles, pois nunca consegui pintar um nariz de frente. Mesmo que D. Raimunda Barreto, minha professora primária no Grupo Almino Afonso, tenha tentado muito. Não teve jeito.

Depois, já no ingresso do segundo grau, um professor de desenho me disse que eu iria sofrer muito na vida por “não conseguir compreender, no plano, as perspectivas espaciais das figuras geométricas”.

Já sofri muito na vida, não mais do que gozei, mas nenhum dos meus sofrimentos se deu por causa da incompreensão das figuras no espaço ou no papel. Compreendo do meu jeito, tortamente.

Outra inveja, a música. Sou o que se chama no sertão um peido n’água, em matéria de afinamento. Afinação nula, ouvido rombudo.

E aí sobrou a escrita. Mesmo assim, precária. Vez ou outra descubro o dodecaedro pentelhando o desenho das frases e o ouvido desafinando a sonoridade das metáforas.

Se fizesse um júri, nesse julgamento pessoal, seria um promotor relapso e um defensor esperto. Como se estivesse roubando no jogo de cartas da paciência.

A acusação: Sou vaidoso e me acho bonito. Fujo do espelho, pra evitar decepção. Sou pretensioso e me acho inteligente. Fujo dos intelectuais para evitar o desmentido.

Sou impaciente. Quando fui candidato fingi paciência pra ganhar votos. Não adiantou. Foi uma mentira ineficaz.

Não gosto de visitar doentes, não vou a enterros, não visito presos. E olhe que já recebi visitas na cadeia e nos hospitais. Só falta recebê-las no cemitério, mas não tenho pressa; quem quiser visitar-me espere deitado. Prefiro a cremação.

Sou egocêntrico. Acho-me morando no centro do Universo, mesmo cercado pela minha própria estupidez e pela burrice nativa que me irrita e amofina. Giram em torno deste meu centro uma galáxia de passarinhos perseguidos, fruteiras assassinadas, broqueiros idiotas queimando grotas e notícias ruins nos jornais televisivos.

A defesa: A ganância nunca me motivou. E olhe que a ganância honesta, de quem trabalha para justificá-la, não merece crítica. Merece aplauso. Mas não consegui fazer da ambição uma motivação de vida.

Não hospedei a avareza. Sempre fui esbanjador, mesmo esbanjando pouco, pois nunca tive muito. Se muito houvesse, eu seria generoso. Em sendo pouco, sou apenas estroina. Moderadamente, com cautela.

Dizia Sêneca que “ao avarento falta-lhe o que tem e o que não tem”. A única avareza respeitável é a do dinheiro público, exatamente onde o Poder que o guarda não o guarda. Rouba-o. E quem diz protegê-lo cobra caro pelo controle e controla ineficientemente.

Tenho o maior número de melhores amigos do mundo. E desafio quem os tenha tanto quanto eu. E da minha família, não me exibo para evitar quebranto.

E assim dito, senhor Juiz, neste júri simulado, resta pedir a condenação. Para que, serenamente, a sentença reflita, na sua motivação, o direito negado às provas do acusador. Nos termos em que o retratado pede deferimento. Té mais.

François Silvestre é escritor

Prefeito faz culto à própria imagem numa fuga da realidade

O culto à personalidade, que podemos tratar sob o olhar da psicologia como “egolatria”, é uma das mais comuns manifestações da exacerbação do “eu” no indivíduo que chega ao poder político – com raras exceções. Em Mossoró, então… é quase regra àqueles que se aboletam na cadeira de prefeito.

Revista na primeira pessoa: eu (Foto: reprodução)

O Dicionário Aurélio Buarque de Holanda Ferreira define o que é Egolatria, para nos situar melhor:

1) Sentimento excessivo da própria personalidade;

2) Tendência a monopolizar a atenção, mostrando desconsideração pelas opiniões alheias.

As duas características que se fundem, acabam por se acoplar como uma nova epiderme ao prefeito Francisco José Júnior (PSD), que promete construir um santuário para a padroeira cristã da cidade – Santa Luzia – no alto da Serra Mossoró, mas talvez intimamente se sinta o próprio Deus vivo; a reencarnação do faraó Ramsés, que reinou pensando ser uma divindade do velho Egito.

“O cara”

Sua mais nova demonstração de zelo excessivo e expansivo da própria imagem, em contraposição à prioridade que deveria ser governar e governar bem, está numa revista. Pago com recursos de cerca de 144 prefeituras associadas à Federação dos Municípios do RN (FEMURN) – presidida por ele – o impresso não economiza na lapidação do prefeito.

A publicação em policromia e 40 páginas denominada de “Femurn em Dia” é um incenso em celulose ao presidente e prefeito, ao gestor, ao “cara”. Francisco José Júnior aparece em destaque em 19 fotos. O ‘ritual’ deifica o prefeito em praticamente metade de suas páginas.

Milhares de exemplares são distribuídos gratuitamente em Mossoró desde o dia passado, onde seu reinado parece não ter “súditos” muito satisfeitos com a propaganda e menos ainda com a administração municipal. Há um conflito entre auto-imagem e realidade. Na verdade, um abismo.

O mais do mesmo

Essa abundância de divulgação superdimensionada, num ano eleitoral e com dinheiro alheio, reitera como nada mudou com o sobrenome “Silveira” em vez de Rosado no Palácio da Resistência. O mais do mesmo. Seis por meia dúzia em termos de personalismo.

O novo nada mais é do que o comum há décadas, feito para criar a sensação de que o inquilino da sede da Prefeitura é o “centro de tudo”. A crença é de que tudo se converte em votos, sob a lógica do marketing político e eleitoral.

A personalização não obedece apenas a uma suposta tese marqueteira. Na verdade é um embuste que faz cócegas prioritariamente no ego do próprio prefeito.

Ele acredita com fervor no que é exposto de forma desmedida na revista cuidadosamente feita para agradá-lo, encomendada para agradá-lo e banhada com fotos que são do seu agrado. Daí a prevalência da egolatria, muito mais do que dos fatos narrados na publicação.

Reprovação e rejeição

A super-exposição é como o “bronze” que a adolescente deseja ganhar sob o sol. Sem filtro solar e parcimônia diante do astro-rei, que no caso de Francisco José Júnior é a ausência de bom senso, tudo queima.

Por isso que ele não consegue entender como uma recente pesquisa o reprovou administrativamente com 80,33% (veja AQUI) e identificou 53,12 de rejeição eleitoral a seu nome (veja AQUI).

Mas vá dizer isso a ele. Ególatra detesta ser contrariado. Vê tudo sempre na primeira pessoa: “Eu!”

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