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60 anos depois – golpe ou revolução?

Ilustração Arquivo
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Por Ney Lopes

Consumada a destituição do presidente João Goulart, o regime instalado implantou no país severíssimas restrições à liberdade individual, através de uma série de outorgas de AI 5 (Ato Institucional).

Com tais evidencias, contaminaram-se as intenções democráticas do movimento armado.

Na administração pública recorreu-se a um centralismo tributário absurdo.

Deixou-se de lado a reforma da educação e não se tratou de incorporar os miseráveis ao mercado de consumo.

Houve lado positivo.

Conseguiu-se criar um setor exportador moderno e depois avançar investimentos em setores de indústria pesada e infraestrutura.

Implantou-se o Pró-álcool, programa brasileiro de etanol combustível à base de cana-de-açúcar, que permitiu o país tornar-se o segundo maior produtor mundial de etanol e o maior exportador mundial

A herança mais cruel foi ter violado toda atividade política, com a aceitação da censura, a tortura e submetido o país a um modelo centralizador.

A Comissão Nacional da Verdade (CNV) apurou violações cometidas nesse período e reconheceu a morte ou desaparecimento de 434 pessoas, do ano de 1964 até 1985, quando a democracia foi restabelecida no país.

Os militares protestam, exigindo investigações de violências generalizadas não apuradas, no mesmo período, contra as corporações armadas,

Pela forma como se consumou a mudança de poder do Brasil, em 1964, e os atos arbitrários praticados, à margem da Constituição da lei, coloco-me na posição de grupo significativo de acadêmicos brasileiros e estrangeiros, políticos e diversos setores da sociedade civil,

O que houve em 1964 foi um golpe de Estado

Ditador cruel

A análise não pode omitir o necessário registro sobre um general presidente desse período de exceção, que não pode ser apresentado na história como exemplo do esforço para a redemocratização do Brasil, como alguns consideram.

Quando já se aproximava a inevitável anistia política, a presença do general Ernesto Geisel no poder revelou sinais de recrudescimento do uso do arbítrio.

Ele foi um indutor do endurecimento do regime, que somente flexibilizou pelo compromisso do presidente João Figueiredo com a democracia, por ter tido o seu próprio pai punido em ditadura passada.

O general Ernesto Geisel, em 1977, decretou o fechamento do Congresso. por meio do “Pacote de Abril”.

Temperatura sufocante.

O ar era irrespirável pela prepotência, que vinha do Planalto.

Nos cinco anos de seu governo, Geisel cassou 11 mandatos parlamentares e mandou processar dois deputados pela Lei de Segurança Nacional, inclusive o presidente do MDB, Ulysses Guimarães.

Fechou o Congresso por duas semanas em 1977, cancelou eleições e criou a figura do senador biônico e a Lei Falcão, que impediu os candidatos de falar no rádio e na TV.

Levantamento do jornalista Elio Gaspari informa que nos cinco anos de Geisel morreram 42 oposicionistas, 39 dos quais “desaparecidos”, e foram registradas 1.022 denúncias de tortura.

Foram proibidos 47 filmes, 117 peças de teatro e 840 músicas.

A censura prévia, suspensa nos grandes jornais, continuou vigorando para a imprensa de oposição e para as editoras de livros.

A verdade é que o Governo Geisel é uma das heranças políticas mais cruéis, advindas de março de 1964, no Brasil.

Ney Lopes é jornalista, advogado e ex-deputado federal

O poder letal da “ditabranda”

Num editorial publicado em sua edição do dia 17 de fevereiro de 2009, sob o título “Limites a Chávez”, com críticas ao endurecimento do regime discricionário do Governo Hugo Cháves na Venezuela, o jornal Folha de São Paulo utilizou o termo “ditabranda” (aglutinação das palavras ‘ditadura’ e ‘branda’) para compará-la com o regime militar brasileiro (1964-1984).

Na avaliação do impresso, o Brasil teria abrigado uma ditadura “branda” (ou seja, amena), que bancou o funcionamento das instituições de estado e da sociedade como um todo, sem maiores excessos, ao contrário da crescente asfixia imposta pelo ditador venezuelano ao seu país.

Agora, com as recentes revelações de que os presidentes militares brasileiros Ernesto Geisel e João Batista Figueiredo transformaram o assassinato de inimigos do regime numa política de estado (veja AQUI), como o jornal avalia seu disparate?

* A expressão ditabranda surgiu na Espanha (“dictablanda”) nos anos 30, em pleno regime ditatorial do general Dámaso Berenguer. Vendeu a imagem de que seu governo era mais flexível do que o de seu antecessor, o general Primo de Rivera, tido como violento. Entretanto, oficialmente promoveu mais penas de morte do que Rivera.

Nota do Blog – Toda ditadura é nojenta. De direita à esquerda e vice-versa. Não existe ditadura boa.

Todo poder absoluto tende a agir sem limites. A palavra “ditadura” tem origem latina (‘dignidade de magistrado ou regente supremo, dignidade do ditador’), definindo manifestação de poder nascida na república romana.

O ditador era escolhido pelo cônsules (colegiado de maior poder nessa fase), tendo um período específico (a princípio eram seis meses) para agir em defesa da preservação da república em momentos delicados como revoltas internas ou cerco inimigo. Mas com o passar do tempo se transformou no que conhecemos hoje.

“O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente” (Lord Acton).

Leia também: Cai a máscara.

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Cai a máscara

Por François Silvestre

Eu nunca tive dúvidas sobre diferenças fundamentais entre os ditadores que “governaram” o Brasil após 1964. Eram todos do mesmo conluio, da mesma estratégia e do mesmo “patriotismo”.

Criaram um mito da “diferença” entre iguais. Dando a Castelo Branco e Geisel posições menos violentas. Tudo enganação. No caso de Castelo havia uma aparência de “institucionalidade” para agradar a comunidade internacional, que revelou-se contrária à banição de Juscelino Kubitschek.

Figueiredo e Geisel: matar, matar (Foto:Weber)

O general, “mais feio por dentro do que por fora”, segundo Hélio Fernandes, prometera eleições, no discurso de posse, mas fez tudo para a implantação continuada do regime de opressão. Era o “anjo da Rua Conde Laje”, conforme definição de Carlos Lacerda.

No que se refere a Geisel a aparência era necessária posto que a Ditadura começava a agonizar. Golbery do Couto e Silva, o Chico Ciência do regime, inventou a teoria da sístole e diástole da nossa realidade política. E convenceu Geisel de que era melhor uma distensão negociada do que virarem réus, vislumbrando o cansaço e envelhecimento da quartelada, apoiada por políticos ruins de urna, em 1964.

Agora, mesmo tardiamente, a máscara ruiu. E quem prestou esse serviço à História? O Tio Sam.

Os bancadores e avalistas da Ditadura. Pois é.

A Agência Central de Inteligência (CIA) torna públicas informações sobre autorização e controle do procedimento de tortura e assassinato de políticos, tudo dirigido pelo núcleo superior do regime. Inclusive com a conversa documentada em que Geisel e Figueiredo autorizam a continuação da política de extermínio, que vinha do governo Castelo, ampliou-se no período Costa e Silva e tornou-se escancarada no período Médici. Geisel exigiu que se limitasse aos “mais perigosos” e que tudo fosse centralizado no Serviço Nacional de Informação (SNI), sob o comando de Figueiredo.

A diferença entre os cinco ditadores era só de método.

A CIA põe o ventilador na boca das valas onde ainda “exala um estranho cheiro de súplica” , em cujos escombros “repousam” aqueles que não tiveram direito ao enterro comum dos mortos.

Leia também: Em memorando, CIA diz que presidente Geisel autorizou assassinato de opositores.

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