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A idolatria desconhece a razão

Por François Silvestre

Os ídolos não têm culpa da tolice alheia. Os mitômanos apenas revelam a angústia da sua insuportável pequenez.

Quando esse fenômeno tão comum, que parece natural, atinge o campo das artes, o mal passa despercebido. Mesmo assim, não raramente, até nessa seara ocorrem tragédias por conta da idolatria.

Seja pela inveja que o ídolo atrai ou por outra morbidez de comportamento, sem razoável explicação. Caso dos assassinatos de cantores dessa babaquice de ostentação ou de casos universalmente rumorosos, exemplo da morte de John Lennon.

Essa doença não possui diagnóstico oficial. Nem consta da farmacopeia. É um típico processo psicossocial, de natureza coletiva, que vai da admiração ao fanatismo. E no meio dessas duas pontas abrigam-se inúmeras configurações.

Chega-se à infantilidade de alguém instruído lamentar não ter conhecido bem o ídolo venerado após sua morte. Como se pedisse desculpas por não ter sido tão bobo quanto a bobagem geral. E aí enumera outros ídolos, numa indisfarçada compensação.

A idolatria é uma doença que não escolhe culturas nem distingue instrução. É uma espécie de catarse coletiva, onde o anonimato se compensa na visibilidade do idolatrado.

É a sublimação da bobagem. A marca da pré-humanidade, intervalo entre o ancestral microcefálico e o futuro ser humano de cérebro desenvolvido. Esse ser humano, pós pré-humanidade, aparece vez ou outra de forma excepcional. Uns quanto, outros nem tanto.

São os cientistas, pensadores, artistas, filósofos e transformadores, que se diferenciam do seu tempo e atravessam os séculos sendo lembrados. Porém, nenhum desses precisa da idolatria para registrar sua grandeza. Eles próprios não se admiram. Não são seguidores de si mesmos.

Cada geração tem seu código, ensinou Paulo Francis. E todas elas cultivam seus ídolos. Uns sensatos, outros malucos. Uns que nenhum mal produzem e outros que causam destruição. Os tipos são tão notórios que dispensam exemplificação.

As gerações de ontem tiveram ídolos na arte e na luta. Foi o “tempo de guerra, sem sol, da comida na batalha”…como disse Brecht. Que iam de Guevara a Cohn-Bendit. Dos Beatles aos Rolling Stones.

Os ídolos individuais; de James Dean a Elvis Presley. Os ídolos políticos; de Perón a Vargas. Pra não falar na idolatria sangrenta de Hitler e Mussolini. A idolatria é a senilidade da idade teórica.

O movimento Beatnik, de Jack Kerouac a Allen Ginsberg. “Eu vi as melhores mentes da minha geração destruídas pela loucura”. Disse Ginsberg. E daí em diante a palavra loucura saiu do nosocômio para o mundo da criatividade artística.

Essa loucura coletiva na política, de grupos ou partidos, a abrirem mão de suas individualidades diluídas na pessoa do líder ou chefe é a característica originária do fascismo. É triste observar que as tragédias antigas e recentes não conseguem vacinar contra a estupidez.

“O Apanhador no Campo de Centeio”, que nada tem de colheita nem de agricultura, cuida do apanhar disperso da linguagem aparentemente sem nexo, com que Salinger cospe na face infantil dos idólatras.

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François Silvestre é escritor

O catador no monturo de esterco

Por François Silvestre

Uma obra que põe na boca de um adolescente imaginário inúmeras diatribes, injúrias e gozações, sobre tudo e quase nada, foi denominada por seu autor “O apanhador no campo de centeio”.

Não há campo, nem centeio, nem apanhador. J. D. Salinger não era mais adolescente, quando voltou à adolescência para escarrar na cara da hipocrisia. E como tal não precisou do campo posto no título. Nem do centeio, nem do apanhador.

Tudo no estuário exclusivo da reflexão. Numa fonte de jorrar imagens, aparentemente sem nexo. O mundo e suas paisagens, tendo o homem no centro delas, na visão pura e crítica de um jovem sem qualquer compromisso ou filiações.

A alienação intuitiva, desalienando para iluminar. Ou apagar luminosidades opacas.

Foi um tempo ingênuo, em que o autor cuspiu no prato da bonança. Imagine se fosse hoje. A ingenuidade cedeu lugar à pilantragem. A Inteligência foi vencida pela esperteza.

A depressão ocupou o espaço da melancolia. E a saudade foi desancada pela nostalgia. Tempos de burrice humana, com o pensamento substituído pela programação.

Basta programar no computador e não perder tempo no pensar. E se o computador não souber descobrir as veredas do existencial ou explicar a trilha, tropeça-se na ignorância.

Pra que pesquisar se tudo está devidamente inexplicável? Ou pensar, se o pensamento custa o gasto do tempo à desnecessidade de refletir? Aposenta-se a mente, aprisiona-se a razão e entrega-se a chave do cárcere à primeira mentira que passar.

A estupidez semeia no meio do monturo. E a colheita do esterco oferece-se ante a luminosidade do eletrônico. A rima com histriônico não será mera coincidência.

Teria dito, mais ou menos assim, o personagem adolescente de Salinger: “Até achei bom o invento da bomba atômica. Se houver outra guerra, juro por Deus que sentarei o rabo sobre a bomba… e tudo”.

O adolescente de hoje, imitaria: “foi bom terem inventado essas bombas, vou amarrá-las em torno de mim e explodir pessoas… e nada”.

O personagem de Salinger: “As pessoas estão sempre batendo palmas para o erro… e tudo”. O de hoje: “Preciso errar muito para ser aplaudido… e nada”.

O personagem de Salinger: “Fico imaginado um bando de crianças brincando num campo de centeio, só eu de adulto, para salvá-los do abismo… Apanhando cada um que vai cair, pois sou apenas um apanhador no campo de centeio… e tudo”.

O personagem de hoje: “Se eu soubesse imaginar, o que é imaginar? Pensaria num bando de garotos e garotas no esterco de um monturo, com todos caindo no lambuzar-se do excremento… Eu ficaria onde estava ou me lambuzaria junto, rindo deles e de mim, jogando mais esterco na cara deles… e tudo”.

“Sou o maior mentiroso do mundo”. Diz o de Salinger.  O de hoje: “Eu não minto. Sou burro assim mesmo”.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.