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Trump é o Stalin da Direita

Por François Silvestre

Imagem gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Imagem gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

O mundo parou de girar, estático, como toda burrice, empacou. Ninguém quer ou tenta querer fazer esse burro caminhar. Ponto.

Os astros giram, que é do feitio do Universo, o deus de Spinoza, imanente, contido em si mesmo, sem pretensão ou cobrança, sem a burrice dos ingênuos tangidos pela esperteza cretina dos larápios das igrejas. Quaisquer delas!

Voltemos pra cá, terra de Tupã, onde navega, nesse mar da idiotice, disputa política que causa canseira até no caminhar da preguiça. Não falo do animal, mas da minha própria indisposição com a apreciação do quadro.

Vejamos. O Brasil, colônia cultural incurável, doença infantil adquirida, sarampo mal curado, erisipela de crosta litorânea, viroses ideológicas dos sertões, criança mental hospedada nas cabeças de adultos atávicos. Retroativos da estupidez aqui plantada, regada e de colheita permanentemente.

Pois pois, vos digo. Nesse quadro, estamos ante nossa relação com o mundo dito civilizado. Qual? Nossa metrópole econômica, nosso modelo democrático, nossa face distorcida do espelho. Ó! Que admiração! Estados Unidos da América. O nosso complexo de inferioridade nasce aí. Portugal, uma corte mórbida, alvo de gracejos.

E quando tudo parece perdido, nesse pantanal de mediocridade, eis que surge uma lanterna na proa, iluminando as ondas do por vir. Qual? Donald Trump! O alumioso.

Trump é o Stalin do capitalismo. E se Stalin, pela truculência da estupidez mais desabrida, conseguiu matar a única alternativa possível ao capitalismo, Trump consegue agora, querendo ou não, igual a Stalin, ferir de morte o capitalismo ocidental.

Registre-se aí uma evidência histórica nunca prevista, nem imaginada. Como um equipamento astrológico, um James Webb, desvendando fatos, expondo verdades e pondo mentiras no lixo. Trump é a negação útil do capitalismo inútil. É a flecha lançada pelo arco da negação do arqueiro. O timoneiro de um barco à deriva. O idiota que mobiliza multidões de adeptos. Uns tanto, outros nem tanto, mas cada um com sua dose de idiotice.

Aí, nasce a China. Não a milenar. Não. Essa nasceu antes dos milênios. A China que nasce agora, com o stalinismo de Trump, é a parteira do ocaso do capitalismo ocidental. Transformando em caricatura do domínio financeiro um decadente império de mentira e fanfarra!.

François Silvestre é escritor

A tenebrosa história da prisão e tortura de centenas de médicos

Da BBC News Brasil

Natasha Rapoport ainda era criança, mas se lembra bem do dia em que um grupo de agentes de segurança soviéticos entrou em sua casa procurando por seu pai.

Os policiais prenderam o homem – o professor e renomado médico Yakov Rapoport – e o levaram a uma prisão para interrogá-lo.

Rapoport e sua esposa, que também era cientista, foi vítima de perseguição torturas (Reprodução)
Rapoport e sua esposa, que também era cientista, foi vítima de perseguição torturas (Reprodução)

O caso aconteceu em Moscou, em 1953, e fez parte do que ficou conhecido como “o complô dos médicos”.

“Isso aconteceu durante o último ano de vida de Stálin, quando ele se tornou extremamente paranoico”, disse a Natasha Rapoport ao programa Witness, da BBC. “Ele (Stálin) mandou prender os principais médicos do hospital do Kremlin.”

Inicialmente, cerca de 40 médicos foram detidos, mas outras centenas também foram levadas posteriormente à prisão em Moscou. Por quê? Segundo Stálin, os especialistas estavam por trás de um complô para assassinar os principais líderes soviéticos.

Ele também os acusou de serem espiões do Reino Unido, dos Estados Unidos e de Israel.

Mas a verdadeira causa das prisões seria revelada pela história: a maioria dos detidos era de judeus e Stálin, na verdade, promovendo uma “limpeza antissemita”.

Propaganda

O plano do líder soviético ia além de prender os médicos.

Uma forte propaganda também foi lançada contra os chamados “médicos judeus assassinos”.

“Você não podia ligar o rádio sem ouvir falar desses ‘médicos judeus assassinos, escória da terra, que venderam suas almas ao diabo'”, lembra Natasha.

O "complô dos médicos" ocorreu durante o último ano de vida de Josef Stálin, em 1953 (Reprodução)
O “complô dos médicos” ocorreu durante o último ano de vida de Josef Stálin, em 1953 (Reprodução)

Tudo havia começado em 13 de janeiro de 1953, quando os principais jornais soviéticos publicaram um relatório da agência de notícias oficial Tass, sobre a detenção de nove médicos.

“Algum tempo atrás, os órgãos de segurança do Estado descobriram um grupo terrorista de médicos cujo objetivo era encurtar a vida de estadistas ativos da União Soviética por meio de sabotagem durante tratamento médico”, dizia o relatório.

Os médicos em questão foram chamados de “agentes mercenários de uma potência estrangeira”.

Eles foram acusados ​​de envenenar Andrey Zhdanov, secretário do Comitê Central Comunista, que havia morrido em 1948, e também um dos chefes do Exército soviético, Alexander Shcherbakov, morto em 1945.

Segundo a imprensa, todos confessaram ser culpados.

Antes de falecer em 1996, Yakov Rapoport contou à BBC como, depois dessa notícia, começou-se a falar sobre o que aconteceria com outros médicos suspeitos de fazer parte do complô.

“Espalhavam-se rumores sobre o tipo de punição que receberiam. Havia ameaças de enforcamento na Praça Vermelha”, disse ele.

Torturas

Rapoport imaginou que não demorariam a ir buscá-lo e foi exatamente o que aconteceu.

Cerca de um mês depois do primeiro relatório sobre o suposto “complô”, ele foi preso. Eles o torturaram para que assinasse uma confissão, mas não conseguiram. Ele se recusou a atender.

Em uma autobiografia que escreveu décadas mais tarde – e que acabaria sendo publicada sob o título O complô dos médicos de 1953 – ele descreveu seu período de detenção na prisão de Lefortovo.

Yakov Rapoport escreveu um livro sobre seu calvário: "O complô dos médicos de 1953", publicado em 1988 (Reprodução)
Yakov Rapoport escreveu um livro sobre seu calvário: “O complô dos médicos de 1953”, publicado em 1988 (Reprodução)

Nessa unidade, ele permaneceu algemado e não tinha permissão para dormir. O interrogavam dia e noite, até as 5 da manhã. E então o obrigavam a ficar imóvel até as 6, para então começarem tudo de novo.

“Se ele tivesse assinado a falsa confissão, teria sido sua sentença de morte”, disse sua filha ao programa Witness.

Em suas memórias, Rapoport contou que sua única arma era o tempo: esperar, fantasiando sobre a possibilidade de seu calvário terminar no exílio e não na morte.

Salvos

Sua salvação e a dos outros médicos acabou chegando, entretanto, da forma mais inesperada.

Um dia, em abril, um novo agente de segurança chegou à prisão. Em vez de interrogá-lo, o que ele fez foi repreender o investigador anterior pela má condição física em que havia encontrado o preso.

Pouco depois o médico foi levado para ver um general, que lhe disse: “Você foi completamente reabilitado e pode ir para casa”, lembrou Rapoport em entrevista à BBC.

Só quando voltou para casa é que soube, da esposa, o que tinha acontecido: Stálin havia morrido, pondo um fim ao seu calvário.

Um mês depois da morte de Stálin – ocorrida em 5 de março de 1953 – seu sucessor, Nikita Khrushchev, contestou as acusações contra os médicos e ordenou que estes fossem libertados.

O jornal Pravda anunciou que o caso havia sido reavaliado e descobriu-se que todas as confissões haviam sido obtidas sob tortura.

Todos os médicos foram exonerados – dois haviam morrido – e o julgamento e a “limpeza” que supostamente Stalin planejava não deram em nada.

Em 1954 um funcionário do Ministério de Segurança do Estado e alguns policiais foram executados por terem fabricado as acusações.

Dois anos depois, durante um discurso, Khrushchev assegurou que o próprio Stalin havia ordenado pessoalmente a perseguição aos médicos e que ele planejava incluir membros do Politburo (o comitê do governo comunista) no expurgo que pretendia fazer contra judeus.

Morte acelerada

Natasha Rapoport ironiza circunstâncias da morte de Stálin (Reprodução)
Natasha Rapoport ironiza circunstâncias da morte de Stálin (Reprodução)

Natasha Rapoport, que até o pai ser preso era uma admiradora do sistema soviético, nunca perdoou o que aconteceu.

No entanto, ela disse à BBC acreditar que o plano de Stálin havia custado caro ao ex-líder.

Josef Stálin governou a União Soviética de meados dos anos 1920 até sua morte em 1953.

“Estou convencida de que o ‘complô dos médicos’ acabou acelerando a morte dele”, afirma.

Segundo ela, quando Stálin sofreu um derrame no início de março daquele ano, “não havia médicos por perto para ajudá-lo”.

“Isso não é incrível?”, diz, sorrindo.

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O que eu defendo, o que acredito e o que tenho nojo!

cérebro, falar, pensar, dialogar, diálogo, pensamento, inteligênciaO deputado federal General Girão (PSL) disparou uma ação extrajudicial contra o jornalista e blogueiro Bruno Barreto. Cobra reparos de comentários do profissional, que estariam o associando à defesa de golpismo militar.

Avisa, nesse instrumento ‘amigável’, que se não houver recuo o jornalista-blogueiro “vai arcar com as providências cabíveis”. Ou seja, presume-se, uma ação judicial (e não extrajudicial) por danos morais. É o normal numa democracia ou simulacro disso, que é o que experimentamos.

Numa ditadura seria diferente. Provavelmente, Bruno estaria dando explicações num bate-papo reto com a turma dos porões. Seria “convencido” a não pecar novamente ou “jamais”, caso voltasse de lá. Entende?

Minha solidariedade a Bruno Barreto é irrestrita, absolutamente completa, integral; em terra, ar e mar, no ambiente virtual e qualquer galáxia. Por princípios, não por compadrio ou corporativismo. Até porque, considero que o direito subjetivo de quem se apresenta como ofendido, maculado, tem no ambiente judicial a seara natural e civilizada a seu arrimo.

Vi o material que ele produziu e não sei onde possa ter ocorrido leviandade ou excessos.

Preferiria testemunhar o deputado Girão ser mais atuante em defesa dos interesses do povo do RN em vez de se notabilizar como centurião perpétuo e anteparo permanente do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o que é legítimo, que se diga. Se é sua vontade, vá lá! Seus eleitores parecem satisfeitos.

Um estado pobre como o nosso, com bancada tão minúscula (apenas oito deputados e os três senadores comuns aos demais entes federados), precisa e merece mais. Dele e dos demais parlamentares.

Não fosse a prerrogativa das emendas orçamentárias impositivas, boa parte dos nossos representantes em Brasília não teria absolutamente nada a mostrar como acervo de iniciativas pró-povo e pró-RN.

Confesso-lhe: eu tenho nojo, absoluto nojo de qualquer ditadura, da esquerda à direita e vice-versa. Do híbrido Getúlio Vargas a Fidel Castro; do generalato que comandou o país por décadas a Nicolae Ceauşescu (Romênia); de Francisco Franco (Espanha) a Josef Stalin (URSS).

A liberdade não é um meio, deve ser um fim.

“O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente, de modo que os grandes homens são quase sempre homens maus”, classificou o professor e filósofo Lord Acton. Como o dogma da “infabilidade papal” (um dos grandes absurdos da Igreja Católica), querem nos fazer acreditar que os mandarins não erram jamais. Estão sempre certos e não devem ser questionados.

Para os que defendem esse modelo de autoridade restritiva, acreditando na liberdade, é preciso entender que eles são excludentes. Há um conflito inconciliável. Um pouco de estudo, mesmo raso, vai lhe mostrar que milhares de apoiadores e defensores da ditadura de 1964, acabaram perseguidos por ela – por discordâncias internas. De militares a civis influentes.

Houve, entre os fardados, quem sempre foi contra a quebra da legalidade e acabou tratado pelo regime como “inimigo do povo”, caso do marechal Henrique Teixeira Lott. Foi preso, desterrado da vida pública e em seu sepultamento no Rio de Janeiro, em 1984, lhe negaram até honras militares. Coube ao governador carioca e ex-expatriado politico, Leonel Brizola, ofertar-lhe o mínimo de dignidade com luto oficial de três dias.

Daqui a décadas e séculos, quando forem estudar essa época, com profundidade e distanciamento (inclusive do tempo), pode ter certeza: as referências confiáveis não serão o Twitter oficial de nenhum político e qualquer blog partisan.

Vão farejar dados de quem teimou em seguir a regra básica da “pirâmide invertida” (técnica do jornalismo à matéria factual), buscando resposta às perguntas de sempre: O quê? Quem? Quando? Onde? Por quê?

O jornalista tem um ofício vitalício. Alguns políticos o são hoje, amanhã terão o ostracismo.

Queiram ou não queiram!

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A tragédia calculada para dizimar gente

Por Mario Vargas Llosa (El Pais)

Em 1928, Josef Stalin fez uma viagem pela Sibéria que durou três semanas. Tinha derrotado seus adversários dentro do Partido Comunista e já era o amo supremo da União Soviética. Os cereais começavam a escassear no imenso território e, depois do que viu e ouviu naquela viagem, Stalin tirou as conclusões ideológicas pertinentes.

Segundo a doutrina marxista, a culpa era dos camponeses retrógrados, que, graças à expropriação dos latifúndios e à liquidação dos kulaks, tinham se tornado pequenos proprietários de terra e contraído as taras características da burguesia. A solução? Obrigá-los a ceder suas granjas e a se incorporar às fazendas coletivas que os tornariam proletários, a força poderosa e renovadora que substituiria sua mentalidade burguesa pelo fervor solidário dos bolcheviques.

Essa é a origem, segundo Anne Applebaum, em seu extraordinário livro Red Famine: Stalin’s War on Ukraine (fome vermelha: a guerra de Stalin contra a Ucrânia), do colapso da agricultura em todos os domínios da URSS, mas que golpearia principalmente, com ferocidade inigualável, a Ucrânia, causando, nos anos de 1932 e 1933, vários milhões de mortes e cenas arrepiantes de suicídios, assassinatos de crianças, saques e canibalismo.

A pesquisa realizada pela autora revela ao mundo, em sua dimensão apocalíptica, um acontecimento que, pelo menos em suas características reais, tinha sido ocultado pela censura stalinista, apesar dos esforços isolados de alguns historiadores como Robert Conquest, em The Harvest of Sorrow (a colheita do sofrimento), para divulgá-lo. Mas só agora, com a independência da Ucrânia, os documentos e testemunhos relativos àquele holocausto podem ser consultados e Anne Applebaum, que domina plenamente o russo e o ucraniano, tem feito isso com meticulosidade e objetividade escrupulosa.

Segundo ela, a fome foi premeditada por Stalin e seu séquito de cúmplices – Molotov, Kaganovich, Voroshilov, Postishev, Kosior e alguns outros − para subjugar a Ucrânia, frear qualquer tentativa de nacionalismo em seu seio e liquidar as organizações que resistiam a integrá-la à URSS sob o açoite de Moscou. Ela cita como prova o fato de que, naqueles mesmos anos, o Politburo soviético reduziu drasticamente a publicação de livros e jornais em ucraniano, assim como o ensino dessa língua nas escolas e universidades, e impôs o russo como idioma oficial do país.

Holocausto ucraniano levou muitos camponeses à morte pela fome nas cidades, em fuga do campo (Foto: Web)

Seja como for, em 1929 é iniciada a dissolução das pequenas propriedades agrícolas a fim de incorporá-las às fazendas coletivas. Os camponeses, que tinham visto com simpatia a revolução, resistem a entregar suas terras e seu gado, e a se associar às enormes empresas coletivas que, dirigidas por burocratas do partido, costumam ser pouco eficientes. As instruções de Stalin são rigorosas: aquela resistência só pode vir dos inimigos de classe que querem acabar com o socialismo, e deve ser esmagada sem piedade pelos revolucionários.

As brigadas comunistas percorrem os campos confiscando propriedades, gado, ferramentas agrícolas e sementes, e mandando para a prisão quem não colabora. Um dos chefes do Gulag, na Sibéria, envia um telegrama a Moscou pedindo que não lhe enviem mais detidos porque já não tem como alimentá-los. Ao mesmo tempo, um prisioneiro escreve para sua família: “Que maravilha! Eles me dão um pãozinho por dia!”

Entre 1932 e 1933,  há milhões de mortes e cenas arrepiantes de suicídios, assassinatos de crianças, saques e canibalismo

As colheitas começam a encolher, os roubos e ocultação de alimentos se multiplicam por todo lugar, Stalin insiste que o partido deve ser “implacável” em sua luta contra os sabotadores da revolução, e a fome entra em cena com suas terríveis sequelas: roubos, assassinatos, suicídios, aldeias que desaparecem porque todos os seus habitantes fugiram para as cidades na esperança de encontrar trabalho e alimentos. Os cadáveres já são tão numerosos que ficam estendidos nas ruas e estradas porque não há gente suficiente para enterrá-los.

Os testemunhos reunidos por Anne Applebaum são de arrepiar: há pais que matam seus filhos com as próprias mãos para que não sofram mais e, os mais desesperados, para se alimentar com eles.

Já comeram todos os cães, cavalos, porcos, gatos e até ratos que conseguiam pegar, e os comunicados que chegam à Ucrânia vindos de Moscou são cada dia mais urgentes: negar a fome e, principalmente, o canibalismo e os suicídios, e punir sem dó os verdadeiros causadores dessa catástrofe: os inimigos de classe, os fascistas, os kulaks, os responsáveis reais pelas calamidades que se abatem sobre a Ucrânia.

As instruções de Stalin são rigorosas: aquela resistência só pode vir dos inimigos de classe que querem acabar com o socialismo, e deve ser esmagada

Quantos morreram? Cerca de cinco milhões de ucranianos, pelo menos. Mas não há como saber com exatidão, porque as estatísticas eram forjadas pela disciplina partidária que assim exigia ou pelo medo dos burocratas do partido de ser punidos como responsáveis pela fome.

O Kremlin impôs, além disso, uma versão oficial dos acontecimentos que era reproduzida não só pela imprensa comunista, mas também pela capitalista, que fazia isso por meio de jornalistas vendidos ou covardes, como o repulsivo Walter Duranty, então correspondente do jornal The New York Times, que, comprado com casas e banquetes por Stalin, dava um jeito, em artigos que pareciam redigidos por um Pôncio Pilatos moderno, de apresentar um quadro de normalidade e desmentir os exageros de certos testemunhos que conseguiam vazar para o exterior sobre o que realmente ocorria na URSS e, principalmente, na Ucrânia.

Fome fabricada gerou milhões de vítimas (Foto: Web)

Uma das exceções foi o britânico Gareth Jones, quem conseguiu percorrer a pé o coração da fome durante várias semanas e contar aos leitores ingleses do jornal The Evening Standard os horrores vividos na Ucrânia.

Ler um livro como o de Anne Applebaum não é um prazer, e sim um sacrifício. Mas obrigatório, se queremos conhecer os extremos a que podem levar o fanatismo ideológico, a cegueira e a imbecilidade que o acompanham, e a irremediável violência que, mais cedo ou mais tarde, vem como consequência. A fome e as mortes na Ucrânia ajudam a entender melhor o terrorismo jihadista e a bestialidade irracional que consiste em se tornar uma bomba humana e explodir em um supermercado ou uma discoteca, pulverizando dezenas de inocentes.

“Ninguém é inocente!” era um dos gritos do terror anarquista segundo Joseph Conrad, que descreveu melhor do que ninguém essa mentalidade em O Agente Secreto.

Se ler o livro de Anne Applebaum provoca calafrios, como terão sido os anos que sua autora levou para escrevê-lo? Posso imaginá-la muito bem, imersa horas e horas em arquivos empoeirados, lendo informes, cartas de suicidas, sermões, e descobrindo de repente que está com o rosto encharcado de lágrimas ou que está tremendo da cabeça aos pés, como uma folha de papel, transubstanciada por aquele apocalipse.

Ela deve ter sentido mil e uma vezes a tentação de abandonar essa tarefa terrível. No entanto, continuou até o fim, e agora esse testemunho atroz está ao alcance de todos. Aconteceu há quase um século lá na Ucrânia, mas não nos enganemos: não é coisa do passado, continua ocorrendo, está ao nosso redor. Basta ter a coragem da Anne Applebaum para ver e enfrentar isso.

Saiba mais sobre o holocausto ucraniano (Holomodor) clicando AQUI.

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