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O sonho acabou

Por Jânio Vidal

Foto do autor da crônica
Foto do autor da crônica

A turma do chapéu acabou, respondi pra Valéria, parodiando John Lennon , que declarou “o sonho acabou”, encerrando qualquer possibilidade da banda The Beatles voltar a gravar com os ´fab four´juntos. Foi ela quem batizou o grupo, quando meia dúzia de três ou quatro amigos nos reuníamos aos sábados – eu, Alex Medeiros e Ricardo Rosado mais frequentes – no restaurante Cuxá.

Usávamos chapéu com regularidade, e eu dizia pra ela que sob o chapéu celebrávamos a amizade, assim como é, ou deveria ser, a formalidade que diz que sob a capa preta do magistrado, a cegueira da justiça; sob as fardas militares, o respeito à constituição;  e, sob a batina dos padres, apenas a fé.

Passamos a ir para outros restaurantes e a última cena que lembro, quando o grupo deixou de ser pequeno, foi numa tarde de sábado, no Between, Largo do Atheneu, quando o amigo Ximbica trouxe de Miami, onde morava, 12 legítimos Panamás. Entre taças de vinho e copos de cerveja fez a distribuição dos chapéus aos presentes, antigos e novos, juntos e misturados até à próxima discussão.

Se antes os garçons faziam reverência à turma do chapéu, às vezes ficando em pé ao lado para ouvir a conversa, passaram a ficar escabreados quando tinham que juntar duas ou três mesas e as conversas descambavam para discussões, aqui acolá aos gritos. Assim não tem dono de bar que aguente, disse um deles certa vez.

A turma do chapéu deixou de se reunir a partir da pandemia do coronavírus, mas desde a pré, durante e pós eleições de 2018, a conversinha não era mais a mesma, com novas pautas e narrativas em conflito: gênero, ideologia, cotas, raças, religião, política e… sim, isso mesmo que vocês estão imaginando. Nunca agimos como mosqueteiros, mas a antítese seria devastadora.

Na pandemia ainda fizemos alguns encontros virtuais, usando aplicativos que na telinha faziam a aproximação de lugares distintos e distantes como Natal, Miami, Europa, França e Bahia. Todos de chapéu.

Não foram apenas três meses de epidemia, como pensávamos no início. Os meses passaram, um ano, dois anos, mais de 700 mil brasileiros mortos pela Covid 19 e sequelas que atingem milhões. Não poderia ser diferente com a turma do chapéu.

Nesses tempos estranhos de um pós que está apenas começando, não somos mais os mesmos. Até a Kombi mudou e a IA é muito diferente do que foram os nossos pais.

Nos últimos dias vimos ser interrompida a carreira de um candidato ao generalato, com provas de que participou da tentativa de um golpe, e que ficou em silêncio numa CPI vestindo farda completa, com todos os galões, broches, pins e alfinetes que pode ostentar. Vimos também um ministro da Suprema Corte fazer inflamado discurso eleitoral e ideológico num encontro de estudantes. No congresso também existem formalidades, mas eles estão vestindo de tudo, há muito tempo. Ah, a batina dos padres. Estão querendo casar.

Jânio Vidal é professor e jornalista

*Texto e foto originalmente publicados pelo autor no dia 14 de julho de 2023, em seu endereço no Instagram.

Eu, comunista?

Por Jânio Vidal

Foto ilustrativa
Foto ilustrativa

“Eu, comunista? Onde o senhor arranjou isso?”

Foi minha reação, quando papai me chamou pra conversar na sala da casa onde morávamos, abrindo repentinamente a porta do meu quarto, onde eu estava com o colega Dermi Azevedo e alguns amigos, com os estatutos do Coojornal, fazendo adaptações para fundar uma cooperativa de jornalistas aqui em Natal  e lançar o Coojornat.

Essa frase tenho repetido ao longo da vida, como nas diversas vezes que compartilhei com o amigo Eugênio Neto a bancada do programa Momento Político, na Rádio Tropical. Nos momentos mais exacerbados de debates, ele, um legítimo direitista histórico, no limite dos argumentos me acusava de comunista. E eu rebatia, como já estava acostumado a fazer: “eu, comunista?”

Lembro que anos antes, repórter do Diário de Natal, recebi de um amigo mossoroense,  que também estudava no CCHLA da UFRN, um convite para, como ele, fazer parte de um diretório do clandestino Partido Comunista. Agradeci o convite, e disse pra ele que, como repórter, eu exercia e continuaria exercendo uma função social sem qualquer atrelamento partidário.

Amigo de Sérgio Dieb, atuamos num movimento ecológico e em pautas do meio ambiente, ele como arquiteto e político, eu como repórter. Não faltavam acusações contra mim, pelas matérias que eu fazia, ao superintendente do Diário de Natal, Luiz Maria Alves, anticomunista ferrenho.

Algumas vezes conversamos sobre isso. E eu dizia indagativo pra ele: “eu, comunista?” E ele respondia pra mim: “deixa pra lá, são intrigas da oposição.”

Anos mais tarde, quando assumi a direção da Rádio Tropical, das ondas da Rádio Poti ecoavam gritos acusatórios  numa cantilena repetitiva de um jornalista da direita enfurecida – com quem durante anos tive uma relação profissional incomum – denunciando ao dono da emissora: “Dr. Tarcísio, cuidado, Jânio Vidal é comunista!”, carregando no ISTA feito bala de canhão.

Pouco depois, quando a emissora lançou um programa com o deputado comunista Hermano Paiva, Pretextato e outros camaradas, no qual se enfatizava que era produzido e apresentado por comunistas, ‘no problem’, pois ele já apresentava um programa politico na Tropical, em outro horário. Pura dialética jerimum no dial.

Na época não tinha mais a proibição da censura do regime militar, nem as restrições que vieram com a legislação eleitoral. O tempo passou, a queda do muro de Berlim teve desdobramentos que foram eliminando os partidos comunistas em todos os países e o comunismo virou piada de salão. Aqui  no Brasil não foi diferente, onde dois partidos, o PCB e o PC do B, por absoluta falta de votos, mudaram de sigla ou ruíram por inanição.

Mas o fim da história não se confirmou, como queria Francis Fukuyama. Nesses últimos tempos, há temores de que um espectro ronda o Brasil. Desde as eleições de 2018, com uma trégua na pandemia, quando me vejo encurralado num “ou nós ou eles”, próximo ao paroxismo, paro, olho com os olhos da tolerância e falo interrogativo, com voz de papa, encerrando a conversa:

– eu, comunista?

Jânio Vidal é professor e jornalista