Por Raíssa Tâmisa
Acho lindo quando um homem diz: mas eu não sou machista! Meu amor, eu sou mulher, feminista, e vez ou outra me pego sendo machista.
Presta atenção rapidinho numa coisa aqui: a gente cresceu e ainda vive numa cultura machista. Você homem não morre, nem sofre violência pelo fato de ser homem. O nome disso é cultura do estupro.
Estamos mergulhados, todos, num cenário de inferiorização da mulher. O fato de você precisar pensar que poderia ser sua mãe, irmã ou vó, pra rever o modo como age com mulheres, também é cultura do estupro.
O que você faz é vincular seu comportamento a uma experiência pessoal e afetiva, e isso tá longe de ser igualdade. Pressupõe que todo homem precisa dessa experiência pra não ser um escroto. Isso tá longe de ser empatia.
A necessidade é de se reeducar hoje pra reverter o cenário o máximo que a gente puder. E isso é um trabalho meu e seu. As próximas gerações é que poderão dizer que não são machistas se a gente cuidar disso logo. O que não deixa de ser um processo longo, lento e constantemente diminuído.
E é como vem sendo tratadas todas as pautas que nos dizem respeito, com desdém. Procure saber o quanto de violência contra a mulher foi cometida nesse oito de março. É ou não é um deboche simbólico, um recado para diminuir a causa?
Dizer pra uma mulher, como quem merece ganhar uma medalha, que não é machista, pasme, é ser. Esse feito não está consolidado nem na gente ainda, imagina em vocês homens.
Com licença que ainda não deu pra engolir… 130 registros de feminicídios em 2019 até agora, março, abafados pela única palavra de ordem do momento. Como se não houvesse pauta. E se há, tem menos importância. Ah, mas Zé de Abreu… Foda-se Zé de Abreu.
O que ele tinha que fazer ali era aproveitar qualquer espaço de fala, seja de pergunta ou ovação, pra passar a bola pro ato. Repetir que o assunto é elas e delas, e que veio só pra prestigiar e assistir. O mínimo, era o mínimo!
O que o homem faz? Palanque.
É ser grossa pedir pra baixar um pouco a bola?
]Então, reduza com parcimônia a circunferência.
Beijo.
Raíssa Tâmisa é cineasta de origem potiguar