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Cabra marcado para morrer

Por Marcos Pinto

(Em memória do coronel Lucas Pinto).

A história é a mestra da vida, aludindo personagens em seu tempo e em lugar determinado. Patenteia rumos e prumos, alinhando-os com as forças presentes nos sustentáculos do Universo. O título que encima este despretensioso artigo vincula-se à icônica figura do coronel Lucas Pinto, do Apodi-RN (11.10.1899/ 06.02.1981).

Coronel Lucas Pinto ao lado do presidente Juscelino Kubitschek (Foto: cedida)
Coronel Lucas Pinto ao lado do presidente Juscelino Kubitschek (Foto: cedida)

Jovem ainda, participou da eleição do ano de 1922, em que o seu fantástico irmão coronel Francisco Ferreira Pinto (1895-1934)  disputou e foi eleito o Intendente municipal mais votado, o que o fez também eleito para ocupar a Presidência da Intendência, cargo que em Agosto de 1926 passou a denominação  de Prefeito Municipal.

Sempre pautou a sua vida cultuando a honestidade e o trabalho como elementos dignificantes da trajetória traçada pelo Supremo Arquiteto do Universo. Foi o único apodiense a participar ativamente da Revolução Constitucionalista de 1932.

De estatura mediana, físico raquítico, contrastava com a sua extraordinária capacidade de trabalho e a grandeza dos seus triunfos nas atividades que abraçou. Aprendeu as envolventes nuances da política sertaneja na velha escola do seu primo, o famigerado e respeitado coronel João Jázimo Pinto, sogro do seu irmão coronel Francisco Pinto.

Era articulado, manso e meticuloso no trato com os seus humildes e laboriosos conterrâneos. Trazia no sangue o determinismo e a pujança do seu bisavô paterno o capitão Vicente Ferreira Pinto (primeiro deste nome), que no ano de 1817 já comandava os destinos do Partido Conservador em Apodi (Vide Livro “A Zona do Por do Sol” – Raimundo Nonato).

Como magnânimo benfeitor, o coronel Lucas Pinto foi o único apodiense a comandar os destinos do município por quatro gestões.

Com o advento do Golpe Getulista de Outubro de 1930,  a oligárquica família Pinto perdeu o mando e o comando administrativo do Apodi. Os antigos opositores Tilon Gurgel, Juvêncio Barreto e Martiniano Porto, acumpliciados pelos bandoleiros e irmãos Quincas e Benedito Saldanha  galgaram o poder.

Já em 30 de Outubro de 1930, o truculento Tilon Gurgel foi nomeado prefeito-Interventor, o que  para ele representou uma espécie de desforra política, haja vista ter perdido  fragorosamente a eleição do ano de 1928 para a Presidência da Intendência do Apodi para o seu  figadal adversário político coronel Francisco Pinto.

A gestão de Tilon não teve nenhum fato administrativo digno de nota, gestão que durou apenas sete meses e cinco dias. Era tenaz e truculenta a oposição política à família Pinto, sendo certo que já no ano de 1922, o desembargador Felipe Guerra traficou influência para nomear um Juiz de Direito estritamente vinculado a ele, por estreita amizade, com objetivo único de perseguir os coronéis João Jázimo Pinto e seu primo e genro o coronel Francisco Pinto.

Este  tendencioso Juiz de Direito atendia pelo nome de João Francisco Dantas Sales, cuja atuação durou o período de 1922 a  1925, tempo em que hospedava ostensivamente em sua residência o famoso chefe de cangaceiros Benedito Saldanha, que inclusive foi nomeado Prefeito-Interventor do Apodi  em 10 de Janeiro de 1933, tendo sido demitido em 23 de Julho de 1933.

Ocorre que em 16 de Janeiro de 1933, os irmãos coronéis Francisco Pinto e Lucas Pinto se encontravam em Natal a convite dos ex-governadores José Augusto e Juvenal Lamartine, para participarem da fundação do Jornal “A razão”, que seria o porta-voz do Partido Popular, criado meses depois.

Eis que em uma edição do mês de Abril de 1933 foi veiculada extensa reportagem descrevendo a caótica situação vivida na cidade e município de Apodi, que tinha como prefeito-interventor o célebre bandoleiro Benedito Dantas Saldanha.

Tendo chegado às mãos do prefeito-bandoleiro um exemplar do dito Jornal , desencadeou um intenso processo de retaliação aos componentes da família Pinto. O certo é que no dia 18 de Abril de 1933, por volta das 10 horas da manhã, Benedito Saldanha despachou dois de seus jagunços, ostensivamente  armados de fuzis,  para irem buscar o Lucas Pinto em sua casa de comércio, e trazê-lo à sua presença para prestar esclarecimentos sobre informações de que os Saldanhas comandavam e acoitavam uma espécie de milícia  particular em sua fazenda em Caraúbas-RN.  Ao ser intimado pelos jagunços, Sêo Luquinha não se fez de rogado, acompanhando-os sem delongas.

Nesse ínterim, um circunstante que presenciara tão humilhante cena de condução coercitiva, logo localizou o afilhado do Sêo Luquinha – o destemido e intemerato Deca Cavaco (Manoel Ferreira Gama). Imediatamente se dirigiu ao prédio da Prefeitura, onde estavam postados os ditos dois jagunços, obstruindo a entrada de quem quer que fosse. O Deca era um sujeito alto, espadaúdo, saruê, e de temperamento em constante ebulição.

Ao pressentir  que os dois  desavisados jagunços iriam  impedir o seu acesso ao prédio e escadaria que conduzia ao pavimento superior, logo tratou de dar duas vigorosas mãozadas nos peitos dos dois jagunços do Benedito Saldanha. Eles caíram ruidosamente no chão, sem esboçarem nenhuma reação, dado a famosa valentia do Deca Cavaco.

O Deca irrompeu aos gritos na sala do prefeito Saldanha, tendo encontrado o mesmo com um rebenque (chicote) à mão, mandando Sêo Luquinha engolir três bolas de papel, feitas com o dito exemplar do jornal “A razão”. E sentenciou:  “Vim buscar o meu padrinho e quero ver se tem homem que me empate de levar comigo. Como o falso valentão Benedito Saldanha já tivera uma altercação com o Deca Cavaco, que lhe “agarguelara” pelo pescoço e o levantara com as duas mãos, deixando-o com as pernas balançando, não teve outra saída a não ser ficar resmungando, ruminando sua raiva entre esgares.

Três meses depois, o Benedito Saldanha era demitido do cargo de prefeito-interventor.

O certo é que o Benedito só apresentava valentia quando se encontrava comandando sua jagunçada composta por cerca de 40 cabras, geralmente foragidos de distantes lugares da Paraíba e de Pernambuco.

Com o covarde assassinato do seu irmão, coronel Francisco Pinto, ocorrido em 03 de Maio de 1934, o coronel Lucas Pinto empunhou a bandeira de luta e passou a comandar a política e os destinos administrativos do Apodi. Sua derrocada política aconteceu em 1962, quando o seu filho – doutor Newton Pinto – perdeu a eleição para o Sr. Isauro Camilo, cria político dele. Camilo havia rompido com o antigo  líder, após pegar todas as manhas e artimanhas da velha raposa política da ribeira do Apodi.

Inté.

Marcos Pinto é advogado e escritor

A antiga feira do Apodi

Por Marcos Pinto

Relembro, com intensa saudade, a nossa antiga Feira-Livre, que teve origem nas antigas aglomerações do antigo Barracão Municipal. O barracão municipal foi construído na terceira gestão do prefeito Francisco Pinto (1929/1930) e ficou exclusivamente para o movimento da feira.

Em 1937 foi ampliado pelo prefeito Lucas Pinto (02.02.1936/22.09.1940).

Os feirantes colocavam as suas bancas de miçangas como eram chamadas as mercadorias diversas e de pequeno porte, as bancas de jogos de roletas, de dados, de cartas de baralho, que os banqueiros com a habilidade dos seus truques enganavam as pessoas que participavam do jogo.

Lá também vendiam utensílios de uso doméstico feitos de barro, como potes, panelas, quartinhas; de palha de carnaúba, como urupema, bolsas, cestas, esteira; de madeiras, como mesas, cadeiras, tamboretes, pilão; artefatos de ferro, de uso doméstico; de couro que os fazendeiros usavam nas suas fazendas; materiais agrícolas fabricados na região, além de outras variedades de objetos.

As barraqueiras armavam as suas barracas de bolos de milho, de batata e pão de ló, e os famosos, potes de aluás, de milho e de ananás, que eram os refrigerantes da época, muito apreciados pelo povo tanto dos sítios como da cidade, juntamente com os pães doce da padaria de Antonio Duarte Dória, a única existente.

As verduras e os legumes consumidos eram apenas cebola em cabeça, cheiro verde, pimentão, quiabo, jerimum, batata doce e outros produzidos na região.

As frutas eram as regionais, que vinham da Várzea, dos sítios próximos da cidade, transportadas em lombo de animais.

Os cereais procediam das propriedades rurais da vizinhança, e eram trazidos para feira em velhos carros de bois que despertavam a cidade com seus gemidos característicos.

Eram colocados em caixões de madeira vendidos em litro (recipiente de madeira medindo 10 centímetros cúbicos) e cuia que continha cinco litros. Mais tarde apareceu o Instituto de Peso e Medida, que tornou obrigatório o uso da balança e do quilo, abolindo as velhas medidas.

Com o passar dos anos a feira foi crescendo e se estendendo pelas ruas laterais do Mercado, pelas Ruas Coronel João de Brito (frente do Mercado), Benjamin Constant (lado direito do mercado), Coronel João Jázimo (Por trás do Mercado) e Margarida de Freitas (Lado esquerdo do Mercado.

A foto mostra a feira na Rua Benjamin Constant, onde situavam-se as bodegas de Aurino Gurgel e Vicente Maia, e Padaria de Raimundo Sena.

O atual mercado público municipal foi construído na gestão do prefeito Dr. José da Silveira Pinto (31.03.1953/30.03.1958). Foi restaurado totalmente na primeira gestão do prefeito Valdemiro Pedro Viana (31.03.1969/30.01.1973).

Marcos Pinto é advogado e escritor