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“Como vou deixar o país se o Lula está preso?”

Por Fábio Góis e Basília Rodrigues (Do Congresso em Foco)

“Como vou deixar o país se o Lula está preso? Não se abandona um companheiro assim. Há erros que você pode cometer. Outros, não.”

O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, 72 anos, condenado a mais de 40 na Operação Lava Jato, fez a afirmação acima durante encontro, em Brasília, com a reportagem do Congresso em Foco. Respondia a uma questão que lhe tem sido apresentada com frequência: quais as chances de fugir do país para descumprir uma pena que ele e seus correligionários atribuem a um processo de “perseguição política” ao PT e à esquerda?

Dirceu diz que tem aproveitado tempo para trabalhar antes de voltar ao cárcere (Foto: Fábio Góis - Congresso em Foco)

Dirceu diz não ver sentido em tal ideia porque Lula, o Partido dos Trabalhadores e a “luta” se tornaram sua vida. Ele admite que deixar o Brasil é um conselho que tem recebido, pessoalmente ou por meio de mensagens, de várias pessoas, mas insiste: “A vida não é assim. Com Lula preso, não há chances de deixar o Brasil”.

No PT, somente o ex-presidente Lula teve mais poder do que ele. Réu na Ação Penal 470, que tratou das responsabilidades criminais pelo mensalão, ele foi condenado em outubro de 2012por formação de quadrilha. Até recebeu perdão de pena em outubro de 2016, mas continuou preso em razão da Lava Jato. Provocado a comentar a possibilidade de se refugiar em Cuba, onde o remanescente regime socialista da América Latina certamente lhe daria guarida, Dirceu solta um riso largo e ironiza:

“Tem muita gente querendo que eu vá para Cuba mesmo”, comenta, referindo-se à frase que se tornou recorrente entre os adversários do PT: “Vai pra Cuba!”.

Enquanto recebe o repórter, aliás, Dirceu ouve a lendária banda cubana Buena Vista Social Club, a mesma que contribuiu para a aceitação de ritmos como salsa e rumba pela alta intelectualidade do Ocidente. Lembra que já morou em Cuba, que, para ele, é uma mistura de Minas com Bahia.

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Antes de serem recebidos pelo ex-ministro, os repórteres veem Dirceu reunido, em uma sala à meia luz, com seu advogado. Era mais uma das incontáveis reuniões que têm marcado o cotidiano pós-condenação, no qual ele e seu defensor jurídico conversam sobre o curso do processo conduzido pelo juiz paranaense Sérgio Moro e sobre os seus possíveis desdobramentos.

No chão, no quadro encostado em uma das paredes do cômodo, Marlon Brando em O poderoso chefão, exalando o charme dos anos dourados de um cinema que não existe mais.

Lula e Dirceu, no tempo em que organizavam o PT (Foto: reprodução)

Em um primeiro momento, instantes depois da chegada da reportagem, a porta da sala se entreabriu para o entra e sai do advogado. Na antessala, sorvete de chocolate e água regam a expectativa sobre o que ele diria, ou mesmo se diria algo, depois da entrevista a Mônica Bergamo, colunista da Folha de S.Paulo.

Desde então o petista foi aconselhado por sua defesa a não mais falar com a imprensa. O ex-ministro sai rapidamente, dirige algumas palavras de cumprimento, mas volta para a sala para mais meia hora de conversa privada com seu interlocutor.

À espera do cárcere

Sim, Dirceu aceitaria falar mais uma vez. Com uma camisa preta sem estampa, calça jeans e mocassim escuro, o petista – que, apesar das restrições impostas pela vida de condenado, conserva grande influência em seu partido – parece bem humorado, apesar da perspectiva de ter de ficar, segundo seus cálculos, “quatro ou cinco anos” preso.

Dirceu espera ser beneficiado não só pela progressão de pena por bom comportamento, mas também por trabalhos e estudos que podem levar à diminuição do tempo de detenção. Em tese, pode receber até anistia ou indulto, apesar do endurecimento imposto ao benefício pelo Supremo Tribunal Federal no final do ano passado.

Com fala grave e pausada marcada pelo acentuado sotaque mineiro, José Dirceu diz ter voltado a ver muitas séries de TV depois de um ano e nove meses preso no Complexo Médico Prisional de Pinhais, região metropolitana de Curitiba (PR), onde cumpria pena antes de receber habeas corpus do STF em 2 de maio de 2017. E é justamente isso o que quer fazer na iminência de ser preso novamente: passar mais tempo com a família, de preferência vendo seriados. “Quero me divertir”, diz, sem esconder um tanto de resignação em saber que voltará ao cárcere a qualquer momento.

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Menciona algumas das obras que viu recentemente: a produção espanhola Casa de Papel, que narra um assalto à Casa da Moeda; a série Alienista, que relata a caçada a um serial killer que aterroriza Nova York; e, entre as que mais gostou, Marte, por se tratar de ficção científica. “Eu adoro assistir ficção científica”, completa.

Dirceu está solto desde setembro do ano passado, depois de passar um ano e nove meses preso. O STF ainda tem a última palavra antes de decidir se manda prendê-lo novamente. Mesmo a distância, ele diz ter acompanhado a prisão de Lula, sem ligações diretas, mas por meio de troca de informações com interlocutores em comum.

Em vez da tristeza, resignação

Diante do repórter, demonstra grande cuidado com as palavras. Não quer fazer declarações políticas. Ressalta que não é de falar, mas de fazer.

Na rua, conta que é muitas vezes reconhecido por motoristas de táxi e de Uber. Vários deles, acrescenta, pedem para tirar foto com ele. Receber amigos, determinados a visitá-lo e a serem fotografados com ele antes de o ex-ministro voltar à prisão, tem sido outro compromisso constante em sua agenda.

Leitor voraz, Dirceu planeja voltar a ter os livros como companhia em sua nova temporada na prisão (Foto: Fábio Góis do Congresso em Foco)

O olhar de Dirceu, assim como o estado de espírito de amigos que aguardam para encontrá-lo, não é de tristeza, mas de resignação. “Cada dia é um dia”, afirma o ex-ministro.

Ao lado da ampla sala em que estamos, está sendo organizada uma estante de livros que ocupa uma parede inteira. Entre os livros pinçados para ocupar o móvel, uma suntuosa estrutura em tons negros e aspecto aveludado, está O amor em tempos de desamor e o enigma: o Brasil tem jeito? (foto abaixo).

Trata-se de uma coletânea organizada pelo economista João Paulo dos Reis Velloso, que durante o regime militar foi ministro do Planejamento dos governos Médici e Geisel. O livro reúne textos de nomes como Maria Adelaide Amaral, Jaime Pinsky, Mary Del Priore, Sergio F. Quintella e Alberto da Costa e Silva.

“Soldada de esquerda”

Se evitou declarações políticas, Dirceu não se recusou a falar de futebol. Mostrou-se, porém, pouco atualizado sobre o assunto. Ao saber que um de seus times favoritos, o espanhol Barcelona, foi eliminado nas quartas de final da Liga dos Campeões, surpreendeu-se com a sua própria desinformação. Exclamou, em tom de brincadeira: “Estou preso mesmo”. O supertime perdeu no início deste mês, dentro de casa, por inacreditáveis três a zero, com Messi e tudo mais.

Dirceu é mineiro, mas aos 14 anos foi para São Paulo, onde até mudou de time para não ser escanteado pelos outros. “O que é mais perto do Flamengo? O Corinthians, pela paixão, intensidade”, diz. Hoje, corintiano, se considera paulistano, e resume que é uma pessoa fácil de se adaptar a diferentes lugares. Morou também no Paraná, antes da prisão, e na capital federal, quando era ministro e agora novamente.

Em Brasília, movimenta-se com discrição para não se tornar alvo daqueles que veem nele um dos mais perniciosos “petralhas”. Para a militância petista, sua trajetória de ex-líder estudantil e dirigente político e o fato de ter se mantido leal a Lula e ao partido preservou o seu prestígio. Petistas costumam chamá-lo de “guerreiro do povo brasileiro”.

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Duas advogadas eram esperadas pelo ex-ministro com apenas um propósito: tirar fotos junto com José Dirceu.

Uma delas diz ter sonhado a cena que pediu para reproduzir ali mesmo, onde Dirceu se reunia com advogados, amigos, familiares e apoiadores: o petista sentado, como um general ideológico, e a mulher posicionada à sua esquerda, como uma “espécie de soldado, para lhe proteger”.

“Até porque meu pai foi um preso político de esquerda”, arrematou a mulher.

Buena Vista ainda não havia começado a tocar.

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Votação do impeachment eleva tensão no Congresso

Do Congresso em Foco (Por Fábio Góis)

Depois de cinco anos e três meses de mandato, a presidente Dilma Rousseff terá nesta semana uma prova de fogo definitiva no Congresso – e que, na pior das hipóteses para ela, pode resultar na interrupção de seu segundo mandato nos próximos meses. O teste fatal tem data marcada: na próxima sexta-feira (15), caso seja obedecido o cronograma da Comissão do Impeachment, deputados votarão em plenário o parecer do relator Jovair Arantes (PTB-GO) pela admissibilidade do processo de deposição presidencial – que, como este site mostrou na última sexta-feira (8), pode sofrer ofensiva judicial do Palácio do Planalto, que ameaça recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) para derrubar o texto.

Antes da votação em plenário, a comissão volta a se reunir nesta segunda-feira (11), às 10h, para finalizar a lista remanescente de inscritos para debates. Em seguida, às 17h, começar a votação do relatório no colegiado. Para essa fase estão previstas mais cinco horas para apresentação de defesas e orientações por parte de líderes de bancada – o resultado dessa deliberação deve ser lido já na sessão plenária de terça-feira (12).

No dia seguinte, a matéria será publicada no Diário Oficial e, a partir daí, abre-se prazo de 48 horas até que o processo seja incluído na Ordem do Dia da Casa para ser discutido pelo conjunto dos 513 deputados. Caso esses prazos sejam respeitados, o impeachment vai a voto na próxima sexta-feira.

Com a polêmica instalada e a votação a ser proferida pelos deputados verbalmente, um a um, é possível que os procedimentos regimentais da sessão deliberativa a façam avancar pelo fim de semana, culminando em um domingo de manifestações na Esplanada dos Ministérios – que será dividida em dois grupos no gramado em frente ao Congresso, com direito a esquema especialde segurança anunciado pelo Governo do Distrito Federal. Desde as 18h de sexta-feira (8), acampamentos, bonecos infláveis e outros tipos de instalação já foram proibidos pelo GDF até o dia da votação.

Artilharia pesada

Em meio à artilharia pesada da oposição, que tenta mobilizar as ruas para a votação do impeachment, o governo aposta no varejo para angariar apoio – a ordem no Planalto agora é retirar, aos poucos, o espaço que o PMDB ainda ocupa em seis ministérios e em demais redutos da administração pública (centenas de cargos de segundo e terceiro escalão), mesmo depois de ter resolvido sair da base aliada.

A preocupação do governo procede, pois terá de conseguir substituir a sustentação que tinha com o principal aliado e seus quase cem de parlamentares – 18 senadores, que só votarão caso a Câmara aprove o pedido de impeachment em plenário, e 77 deputados, dos quais 67 aptos a votar.

No alvo do governo estão partidos como o Partido Progressista (PP), que tem mais de 30 parlamentares investigados na Operação Lava Jato, o Partido da República (PR), o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e até legendas periféricas como o Partido Trabalhista Nacional (PTN).

Como este site mostrou na última quarta-feira (6), para tentar obter o apoio dos 48 deputados do PP – que está divido sobre o impeachment, mas tem orientação de cúpula para apoiar Dilma –, o governo ofereceu ao partido a indicação do próximo ministro da Saúde e a manutenção de um representante da legenda no Ministério da Integração Nacional. Segundo fontes do governo, o Planalto vai substituir o ministro da Saúde, deputado Marcelo Castro (PI), que é da ala governista do PMDB, por um representante do PP. Castro vai reassumir o mandato na Câmara e votará contra o impeachment.

Bastidores

Enquanto governistas apostam na alegada falta de fundamentação jurídica do relatório de Jovair – na esteira da enfática defesa feita na Comissão do Impeachment pelo advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo –, até o ex-presidente Lula tem se movimentado nos bastidores de Brasília. Durante a semana que se encerra neste domingo (10), o cacique petista se reuniu com diversos políticos na capital federal para convencê-los a combater o avanço do impeachment.

Por outro lado, nomes como o ex-presidente do PTB Roberto Jefferson, o “homem-bomba” do mensalão, trabalham abertamente junto a parlamentares indecisos, com o objetivo de fazê-los votar contra Dilma. Como este site também mostrou no transcorrer da semana, o ex-deputado fluminense esteve em Brasília na última quarta-feira (6) para executar a missão. Valendo-se da influência que ainda exerce entre os correligionários, ele convocou a bancada petebista para uma reunião, na liderança do partido na Câmara, com o objetivo de dar um arrocho na metade dos deputados que ainda está indecisa sobre a votação do impeachment.

Em meio às negociações de lado a lado, o governo mantém sempre em mente uma matemática relativamente simples: evitar que a oposição consiga os 342 votos necessários para aprovar o impeachment (dois terços da Câmara) – para tanto, interessa aos governistas que alguns deputados simplesmente se ausentem da votação, o que diminui as chances de quórum para votação. Com 172 votos contra o impeachment, Dilma se livra da deposição e o processo é enviado ao arquivo.

Fla x Flu

Em tempo: um dos patrocinadores do processo de impeachment contra Dilma, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), tem alimentado a possibilidade de que os procedimentos de votação do impeachment se desdobrem pelo próximo fim de semana, a fim de estimular as manifestações populares nos arredores do Congresso e, assim, provocar uma atmosfera de pressão sobre os parlamentares.

Obviamente, deputados governistas são contra a estratégia, e até alguns membros da oposição – ex-líder do DEM e um dos principais articuladores do movimento pró-impeachment no Congresso, o deputado Mendonça Filho (PE) desaconselha a votação em um domingo, por exemplo, para que o processo não tenha clima de “final de campeonato”.

Os planos de Cunha e da maioria dos oposicionistas não levaram em conta os limites da própria capital federal. Mesmo com espaço dividido para acomodar grupos populares a favor e contra o impeachment (do lado direito e esquerdo, respectivamente, de quem olha para o Congresso), com estrutura e contingente policial planejados para coibir confrontos, há a preocupação de autoridades do Distrito Federal com a possibilidade de violência durantes as manifestações. Nesse sentido, o governador do DF, Rodrigo Rollemberg, reuniu-se com Cunha, na última quarta-feira (6), para pedir que o processo seja concluído ainda durante a semana, a fim de garantir uma melhor organização do policiamento.

“Há uma preocupação da área de segurança em função do grande contingente de pessoas que deverão vir a Brasília”, ponderou o governador, que também pediu ao presidente da Câmara o calendário de votações para programar as operações da segurança pública, por precaução.

O policiamento nos arredores do Congresso será executado em força tarefa das polícias legislativas da Câmara e do Senado, com apoio de batalhões sob comando da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (PM, Polícia Civil etc) e da Força de Segurança Nacional. São esperados 300 mil manifestantes, 150 mil para cada grupo (contra e a favor do impeachment).

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