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O pensador italiano

Por Marcelo Alves

Norberto Bobbio (1909-2004) foi, na segunda metade do século passado e já entrando neste nosso século XXI, um dos mais badalados pensadores políticos – militando, portanto, para além do conjunto dos “juristas” – da sua Itália e do mundo afora, incluindo o Brasil.

Foto do Corriere Della Sera
Foto do Corriere Della Sera

Bobbio nasceu em Turim, no rico norte da Itália, em uma família de classe média alta. Teve infância confortável e adolescência culta. Estudou na sua cidade. Ensino básico, médio e superior. Foi fascista na juventude (como, de resto, quase todos da sua geração em seu país). Mas, durante a 2ª Guerra, rompeu com a turma de Mussolini (1883-1945) e chegou até a ser preso. Sua praia era a filosofia do direito e, mais amplamente, a filosofia e a ciência política. Foi aluno de Gioele Solari (1872-1952) e influenciado por Pareto (1848-1923) e Kelsen (1881-1973).

Foi professor nas universidades de Camerino, Siena, Pádua e, finalmente, na sua alma mater de Turim. Tornou-se um homem de centro-esquerda. Um socialista crítico. E também um positivista no direito, sobretudo no sentido “positivo” dessa expressão (e me desculpem o jogo de palavras), como estudioso dessa teia de conceitos e termos que formam a ciência jurídica.

Escreveu muitíssimos livros e outros riscados. E recebeu distinções mundo afora, entre prêmios e doutorados honoris causa. Foi até senador vitalício da Itália. Faleceu honrado, quase centenário, na sua Turim.

Eu sempre simpatizei com o Bobbio defensor do estado democrático de direito. Defensor de uma democracia social e liberal (é possível, sim) e crítico dos exageros à direita ou à esquerda. Aquele de “A era dos direitos”, “Liberalismo e democracia”, “A teoria das formas de Governo”, “Direita e esquerda”, “O futuro da democracia” etc.

Posso estar enganado em tema tão caro a Bobbio, mas penso que foi a partir de um verbete do seu “Dicionário de Política” (Editora Universidade de Brasília, 1986) que descobri a diferença entre um sistema de igualdade formal, em que todos os benefícios ou encargos são distribuídos em partes iguais por todos, “o princípio aristotélico da Igualdade numérica – ‘serem igual e identicamente tratados no número e volume das coisas recebidas’ (Política, 1301 b) –, aplicado a tudo quanto cada um deve receber ou renunciar”, e um sistema de igualdade material, que deve superar essa igualdade aritmética para chegar à igualdade substancial, nivelando de forma relativa os homens, por meio de uma legislação que, tratando de modo distinto situações distintas, procura aplicar medidas aptas a evitar as desigualdades naturais, em prol dos hipossuficientes, sob os pontos de vista individual e social. Entre essas duas igualdades, à moda também de um Rawls (1921-2002), fico com a segunda.

Também sou admirador do homem preocupado com as obrigações do intelectual para com a política e a sociedade, como Bobbio fez em vida e expõe no seu livro “Os intelectuais e o poder: dúvidas e opções dos homens de cultura na sociedade contemporânea” (Editora Unesp, 1997).

Todavia, o que mais me impressiona em Bobbio é outra coisa. Algo que vai além do conteúdo mesmo da sua produção escrita, que, em termos de quantidade, é enorme. Ele e seus livros foram e são muito populares na Itália e fora dela, incluindo o Brasil. E a razão é simples para mim: poucos tiveram a capacidade de tratar de temas tão complexos de forma tão clara e com um poder de síntese tão necessário como Norberto Bobbio.

Peguemos aqui o mais árido dos amores de Bobbio: o positivismo jurídico, especialmente como método analítico de estudo dos conceitos e termos que formam a ciência jurídica, como já dito. Tenho em mãos “Teoria da norma jurídica” (EDIPRO, 2005), “Teoria do ordenamento jurídico” (Editora Universidade de Brasília, 1999) e a síntese da síntese “O positivismo jurídico: lições de filosofia do direito” (Ícone Editora, 1995), livro no qual, sobretudo na sua segunda parte (a primeira é dedicada à história do positivismo jurídico), ele funde os dois primeiros.

E é deste último livro que retiro uma suma de Bobbio com a qual muito me identifico: “dos três aspectos nos quais se pode distinguir o positivismo jurídico, me disponho a acolher totalmente o método; no que diz respeito à teoria, aceitarei o positivismo em sentido amplo e repelirei o positivismo em sentido estrito; no que concerne à ideologia, embora seja contrário à versão forte do positivismo ético, sou favorável, em tempos normais, à versão fraca, ou positivismo moderado”.

Admiro tanto Bobbio que ando até fazendo umas maluquices. Os livros acima citados, já com a intenção de escrever este texto, eu os comprei dia desses em um sebo da Cidade Alta. Todos seminovos e baratinhos. Menos de dez reais cada. O problema é que eu já os tinha, até na mesma edição. E isso não é coisa de pensador, seja italiano ou brasileiro. É coisa de bibliófilo fuleiro.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador regional da República e doutor em direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

A revolução do liberalismo social

Por Ney Lopes

Algo não previsível é a revolução nos conceitos do liberalismo como doutrina política, que vem sendo executado pelo Presidente Biden, dos Estados Unidos.liberalismo social, protesto, manifestantes

O filósofo inglês John Stuart Mill (1806-1873), o grande precursor do liberalismo social, defendeu a repartição justa da produção na sociedade; eliminação dos privilégios de nascimento e a defesa do espírito comunitário, ao contrário do individualismo.

Mais tarde, na década de 30, o chamado “New Deal” (Novo acordo) imaginado pelo presidente democrata Franklin Delano Roosevelt (1933-1945) levou a América a implantar corajoso programa de fortalecimento do estado, sem colocar em risco as liberdades da economia.

Consistiu na realização de obras de infraestrutura, créditos agrícolas, incentivo à organização sindical e a criação de mecanismos de proteção social.

Com pouco mais de 100 dias no governo, Joe Biden segue essa trilha.  Segundo o Departamento de Comércio dos Estados Unidos, o PIB norte-americano cresceu à taxa anualizada 6,4% no 1o trimestre em relação aos três meses anteriores. Esse resultado foi superior ao registrado no trimestre anterior, de 4,3%,

Biden está convencido da necessidade de fazer ruptura nos padrões ortodoxos da economia americana. Tais ideias eram taxadas pelo “trumpismo” como socialistas e comunistas, verdadeira heresia daqueles, que usam o governo para a geração exclusiva do lucro econômico e se esquecem do lucro social.

LOGO APÓS A SUA POSSE promulgou lei para enfrentar a pandemia da covid-19 de US$ 1,9 trilhão (cerca de R$ 10,3 trilhões), com um auxílio de US$ 1.440 para a população diretamente atingida pela crise. O governo já atingiu a meta de 200 milhões de doses de vacinas de coronavírus, agora já disponíveis a todos com 16 anos.

O desemprego está caindo, os pedidos de seguro-desemprego atingiram o ponto mais baixo na pandemia e as escolas reabriram para aulas presenciais. Biden assinou um programa de recuperação da infraestrutura da ordem de US$ 2,3 trilhões e outro para a educação, no valor de US$ 1,8 trilhão. É uma injeção de US$ 4 trilhões na economia dos EUA.

Biden reformulou a política externa dos Estados Unidos: retornou ao Acordo de Paris e à OMS, travou o financiamento do muro na fronteira com o México e anunciou a retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão.

A cada dia os Estados Unidos se transformam em vitrine a ser copiada pelas demais democracias e economias, com visão liberal e social. A meta de Biden é focar no crescimento “de baixo para cima”, ao gerar novos negócios, empregos e circulação de renda. A ajuda reduzirá a taxa de pobreza de 12,3% para 8,3%, o que significa tirar 12 milhões de pessoas da miséria.

Biden reativa o “Obamacare” (plano de saúde para os pobres, do governo Obama), que dá acesso a alternativas mais em conta para a população, que não consegue pagar os planos de saúde tradicionais. São assegurados benefícios para desempregados, pagamentos de US$ 1.400 por pessoa e crédito fiscal para famílias.

Essas políticas representam aumento de 20% na renda anual dos 25% de americanos mais pobres.

Verdadeiro exemplo, para aqueles que consideram a redução das desigualdades desequilíbrio fiscal e desrespeito ao teto. É possível cuidar da pobreza, sem populismo, ou messianismo, acreditando no retorno do dinheiro orçamentário, através do aumento do consumo e impostos.

Pobre gasta para viver; não especula na Bolsa!

Ney Lopes é jornalista, advogado e ex-deputado federal

Maluquice, ignorância ou safadeza?

Por François Silvestre

Esse troca-troca de acusações, agressões e desrespeito público a que chegou o “governo” Jair Bolsonaro (PSL) mostra de forma clara que essa gente não tinha preparo nem pra dirigir um time de futebol. Ou uma escola de samba.

A história nos mostra que o centro-direita é um conjunto ideólogo de defesa do laissez-faire, liberdade de mercado, liberalismo econômico. Possui no seu histórico nomes da mais elevada condição humana. Social democracia no capitalismo.

Mostra-nos também que o centro-esquerda é a fatia ideóloga da generosidade, da repartição, da promoção humana. Resume-se pela denominação de socialismo.

Ainda nos mostra que o centro é a ideologia da esperteza, fiel de uma balança que pesa o oportunismo. Mas, faz parte do jogo e cumpre suas regras.

Os extremos de direita e esquerda se encontram nas duas pontas do círculo, no centésimo octogésimo grau. De antagônicos na pregação, na verdade são vizinhos e cúmplices. Compõem a negação das ideias, pois o fanatismo não agasalha o pensar.

É onde estamos. Um governo eleito com o aval de um povo crédulo, ingênuo e deseducado. Que esperava milagres, desses que os evangélicos da modernidade vendem a torto e a direito. Quando se falava em democracia, na campanha, alguém respondia: “pela ordem”.

Era a palavra mágica da promessa contra a violência. Contra a violência, corrupção, desemprego, insegurança. Nenhum passo foi dado, sequer sinalizado, de que alguma coisa esteja sendo feita nesse rumo.

Só essa zorra ideologizada pelo viés da estupidez. Briga de cães. Pitbulls ou dálmatas enrustidos?

E somos os culpados. Ou como se dizia, no sertão: Quem pariu os maus teus que os balance.

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A chapa empresarial e o movimento de Flávio Rocha

Flávio: nada de endosso à chapa (Foto: José Aldenir)

A passagem pelo RN do comandante-em-chefe do Grupo Riachuelo, Flávio Rocha, para lançar o “Movimento Brasil 200”, acabou frustrando muita gente.

Sua palestra no Teatro Riachuelo à noite dessa quarta-feira (21), não sinalizou em nada para candidatura pessoal ou arranjo paroquial às eleições 2018. De novo, como tem sido há tempos, ele fez a defesa do “estado mínimo” e do livre mercado como panaceia para quase todos os males nacionais.

Nos bastidores, ele também não sinalizou com qualquer articulação pessoal para  endossar ou incentivar chapa empresarial a governo e Senado.

Ou seja, a bobagem que se espalhou em boa parte da mídia convencional e redes sociais à semana passada, não passou mesmo de uma tolice, outro balão-de-ensaio.

“A mais nova bobagem da indústria da especulação política no RN é a chamada ‘chapa dos empresários'”, sentenciamos na última sexta-feira (16).

Leia também: O despautério da chapa que não virá.

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A economia reage

Por François Silvestre

A reação da economia, mesmo tíbia, começa a buscar jeito. Não por mérito do governo, mas apesar do governo.

Impossível demonstrar isso aos “liberais” tupiniquins que nunca leram Marx. Tudo bem, mas deveriam ter lido Keynes, o que não fizeram.

Os da esquerda leram Gramsci, que nunca entendeu bulhufas de economia. E os da direita leram Olavo de Carvalho, a maior fraude intelectual dos novos tempos.

Sobre Olavo, que conheci pessoalmente, há de se fazer uma justiça: Ele declarou que seus seguidores, no Brasil, são tão idiotas que o fizeram desistir de ideia de uma “nova direita”.

O certo é que a economia começa a espernear, mesmo que os economistas não saibam explicar o porquê.

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