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Oralidade

Por Marcelo Alves

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Não resta dúvida de que a escrita está entre as maiores invenções da humanidade. Funcionando melhor do que a mente mais afiada, já se disse dela ser a “memória da humanidade”. A escrita, em quase todas as civilizações, é a grande transmissora da cultura, do passado e para o futuro, cultura essa que, sem ela, não conheceríamos nem conheceremos.

Entretanto, como já dito no nosso papo da semana passada, há quem enxergue na supervalorização da escrita sérios problemas. Um deles, talvez o mais paradoxal, seja a atrofia da nossa memória e capacidade de aprendizado. Sobre isso, George Steiner, em “Lições dos mestres” (Record, 2005), bem lembra: “A escrita induz ao esquecimento, a uma atrofia das artes da memória. Mas é justamente a memória, a ‘Mãe de todas as Musas’, o dom humano que possibilita toda a aprendizagem”. Não coincidentemente “a grande literatura épica, os mitos fundadores começam a se perder com o ‘avanço’ da escrita. Por tudo isso e muito mais, o desaparecimento da memorização no ensino hoje em dia é uma estupidez lamentável. Está sendo atirado ao mar o lastro vital da capacidade de pensar”.

Mas essa talvez seja apenas uma questão de efeito colateral. Se podemos “anotar” e guardar, por que gastar “neurônios” com o memorizar?

Há questões mais sutis.

O mesmo George Steiner, em “Lições dos mestres” (Record, 2005), acrescenta: “Outrossim, a escrita trava, imobiliza o discurso. Torna estático o jogo livre do pensamento. Sacraliza uma autoridade normativa porém artificial. (…) A palavra escrita não escuta o que diz seu leitor. Não toma conhecimento de suas perguntas e objeções”. De fato, as verdades livrescas às vezes transformam a sabedoria, o pensamento, em frio mármore: “tendo sido ditada [e não dialogada], a instrução não é tão ‘didática’ quanto ‘ditatorial’ (juntamente com ‘édito’ e ‘edito’, essas palavras formam uma constelação assustadora)”. Doutro lado, a sabedoria/ensino oral “propicia uma grande variedade de erros criativos, com as possibilidades de serem corrigidos e contraditados”. “Uma pessoa que fala pode corrigir-se a cada momento; ela é capaz de fazer retificar sua mensagem. O livro, não”.

Por sinal, curiosamente, na filosofia, Platão, genial estilista da escrita, muito mais do que Aristóteles, em Fedro e na Sétima carta, defende a oralidade. Um tanto quanto paradoxalmente, o grande “escritor” dos diálogos manifesta sua desconfiança em relação à palavra escrita, advogando ser somente a palavra dita face a face capaz de conjurar a verdade e assegurar um ensino honesto. E já na mistura do direito com a literatura, a insuperável Antígona (na tragédia de Sófocles) invoca a justiça não “escrita” (themis) porém “inscrita” na alma do seu povo (e de todos os povos) contra o legalismo prescritivo (nomoi) da tirania de Creonte.

Embora registremos aqui mais esse paradoxo, longe estamos de desmerecer o papel da “escrita”, essa grande invenção da humanidade, para a memória e o desenvolvimento da cultura (se assim o fosse, não deveria nem me meter nesse ofício, o de escrever, que agora mesmo exerço). Advogamos firmemente a produção escrita. E há realmente um quê de sério/verdade na piada de Harvard sobre Jesus não ter qualificação para lecionar na famosa universidade: “Um bom professor, mas não publicou”. De fato, nem Sócrates nem Jesus apresentam seus ensinamentos na linguagem escrita. Aliás, até mesmo a passagem em João 8:1-11 – segundo a qual Jesus, indagado pelos fariseus acerca da mulher adúltera, além de dito, teria também escrito no chão “Que aquele que não tem pecados atire a primeira pedra” – é tida por muitos como uma interpolação inautêntica no evangelho. A bem da verdade, como informa George Steiner, “não se tem qualquer prova de que Jesus soubesse escrever”.

Apenas, ao registrarmos esses paradoxos, queremos enfatizar as qualidades da “cultura oral” para o desenvolvimento da cultura/humanidade. Queremos homenagear esses “livros vivos”, cujas “páginas” outrora consultávamos, mais amiúde, em busca de prazer, consolo ou sabedoria. Afinal, não precisa ser o Oráculo de Delfos para saber que Sócrates e Jesus foram mais sábios do que nós.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

Cristo ressuscitou

Por Odemirton Filho 

“Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos”! (Salmo 117). Tomb Empty With Shroud And Crucifixion At Sunrise - Resurrection Of Jesus Christ

“Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram”.

Essas foram as palavras ditas por Maria Madalena a alguns discípulos. Eles ainda não tinham compreendido o que diziam as escrituras:

“Derrubai esse templo, e em três dias eu o reconstruirei”.

Sim, Jesus de Nazaré ressuscitou. Cumpriu o prometido. Agora ressurgiu para nunca mais nos deixar. Ele continua vivo no coração de cada um que Nele crer.

O mundo, carente de tudo, ainda não entendeu a dimensão do seu amor. Estamos cada vez mais distantes de seus ensinamentos e, principalmente, de realizar aquilo que Ele pregou e fez.

Nesses tempos difíceis, sempre é momento de reviver, de renascer, de ressuscitar com o Cristo. Momento de repensar valores e atitudes. Momento de ser, verdadeiramente, Igreja. Não somente a Igreja que ora, mas, sobretudo, de ação.

A humanidade atravessa um momento sensível de sua história. Muitos ainda não entenderam que, doravante, a vida será outra. O novo normal, talvez, seja uma realidade. É preciso aceitar e enfrentar essa nova forma de conviver em sociedade.

Até quando viveremos com as limitações que a pandemia nos impõe? Só Deus sabe. O caminho que estamos percorrendo é doloroso. No país, mais de trezentas e vinte mil vidas foram ceifadas e pessoas padecem nos leitos dos hospitais. Muitas famílias dilaceradas. Dor e lágrimas.

Mas, por outro lado, milhões de pessoas venceram o vírus e já foram vacinadas. É motivo de regozijo e alento. Continuemos com a esperança que Cristo ressuscitado caminhará conosco, nos guiará na escuridão e nos mostrará, finalmente, a luz.

Devemos nos valer das palavras do Papa Francisco: “Cristo, minha esperança, ressuscitou! É um contágio diferente, que se transmite de coração a coração, porque todo o coração humano aguarda esta Boa Nova. É o contágio da esperança”.

Não percamos a fé. Dias melhores virão.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

Maria Madalena era uma ‘mulher rica’ em vez de prostituta

Por Patrícia R.Blanco (El País)

Maria Madalena foi “uma mulher rica, influente e crucial” na vida de Jesus Cristo. Esta é uma das conclusões da pesquisadora Jennifer Ristine em Mary Magdalene: Insights From Ancient Magdala (“Maria Madalena, percepções da antiga Magdala”), um livro lançado em 22 de julho que busca revelar os mistérios da mulher que a Igreja Católica tachou durante séculos como adúltera e prostituta.

A integração das referências bíblicas e históricas com os recentes descobrimentos arqueológicos feitos na cidade de Magdala (atual Migdal, Israel), onde se acredita que nasceu, permitiram a Ristine reconstruir parte de seu perfil.

Capa do livro sobre Maria Madalena (Ilustração de Danielle Storey)

“Durante os tempos de Maria Madalena, Magdala já era um povoado próspero na indústria pesqueira”, afirma Ristine, diretora do Instituto Madalena, numa entrevista por e-mail. As primeiras escavações foram feitas nos anos setenta. Mas foi em 2009 que os Legionários de Cristo compraram um terreno na região e “descobriram a parte norte do povoado de Magdala”.

“Encontraram uma sinagoga do século I, uma representação do templo de Jerusalém em pedra [a pedra de Magdala], banhos de purificação ritual, residências e um porto”, explica Ristine.

Mas era ou não uma prostituta? Ristine considera que houve “muitas más interpretações sobre a vida de Maria Madalena”. Os achados arqueológicos da cidade bíblica de Magdala, hoje um sítio arqueológico com mais de 2.000 anos de antiguidade, sugerem que se tratava de um enclave rico. E, ao integrar neste contexto as referências bíblicas, pode-se deduzir que Maria Madalena era “uma mulher rica, de um povoado economicamente bem posicionado”, e não necessariamente uma prostituta, acrescenta a autora.

Essa ideia se reafirma, por exemplo, nos versículos de Lucas 8:1-3: “Depois disso, Jesus andava pelas cidades e aldeias anunciando a boa nova do Reino de Deus. Os Doze estavam com ele, como também algumas mulheres que tinham sido livradas de espíritos malignos e curadas de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes; Susana e muitas outras, que o assistiram com as suas posses”.

De prostituta à Santa

A Igreja Católica canonizou Madalena, que é santa desde 2016 (com festa litúrgica em 22 de julho), quando o papa Francisco a nomeou apostola apostolurum, “a apóstolo dos apóstolos” – não por acaso, segundo a Bíblia, foi a primeira a ver Jesus ressuscitado. E, entretanto, foi o papa Gregório Magno, no ano 591, um dos introdutores do qualificativo de “prostituta” quando em sua homilia 33 afirmou:

– Aquela a quem o evangelista Lucas chama de mulher pecadora é a Maria da qual são expulsos os sete demônios, e o que significam esses sete demônios senão todos os vícios?” Com essa afirmação, o sumo pontífice fez uma fusão de três marias: Maria, a pecadora, “que unge os pés do Senhor”; Maria, a de Magdala, liberada por Jesus de sete demônios, e entre as mulheres que o assistem; e Maria de Betânia, irmã de Marta e Lázaro. “A Igreja do Oriente acredita que são três mulheres diferentes, enquanto a Igreja do Ocidente crê firmemente identificá-las como a mesma mulher, Maria Madalena -, diz Jennifer Ristine.

Mas não foi Gregório Magno o único responsável. Segundo a pesquisadora, alguns autores a associaram a uma mulher mencionada no século II no Talmud, chamada Miriam Megaddlela, que significa “Maria de cabelo trançado”.

“Na comunidade judaica, esse título era adjudicado a uma mulher de má reputação, uma adúltera ou uma prostituta”, acrescenta.

O mistério do papiro da mulher de Jesus

Para os que estão há anos analisando textos evangélicos não é novidade que Cristo estivesse casado e certamente fosse pai

Clique AQUI).

Papiro é considerado autêntico (Foto: Karen L. King/EFE)

Independentemente de ter ou não sido meretriz, um estigma do qual os movimentos feministas tentam livrá-la, “Maria Madalena foi uma mulher influente tanto econômica como socialmente; economicamente porque era uma mulher acomodada, e socialmente porque, apesar de crescer e viver numa sociedade religiosa estrita, decide romper esquemas e seguir Jesus”, considera Ristine, para quem a mulher de Magdala é acima de tudo “um modelo de liderança para as mulheres”.

E ainda resta muito a descobrir sobre ela.

Só foram escavados 15% da antiga Magdala, de modo que, segundo Jennifer Ristine, futuros achados arqueológicos podem ajudar a revelar mais detalhes sobre o passado religioso da cidade natal de Maria Madalena, esclarecendo fatos e verdades de uma das personagens mais misteriosas dos Evangelhos.

Veja reportagem original clicando AQUI.

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O homem lobo do homem

Por Honório de Medeiros

Os ingênuos creem que um iluminado possa assumir qualquer Governo e os conduzir ao melhor dos destinos possíveis. É mais ou menos como crer que Emerson Fittipaldi pudesse ser campeão do mundo de Fórmula 1 dirigindo um fusca. Ou que um time de várzea, com Pelé nele jogando, pudesse vencer a Seleção Brasileira.

Mas o mundo é assim mesmo, que seria dos espertalhões se não existissem os ingênuos?

E a única arma possível contra a exploração do homem pelo homem, qual seja o pensamento crítico, que a maioria dos acadêmicos confunde com crítica ao pensamento por não saberem a diferença entre conhecer e se instrui, até onde se sabe, desde Sócrates, passando por Jesus Cristo, não faz qualquer sucesso junto aos espertalhões, tampouco entre os ingênuos.

Ai dos ingênuos! Pois é, pensamento crítico não é o mesmo que crítica ao pensamento, muito embora não se possa fazer este último sem aquele primeiro.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e Estado do RN

Crucifica-o! Crucifica-o!

Por Marcos Araújo

Estamos vivendo a semana da Páscoa, a maior festa da religião cristã. Nessa época, mais de um bilhão de pessoas se volta para a imagem da crucificação de Cristo, e a sua história é encenada – e recontada – em mais de 70 países, com toda a licenciosidade artística e cultural possível.

Ainda que o leitor deste espaço seja ateu, esclareço que historicamente está comprovado que um sujeito chamado Jesus, de fato nasceu em Nazaré (ou Belém e cresceu em Nazaré, como queiram), andou pelas estradas da Galileia e da Judeia pregando e foi crucificado em Jerusalém lá pela terceira década do século 1º d.C.  Até os ateus convictos que estudaram minimamente Antiguidade clássica aceitam a historicidade básica de Jesus de Nazaré. Certamente, alguns poderão até questionar os relatos bíblicos, especialmente quanto aos milagres, mas estamos falando de história, e não de teologia.

Toda a história clássica do século 1º d.C. é da autoria de Tito Flávio Josefo (37 d.C.-100 d.C.). Ele é quem insere Jesus nos seus escritos. A isenção desse historiador se dá por ser ele judeu, portanto, não-cristão. Impressiona o registro de Flávio Josefo, um judeu convicto, sobre Jesus:

“Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio — se na verdade se pode chamá-lo de homem. Pois ele foi o autor de feitos surpreendentes, um mestre de pessoas que recebem a verdade com prazer. E ele ganhou seguidores tanto entre muito judeus quanto entre muitos de origem grega.Ele era o Cristo. E quando Pilatos, por causa de uma acusação feita por nossos homens mais proeminentes, condenou-o à cruz, aqueles que o haviam amado antes não deixaram de amá-lo. Pois ele lhes apareceu no terceiro dia, novamente vivo, exatamente como os profetas divinos haviam falado deste e de incontáveis outros fatos assombrosos sobre ele”.

Ainda, chama a atenção dos historiadores antigos (agnósticos, ateus, cristãos…)  a capacidade do Cristo em arrebanhar multidões por onde passava. Para se ter uma ideia, Jerusalém, a principal cidade da região da Palestina, tinha em torno de 25 mil habitantes. Em um dos episódios narrados por Mateus (cap. 14), conhecido pelos cristãos como o milagre da multiplicação dos pães, cinco mil homens foram alimentados, “além de mulheres e crianças”.  Pode se dizer que nesse momento Jesus tinha em seu redor pelo menos 10 mil pessoas, quase 50% da população da maior cidade da região.

O meu interesse é com essa multidão de seguidores. E inicio aqui as verdadeiras razões para escrever este artigo. No dia da condenação de Jesus, havia na praça uma multidão de expectadores. Como era período de festa (dos pães ázimos), era possível que no local tivesse mais de 10.000 pessoas. À pergunta de Pilatos, “Qual desses dois quereis vós que eu solte? E eles disseram: Barrabás!.” (Mt 27;21) E Pilatos pergunta: – Que farei então de Jesus, chamado Cristo?” A multidão lhe dá o veredito: “Seja crucificado!”

Jesus foi condenado por ser bom, sem culpa ou pecado, como declarou Pilatos. A causa da sua condenação foi a sua militância em favor dos pobres e desvalidos socialmente, sendo Ele considerado uma ameaça à estabilidade do regime político e econômico vigente na Palestina.

“Não compreendeis que é melhor que só um homem morra pelo povo a perecer toda a nação?”, indagou o Sumo Sacerdote (Jo 11.50). Seu discurso e filosofia de vida incomodava principalmente os religiosos da época, como os fariseus (puritanos por excelência), escribas (doutores da lei, encarregados do ensino) e sacerdotes (responsável por cultos no templo). Barrabás foi libertado por não ter compromisso nenhum com o povo, com o Governo ou com as instituições; um anarquista por excelência.

Não mudou muita coisa daquela época para agora. O desemprego era grande (Mt 20,1-7).  O mal-estar social era convulsivo: desemprego, violência, fome e abandono. Os pobres andavam doentes (Mt 4,24). Era perigoso viajar sozinho pelas estradas. Assaltos e roubos eram constantes (Lc 10,30). Preocupações e insegurança com o amanhã geravam angústia e tensão (Mt 6,25,31). Muitos não aguentavam uma carga tão pesada e ficavam atormentados, perturbados, parecendo loucos, como si estivessem possuídos por espíritos maus (Lc 6,18).

Diante de tantos problemas, o povo buscava refúgio na religião que estava sendo manipulada pelos doutores da Lei e pelos fariseus, impondo muitos preceitos e obrigações. Já não era a religião do coração, e sim das leis, dos ritos e gestos exteriores. Jesus não mediu palavras ao denunciar tanta hipocrisia (Mc 7,1-16).

Fecho agora o paradigma temporal apenas com um sumário dos problemas comuns no passado e no presente: pobreza, desemprego, fome, violência, enriquecimento dos políticos, corrupção, falsos líderes religiosos, alta taxação dos impostos etc.

Fico a imaginar o retorno de Jesus, como prenuncia a Bíblia. Se Ele voltasse agora e iniciasse uma pregação pelo Brasil, criticando a destinação de recursos bilionários para a copa do mundo, em desprestígio dos serviços sociais e públicos básicos; se denunciasse os crimes da elite política do país, enumerando os deslizes dos partidos (PT, do DEM, do PSDB…); se criticasse a dominação econômica, a corrupção desmedida, a concentração de rendas; denunciasse o ensandecimento das torcidas organizadas e a devoção popular aos esportes violentos como o MMA; criticasse a passividade dos meios de comunicação; falasse nas igrejas-templos sobre o farisaísmo dos chamados cristãos, a falta de solidariedade dos que eram para ser irmãos, as brigas secretas dentro das sacristias pelo prestígio e poder; o aproveitamento pelos “Doutores da Lei” da inocência e ignorância do povo, o que aconteceria?

Que destino teria Jesus? Seria processado por milhões de pessoas, levado à Praça, subjugado por uma autoridade pública encarregada de julgamentos, e à pergunta feita pelo julgador ao povo “Que queres que eu faça”, responderíamos solertemente:

– Crucifica-o! Crucifica-o!

Marcos Araújo é professor e advogado

A independência que ainda não aconteceu

Por Marcos Araújo

Aproveitando a prosa do mestre François Silvestres (veja AQUI), atrevo-me a escrever sobre a independência brasileira e a americana, com uma breve inserção do ideário cristão, pois todos os juristas filósofos de respeito reconhecem que ao se falar em Independência, Liberdade e Direitos Humanos, não há como se prescindir a menção do precursor: Jesus Cristo.

E já que a análise é entre Brasil e Estados Unidos, tomo como referencia uma coincidência do Cristo com um americano ilustre: Thomas Jefferson. Os dois tinham 33 anos de idade ao se declararem ativistas de causas públicas, mas somente obtiveram o reconhecimento mundial décadas e até séculos depois de suas mortes.

Nasceram em regiões e épocas diferentes, um de família pobre e o outro de família rica, mas comungavam de um mesmo ideal: a liberdade e a igualdade entre os homens.

Cristo obteve reconhecimento mundial. Jefferson, nem tanto!

Cristo, o salvador do mundo, veio nos libertar espiritualmente do pecado; o segundo, um advogado inflamado, entrou na guerra para libertar a escravidão e o trabalho forçado das Colônias americanas em relação à tirania dos Ingleses.

O primeiro dizia que somos todos iguais e que só ele libertava, era o caminho, a verdade e a vida (Evangelho de São João). O segundo, num discurso mais político e sociológico, cunhou na Declaração da Independência dos Estados Unidos uma frase que caberia muito bem na boca do próprio Cristo:

“Julgamos evidentes por si mesmas estas verdades: todos os homens nasceram iguais; estão dotados pelo criador de certos direitos inalienáveis; entre esses direitos contam-se o direito à vida, à liberdade e o da procura da felicidade.”

Cristo denunciou a hipocrisia e a devassidão moral, Jefferson a ambição material e a exploração do homem pelo homem. Pois bem. Nesses dias que tanto se fala de liberdade e independência, é preciso que nos lembremos de Cristo e de Jefferson.

Foram eles os motivadores de nosso espírito libertário. De Cristo, veio os eflúvios espirituais e a motivação religiosa da igualdade, da irmandade divina e da fraternidade. De Jefferson vem o iluminismo, o furor social, a motivação filosófica e política da igualdade racial e social.

Foi justamente sabendo de Jefferson e respirando a ação de George Washington que Tiradentes ensaiou por aqui os passos de nossa independência. Foi o martírio de Tiradentes – assemelhado ao de Cristo – quem contribuiu para a queda do império e da monarquia portuguesa.

Unindo os preceitos de Cristo (espírito) e de Jefferson (matéria), a liberdade é um estado de espírito e uma realização concreta e material de uma independência harmonia e social. No homem, a liberdade é a garantia de desenvolvimento de suas potencialidades no seu conjunto – as leis, a organização política, social e econômica, a moral, etc. –.

Se liberdade é tudo isto, que espécie de libertação ou independência o Brasil comemora? E o Estado, tem o que comemorar quando se fala em independência? De quem nos julgamos livres? Será que o homem exerce as suas potencialidades no seu conjunto?

Pelo prisma de Jefferson, tem o homem atual os seus direitos civis respeitados? Se necessitar da Justiça receberá tratamento igualitário e equânimo? Se precisar do prefeito de sua localidade terá igualdade de acesso aos alpendres dos palácios? Acaso se adoecer, receberá tratamento condigno e eficiente, e terá garantida a alimentação dos seus dependentes?

Observando pelos olhos de Cristo que denunciava os poderosos do seu tempo, caso queira o cidadão atualmente denunciar uma injustiça, terá acesso aos meios de comunicação?

Caso entenda de falar contra os ocupantes do Poder, lhe darão ressonância nos rádios e emissoras de televisão?

Caso as respostas sejam negativas, quando o assunto é liberdade, o Brasil, nem o mundo têm nada a comemorar. No panorama mundial, os países árabes democráticos gostariam de conter a Síria, mas não têm a liberdade de assumirem esta postura por temor ao presidente russo, Vladimir Putin. Até o Brasil em nada se manifestou quanto a esse morticínio coletivo.

O homem é construtor de sua própria história. Jefferson foi presidente americano por duas vezes, tendo entrado para a história americana por nunca haver vetado um projeto de lei do Congresso. Por aqui, os parlamentos são apenas – e tão somente! – caixas de ressonância das intenções do Poder Executivo.

Não conheci ao longo da minha vida Poder Legislativo independente.

Lembro que Martin Heidegger, grande filósofo alemão, foi amante e mentor de Hannah Arendt. Ele optou por seguir o nazismo, ela ainda que perseguida por ser judia, desertou para escrever sobre a humanidade e o amor (seu doutoramento foi sobre o amor na obra de Santo Agostinho).

O primeiro foi descartado no lixo da história, a segunda foi inscrita pela ação política em favor da humanidade.

Temos que fazer as nossas escolhas. A escravidão de hoje em dia mudou apenas a tonalidade da cútis. Não são mais só os negros a aguentarem a borrasca e a raiva dos senhores de engenho ou dos capitães-do-mato. Brancos, amarelos, pardos, índios, caboclos, negros, todos, sem exceção, estão jungidos num mesmo grilhão que os amarra pelo calcanhar ditando os rumos de suas vidas e o futuro de seus filhos.

A esta casa grande, a esta senzala enorme chamamos de Estado (Nação, Estado e Município), cuja concentração de poder e de mando é feita erroneamente em uma só pessoa. Nesse todo-poderoso governante se centraliza o poder do chicote a vergastar os couros dos seus administrados. Conheço alguns que de tão tiranos com o povo, fazem dos prédios administrativos verdadeiros pelourinhos sociais.

Permanece para os pobres incautos, é claro, a visão da liberdade apenas pela ótica racial.

Quando vejo nos corredores da UERN frases estimulando o “Orgulho de ser negro”, penso: negros livres e brancos idiotizados. Que pena! Viva a liberdade e a independencia que ainda não conhecemos.

Libertas quae sera tamen.

Marcos Araújo é professor e advogado