Elviro rebouças faleceu no último dia 11 em Fortaleza (Foto: Jornal de Fato)
Morreu Elviro Rebouças. E com ele, mais uma página da memória viva de Mossoró se fecha, mas não sem deixar marcas.
Filho de Genésio Xavier Rebouças e Dolores do Carmo Rebouças, irmão de Everardo, Evônio, Tânia, Tércia e Evaldo, pai de Grécia Regina e avô de três netos. Elviro veio de uma linhagem de gente do bem, que fincou memórias afetivas nesta cidade.
Desde cedo, foi vocacionado à vida pública. Ainda jovem, destacou-se como orador no primeiro comício das crianças, realizado na Praça Bento Praxedes, aquela época chamada de “Praça do Codó”, durante a vitoriosa campanha de Aluísio Alves ao Governo do RN, em 1960.
Entre 1966 e 1974, atuou como vereador, colocando sua disposição a serviço da cidade. Ao lado de Niná Rebouças, ex-secretária de educação e ex-vereadora, sendo a segunda mulher mais votada da história para a Câmara Municipal, formavam um casal comprometido com Mossoró.
Foi um amigo leal do casal Carlos Augusto Rosado e Rosalba Ciarlini, com quem dividiu décadas de amizade, respeito e caminhada pública. Um exemplo raro de uma verdadeira amizade.
Sua trajetória ultrapassou a política: economista, empresário, salineiro, comunicador e líder em instituições como o CDL e o Rotary Club.
Mas sua partida nos leva de volta a uma Mossoró saudosa, cheia de memórias, personagens e sentimentos. Que cidade era essa, afinal?
Era uma Mossoró vibrante politicamente. As disputas entre ARENA e MDB ferviam, sob as lideranças maiores de Vingt Rosado e Aluísio Alves. Eram tempos de disputas homéricas, de causos memoráveis como o “Touro e o Capim”, “Fura Pneu” e “Voto Camarão”.
Mesmo quando a sociedade tentava silenciá-las, as mulheres faziam-se ouvir. Aluísio Alves as chamava de “As Senadoras”, entre elas figuras como Rose Cantídio, Edith Souto, Ildérica Cantídio, Vanda Gondim e Ozelita Cascudo Rodrigues, que davam força às campanhas verdes do MDB.
O palco dos grandes comícios era a já citada “Praça do Codó”, assistidos das residências de Seu Dix-neuf e D. Odete, Seu Quincas Duarte e D. Dolores, Raimundo Cantídio e D. Oitava, Dr. João Marcelino, Aldo Fernandes e D. Mary, Luís Bolão e Maria Neuza… Nos arredores da Capela de São Vicente, as residências de Damião Germano e Vanda Gondim, Joaquim Borges e D. Sinharinha, Antônio Néo e D. Teresa, Dr. Duarte Filho, Seu Zé Pereira..
Um cidade movida pelo empreendedorismo de nomes como Chico Sena, Renato Costa, Humberto Mendes, Lauro Monte, Gabriel Negreiros, Enéas Negreiros, Porcino Costa, Dehuel Vieira Diniz, Sílvio Mendes, Francisco Heronildes “Nías” do Café Vitória, José Batista “Pitél” do Café Kimimo, Francisco Fernandes “Kinino”do Açúcar, Manoel Barreto, Diran Ramos do Amaral, Hugo Pinto, Tarcílio Viana, José Moraes, entre tantos outros.
Era a cidade da educação religiosa de Pe. Sátiro Cavalcanti Dantas e Irmã Aparecida, de fé firme, que se reunia na Catedral de Santa Luzia, sob o pastoreio de Dom Gentil Diniz Barreto. Orientada espiritualmente por Monsenhor Américo Simonetti e Monsenhor Humberto Bruening, sacerdotes cuja influência ia muito além do altar.
Era também a Mossoró da intelectualidade: João Batista Cascudo Rodrigues, Vingt-un Rosado, Dorian Jorge Freire, Raimundo Soares, Dr. Lavoisier Maia, Canindé Queiroz, Paulo Bedéo, Jaime Hipólito… E dos Escóssias de Dulce, Escossinha e Lauro, sempre presentes na construção cultural e social de Mossoró.
E por uma questão de justiça, é preciso dizer: não estão aqui todos os nomes que mereciam ser lembrados. Muitos outros, homens e mulheres, também edificaram essa cidade com sua dedicação e suas lutas. Esta crônica é apenas um retrato possível, entre tantos que ainda precisam ser contados.
E ainda que eu não tenha vivido pessoalmente essa época, escrevo movido pelo respeito e pela escuta dos que viveram. O que trago aqui é memória herdada, história viva transmitida de voz em voz, de gesto em gesto.
Com a morte de Elviro, vai-se mais do que um cidadão: vai-se um elo com o passado que ainda pulsa em tantos de nós.
Todavia, a cultura e a história são perenes, e seguem sempre seguindo o seu curso natural. Essa cidade e a sua gente são a nossa alma, nossa raiz mais profunda, nossa inspiração maior.
Amamos Mossoró com o amor de quem pertence, de quem a reconhece não apenas como cidade, mas como chão de origem e destino. Como dizia o velho alcaide Dix-huit Rosado, com a firmeza de quem sabia o que dizia: Mossoró toda vida.
O Clube Aceu, antes das ruínas em que se encontra atualmente, foi palco de muitas alegrias. Antes denominado Ipiranga, o clube abrigava os ricos da época em grandes festas.
Prédio está em ruínas, diferente do glamour de décadas anteriores (Reprodução)
O prédio foi construído nos anos 30 para auxiliar no trabalho amador do time de futebol. E foi crescendo até começar a derrocada nos anos 60/70.
Quando o Ipiranga perdeu o seu glamour de outrora, o prédio ficou praticamente abandonado. Até que dois convênios passaram o patrimônio do extinto clube de futebol para a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN).
A sociedade mossoroense acreditava que a entidade, passando para a Uern, seria soerguida e as atividades socioculturais retomadas.
No inicio, parecia que iria dar certo. Até meados dos anos 80, atividades culturais e recreativas aconteciam com frequência, mas os anos 90 marcaram um triste capitulo na história do clube.
O prédio for abandonado e hoje serve apenas de depósito de material, arquivo e como sede do Sindicato dos Funcionários da Uern (SINDIFURRN).
O abandono é tanto que no inicio deste ano parte do pavimento superior caiu e deixou os funcionários apreensivos.
Foi feita uma inspeção e constatou que o prédio não poderia ser utilizado por não oferecer segurança Mas o atual reitor da Uern, Walter Fonseca, parece não se importar.
O clube Ipiranga é um dos mais tradicionais de Mossoró. O historiador Ra imundo Soares de Brito relembra os momentos das grandes festas e bailes pro- movidos no local onde hoje funciona a Associação Cultural e Esportiva Universitária (ACEU).
O lugar abrigava festas grandiosas e chegou a ser reduto da aristocracia mossoroense. Mas o que levou ao surgimento da Aceu foi mesmo o futebol. “Existia uma rivalidade entre dois clubes importantes na época: o Ipiranga e o Humaitá”, disse o historiador. Ambos não existem mais.
Do Ipiranga, restam apenas escombros da sede social, que estão à disposição da Uern.
Um dos sócios-fundadores, Enéas Negreiros, em entrevista à GAZETA, disse desconhecer as fórmulas de como todo o patrimônio passou para o nome da Uern, sem que os mais de 200 associados tomassem conhecimento.
Com a rivalidade no futebol, os diretores do clube resolveram, então, montar a sua sede. A principio, o futebol praticado pelo Ipiranga era considerado amador. O time não fazia parte do esquema profissional, nem seus jogadores tinham remuneração, mas o sonho de levantar uma sede social era grande, principalmente pelos dirigentes.
Houve uma certa facilidade de levantar o empreendimento. Os diretores do Ipiranga eram empresários respeitados e detentores de influência na sociedade.
Antes, o clube funcionava num prédio alugado na Praça da Redenção, mas o sonho de ver o Ipiranga um time profissional era grande. A Prefeitura apoiou a iniciativa, doando o terreno. “O padre Mota foi um dos grandes responsáveis pela construção do clube”, disse Raimundo Soares.
Enéas Negreiros explicou que a empreitada para levantar o Clube Ipiranga recebeu o apoio de pessoas como Dix-neuf Rosado, Pedro Fernandes Ribeiro e Manoel Fernandes Negreiros. “Eles se mostraram muito solícitos para apoiar a iniciativa”, comentou.
Prédio foi construído por forte patrocinador
O padre Mota doou o terreno para a construção do clube Ipiranga. Este clube, antes funcionando num prédio alugado, estava com mais de duzentos sócios cadastrados, e isso mostrava a importância que era não apenas para o futebol amador, mas para o entretenimento mossoroense.
Com a doação, seriam necessárias as campanhas para arrecadação de mate- rial de construção para levantar o prédio. Alguns abnegados começaram, então, a pedir apoio. Até mesmo os alto-falantes, muito utilizados no início do século.
Mas os apoios não eram suficientes para tocar a obra adiante. Até que o empresário Badeu Fernandes de Negreiros foi contatado.
Badeu era representante das Tintas Ipiranga em Mossoró. Ele e um grupo de abnegados do Ipiranga.
Usaram um argumento que pesou muito na hora de fechar o negócio: o clube existia em função da marca da tinta. O patrocínio foi fechado e doado uma grande quantidade.
A doação foi tão grande que apenas 20% das tintas davam para pintar todo o prédio. Os 80%, segundo Enéas Negreiros. foram vendidos e transformados em material de construção. O clube ficou pronto em meados dos anos 30.
Cessão à universidade é questionada
Um dos fundadores do Clube Ipiranga, Enéas Negreiros, em reportagem publicada na GAZETA no final do mês passado, questiona a forma como o antigo clube Ipiranga passou a ser propriedade da Uern. “Não recebi qualquer comunicação como sendo um dos sócios. Nem eu, nem ninguém”, disse.
Enéas Negreiros foi um dos fundadores (Foto: Familiar)
Na época da transição, nos final dos anos 70, o Ipiranga contabilizava mais de 200 sócios, mas o clube vivia momentos difíceis por causa da fracassada administração.
Assim, os projetos culturais do Clube Ipiranga foram se enfraquecendo até chegar ao abandono do prédio.
Não parecia mais o Ipiranga dos anos 50 com as grandes festas e carnavais e a forte concorrência com a ACDP e AABB.
O presidente da Associação dos Docentes da Uern (ADFURRN), Carlos Filgueira, disse que a entidade vai se mobilizar para que o prédio – agora abandonado pela atual gestão da Uern – possa ser reformado. “E lamentável o estado em que se encontra o clube Aceu atualmente”, desabafou Carlos Filgueira
Segundo ele, que acompanhou o processo de cessão da estrutura do Aceu para a Uern, a sociedade local acreditava que a universidade pudesse zelar pelo patrimônio e reativar as atividades cultural e esportiva do clube. “Infelizmente isso terminou não acontecendo”, relatou.
Adfurrn protestará contra o abandono da Uern
A Adfurrn vai mobilizar a categoria para pressionar o reitor Walter Fonseca a iniciar os trabalhos de restauração do prédio da Aceu.
A última recuperação no edifício foi em 85, quando o processo de revitalização estava em andamento e o Diretório Acadêmico e outras entidades trabalhavam com atividades socio-recreativas no clube. Mas na década de 90 a Aceu não recebeu mais incentivo algum. Pelo contrário. Tornou-se um prédio abandonado, que mais serve de dispensa que para a sociedade mossoroense.
No inicio, as pessoas achavam que a Aceu serviria como antigamente, para festas e atividades culturais, mas não for isso que aconteceu. Agora, a Aceu é tratada com desdém”, disse o presidente da entidade Carlos Filgueira.
A Adfurm prepara um documento protestando contra o abandono. “Não se pode deixar um prédio daquele cair. Deveria ser tombado como patrimônio histórico. Ele existe há mais de 60 anos e conta uma história bonita de Mossoró, relata Filgueira. “Estamos prontos para encampar a luta. Não entendo por que os dirigentes da Uem não se importam com as tradições da Aceu, se é deles a responsabilidade”.
Sociedade confiou que Uern zelaria Aceu
O Clube Ipiranga estava mal das pernas nos anos 70, e a administração do clube era considerada desastrosa. Não havia mais atividades culturais no local e, aos poucos, tudo foi ficando abandonado.
Até que um convênio entre o clube e a então FURRN for assinado pelo reitor da época, João Batista Cascudo Rodrigues, para administrar a quadra de esportes, no fundo do clube.
Alguns anos depois, o convenio se estendeu a todo o prédio. Os sócios não foram comunicados do convênio, nem houve uma assembleia para definir o destino do Ipiranga, mas mesmo assim o acordo for fechado. Segundo um dos sócios na época, o professor Carlos Filgueira, a sociedade mossoroense acreditava que o Ipiranga pudesse ser revitalizado e voltar as movimentações de outrora.
“O convenio com a universidade era considerado como algo bom para quem não queria ver as tradições do clube morrerem”. disse ele. No inicio, o Aceu foi revitalizado, mas aos poucos foi esfriando, até ser definitivamente abandonado.
Prédio está em ruínas
O prédio da Associação Cultural e Esportiva Universitária (ACEU) está em ruinas. O edifício, que não recebe manutenção desde 85, pode a qualquer momento vir abaixo.
E, com ela, toda a história da cultura local, do esporte e de atividades, como os da Luízas de Marilac – que promoviam eventos para angariar fundos para os pobres e idosos
Em maio, a parte superior caiu e o laudo constatou que o prédio não tem condições de uso. Mas isso parece não intimidar o reitor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern), Walter Fonseca.
Mesmo sabendo da ameaça da parte superior cair novamente, os funcionários do Sindicato dos Funcionários da Uern (SINDIFURRN) continuam trabalhando normalmente, e claro, apreensivos.
Vice-reitor diz que instituição espera Governo
O vice-reitor da Uern, Lúcio Ney, disse que o “abandono” do clube Aceu não é mais problema da instituição. Segundo ele, foi enviado um documento à Secretaria Estadual de Infra-estrutura relatando todos os problemas na estrutura do prédio.
Em maio, parte do andar superior do Aceu veio abaixo. Daí, o reitor da Uern, Walter Fonseca, determinou a inspeção do prédio. Foi constatado que caiu por falta de manutenção. “Pessoalmente fui a Natal entregar os laudos sobre o Aceu”, disse o vice-reitor. No laudo, ficou constatado que a parte superior não tinha as mínimas condições e que precisa de reforma urgente.
“Até o momento não há uma sinalização de quando será”, disse Lúcio Ney, acrescentando que um engenheiro fez todo levantamento dos curso da reforma, mas o valor não foi fornecido. “O prédio está sem condições”, garante. Mesmo com o perigo iminente, não houve qualquer interdição, e os funcionários da Uern continuam trabalhando normalmente.
Na Aceu, funciona o Sindicato dos Funcionários da Uern, o arquivo e o almoxarifado. “A situação é pior porque não temos recursos”, disse Lúcio Ney.
O clube Ipiranga, nas primeiras décadas do século passado (Acervo do IBGE)
*Reportagem especial publicada no jornal Gazeta do Oeste em 19 de dezembro de 1999, assinada pelo jornalista William Robson, que agora em blog com seu nome reproduz matérias diferenciadas que fez ao longo de décadas de profissão. Essa série tem o nome de “Acervo” (veja AQUI).