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Ainda sobre militares

Lott: candidato derrotado (Foto: arquivo)

Por François Silvestre

Pra se ter uma ideia da politização nas Forças Armadas, até a década dos anos sessenta, basta observar o quadro eleitoral da redemocratização após o Estado Novo, não houve uma eleição presidencial, de 1945 a 1960, em que não estivesse na disputa um militar general.

Em 1945, foram dois. O General Eurico Dutra contra o Brigadeiro Eduardo Gomes. Brigadeiro é o general da Aeronáutica. E só nessa eleição ganhou um militar. Dutra.

Em 1950, novamente o Brigadeiro Eduardo Gomes disputou a Presidência, tendo sido derrotado pelo ex-ditador Getúlio Vargas.

Em 1955, o General Juarez Távora foi o candidato da UDN, tendo sido derrotado pelo candidato do PSD, Juscelino Kubitschek.

Em 1960, o candidato do PSD foi o General Henrique Teixeira Lott, que foi derrotado por Jânio Quadros.

Depois disso, veio a escuridão. Vinte anos de Ditadura, com a presidência transformada em carreira militar.

Leia também: O quartel não me assusta.

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Dois discursos, uma farsa

Por François Silvestre

“Há indivíduos que quando nascem não aumentam a humanidade nem a diminuem quando morrem”.

Esse desabafo do Bruxo do Cosme Velho entra no caráter de certas figuras como se luvas fossem, a proteger do frio os dedos desagasalhados.

O Brasil vive momento típico desse caráter macunaímico, onde os culpados das faltas graves usam as acusações secundárias como apanágio da sua própria pilantragem.

Pedir a intervenção militar não é apenas uma estupidez. É uma impossibilidade; inviável. Sem chance. Não pode ser usada como desculpa para desmerecer o conjunto das reivindicações perfeitamente plausíveis.

Um ou outro idiota que apareceu pedindo a volta da Ditadura não tem o condão de descoroçoar a beleza do movimento que encheu o Brasil. Pacífico. E não se venha com essa besteira de acusá-los de “elite”. Elite, em política, é quem está no poder.

Há uma lição do jargão militar que ensina: “Não tema do inimigo o que ele quer contra você. Tema o que ele pode contra você”.

O inimigo-mor da Democracia, hoje, é a corrupção e não os cartazes dos idiotas. A corrupção pode tudo contra a Democracia, por isso merece temor. Os cartazes dos idiotas nada podem. A não ser servir de pretexto pra querer tapar o sol com urupemba.

O golpe de 64, paridor da pior ditadura da nossa história, teve condições objetivas completamente diferentes da realidade atual.

Senão vejamos. No pós-guerra quente, entra em cena a guerra fria. A America do Sul passa a ser área estratégica do interesse norte-americano, tendo o Brasil como núcleo dessa geopolítica.

Não havia limite de gasto em grana, armas e instrução para instaurar e manter ditaduras aliadas desse interesse. Hoje, a única caricatura ditatorial do continente é a Venezuela, de feição antiamericana.

Aqui, as forças militares do Brasil formavam um grande partido político armado. Os tenentes da Década de Vinte, coronéis dos anos Quarenta e generais dos anos Cinquenta. De 46 para 64, tivemos três generais e um brigadeiro candidatos à Presidência.

Eurico Dutra, Eduardo Gomes (duas vezes), Juarez Távora e Henrique Lott. Até JK era coronel da Polícia. Militares por conveniência. Políticos por vocação. Milicada politizada. No bom e mau sentido.

Hoje, as forças Armadas cumprem seu papel constitucional. São militares por vocação e não políticos fardados. Ninguém sabe o nome dos Comandantes dos Exércitos. Nem se vê Generais falando de política. Só os de pijama, senis e saudosos dos seus poderes ditatoriais.

Portanto, essa babaquice de pedir intervenção militar me parece coisa de provocação. Eles merecem a mesma atenção de um anjo da Rua Conde Lages, ao ver e fingir não ver a vizinhança prostituída.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal