Em tempos de tecnologia, as notícias (boas ou ruins) vêm por aplicativos eletrônicos. Recebi uma mensagem do Prof. Benedito Vasconcelos reproduzindo uma nota do Departamento de Geografia da Universidade do Estado do RN (UERN), lamentando a morte do Prof. José Romero Araújo Cardoso.
Em Fortaleza, onde curso um doutorado, entre uma tarefa acadêmica e outra, brota uma lágrima nos olhos e paro para fazer uma prece para Romero. Rezo para sua alma. Rogo pela intercessão de Nossa Senhora para lhe dar acolhida.
Rezo também pela incompreensão que ele foi vítima. Preto e pobre, Romero foi alvo do estigma e do preconceito. Na Uern, creio – lastimo pelos alunos que se julgam sábios -, nunca recebeu a atenção devida.
Louco por Josué de Castro – outro negro, que travou uma luta contra a fome (acreditem os que veneram Lula, foi ele quem pensou antes do PT a renda mínima como combate à pobreza!) -, odiava o regime militar por ter impedido a indicação do autor de Geografia da Fome ao prêmio Nobel da Paz.
Genial por excelência, sofreu também as contingências de um casamento fracassado. Enveredou pelo caminho tortuoso das drogas, em busca de um alento pelo desprezo conjugal. Sofreu, e muito!
Lembro de sua mãe e de sua tia. As duas largaram suas casas e passaram meses em Mossoró. Nessa luta, merece relevo a pessoa de Dona Chiquita, de saudosa memória, que assumiu a recuperação de Romero como meta de vida.
Naquela época não se entendia a dependência química como doença e a Uern até ensaiou um processo demissional, obstado depois por puro bom senso. Nesse tempo, recebia ele quase todo dia em nosso escritório. Eu e Lindocastro Nogueira, advogado da Associação dos Docentes da Uern (ADUERN).
Ouvimos as lamúrias do seu coração dezenas de vezes.
Depois de recuperado, convidei ele pelo menos cinco vezes para falar aos meus alunos no Curso de Direito. Dizia repetidas vezes: um dos homens mais inteligentes que tinha conhecido em vida.
Contudo, essa sociedade europeizada, branca e mesquinha, legatária genética de europeus de quinta categoria, não admite a inteligência dos descendestes de africanos. Um preto genial é uma ameaça. E ainda mais quando esse “preto” tem vícios comportamentais…Era mais Romero, na sua bizantinice de homem pecador do que muitos “Santos” de conduta impoluta.
Como lembrava o lisboeta Fernando Pessoa, gostava de Romero porque “tenho amigos para saber quem eu sou, pois vendo-os loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril”.
Romero era gênio. Como tal, vivaz entusiasta dos seres humanos, sem cor, raça ou qualquer atributo de gênero.
Só incensava um deles: Vingt-Un Rosado! Para ele, nunca houve ninguém mais inteligente…Escrevia como ninguém, e, assim como o negro Castro Alves, tinha sede do saber.
Lembrando Castro Alves,
“Desta sede de saber,
Como as aves do deserto
– As almas buscam beber…
Oh! Bendito o que semeia
Livros… livros à mão cheia…
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar”.
A Universidade do Estado do RN (UERN) perdeu um de seus mais importantes quadros docentes. Faleceu nesta sexta-feira (15), o Professor Mestre José Romero Araújo Cardoso.
A Uern emitiu nota relativa a essa perda. Leia abaixo:
É com pesar que, por meio dessa nota, informamos à comunidade uerniana o falecimento do Professor Mestre José Romero Araújo Cardoso, no dia de hoje, 15 de junho de 2018.
Romero: estudioso do sertão (Foto: Cariri Cangaço)
José Romero faleceu aos 48 anos, às 18h50, vítima de complicações cardiorrespiratórias.
Natural de Pombal (PB), nascido em 28 de setembro de 1969, era geógrafo, especialista em Geografia e Gestão Territorial e em Organização de Arquivos e Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente.
Professor do Departamento de Geografia da Uern, escreveu diversos livros, dentre os quais “Nas Veredas da Terra do Sol” e “Notas para a História do Nordeste”.
Membro do Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP), da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC) e da Associação dos Escritores Mossoroenses (ASCRIM), dedicava-se a estudos sobre a região Nordeste, cultura regional e cangaço.
O Departamento de Geografia da Uern externa suas mais sinceras condolências à família e amigos por esta inestimável perda.
Prof. Fábio Ricardo Silva Beserra – Chefe do Departamento de Geografia – Campus Mossoró – UERN.
Nota do Blog Carlos Santos – Grande lacuna. Um homem dedicado, identificado com o sertão, que teve vários textos publicados nesta página (veja o mais recente AQUI).
Que descanse em paz.
P.S (01h02) – Velório acontece no Centro de Velório Sempre, proximidades do Tiro de Guerra. O sepultamento acontecerá às 16h desse sábado (16), no Cemitério Novo de Mossoró.
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A era Vargas foi a mais longeva experiência político-administrativa do Brasil republicano, cuja gênese encontramos na vitória da revolução em outubro de 1930. O processo foi interrompido em 1945 e reiniciado em 1950, tendo seu epílogo em agosto de 1954, quando do suicídio do chefe do executivo.
A centralização enfatizada por Vargas pôs fim à fragmentação do poder entre os representantes do mandonismo local, a qual se constituiu em símbolo das estruturas montadas na república velha, conforme enfatiza MELLO (1992).
A partir de 3 de outubro de 1930, quando triunfou o movimento revolucionário encabeçado pelo Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraíba, Vargas deu início à escrita de um diário cujo encerramento se deu em setembro de 1942, quando o Brasil já havia declarado guerra aos países do Eixo.
Este importante documento para a História do Brasil, compilado e publicado em dois volumes no ano de 1995 pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas e pela Editora Siciliano, apresentado por Celina Vargas do Amaral Peixoto, neta do estadista que marcou profundamente os novos rumos do modelo capitalista brasileiro a partir de sua posse no governo provisório em 1930, descortinam-se o dia-a-dia do governante, as relações políticas e os episódios marcantes de uma época.
A pressão exercida por São Paulo, principal centro econômico do País, resultando em tentativa revolucionária quer ficou conhecida pela pretensa defesa de uma constituinte, obrigando o governo federal a reprimir fortemente o movimento, caracterizou os rumos políticos entre os anos de 1932 e 1933.
Conforme BASBAUM (1991, p. 63), a convocação de uma constituinte e a elaboração de uma nova constituição perfaziam o panorama geral do ano de 1933. Neste ensejo, Vargas organiza visita aos Estados das regiões Nordeste e Norte, acompanhado de uma grande comitiva de políticos e jornalistas. O raid político-eleitoral do chefe do governo provisório e sua equipe dura cerca de um mês, sendo concluída em Belém (PA).
Ainda segundo BASBAUM (ibidem);
“O entusiasmo com que é recebido pelas populações do Norte e Nordeste,
Que o vêem pela primeira vez, mostra apenas o quanto as massas ainda
esperam dele, pois nada ainda haviam obtido. Mas Getúlio acredita que
aquilo significa – apoio incondicional. Assim acreditam também os futu-
ros deputados que mais tarde o elegerão Presidente da República. E esse
apoio dar-lhe-á a margem necessária para planejar a continuação no poder.”
Obras importantes para o Nordeste seco, paralisadas após a conclusão do triênio Epitácio Pessoa na presidência da república (1919 – 1921), foram fiscalizadas e muitas inauguradas quando da visita presidencial. A açudagem se constituía em um dos carros-chefe da campanha presidencial encetada pela comitiva comandada por Getúlio Vargas.
Neste ensejo, Vargas faria sua primeira visita a Mossoró. Entre os circunstantes presentes que compunham a comitiva presidencial, encontrava-se assessor do Ministério de Viação e Obras Públicas de nome Orris Barbosa.
Posteriormente, o jornalista Orris Barbosa lançou em 1935, pela Adersen-Editores, do Rio de Janeiro, interessante opúsculo por título “Secca de 32 – Impressões sobre a crise nordestina”, no qual analisa desde as tentativas frustradas de implementação dos reservatórios hídricos no governo Epitácio pessoa, além de outras políticas públicas de suma importância, aos efeitos catastróficos da grande seca que teve início em 1926 com breve intervalo em 1929 e recrudescimento total em 1932, enfatizando ainda a visita presidencial aos estados do Nordeste e do Norte do Brasil.
BARBOSA (p. 112), no capítulo intitulado “No alto sertão”, destaca a marcha batida em direção a Mossoró, frisando que a rodagem que interliga Assú à capital do oeste potiguar era regular. Destaca ainda que só à noite puderam alcançar o maior centro comercial do Rio Grande do Norte, na época, visitando, ainda o porto de Areia Branca, escoadouro natural dos produtos sertanejos.
Antes, em fevereiro de 1930, Mossoró havia sido palco de pregações revolucionárias capitaneadas pela caravana gaúcha liderada por Batista Luzardo. Até então, esta tinha sido a única oportunidade que os aliancistas haviam pregado em território mossoroense os ideais de renovação (ROSADO, 1996).
Na oportunidade, ainda não haviam galgado o poder, cujo feito foi proporcionado pelos desdobramentos trágicos da revolta de Princesa, quando do assassinato do presidente paraibano João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, vice-presidente da chapa encabeçada por Vargas no ensejo da disputa presidencial em 1930 (INOJOSA, 1980; RODRIGUES, 1978).
Conforme o Diário de Getúlio Vargas (1995, p. 238), no dia 13 de setembro de 1933 houve a partida da comitiva para Mossoró. A viagem foi feita pela Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte. Antes, houve almoço em São Romão, num mato de oiticicas do sr. F.[Fernando] Pedrosa – vaquejada, visita à usina de algodão e à fábrica de óleo etc.
Corroborando o que Orris BARBOSA (ibidem) escreveu em seu clássico livro, Vargas destaca que até Mossoró prosseguiram de automóvel, onde houve recepção festiva, banquete e discursos.
Em edição do dia 31 de agosto de 1933, o jornal mossoroense O Nordeste, de propriedade de J. Martins de Vasconcelos, noticiou em primeira página a excursão presidencial do chefe do governo provisório pelo norte do País.
Destacava este veículo de comunicação que partia da capital federal, no dia 22 de agosto, no “Almirante Jaceguay”, a comitiva de Vargas, da qual faziam parte os ministros José Américo de Almeida e Juarez Távora, General Góes Monteiro, Comandante Américo Pimentel, sub-chefe da Casa Militar, Dr. Valder Sarmanho, da Casa Civil, bem como diversos repórteres representantes de diversos jornais cariocas.
Raimundo Jovino,Getúlio e Dix-sept Rosado em 1950 em almoço em Mossoró (Foto: Reprodução)
O jornal “O Nordeste” enfatizou ainda que a convite do Interventor potiguar Mário Câmara, Getúlio Vargas visitaria Mossoró, seguindo viagem via Caraúbas, indo, antes, até Porto Franco. Finalizava a matéria jornalística fazendo louvações à campanha da Aliança Liberal e reverenciando a memória de João Pessoa.
Em 18 de setembro “O Nordeste” voltava a destacar com estardalhaço matéria sobre a visita da comitiva de Vargas, desta vez com mais ênfase devido a permanência do chefe do governo provisório a Mossoró.
Às 18 horas do dia 13 de setembro, Getúlio Vargas, acompanhado de vários membros do seu gabinete, integrando também a comitiva o Interventor Mário Câmara, o Dr. Potyguar Fernandes, chefe de Polícia da Capital, além do Dr. Gratuliano de Britto, interventor Federal do Estado da Paraíba, dirigia-se ao palacete da Praça Bento Praxedes, o qual ficou conhecido por Catetinho.
Na oportunidade, grande multidão se concentrou intuindo conhecer de perto o chefe máximo do executivo brasileiro. Conforme ainda “O Nordeste”, duas alas de alunos das escolas da cidade, estendiam-se, com o povo, do Jardim Público, até o lugar do destino, feericamente iluminado, e onde a banda de música “Santa Luzia”, em coreto adrede preparado, executou o hino nacional para o chefe de governo e sua comitiva.
Todas as repartições públicas içaram a Bandeira Nacional, em sinal de extremo respeito à ilustre visita. À noite houve cinema campal na Praça João Pessoa.
O discurso, pronunciado antes do banquete no Palacete da Praça Bento Praxedes, foi realizado pelo Dr. Adalberto Amorim, juiz de Direito da comarca. O magistrado falou em nome das classes conservadoras do município, bem como do comércio local
Em agradecimento, Getúlio Vargas respondeu ao oferecimento do banquete com palavras lisonjeiras a Mossoró, prometendo atender necessidades urgentes, a exemplo da continuação do prolongamento ferroviário, baixa nos transportes do sal e seu aperfeiçoamento e abertura de porto. Concluiu destacando a importância industrial e comercial do município potiguar.
No dia 14 de setembro houve visita de parte da comitiva à salina Jurema, localizada às margens do rio Mossoró. Às 8 horas encerrou-se a visita do chefe do governo provisório. A comitiva partiu em trem especial da Estrada de ferro, até Caraúbas, seguindo para Lucrécia e depois com destino a Sousa (PB), onde inspecionaram as obras do açude de São Gonçalo.
Quando da campanha presidencial em 1950, Vargas retornou a Mossoró. Relembrou fatos da primeira estada demonstrando impressionante lucidez, como bem nos comprovou Raimundo Soares de Brito, presente ao encontro.
Deixou o historiador estupefato ao perguntar por Jonas Gurgel, prefeito de Caraúbas quando da visita como chefe do governo provisório. Era o testemunho impecável da memória excepcional de um homem que marcou significativamente e de forma indelével a História do Brasil.
José Romero Araújo Cardoso – Professor Adjunto do departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte
*Ao Prof. Dr. José Lacerda Alves Felipe, maior geógrafo do Estado do Rio Grande do Norte
Antônio Francisco Teixeira de Melo, sertanejo autêntico, licenciado em História pelo Campus Central da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), doutor honoris causa pela mesma Instituição de Ensino Superior, mossoroense que vem conquistando o planeta com seus cordéis bem escritos, inteligentemente pensados e articulados, descobriu tardiamente dom apurado para a composição da autêntica literatura popular nordestina.
Sua produção cordelista vem açambarcando do imaginário ficcional ao cotidiano, passando pela defesa intransigente da natureza aos detalhes que marcaram e marcam aglomerados humanos em forma de bairro, entre outras inúmeras inspirações importantes.
Exemplo da influência exercida por sua infância em sua produção literária, destaca-se importante cordel que integra a Coleção Queima-Bucha por título Um Bairro chamado Lagoa do Mato, cuja apresentação ficou a cargo de Jane Melo, irmã do renomado poeta popular mossoroense.
A primeira estrofe destaca que o cordelista nasceu em uma casa de frente para a linha do trem da Estrada de Ferro Mossoró-Sousa, tendo crescido vendo a garça, a marreca e o pato. À tarde o veto nordeste soprava forte, quando o trem apitava, a máquina gemia, soltando faísca de fogo no ar.
O bucolismo pretérito do antigo bairro Lagoa do Mato é destacado em cada estrofe, pois o canto do galo, a reposta do peru, o grito do pássaro carão quebrando aruá, o pio da cobra caçando preá, o canto em dueto do sapo com a jia, o balé do aguapé, eram completados com as histórias do avô sobre cabra valente.
Em suma, verdadeira representação de comunidades marcadas pela simplicidade, paz e harmonia, distante da agitação que caracterizam centros urbanos sofisticados e marcados pela presença de circuitos superiores que fomentam dinâmicas econômicas que desfiguram manifestações humanas aprazíveis e naturais.
A poética contida na forma como a lua entrava na casa do cordelista suscita forçar a memória a fim de buscar lembranças pretéritas acerca de um sertão puro e simples em sua geografia humana, pois coisas corriqueiras que não fazem parte de forma proeminente do cotidiano são enfatizadas, a exemplo do ato de comer melancia com amigos de infância e depois se banhar em uma lagoa ainda não poluída.
O rio Apodi-Mossoró, ainda livre de dejetos nocivos à saúde humana, corria sem pressa, bem perto do bairro Lagoa do Mato. O cordelista e seus amigos, então, aproveitavam para fazer coisas que hoje não integram indelevelmente a vida de crianças mossoroenses, como pescar despreocupadamente traíras e piabas para o almoço. Bastante evitado nos dias de hoje, devido a poluição, poucos se atrevem a consumir peixes que ainda existem no rio que outrora serviu até para a realização de regatas.
A poluição grassa célere, afetando significativamente a qualidade de vida das pessoas que habitam as margens do rio Apodi-Mossoró, incidindo impactos ambientais extraordinários que destoam as características naturais originais do curso dágua genuinamente potiguar.
Na visão do cordelista Antônio Francisco, hoje tudo é diferente no bairro Lagoa do Mato, pois a lagoa não existe mais, foi assoreada em razão dos interesses do capital e dos descasos da humanidade para com o importante ecossistema. O vento que antes amenizava o calor, conforme o poeta popular, está mais quente, fato corroborado por muitas pesquisas cientificas que apontam o desmatamento como uma das causas do aquecimento do vento nordeste.
Os raios da lua não conseguem brilhar, tendo em vista que o império dos neons tirou o romantismo do satélite natural terrestre. Os peixes se perderam debaixo do barro, enquanto o sapo e a jia foram embora, havendo ênfase somente para rosas de plástico.
A desativação da Estrada de Ferro Mossoró-Sousa, além de ter tirado inúmeros empregos diretos e indiretos, também trouxe desgosto a muitos moradores potiguares e paraibanos que tinham na velha máquina alento para buscar felicidade tão necessária ao dia-a-dia de todos os seres humano através da incorporação do trem ao sentido das próprias existências. Contemplar a passagem da composição férrea era algo que estava diretamente vinculado às atividades das pessoas nos dois Estados nordestinos.
A modernidade, seus efeitos e suas consequências alcançaram o bairro Lagoa do Mato, tirando-lhe a originalidade, mas pelo que foi destacado pelo cordelista Antônio Francisco, ainda há resquícios da cultura popular presente de alguma forma, quando pamonha, canjica, beiju, tapioca e outros coisas que são típicas da produção da nossa gente ainda são comercializados no encantador bairro que viu nascer um dos mais brilhantes representantes da autêntica literatura regional.
José Romero Araújo Cardoso é geógrafo e professor da Universidade do Estado do RN (UERN)
A violência e a insegurança imperam em Mossoró. Hoje (ontem), dia 04/05/2017, enquanto ministrava aulas na Universidade do Estado do RN (UERN), minha residência foi invadida por homens armados.
Levaram o carro do meu filho José Romero Araújo Cardoso Júnior e colocaram pistolas na cabeça dele.
Até quando seremos reféns do medo proporcionado por essa onda insana de violência que atinge-nos em nossas próprias casas?
José Romero Araújo Cardoso – Professor
Nota do Blog – Na verdade, não quero ser pessimista em relação ao tema, mas realista: ainda não chegou no pior.
Vai piorar muito mais.
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O antigo termo de Passagem do Pedro, São Sebastião, Sebastianóplis, atual município potiguar de Governador Dix-sept Rosado, destacou-se de forma extraordinária, décadas atrás, na produção de alho e cebola.
A experiência pioneira de plantios teve inicio na década de setenta do século XIX na localidade de Gangorrinha, situada às margens do rio Apodi-Mossoró, onde os campesinos resolveram utilizar as vazantes do importante curso d´água para plantar espécies do gênero Allium, adubando-as com mufumbo macerado.
Logo a produção de alho e cebola passou a integrar indelevelmente a economia local, graças à excelência do valor comercial, devido ao tamanho dos bulbos, razão pela qual o atual município de Governador Dix-sept Rosado tornou-se conhecido como a “capital do alho”.
A zona urbana, quase por completa, foi tomada por tranças de alho e cebola, expostas para que os compradores de várias partes do Brasil escolhessem as melhores. Vendedores de alho e cebola saiam em busca de melhores preços pelo interior do Estado do Rio Grande do Norte, bem como com destinos às unidades federativas vizinhas, ou mesmo distantes.
A chegada do trem, no ano de 1925, viabilizou o escoamento da produção, inicialmente com destino a Mossoró, e, a partir da expansão da linha férrea, em direção aos outros municípios potiguares que foram beneficiados com o percurso da Estrada de Ferro, tendo chegado no inicio da década de cinqüenta do século passado em Sousa, no vizinho Estado da Paraíba.
Quando o trem chegava em Governador Dix-sept Rosado, quando do período da safra do alho e da cebola, eram inúmeras as ofertas da produção farta e abundante, pois a estação ficava cheia de tranças à espera de compradores, bem como destinadas ao embarque.
Pequenos pedaços de vazantes à beira do rio Apodi-Mossoró eram valorizados de forma exponencial, pois a certeza de boas colheitas estavam garantidas pela fertilidade do aluvião, bem como das técnicas originais de adubação.
Festas em torno do alho e da cebola foram organizadas, contando com a coroação de rainhas com alusão aos produtos que faziam a fama do município potiguar, distrito de Mossoró até quatro de abril de 1963.
Gesso, algodão, cal, alho e cebola, consorciados com o plantio de batata-doce, eram os alicerces da economia dixseptiense há pouco tempo, época que mostrava-se favorecedora à qualidade de vida da população, a qual podia contar com importantes recursos no processo de geração de emprego e renda.
Desestruturado na segunda metade da década de oitenta do século passado, o plantio de alho e cebola, vitima do mal-de-sete-voltas, praga que arruinou uma das bases da economia dixseptiense, tornou-se uma página virada na memória da população do aprazível município norte-riograndense.
José Romero Araújo Cardoso é geógrafo. Professor-Adjunto do Departamento de Geografia da faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte.
Por José Romero Araújo Cardoso e Marcela Ferreira Lopes
A utilização do algodão (Gossypium sps.) para diversos fins foi constatada quando da descoberta do Novo Mundo pelos Europeus, pois nativos do continente americano aproveitavam a fibra para a fabricação de utensílios usados no cotidiano.
A rede de dormir é exemplo da herança indígena no que tange ao uso dessa planta da família das Malváceas para a confecção de bens que no presente participam ativamente na geração de emprego e renda de diversos municípios nordestinos, como São Bento do Brejo do Cruz (Estado da Paraíba).
O algodão foi responsável pela revitalização agrícola brasileira após a expulsão dos holandeses e a decadência da cultura canavieira no litoral oriental nordestino, proporcionada pela concorrência efetivada pelo açúcar batavo produzido nas Antilhas.
A industrialização pioneira que originou-se na Inglaterra teve no setor têxtil o carro-chefe do complexo processo surgido com o advento das máquinas, exigindo matéria-prima abundante a fim de atender a demanda crescente, tendo em vista que vestir-se é um dos requisitos da vida em sociedade.
O algodão mocó, provavelmente nativo do Seridó Norte-riograndense, arbóreo, chegando a mais de dois metros de altura, em alguns casos houve registros de plantas com mais de cinco metros, dotado de fibras longas, adaptado às condições edafoclimáticas do semiárido, considerado por muitos como a melhor variedade do mundo, passou a ser cultivado em todos os Estados Nordestinos.
O binômio gado-algodão passou a definir a importância econômica da hinterlândia nordestina, sendo que em diversos momentos o segundo passou a superar a própria razão da ocupação das terras interioranas.
O cultivo do algodão passou a ser feito sobretudo em grandes latifúndios, motivado por agentes econômicos que dispunham de condições e contatos que viabilizassem a venda do produto.
Depois de algum tempo o algodão passou a ser uma cultura infinitamente mais democrática que a da cana-de-açúcar, tendo em vista que pessoas pobres, mas detentoras de pequenos pedaços de terra, passaram a cultivá-lo e comercializá-lo em praças especializadas, como Campina Grande (PB), Recife (PE) e Mossoró (RN), formando uma elite enriquecida com o Ouro Branco do sertão. Negros alforriados que a duras penas conquistaram pequenos lotes de terra galgaram degraus na rígida e inflexível sociedade sertaneja agropastoril graças ao algodão.
A introdução de descaroçadores foi de suma importância para a dinâmica econômica da região sertaneja. Para o algodão mocó indicava-se o de rolo, enquanto para as espécies herbáceas utilizava-se o de serra.
Campina Grande, localizada no Estado da Paraíba, foi beneficiada economicamente, de forma espetacular, quando Cristiano Lauritzen introduziu descaroçador de algodão e passou a aproveitar-se da produção sertaneja que demandava a Pernambuco, cujos tropeiros que conduziam fardos de algodão antes tinham na cidade apenas ponto de parada obrigatória. No presente, experiências genéticas que resultaram no algodão colorido denotam a invectividade dos pesquisadores da EMBRAPA a fim de revitalizar o produto na economia local.
O colonialismo inglês ocupou terras possuidoras de histórias milenares, como a Índia e o Egito, transformando-as em imensos algodoais, bem como aproveitando áreas geográficas próximas a fim de fomentar transações comerciais, a exemplo das que foram efetivadas com o sul dos EUA escravocrata e monocultor, dedicado de forma extraordinária à cultura algodoeira.
A distância separando o sul dos EUA da Inglaterra minimizava extraordinariamente os custos com o transporte da matéria-prima indispensável ao funcionamento de suas orgulhosas indústrias têxteis.
A guerra de secessão que ensanguentou o território norte-americano no início da década de sessenta do século XIX privou os ingleses de se abastecer com o algodão produzido no sul dos EUA.
O drama conjuntural interno vivido pelos EUA suscitou a necessidade de buscar em áreas próximas o algodão que tanto necessitavam, fazendo com que o sertão nordestino vivesse dias de glória. A demanda externa mostrou-se tão proeminente que diversas áreas dedicadas ao cultivo da cana-de-açúcar passaram a cultivar o algodão.
Os ingleses interessaram-se de tal forma pela qualidade do algodão produzido no sertão nordestino que diversas iniciativas foram fomentadas, a exemplo da construção de ferrovias, levadas avante pela Great Western Company. O objetivo era minimizar a depreciação do produto, transportado em tropas de burros.
Mesmo depois que a situação de beligerância nos EUA tranquilizou-se, em razão da qualidade do algodão sertanejo houve ênfase à procura externa pela excelente matéria-prima produzida na região nordestina.
A desaceleração da demanda externa deu ênfase ao surgimento de indústrias têxteis de pequeno porte, cuja produção visava atender ao mercado interno. O tecido de chita, popularizado no nordeste brasileiro, exemplifica a forma alternativa que se exponencializou para absorver a produção algodoeira local.
A atenção do governo também se destacou quando da instalação de diversas Estações Experimentais, ligadas de início ao Ministério da Agricultura e depois à EMBRAPA, sendo que a do Seridó norte-riograndense era uma das mais importantes, tendo em vista os estudos de melhoria genética levados avante pelo agrônomo Carlos Faria, entre outros estudiosos.
O algodão passou a ser sinônimo de melhor qualidade de vida, principalmente no semiárido. A colheita e comercialização do algodão eram sinônimos de melhores alentos para boa parte da sofrida população de ermos esquecidos localizados no Nordeste Brasileiro.
As quermesses, períodos juninos e festas de padroeiros espalhadas pelo interior do Nordeste eram mais animados quando a população sertaneja que se dedicava à cotonicultura contava com o dinheiro apurado com a venda do algodão. Era uma festa quando os pais chegavam em casa, sorridentes, alegres, contando o que haviam conseguido com a venda da safra.
Exemplo da importância do algodão para a economia regional observou-se no Estado da Paraíba no século XX, pois quando das discórdias envolvendo o “Coronel” José Pereira Lima e o Presidente João Pessoa, a tributação exorbitante sobre a produção sertaneja, sobretudo a referente ao algodão, determinou um dos motivos para a deflagração da “Guerra de Princesa” em 1930.
O algodão esteve presente, de forma indissociável, na vida social e econômica sertaneja, até meados da década de oitenta do século XX, quando a praga do bicudo acabou com a importante atividade cotonicultora e definiu uma das maiores crises enfrentadas pela região.
José Romero Araújo Cardoso é geógrafo e professor da Universidade do Estado do RN (UERN)
Marcela Ferreira Lopes é geógrafa e especialista em educação de jovens e adultos
Quando da formidável marcha do bando de Lampião pelas veredas do oeste potiguar, intuindo objetivo maior, qual fora, atacar Mossoró, na época já considerada a segunda cidade do estado do Rio Grande do Norte, nenhum lugarejo sofreu mais que a localidade de Boa Esperança (hoje município de Antônio Martins).
Em 12 de junho de 2015 estivemos visitando a aprazível cidade, quando constatamos que continuam vivas as marcas deixadas pelo sinistro bando, não obstante mais de oitenta anos assinalarem a verdadeira faina maldita que deixou sinais evidentes de que as tristes horas jamais se apagarão da memória da simpática gente, embora a maioria não estivesse presente naqueles fatídicos momentos de terror e apreensão, tendo em vista que os mais velhos se responsabilizam pela transmissão dos fatos verificados naquele longínquo ano de 1927.
Lampião e seu bando posa em Limoeiro do Norte (CE), após ataque a Mossoró (Foto: reprodução)
Conversando com pessoas do lugar, houve ênfase ao que literato como Raul Fernandes, em A marcha de Lampião: Assalto a Mossoró, imortalizou em letras garrafais, pois, transmitidas de geração a geração, as histórias da presença do bando de Lampião em Antônio Martins denotam a perpetuação da memória sobre os mais absurdos atos ignominiosos perpetrados pelo banditismo rural sertanejo contra a indefesa população do lugar.
Boa Esperança em seu bucólico cotidiano esperava a banda da vizinha cidade de Martins, pois aproximava-se a festa do padroeiro Santo Antônio. Ao invés dos acordes amistosos, executando músicas tradicionais e conhecidas, despontou célere o bando de Lampião.
O lugarejo passou a ser literalmente revolvido, com cangaceiros se apossando de tudo e de todos, destruindo tudo que encontravam pela frente e praticando atos deliberados de vandalismo.
Cidadão de nome Vicente Lira foi aprisionado quando chegava à cidade. Lampião em pessoa colocou-o na frente da alimária. Pisoteado nos pés pelo animal montado pelo rei do cangaço, Vicente Lira segurou firme nas rédeas. Lampião não gostou, tendo desferido diversas cutiladas do seu punhal de lâmina perfurante no desditado sertanejo. Escapou milagrosamente, tendo morrido de morte natural muitos anos depois.
Irmãos que há tempos não se falavam foram amarrados em formigueiro. Seresteiro descontraído teve o violão enfiado cabeça a dentro, ficando o mesmo como espécie de colarinho.
Melancias foram atiradas contra frágeis cabeças, enquanto pulos do gato foram ensaiados, os quais consistiam em atirar para cima infelizes criaturas, para que as mesmas conseguissem, sem sucesso, a mesma performance dos cangaceiros quando das lutas nas caatingas.
Conceituado cidadão de nome Augusto Nunes teve armazém depredado, queimado, destruído na expressão literal do termo. Prejuízo incalculável que colocou por terra anos de trabalho árduo.
A esposa deste, de nome Rosinha Novaes, era preparada para seguir o bando, como refém. Já estava em cima de um burro quando gritou desesperada que se fosse na terra dela aquilo não aconteceria.
Indagada sobre qual terra era natural, tendo respondido ter nascido em Floresta do Navio, berço de cangaceiros e coiteiros, pertencente ao ramo dos Novaes, prima de Emiliano Novaes, serviu de senha para que o suplício maldito terminasse.
Lampião, avisado por Sabino Gório sobre a presença de uma pessoa da família Novaes em Boa Esperança, deu por encerrada a sessão de horror perpetrada pelos cangaceiros contra aquele povo pacato e trabalhador.
Boa Esperança deveu muito a Dona Rosinha Novaes pelo fim do terrível sofrimento que foi imposto pelo bando de Lampião quando de sua passagem inglória pelo simpático lugarejo.
A memória da população está acesa no que diz respeito aos malditos momentos que seus antepassados passaram nas garras do bando de Lampião, pois é consenso geral as amarguras deixadas pela horda comandada pelo mais audacioso cangaceiro de todos os tempos.
José Romero Cardoso e Marcela F. Lopes são professores e escritores
Por José Romero Araújo Cardoso e Marcela Ferreira Lopes
Publicado com grande aceitação em 1946, o livro Geografia da Fome de Josué de Castro propôs regionalização alicerçada nos padrões nutricionais apresentados pelo País, até então eminentemente agroexportador, cuja população concentrava-se majoritariamente na zona rural.
Analisando as condições alimentares apresentadas pela gente que habitava a área do sertão do Nordeste, Josué de Castro traçou linhas afirmativas sobre a região, frisando que a mesma teria condições de figurar de forma proeminente e positiva no mapeamento que realizou, em razão das características satisfatórias que a diferiam do conjunto brasileiro.
Conforme Josué de Castro, as longas e prolongadas estiagens tornam-se o diferencial no que tange à defasagem alimentar em épocas específicas e cíclicas que determinam a tormenta para a população sertaneja, independente de classes sociais.
A influência da falta d´água torna-se imperativa no rebaixamento das condições de vida local, pois marcada pela presença de rios intermitentes, sujeitos aos rigores climáticos, a área do sertão nordestino é condicionada pela ação dos agentes físicos, refletindo na elaboração próprio processo de produção do espaço.
Conforme o célebre cientista, o milho integra ativamente a dieta do homem sertanejo, destacando que ao contrário de outras áreas do planeta, na grande macrorregião que estruturou em sua proposta de regionalização há pontos positivos destacados no que diz respeito à utilização desse alimento pela população.
A inexpressiva presença de frutas ricas em vitaminas na dieta do homem regional está ligada aos fatores edafoclimáticos que notabilizam as condições naturais da região. Em manchas esparsas, a presença de frutos nativos como o umbu faz a diferença.
Ao milho, incorporavam-se verdadeira plêiade de outros alimentos, pois ao contrário da região açucareira, o sertão nordestino configurou-se embasado na produção para a subsistência, tornando-se bem mais democrática no quesito alimentação do que sua congênere litorânea, colonizada sob a égide do império mercantilista do cobiçado produto obtido através da empresa agrícola instalada, a qual definiu a ocupação territorial do quinhão português no Novo Mundo.
O binômio gado-algodão integrava indissociavelmente a paisagem sertaneja, quando da publicação da celebrada obra de Josué de Castro, estando integrado a esse a tradicional pecuária de pequeno porte.
A importância do rebanho caprino regional foi observada pelo autor. Metade do criatório nacional concentrava-se na região quando da publicação da Geografia da Fome no ano de 1946, com os Estados da Bahia e de Pernambuco ocupando a vanguarda.
Nos dias de hoje o rebanho de pequeno porte, abrigado no semiárido, com ênfase à caprinocultura, excede o percentual de noventa por cento. Os Estados que abrigavam majoritário percentual na época da publicação da Geografia da Fome, ainda continuam os mesmos.
Astúcia e impactação ambiental caracterizam a ação desses ruminantes doméstico de pequeno porte. A devastação do meio-ambiente ainda perfaz problema na cadeia produtiva da caprinocultura, pois os recursos tecnológicos utilizados ainda são incipientes.
A influência das culturas semita, negra e indígena na diversidade da culinária sertaneja também teve ênfase na Geografia da Fome, sendo indicada como fator positivo para a multiplicidade dos pratos regionais.
As secas ainda representam graves fatores desagregantes do quadro físico e humano da área do sertão nordestino. Períodos de estiagens prolongadas, marcados pela força inclemente da natureza, ainda assinalam tormentas indescritíveis. Não obstante esforço de órgãos mantidos pelos governos, grande estiagem como a que marcou os anos de 1979-1983 deixou cicatrizes profundas.
O sertão nordestino se despovoa com rapidez impressionante. A cultura do algodão, até certo ponto tida como democrática, implementadora efetiva da geração de emprego e renda, foi desestruturada graças ao advento da praga do bicudo, desconhecida até o início da década de oitenta do século passado.
O agrobusiness, com a fruticultura tropical irrigada exigindo espaço consideráveis, antes destinados à agricultura de subsistência, assinala novo processo de inserção regional na economia globalizada.
O vertiginoso processo de desertificação de boa parte do semiárido vem ocasionando mudanças radicais na paisagem da região. O desmatamento sem controle tem trazido consequências danosas para o bioma e para a população, incidindo em declínio nutricional significativo.
Transformações significativas vem sendo levadas avante na párea do sertão nordestino, pois modos de vida tradicionais vem sendo substituídos pela força avassaladora dos novos tempos que imprime consideráveis mudanças nas caraterísticas da geografia humana do lugar.
Quando do centenário de nascimento de Josué de Castro, em setembro de 2008, o Jornal do Commércio, de Recife/PE, publicou uma série de reportagens sobre a permanência da fome no nordeste, mostrando que apesar das denúncias efetivadas na Geografia da Fome, ainda permanecem os sinais da exclusão através das negras manchas da desnutrição crônica que se espraiam sobre a região, gerando verdadeiro cataclisma na defasagem das condições da qualidade de vida da população.
José Romero Araújo Cardoso é geógrafo, escritor e professor da Uern
Marcela Ferreira Lopes é geógrafa e graduanda em Pedagogia
Tenho o hábito de sair vagando pela zona rural da região mossoroense, visando conhecer mais sobre as atuais condições de vida da população da área em que resido, pois, dever do geógrafo que prioriza o humano em pesquisas e análises, faz-se necessário constatar in loco quais problemas mais agudos afligem o povo pelo qual se deve firmar compromisso a fim de contribuir para a busca de soluções que erradiquem níveis insatisfatórios revelados em indicadores socioeconômicos.
A atual situação apresentada pelo quadro natural da região semiárida, quando a efetivação de seca dramática se responsabiliza pela exponencialização de agudos episódios envolvendo a população local, vem intensificando a fome, sobretudo na zona rural, espaço onde a produção de alimentos se apresenta comprometida coma ausência de chuvas.
Crianças famintas são vistas com freqüência, pois se constituem elos frágeis da situação aflitiva que se instala no campo com o recrudescimento da intensa estiagem que assola o semiárido, sobretudo na região polarizada por Mossoró, tendo em vista a intensidade da ação dos alíseos de nordeste, viabilizada pela corrente marítima de Benguela, formados nas imediações do Arquipélago dos Açores, os quais em consonância com a opção desmedida pelo agrobusiness desestimula qualquer perspectiva de incremento à agricultura familiar como fator de suma importância à produção de alimentos que possam saciar a fome da população carente que sofre de forma impiedosa com a tragédia climática que castiga a região.
A fome vem imperando em comunidades rurais espalhadas pela região mossoroense.
Em São João da Várzea, concentração populacional campesina localizada ás margens da RN-117, caminho para os sertões potiguares e paraibanos, a falta de alimentos vem penalizando seriamente famílias inteiras que tem na agropecuária quase que a única fonte de renda a fim de manter os membros das famílias. Não é diferente a situação das famílias que habitam comunidades rurais ao longo da citada rodovia estadual.
No município de Governador Dix-sept Rosado, a fome vem assolando impiedosamente, não obstante a proximidade com o curso do rio Apodi-Mossoró. A ausência de infraestrutura que possa permitir o aproveitamento do valioso recurso hídrico intensifica o drama vivido pela população local, tendo em vista que é privilégio de poucos dispor de recursos financeiros que permitam irrigar plantações e dessedentar o criatório.
A seca vem destruindo plantações e matando o gado, deixando seres humanos em situações calamitosas, com a desnutrição atingindo principalmente, de forma inexorável, pequenas vidas que clamam por alimentos a fim de saciar a fome atroz que assume proporções calamitosas a cada dia que passa.
Em assentamentos rurais, aposta do governo federal a fim de repovoar o campo, a situação não é diferente, tendo em vista que a falta de água e o preço exorbitante cobrado para garantir abastecimento a partir de adutoras, vem inviabilizando a permanência da população na zona rural submetida, cada vez mais, de forma intensa, aos rigores da seca histórica que vem trazendo desalento e desconfortos materiais e espirituais àqueles que insistem em permanecer arraigado ao chão adusto e causticante do semiárido em sua zona rural.
A fome é uma realidade cruel que vem se responsabilizando pelas mais dramáticas situações de incertezas ao sofrido povo nordestino, sobretudo a parcela que habita o semiárido. A seca vem intensificando quadro de pobreza histórica que imemorialmente atinge deserdados do modelo adotado em nosso país.
Atitudes e ações devem ser mais enfáticas do que retóricas discursivas, pois a urgência que se descortina com relação à emergência do fazer imediato pelo povo sofrido e carente dessa região intensamente castigada pela seca e pela fome são condições sine qua non a fim de que o sentido da solidariedade seja implementado imediatamente. Antes que a fome se torne problema de graves proporções para a sofrida população de baixíssima renda que vem sendo vítima do maior flagelo da humanidade, o drama terrível da fome, denunciado intensamente pela grandeza e pelo humanismo do cientista brasileiro Josué Apolônio de Castro.
José Romero Araújo Cardoso é professor da Uern * Texto originalmente publicado no Blog de Carlos Escóssia
Raimundo: uma vida dedicada à cultura (Ricardo Lopes)
Raimundo Soares de Brito sintetiza e personifica um dos mais luminosos pontos da cultura norte-riograndenese, pois com esforço e obstinação vem contribuindo formidavelmente para o enriquecimento das letras e da preservação da memória em território potiguar.
Nascido na bela terra das caraubeiras, fundada pelo General-Mór Souza Falcão, pernambucano que colonizouo chão, no dia 23 de abril de 1920, nosso mestre completou recentemente 90 anos de fértil existência.
A hemeroteca que estruturou é um dos mais importantes repositórios de informações sobre o Estado do Rio Grande do Norte, pois ávido colecionador de velhos jornais, velhos alfarrábios e tudo que tem letras e números, Raibrito impressiona pelo amor ao saber e pelo desprendimento, pelo desinteresse em servir a quantos que o procura para pesquisas, consultas ou informações referentes a tudo que envolve o Rio Grande do Norte, mas sobretudo Mossoró e região oeste.
Escritor de raros dotes, Raimundo Soares de Brito escreveu importantes trabalhos enfocando da indústria e do comércio na região a tratado memorialístico fantástico que preserva figuras populares fascinantes com as quais conviveu.
O livro por título “Eu, ego e os outros”, publicado pela Editora Queima-Bucha, consiste no reconhecimento do grande intelectual potiguar à importância da maioria dos personagens simples e humildes da nossa terra. Se não fosse Raimundo Soares de Brito, pessoas como Mané Cachimbinho, Pata Choca, etc., tinham caído no esquecimento completo.
A geografia e a história mossoroenses foram enriquecidas com a publicação dos volumes do Dicionário de ruas e patronos, frutos da obstinação e da perspicácia de Raimundo Soares de Brito.
Talvez um dos mais marcantes trabalhos de Raimundo Soares de Brito seja “Nas garras de Lampião”, publicado pela Coleção Mossoroense da Fundação Vingt-un Rosado. Esmiuçando o diário do “Coronel” Antônio Gurgel, prisioneiro do bando de Lampião em 1927, Raibrito legou-nos interessantes notas históricas sobre espaço e tempo das agruras vividas pelo bravo sertanejo que viveu indesejado drama antes e após o frustrado ataque bandoleiro a Mossoró.
Amigo pessoal de Raimundo Soares de Brito, sempre contestei a “mania exagerada de perfeição” que acompanha imemorialmente o grande mestre.
Exemplo disso encontra-se na relutância em publicar fabuloso trabalho memorialístico sobre o “Coronel” Quinca Saldanha, chefe político de Caraúbas (RN), que em um passado remoto, inexplicavelmente, atendeu aos apelos da Aliança Liberal e cerrou fileiras com o governo de João Pessoa no Estado da Paraíba, enviando, inclusive, jagunços para lutar ao lado das tropas legalistas em Tavares (PB), quando da guerra civil de Princesa em 1930.
Raimundo Soares de Brito é referência quando o assunto envolve o âmbito cultural no Estado do Rio Grande do Norte, pois com dedicação ímpar tornou-se uma das maiores autoridades das letras na região, razão pela qual a universidade do Estado do Rio Grande do Norte não titubeou em conceder-lhe título de Doutor Honoris Causa.
José Romero Araújo Cardoso é Geógrafo, professor-adjunto da Uern e mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente.
* Veja também AQUI uma reportagem especial sobre Raibrito, de autoria da jornalista Lúcia Rocha, mostrando sua vida e gigantesco trabalho de preservação cultural.