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O pré-povo do Brasil

Por François Silvestre

Ao chegarem aqui, os europeus encontraram um povo formado. Esse povo, precariamente denominado indígena, pois imaginavam os “descobridores” que haviam chegado a uma parte da Índia, dividia-se em subgrupos ou tribos. Nos dois primeiros séculos dessa ocupação, os portugueses e seus desafetos só queriam explorar as riquezas.

Dos minerais à madeira. Ambas francas e de fácil expropriação. As relações do indígena com a natureza davam-se de forma tão natural que nem pareciam relações.

Era um processo sem processo. Uma espécie de respiração. Que ocorre indispensavelmente, mas não se nota. Respiração silvícola sem asma.

Gilberto Freire, numa de suas assertivas sobre a participação indígena na formação do “povo” brasileiro, cometeu um equívoco de conclusão após enunciar uma premissa verdadeira.

Darcy Ribeiro

Qual foi a premissa? Ele disse que, nessa formação, a participação da índia fêmea foi predominante e que a contribuição do índio macho foi originalmente nula.

Verdade. Houve acasalamento, desde o início, da índia com o europeu. Sem que houvesse do índio com a europeia. As europeias não vinham pra cá, nesse início de formação. A

conclusão de Freire: “O europeu vinha de um continente com mulheres pudicamente vestidas e aqui encontraram mulheres índias nuas e índios machos frios”.

Essa conclusão é um monstruoso equívoco antropológico. As roupas das mulheres europeias eram um disfarce, incitante da sensualidade, que se derramava em lascívia na alcova. Nada de pudicícia.

O índio macho não era frio. Era natural, cuja sexualidade dispensava o estímulo da erotização. Tanto é verdade que a população indígena era grandiosa e crescente, em todas as partes do Brasil. Começou a declinar após a chegada dos europeus. Freire informou o fato correto, mas concluiu deformando a causa.

Darcy Ribeiro, de escola mais progressista e menos preso a conclusões ligeiras, bebeu na fonte de Freire, mas reformou conceitos. Otimista sobre o futuro da nossa gente, via com alumbramento o povo que essa mistura viria a formar.

E dizia: A naturalidade do índio, somada à tecnologia do europeu e enriquecida com a espiritualidade do africano levará à formação da mais exuberante raça mestiça da humanidade.

Esse era o futuro da nossa formação, no olhar de um pensador orgulhoso da sua gente. Do português; vinham latinos, suevos, celtas, árabes, mouros, judeus, godos, visigodos.

Depois, os imigrantes. Alemães, italianos, japoneses e outros. Do indígena; tupis, nuaruaques, marajoaras, caetés, tupinambás, aimorés, carijós. Do africano; haussás, bantos, moçambicanos.

Fornalha de mestiçagem ímpar. Mas ainda não é um povo. Um pré-povo em processo de formação. Não se forma um povo em tempo curto, que é o nosso tempo de formação.

Aos trancos e barrancos ainda ardemos no forno dessa feitura.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal

Nem pacífico nem ordeiro

Por François Silvestre

A maior fraude antropológica sobre a natureza humana do brasileiro foi a consagração dessa bobagem de que somos um povo ordeiro e pacífico.

Pra começo de conversa nem somos um povo. Somos um pré-povo, em permanente debandada, socialmente desnutrido e culturalmente embotado.

Quem pensou sobre a nossa identidade, não se arriscou ao apontamento do nosso destino. Sérgio Buarque, Gilberto Freire, Darcy Ribeiro, Rui Facó, Câmara Cascudo, Caio Prado, Josué de Castro, Manoel Correia de Andrade, Werneck Sodré e tantos outros só mostraram a nossa face. Às vezes deformada.

Somos violentos e desordeiros. Porém, a “valentia” da nossa índole é de natureza individual. Intrassocial. Em matéria política e de organização coletiva somos cordeiros. Arrebanhados. Valentes no varejo e covardes no atacado.

Todas as ditaduras aqui estabelecidas tiveram o amparo da nossa covardia. Pelo medo ou pela colaboração. E todas elas só caíram após a exaustão da sua própria superação. Nenhuma foi derrubada.

Nunca fizemos uma revolução. Só golpes. Nem reformas nós fazemos. Nossa organização partidária é uma quadrilha cartorial. Cada um em torno de uma legenda que nega o próprio nome e de um programa prostituído de adjetivos.

“A índole pacífica do nosso povo” é uma fraude antropológica. Verso de um poema de vaselina. A entrar no traseiro da incultura.

Fomos descobertos porque estávamos no caminho da ganância dos impérios e da aventura dos corsários. Num entreposto à disposição da ladroagem.

E nunca mais nos libertamos dessa sina. Roubados por portugueses, franceses, holandeses, ingleses e corsários de todos os mares. Depois, dependentes do império americano.

Mas não fica por aí. Os nossos representantes não se prestam à defesa da nossa terra. Pelo contrário, roubam-nos o que sobrou da roubalheira imperial.

Um pré-povo disponível ao saque. Assaltado pelos donos do poder econômico. Pacífico ante os mandões, mas violentos entre si. Ninguém está seguro na pátria da bandidagem. E no falso combate, os fascistas e seus holofotes assinalados.

A criminalidade crescente, sem controle, confirma a negação intrínseca da nossa falsa índole mansa. E quem deveria combater, colabora; na inutilidade festiva da mídia. As ruas são dos bandidos. Encurralados estamos entre a bandidagem e o controle de faz de conta.

Em política, no Brasil, não há correligionários. Há cúmplices. Conchavos eleitorais. Compra e venda. “Eleitos e eleitores” no mesmo forno de assar patifaria. Exuberância de geografia num país de pífia história.

Dizia Darcy Ribeiro que a naturalidade do índio, a tecnologia do europeu e a espiritualidade do africano formariam um grande povo. Resta esperar o futuro.

Constituinte Originária agora ou oportunidade perdida.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.