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“Matracas”, uma boa razão (a mais) para ser mulher

Ceiça e Sayonara: revista diferenciada (Foto: divulgação)
Ceiça e Sayonara: revista diferenciada (Foto: divulgação)

Em um cenário onde o machismo vive em constante metamorfose ganhando novas peles, novas estratégias e dominando cada vez mais espaços, a concretização de projetos que objetivem mudar essa realidade se mostra cada vez mais necessária e urgente.

É exatamente com o propósito de enfrentamento às várias formas de desigualdade de gênero, que na próxima sexta-feira (22), às 20h, será lançada a primeira revista feminista de Mossoró, a “Matracas” – acesse AQUI.

Idealizada e produzida pelas jornalistas Ceiça Guilherme e Sayonara Amorim, com a colaboração da jornalista Emanuela de Sousa, a Matracas será uma revista online com base feminista e independente. Os conteúdos serão totalmente produzidos por mulheres sobre mulheres.

Histórias reais

A proposta da revista é contar histórias reais sem cortes, sem mordaças e detalhadamente expostos com o objetivo de revelar fatos que fazem parte do cotidiano das mulheres em um formato completo, jornalístico e responsável.

“Temos a pretensão de sermos uma espécie de porta voz de mulheres que nunca tiveram voz e vez. A Matracas já inicia sua trajetória com uma lista de colaboradoras que reúne pesquisadoras, professoras, jornalistas, mães, escritoras, poetisas, entre outras mulheres que a cada dia nos chegam estendendo a mão para somar ao projeto”, comenta Sayonara.

Enfim, a revista Matracas será assumidamente um veículo de comunicação que tem como principal objetivo incentivar e contribuir para que as mulheres, consigam ocupar seus espaços e ter seus direitos respeitados na teoria e na prática.

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Antropóloga e professora Elizabeth Nasser morre em Natal

Da Agência Saiba Maia

O movimento feminista no Rio Grande do Norte perdeu uma de suas representantes pioneiras. A antropóloga e professora Elizabeth Nasser morreu em Natal na manhã desta quarta (16), aos 84 anos, vítima de covid-19. Elizabeth dedicou a vida inteira à causa feminista e foi pioneira na luta e implantação das discussões de gênero nas disciplinas que ministrava no curso de Ciências Sociais, na Universidade federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Antropóloga e professora Elizabeth Nasser teve causa feminista como uma das marcas de sua vida (Foto: Web)

“Ela é uma pessoa muito importante para o feminismo do Rio Grande do Norte e para a Articulação das Mulheres Brasileiras. Ela foi pioneira, estudou nos Estados Unidos e veio pra Natal muito influenciada pelo feminismo americano.

Foi pioneira na UFRN na discussão de gênero e na questão das mulheres. É uma referência para toda uma geração de feministas da década de 70 e 80. É uma perda pra covid muito triste”, lamenta Cláudia Gazola, Educadora do Coletivo Leila Diniz.

Como homenagem ao trabalho desenvolvido pelas mulheres, Elizabeth Nasser dá nome ao Centro Municipal de Atendimento à Mulher em situação de violência da Prefeitura de Natal, localizado na Avenida Bernardo Vieira. O esposo de Elizabeth, o também antropólogo Nássaro Nasser, militante da causa feminista e companheiro da mulher por toda a vida, também está com covid-19.

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“Alô Frida” vai às ruas pelo quinto ano consecutivo

O bloco “Alô, Frida” vai animar Mossoró pelo quinto ano consecutivo, fazendo pré-carnaval quase solitário na cidade. Sua saída oficial acontecerá no dia 28 de fevereiro.

O "Alô, Frida" sairá às ruas de Mossoró pelo quinto ano consecutivo (Foto: divulgação)

Autodefinido como um bloco feminista, o Alô Frida se concentrará às 19h no Memorial da Resistência e circulará por ruas do centro com a banda Podintéfor, composta por artistas locais.

Antes do dia 28, haverá uma programação de prévias do Alô Frida. As agendas serão divulgadas na página do bloco no Facebook e Instagram.

Todas as programações prévias também serão gratuitas e abertas para o público em geral.

“Não me Kahlo”

Sem fins lucrativos e organizado por feministas, homenageando no nome a artista e ativista mexicana Frida Kahlo, “o bloco busca visibilizar o feminismo e proporcionar uma folia popular sem machismo, racismo e lgbtfobia”, informa sua organização.

Nesta edição o Alô Frida permanece gratuito e terá uma camiseta/abadá produzida pela artista Ellen Dias.

Como de outras vezes, levanta um tema central e lema. Dessa feita vai à luta com outra temática política: “Contra o fascismo, eu não me Kahlo”.

Leia também: Prefeitura não promoverá Carnaval.

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O poder desarmado

Por Heloneida Studart

Eu tinha 13 anos, em Fortaleza, quando ouvi gritos de pavor. Vinha da vizinhança, da casa de Bete, mocinha linda, que usava tranças. Levei apenas uma hora para saber o motivo.

Bete fora acusada de não ser mais virgem e os dois irmãos a subjugavam em cima de sua estreita cama de solteira, para que o médico da família lhe enfiasse a mão enluvada entre as pernas e decretasse se tinha ou não o selo da honra. Como o lacre continuava lá, os pais respiraram, mas a Bete nunca mais foi à janela, nunca mais dançou nos bailes e acabou fugindo para o Piauí, ninguém sabe como, nem com quem.

Eu tinha apenas 14 anos, quando Maria Lúcia tentou escapar, saltando o muro alto do quintal de sua casa, para se encontrar com o namorado. Agarrada pelos cabelos e dominada, não conseguiu passar no exame ginecológico. O laudo médico registrou “vestígios himenais dilacerados” e os pais internaram a pecadora no reformatório Bom Pastor para “se esquecer do mundo”. Esqueceu, morrendo tuberculosa.

Estes episódios marcaram para sempre a minha consciência e me fizeram perguntar que poder é esse que a família e os homens têm sobre o corpo das mulheres. Antes, para mutilar, amordaçar, silenciar. Hoje, para manipular, moldar, escravizar aos estereótipos.

Todos vimos, na televisão, modelos torturados por seguidas cirurgias plásticas. Transformaram os seios em alegorias para entrar na moda da peitaria robusta das norte americanas. Entupiram as nádegas de silicone para se tornarem rebolativas e sensuais.

Substituíram os narizes, desviaram costas, mudaram o traçado do dorso para se adaptarem a moda do momento e ficarem irresistíveis diante dos homens. E, com isso, Barbies de fancaria, provocaram em muitas outras mulheres – as baixinhas, as gordas, as de óculos – um sentimento de perda de auto-estima.

Isso exatamente no momento em que a maioria de estudantes universitários (56%) é composta de moças. Em que mulheres se afirmam na magistratura, na pesquisa científica, na política, no jornalismo. E no momento em que as pioneiras do feminismo passam a defender a teoria de que é preciso feminilizar o mundo e torná-lo mais distante da barbárie mercantilista e mais próximo do humanismo.

Por mim, acho que só as mulheres podem desarmar a sociedade. Até porque elas são desarmadas pela própria natureza. Nascem sem pênis, sem o poder fálico, tão bem representado por pistolas, revólveres, punhais.

Ninguém diz, de uma mulher, que ela é espada. Ninguém lhe dá, na primeira infância, um fuzil de plástico, como fazem com os meninos, para fortalecer sua virilidade. As mulheres detestam o sangue, até mesmo porque têm que derramá-lo na menstruação ou no parto.

Odeiam as guerras, os exércitos regulares ou as gangues urbanas, porque lhes tiram os filhos.

É preciso voltar os olhos para a população feminina como a grande articuladora da paz. E para começar, queremos pregar o respeito ao corpo da mulher. Respeito às suas pernas que têm varizes porque carregam lata d’água e trouxa de roupa. Respeito aos seus seios que perderam a firmeza porque amamentaram crianças. Ao seu dorso que engrossou, porque ela carrega o país nas costas.

São mulheres que imporão um adeus às armas, quando forem ouvidas e valorizadas e puderem fazer prevalecer a ternura de suas mentes e corações. Viva Rita Lee, que canta: “nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é bunda e meu peito não é de silicone… sou mais macho que muito homem”.

Heloneida Studart (1932-2007) – Escritora, ensaísta, seis vezes deputada estadual pelo PT-RJ, jornalista e teatróloga cearense