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“O Touro”, “o Capim” e o quase apoio de Quincas Bem

Campanha política nos anos 60, em MossoróPor Paulo Menezes

Vez por outra me vem à lembrança a figura estimada de João Fernandes, cidadão de bem, comerciante importante, muito equilibrado financeiramente, querido por todos e muito conceituado em toda cidade de Mossoró.

Ocorria que em finais de semana, principalmente, gostava de tomar “umas e outras” e quando bebia, era o rei das presepadas. Nos bares por onde andava, ao  ser atendido pelo garçom sempre pedia “seis abertas”.

Seus companheiros de farra mais frequentes eram Mário Paula e Lenilton Moreira Maia.

Houve uma época, final da década de 1960, em que o mestre de obras e construtor Joaquim Alexandrino Saraiva, conhecido popularmente por Quincas Bem, resolveu ser candidato a prefeito de Mossoró. Os outros postulantes com real chance de vitória eram Jerônimo Vingt-Un Rosado Maia (O Touro), candidato da tradicional família Rosado e Antônio Rodrigues de Carvalho (O Capim), que já havia sido prefeito da cidade no período de 1958 a 1962.

Nessa nova campanha, Toinho, o Capim, teve o apoio decisivo de Aluízio Alves, grande líder político do estado e ex-governador.

A campanha de Quincas Bem não empolgou as massas. O ajuntamento de pessoas para ouvi-lo era cada vez menor. Seus eleitores eram sempre quatro “gatos pingados”. Nada mais que isso.

Num desses “comícios”, vindo de uma grande farra se aproximaram do palanque três amigos do candidato: João Fernandes, Lenilton Moreira Maia e  Mário Paula. Todos, logicamente, “daquele jeito”.

Foi quando o locutor anunciou com forte vibração a mais nova adesão a Quincas Bem. Ele mesmo… João Fernandes. Seria um apoio à candidatura esvaziada do candidato que concorria em faixa própria na campanha daquele ano de 1968.

João Fernandes foi anunciado como o próximo orador. Com rosto fechado, cara de estadista, subiu ao palanque e pegou o microfone com o fervor de quem manuseava um copo de cerveja.

Suas palavras foram curtas e definitivas:

– Mossoroenses, temos três candidatos a prefeito na eleição que se avizinha, dentre os quais a figura do meu amigo Quincas Bem. Homem digno, trabalhador e honesto. Apesar disso, comunico a todos que vou votar no “Touro”, mas quem vai ganhar é o “Capim”.

Foi aquele alvoroço e espanto no palanque e entre partidários do candidato, que acompanhavam a movimentação política.

O “Capim” realmente ganhou a disputa eleitoral por 98 votos de maioria, na campanha política mais acirrada de todos os tempos na terra de Santa Luzia.

Paulo Menezes é meliponicultor e cronista

Um ‘craque’ quase consagrado

Por Paulo Menezes

No tempo em que nosso estádio de futebol era na rua Benjamin Constant,  houve uma acirrada disputa do “esporte bretão” entre as equipes do Potiguar e Baraúnas, (Time Macho e Leão do Oeste) já grandes rivais àquela época, mas ainda sem serem conhecidas como protagonistas do chamado clássico  “Potiba”.Bola-murcha

O técnico interino do Potiguar era uma figura muito conhecida em Mossoró de nome João de Seu Né, sapateiro de profissão com especialidade em remontes de chuteiras e bolas de couro. Antes, tinha sido jogador de futebol defendendo as cores do Potiguar na posição de lateral-esquerdo.

Naquele tempo o piso do campo era de areia, sem o tapete verde do gramado e por isso mesmo muito irregular.

A competição se desenvolvia com grande participação dos torcedores, com direito a bandeiras, charangas, fogos e muita animação. Era um dia de festa na cidade.

O jogo permanecia empatado sendo que o time vermelho e branco contava no banco de reservas apenas com o concurso de Lenilton Moreira Maia.

Já ao apagar das luzes, faltando pouco tempo para o apito final, um jogador do Potiguar foi expulso forçando o técnico a introduzir  Lenilton como substituto, já que era o único “artilheiro” disponível.

Por não confiar nas qualidades do atleta, João de Seu Né relutou em fazer a substituição devida, preferindo ficar com um jogador a menos na peleja, mas pressionado pela torcida, mesmo contra sua vontade, eis que o reserva entra em campo na partida decisiva do grande clássico do futebol mossoroense.

No primeiro lance com a participação do estreante, após um cruzamento perfeito, ficou o desportista na pequena área adversária, só ele e o goleiro. Lenilton então “encheu o pé”. Só que ao invés de chutar a bola chutou o chão. A poeira levantou, a vaia comeu no centro e o técnico sem hesitar retirou imediatamente o ‘craque’, optando por ficar com 10 jogadores a correr o risco de infartar.

Foi a última vez que o atleta vestiu a camisa do alvirrubro, deixando frustrados seus amigos e admiradores.

Paulo Menezes é meliponicultor e cronista

Histórias de jogatina, amizades e “uma boa morte”

Por Paulo Menezes

Há um tempo já bem distante, eu fazia parte de uma turma alegre e divertida com a qual me reunia sempre em finais de semana, na residência de Tereza Leite, para jogarmos um carteado que varava a noite. Na verdade, quase sempre entrava pela madrugada.

Tereza, a anfitriã, sempre dizia que teria “uma boa morte” se ela acontecesse numa mesa de pif-paf. Que seja feita sua vontade. Amém! Foi num final de tarde desses que seu desejo foi atendido plenamente, como se obedecesse a um enredo teatral.cartas, carteado

O jogo se desenvolvia normalmente, quando Tereza com as nove cartas na mão, se inclinou levemente sobre o pano verde e sem nenhum grito de dor deu o último suspiro, após o infarto fulminante.

Como em algumas tragédias, às vezes ocorre o lado cômico.

Auri Leite, que fazia parte da jogatina e era perdedora contumaz, logo perguntou aos participantes:

– E agora? Quem vai prestar contas? Quem vai me pagar as fichas?

– Mas amiga, num momento desse você vai pensar nisso? – questionou um dos presentes.

Sem pestanejar, Auri retrucou:

– Eu sou muito mole mesmo! No dia que eu estou ganhando uns trocados aí acontece isso.

Nessa ocasião, eu não estava presente e quando tomei conhecimento da perda de uma amiga tão querida, logo me dirigi ao velório. Ao chegar,  a primeira pessoa que encontrei foi Lenilton Moreira  Maia, companheiro sempre presente no jogo das pintadas e perguntei sobre o fatídico acontecimento:

– Como foi isso, Lenilton?

Encobrindo a boca com a mão em concha, ele encostou a cabeça em meu ombro com ar pesaroso e desfiou a narrativa para o campo da jogatina, o que verdadeiramente não era o foco de meu interesse:

Tava armada num par de nove com um dez encostado, toda enramada…

Bem, não me contive o suficiente. Com enorme esforço administrei um riso travado titanicamente por lábios dobrados e presos entre os dentes.

Enfim, a mesma tragédia gerava outro quadro cômico.

Nossa amiga Tereza Leite há de entender e deve estar também dando boas gargalhadas.

Paulo Menezes é meliponicultor e cronista