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O quinteto fantástico

Por Marcos Ferreira

Marcos Ferreira, Genildo Costa, Caio César Muniz, Cid Augusto e Rogério Dias (Fotomontagem e edição de imagem do BCS)
Marcos, Genildo, Caio, Cid e Rogério (Fotomontagem e edição de imagem do BCS)

Agora estou aqui a cismar com os meus botões sobre os antigos e os novos rumos de minha vida até o presente instante. Penso com carinho, e também de forma saudosa, nos vínculos de amizade estabelecidos ao longo de minha trajetória. Avalio essas questões e constato o quanto me distanciei fisicamente (ou nos distanciamos) de algumas pessoas queridas. Sim, apenas do ponto de vista físico, sem aquele calor fraterno e cotidiano de outrora.

Hoje estamos, como se diz, distanciados. Aqui e acolá nos avistamos nas esquinas das redes sociais, nos recantos da blogosfera.

Por uma razão ou por outra, manipulados pelos destinos que a vida nos reserva ou impõe, fomos na direção de outros horizontes e prioridades. Apesar desse afastamento físico, o nosso elo permanece, sobreviveu à diáspora que envolve a busca pelo pão. O papo tête-à-tête tornou-se raro, contudo volta e meia a gente se abraça através dos filamentos “internéticos”, recursos como (por exemplo) WhatsApp e Instagram.

Uma vez ou outra me aparece aqui um Túlio Ratto e mexemos no baú do passado, bebemos café, catamos retalhos de memórias ainda do tempo da Revista Papangu em papel, recordações com cheiro de naftalina, “pensamentos idos e vividos”, como clássico soneto “A Carolina”, de Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho.

É isto. Já não existe aquela nossa interação amiúde, tão intensa e salutar. Dessa época de ouro, mágica e extremamente profícua em nosso universo de verdes sonhos e primordiais atividades literárias, quero me dirigir com um abraço bem caloroso a quatro indivíduos dos quais nunca me esquecerei. Refiro-me aos senhores Rogério Dias, Genildo Costa, Cid Augusto e um tal de Francisco Caio César Urbano Muniz.

Formávamos, naquela metade dos anos noventa para os anos dois mil em diante, o que ora denomino de Quinteto Fantástico. Apenas para afrontar a Marvel.

Caio César Muniz foi o cara que me tirou da minha toca no Santa Delmira, num tempo em que eu tinha muito pouco acesso àquela Mossoró das letras, da cultura, da prosa, da poesia. Fomos apresentados pelo então poeta underground Cid Augusto e daí por diante Muniz (assim como Cid) me mostrou o caminho das pedras. Na sequência, por sermos articulistas do Caderno 2 do Jornal O Mossoroense, topamos com o trovador Genildo Costa.

Pouco após, por intermédio de Genildo, Cid e Caio, fui apresentado ao publicitário, poeta e artista plástico Rogério Dias. Eu e Muniz visitávamos o QG, a “oficina irritada” e multicor de Rogério quase que diariamente. Rogério é o sujeito do pavio mais curto, o tipo mais sensível e fascinante que já conheci.

Desempregado à época, pois ainda não havia conseguido o trabalho de revisor e copidesque no jornal, eu não tinha um tostão furado. Caio César Muniz pagava até mesmo as minhas passagens de ônibus para irmos ao Centro. Noutras ocasiões ele também não tinha grana, vinha a pé lá do Conjunto Integração e de minha casa a gente se mandava a pé para O Mossoroense ou para o ateliê de Rogério.

No mais das vezes eu primeiro manuscrevia meus textos e depois passava a limpo em uma bela Olivetti Línea 88 que ganhei de Rogério. A seguir entregava os poemas ou crônicas ao jornal. Daí a pouco, então, formamos isso que hoje denomino de Quinteto Fantástico. Cid era o crânio, o Homem Elástico. Rogério era o Coisa, o Homem de Pedra, porém com um coração de manteiga.

Muniz era o Tocha Humana, o elemento que incendiava nossos ânimos, tocava fogo no circo, inflamava plateias nos bares, escolas públicas, particulares e universidades, sempre audaz, intrépido. Eu, naturalmente, era o Homem Invisível, mais tímido do que uma jovenzinha recém-chegada a um lupanar. Isso no tempo em que ainda existiam essas casas de tolerância.

Foi nesse período que nos deparamos com figuras emblemáticas da poesia, da cultura mossoroense e potiguar, personagens de grande relevo como Luiz Campos, Apolônio Cardoso, Onésimo Maia, Lenilda Santos, Nonato Santos, Tony Silva, Augusto Pinto, Crispiniano Neto, Luiz Antônio, Raimundo Soares de Brito, Vingt-un Rosado, Aluísio Barros, Leontino Filho, Zenóbio Oliveira, Laércio Eugênio e o vate Zé Lima. Uma elite intelectual que nós olhávamos com reverência.

Genildo Costa era (ainda é) um músico e tanto. Naqueles primórdios, sem dúvida, ele representava o grande menestrel do grupo, autêntico cantador, dono de uma voz poderosa e ótima presença de palco. Artista nato, oriundo de uma família de excelentes escultores do verso, musicou alguns poemas de minha autoria, em especial o soneto “Caminhos Opostos”, os poemas “Minha Casa” e “Cores e Caminhos”. Este último Genildo usou para intitular o CD que ele conseguiu lançar na marra.

Além de mim, o mossoroense de Grossos musicou poesias de Luiz Campos, Rogério Dias, de Caio César, Cid Augusto, Maurílio Santos, Antônio Francisco e Crispiniano Neto. Em suma, é justo dizer que o Costinha gravou uma verdadeira antologia poética.

Reacendemos a chama da Poesia nesta vila, levamos a arte do verso para os coretos e vários outros pontos culturais da urbe. Naquela vitrine do Caderno 2, encontravam-se poetas e prosadores como Kalliane Amorim, Gustavo Luz, Líria Nogueira, Francisco Nolasco, Jomar Rego, Margareth Freire, Ricarte Balbino, Fátima Feitosa, Airton Cilon, Goreth Serra, Gualter Alencar, Silvana Alves, Clauder Arcanjo, Antônio Cassiano, Graciele Callado, Tales Augusto, Kézia Silmara, Misherlany Gouthier, Symara Tâmara e o nosso hoje estelar cordelista Antônio Francisco.

Eram poetas e prosadores às pampas. Tantos e tantas que esta minha memória de Sonrisal em copo d’água não consegue abarcar. Temos hoje antigos e novos talentos que coexistem de maneira harmoniosa. Indivíduos de uma quadra remota ao lado de uma turma jovem e não menos talentosa. Então, apesar da eterna falta de incentivo por parte dos governos municipal e estadual, a literatura ainda resiste. “Se foi assim, assim será”. Como na famosa canção do Milton Nascimento.

Marcos Ferreira é escritor

Livro com foco em júri e poesia terá lançamento este ano

Zé Luiz (Foto: Mundo Cordel)

No segundo semestre deste ano, o poeta e advogado José Luiz Carlos de Lima deverá lançar livro ambientado no universo dos cantadores, violeiros e poetas populares. A princípio não há precisão quanto à data.

Um enquadramento particular do livro será voltado para o universo do direito, onde ele já utilizou versos como peça de defesa, caso de célebre júri do pistoleiro Idelfonso Maia Cunha, o “Mainha”.

O livro deverá fazer um passeio pela cultura poética nordestina, com reprodução e comentários de versos de outro cantadores como Lourival Batista, Pinto do Monteiro, Otacílio Batista, Diniz Vitorino, Manoel Xundu e Ivanildo Vilanova, além dos mossoroenses Onésimo Maia e Luiz Campos.

A princípio, a intenção de ‘Zé Luiz’ era ter lançado a publicação no ano passado.

Mas este ano vai sair do forno.

Ah, vai!

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Grupo Arruaça estará em festival internacional de teatro

O Grupo Arruaça de Teatro foi selecionado  para participar da X edição do “FESTMAR – Festival Internacional de Teatro de Rua do Aracati”, no Ceará. O Arruaça é sediado em Mossoró e tem longa trajetória de trabalhos e apresentações.

O Festmar acontecerá de 23 a 27 de Julho de 2014. É um evento de grande repercussão e reconhecimento.

Boemia com Bartô e Luiz Campos: Arruaça

Dentre vários grupos do Brasil e do mundo o espetáculo “Nos Campos de Luiz” foi selecionado para se apresentar no evento. O Grupo Arruaça de Teatro será um dos três representantes do RN no Festival, juntamente com o Arte e Viva de Santa Cruz e o Arte e Riso de Umarizal.

Nos Campos de Luiz é resultado de um trabalho de pesquisa que o Arruaça vem desenvolvendo em torno da obra de Luiz Campos, poeta popular falecido em 2013.

Bartô e Luiz Campos

Dentro da vasta obra do poeta, o grupo escolheu cinco poemas que conta desde a infância de menino pobre, a causos de casamentos e amores malsucedidos, aventuras vividas em mesas de bar e cabaré. Embalado pela músicas de Bartô Galeno, o espetáculo narra entre outras, a vida de um boêmio que ao entrar num bordel encontra aquela que seria mais uma conquista amorosa.

Nascido aos 11 de outubro de 1939, o mossoroense Luiz de Oliveira Campos era poeta, repentista e cordelista.

Luiz Campos, homem simples, humilde, morava no bairro Lagoa do Mato, em Mossoró.

Faleceu no dia 13 de agosto de 2013. Faria 74 anos em outubro do mesmo ano.

 

Me enganei com minha noiva

Por Luiz Campos

Quando sorteiro eu vivia
Era o maió aperreio
Divido eu sê muito feio
As moça num mi queria
Quando prum forró eu ia
Com quarqué amigo meu
Eles confiava n’eu
Ia bebê e dançá,
No fim da festa, arengá,
E quem ia preso era eu!

E para arranjá  namoro
Eu toda vida fui mole,
Cantei samba, puxei fole,
Usei o cabelo louro
A boca cheia de ouro
Chega brilhava de dia
Pra toda parte que eu ia
Cheirava feito uma rosa
Mas quando eu caçava prosa
As moça num mi queria.

Eu dixe: – É catimbó
Que alguém butou e num sai
Que mãe casou cum papai
Vovô casou com vovó
Inté meu irmão Chicó
Muito mais fei do que eu
Namorou, casou, viveu
Cum quatro muié inté
Só eu num acho muié
Qui queira se esfregá n’eu???

Mas o diabo descuidou-se
E Deus do Céu se esqueceu
Vicença me apareceu
Cum uns zoião de bico doce…
Nosso oiá se misturou-se
Cuma feijão cum arroz
Se abufelemo nóis dois
Num zamô tão violento
Que maiquemo o casamento
Pra quatro dias depois.

No dia de se amarrar
Se arrumou eu e ela
Dei de garra da mão dela
Fui pra igreja casá
Cheguei nos pé do artá
Recebi a santa bença
Jurei num tê disavença
Entre eu e minha esposa
O pade dixe umas cousa
E eu fui vivê mais Vicença.

Cheguei in casa mais ela
Fui logo me agazaiando
Qui mermo eu ia pensando
Em drumí com a costela
Vicença fez uma novela
Por dentro da camarinha
Quebrou uns troço que tinha
E me amiaçô na bala
Findou drumindo na sala
E eu fui drumí na cunzinha!

Da vida eu perdi o gosto
Pruquê Vicença fez isso
De menhã fui pru serviço
Mas pra morrê de disgosto
Cheguei im casa o sol posto
Vicença me arrecebeu
Inté um café freveu
Butou pra nós dois tomá
Mas quando foi se deita
Nem siqué oiou pra eu.

Da vida eu perdi a crença!
De nome chamei uns trinta!
Botei a faca na cinta
E fui falá cum Vicença…
Ela deu uma doença
Quando eu falei de amô
E preguntou: – O sinhô
Pensa qui eu sou o quê?
Eu só casei cum você
Mode fazê um favô!

Bati com ela no chão
Puxei a lapa de faca
Torei-lhe o cós da casaca
E o elastro do calção…
Vicença tinha razão
De num querê bem a ieu…
Num era cum nôjo d’eu
E nem pruquê fosse séra
Sabe Vicença o que era?
ERA MACHO, QUI NEM EU!

Eu muito me arrependi
Pruquê me casei cum ela
Dei de garra da mão dela
E de menhã devorví
Grande disgosto eu senti
Qui quage morria, inté,
Home em traje de muié
Tem munto, de mundo afora
Só caso cum outra agora
Sabendo logo quem é.

Luiz Campos (1939-2013) – Poeta popular mossoroense

O velho deus da fome e o político mentiroso

Por Luiz Campos

Se a deusa inspiradora
Não negar-me inspirição
Eu vou versar uma cena
Que me chamou a atenção
De um velho e um político
Numa época de eleição.

Numa noite eu ia às trelas
Sem saber pra onde ia
Fui sair numa hodega
De uma periferia
E vi uma multidão
Fui saber o que havia.

Cheguei lá era um político
De paletó, de colete,
O bucho cheio de Whisky,
Caviar e rabanete
Improvisando um comício
Trepado num tamborete.

Como essas coisas chamam
Atenção do curioso
Eu pensei com meus botões
Não é hora de repouso
Eu vou ouvir meia hora
O político mentiroso.

O moço falava bem
Devido ter muito estudo
Puxava os “érres e ésses”
Caprichava o ponto agudo
Mas para iludir matuto
Nem precisa disso tudo.

No discurso prometia
Que se ganhasse botava
Água e luz em todo canto
Até emprego arranjava
Mas só da boca prá fora
Porque nisso nem pensava.

E prometia também
Fazer a Maternidade
Praça com parque infantil
Melhorar toda a cidade
E o povo de boca aberta
Pensando que era verdade.

De vez em quando ao outro
Candidato ele atacava
Partido bom, era o dele;
O do outro, não prestava
Apontava erros alheios
Mas os dele não mostrava.

De vez em quanto uma salva
De palmas aparecia
Porém um batia palma
Mas já outro, não batia
Um dizia: – Já ganhou;
Mas já outro não dizia.

E ele continuou
No rosário de promessa
Dizendo: – Vamos mudar
Pra melhor, a vez é essa.
Só porque todo político
Só confia na conversa.

Pedia voto pra ele
E pra outro candidato
E saiu mais de um moleque
Distribuindo retrato
Eu até recebi um
Mas joguei logo no mato.

Fiquei prestando atenção
Ouvi tin-tin por tin-tin.
Um dizia: – O homem é bom;
Outro dizia: – ele é ruim
Porque se ele prestasse
Não tava mentindo assim.

Ouvi um negro dizer:
– Vamos votar no rapaz
outro negro respondeu
– Quem votar nele só faz
retirar Jesus do trono
pra colocar satanás.

Vendo o povo dividido
Eu fiquei meio indeciso
Nisso falou um senhor,
Desses que possuem juízo
Quem votar em qualquer um
O povo tem prejuízo.

E ele continuou:
– Faço isso, faço aquilo
pois político demagogo
nem pra falar tem estilo
quando fala é “intirisse”
como cantiga de grilo.

Nesse momento um velhinho
Da idade de Noé
Desses que só dá um metro
Depois que se põe em pé
Gritou no meio do povo:
– me dê licença, seu Zé.

O senhor já falou muito;
Sei que o senhor fala bem
Mas se o senhor tem direito
Eu acho que a gente tem
Dê licença dez minutos
Que eu quero falar também.

Eu sou do século passado
Nem da minha idade eu sei.
Me criei sem ter escola
Não cresci, atrofiei
Mas em mulher e político
Até hoje não confiei.

O senhor vai desculpando
Que eu sou meio arigó
Político é como menino
Desses criado por vó
Que quer tudo quanto vê
Pede muito e come só.

Você prometo água e luz
Dizendo que é prá JÁ
Eu tenho plena certeza
Que não acontecerá
Mas se isso acontecer
De nós pobres, o que será?

Se o senhor botar luz
Todo mês cobra uma taxa
E só chega taxa alta,
Nunca chega taxa baixa
Que água e luz só dão certo
Pra quem tem grana na caixa.

E a luz tem outro troço
Entre os outros mais nojentos
Todo mês chega um papel
Cada papel, um aumento
E a gente fica sem luz
Se atrazar o pagamento.

Aumento em cima de aumento
Que de nós ninguém tem dó
Água e luz já estão mais caros
Do que mesmo o ouro em pó
Garanto que ninguém paga
Dois papéis de um preço só.

A água é do mesmo jeito
Dia tem, oito não tem
O órgão que distribui
Nunca explicou pra ninguém
Mas todo final de mês
Espere o papel que vem.

E se o asfalto passar
Acaba o nosso aveloz
Depois do tapete preto
O carro passa veloz
Pra matar nossas crianças,
Passar por cima de nós.

E essa maternidade
Isso é um plano perdido
Porque mulheres daqui
Quase todas têm marido
E as que não são ligadas
Só vivem no comprimido.

Quando o velho falou isso
O povo reconheceu
E quem gritou: – Já ganhou
Ai gritou: – já perdeu
E ele desconfiado
Do tamborete desceu.

Ainda tentou falar
Porém tudo foi em vão
Trepado não ganhou nada
Avalie tando no chão
Ainda estirou o braço
Mas ninguém pegou na mão.

Ele meio desajeitado
Pegou o carro e saiu
Com tanta velocidade
Chega a poeira cobriu
Em menos de um segundo
Numa curva se sumiu.

Mas como a derrota é triste
Eu sentí pelo rapaz…
Falar tanto, ganhar nada,
Mas quem promete e não faz
Só é bom que seja assim
Goze menos, sofra mais.

Me aproximei do velho
Perguntei: – como é seu nome?
Ele disse: – Sou José,
Mas me chamam “Deus da Fome”
Porque vivo revoltado
Com quem trabalha e não come.

Aí voltei para casa,
Fui dormir e não dormi
Passei a noite acordado
Pensando no que ouvi
E como estava sem sono
Este folheto escrevi.

Luiz Campos – (1939-2013) – Poeta mossoroense falecido à semana passada

Poesia perde a inspiração de Luiz Campos

Campos: poeta virtuoso

Morreu o poeta Luiz Campos, um patrimônio da cultura do Rio Grande do Norte. Quem passou a notícia há poucos minutos foi o poeta Crispiniano Neto.

Nascido aos 11 de outubro de 1939, o mossoroense Luiz de Oliveira Campos era poeta, repentista e cordelista.

Luiz Campos, homem simples, humilde, morava no bairro Lagoa do Mato, em Mossoró.

Internado

Faria 74 anos em Outubro deste ano.

Estava internado há vários dias no Hospital Regional Tarcísio Maia (HRTM).

Depois o Blog trará mais informações sobre o assunto.

Conheça mais Luiz Campos AQUI.

Só Rindo (Folclore Político)

Dedada poética

É 1965. Campanha ao Governo do Rio Grande do Norte em andamento, como sempre Mossoró está em ebulição. Ferve, respira e transpira política.

Poeta popular de extrema alma crítica, Luiz Campos é indagado por que é refratário à candidatura do monsenhor Walfredo Gurgel ao Governo.

Sem maior pausa, ele usa sua própria arte para responder:

“(…) Vou dizer por que não voto
Nesse Monsenhor Walfredo;
É que o partido de Aluízio
Tem uma mão mostrando o dedo.
E pobre só leva dedada;
Quando vê isso tem medo.”

 

Carta a Papai Noel

Por Luiz Campos

Seu moço, eu fui um garoto
Infeliz na minha infança
Qui eu sube qui fui criança
Mas pela boca dos ôto.
Só brinquei cum gafanhoto
Qui achava nos tabulero,
Debaixo dos juazeiros
Com minhas vaca de osso
Essas catrevage, sêo moço
Qui se arranja sem dinheiro.

Quando eu via um gurizin
Briancando de velocipe
De caminhão e de jipe,
Bola, revólve e carrin
Sentia dentro de mim
Desgosto que dava medo
Ficava chupando o dedo
Chorando o resto do dia
Só pruque eu não pudia
Pegar naqueles brinquedo.

Mas preguntei uma vez
A uns fio dum dotô:
Quem dá isso pra vocês?
Mim respondeu logo uns três:
-Isso aqui é os presente
Qui a gente é inocente
Vai drumi às vezes nem nota
Ai Papai Noé bota
Perto do berço da gente.

Fiquei naquilo pensando
Inté o Natá chegá
E na noite de Natá
Eu fui dromi m’a lembrando
Acordei, fiquei caçando.
Por onde eu tava deitado
Seu moço eu fui enganado
Qui de presente o qui tinha
Era de mijo uma pocinha
Qui eu mesmo tinha botado

Sai c’a bixiga preta
Caçando os amigo meu
Quando eles mostraro a eu
Caminhão, carro e carreta,
Bola, revólve , corneta,
E trem elétrico até,
Boneca máquina de pé,
Mas num brinquei só fui vê
E rusuvi escrevê
Uma carta a Papai Noé.

“Papai noé é pecado
Os outro se maltratá
Mas eu vou li reclamá
Um troço qui tá errado
Qui aos fio dos deputado
Você dá tanto carrin,
Mas você é muito rim
Qui lá em casa num vai
Por certo num é meu pai
Qui não se lembra de mim.

Já tó certo qui você
Só balança o povo seu
E um pobre quinem eu
Você vê, faz qui não vê.
E se você vê, porque
Na minha casa num vem?
O rancho qui a gente tem
É pequeno, mas li cabe
Será qui você num sabe
Qui pobre é gente também?

Você de roupa incarnada
Colorida, bonitinha
Nunca reparou qui a minha
Já tá toda remendada
Seja mais meu camarada
Pr’eu num chamá-lo de rim
Para o ano faça assim:
Dê meno aos fio dos rico
De cada um tire um tico
Traga um presente pra mim.

Meu endereço eu vou dá,
Da casa qui eu moro nela.
Moro naquela favela
Que você nunca foi lá.
Mas quando você chegá
Qui avistá uma paioça
Cuberta cum lona grossa
Cum dois buracão bem grande
Uma porta vêia de frande
Pode batê, qui é a nossa.

Luiz Campos é um poeta mossoroense praticamente ignorado pelo poder público municipal, que vende imagem – através de farta propaganda – de uma cidade como “Capital da Cultura”. Balela.

Esse homem simples é o maior poeta desta terra e vive em condições precárias. Poderia ser pior, não fosse o socorro de alguns amigos, gente solidária e consciente do seu valor atemporal.

Depois, com sua morte, certamente devem aparecer uns espertalhões para homenageá-lo.

Luiz Campos, um poeta na Amazônia

O curta mossoroense “Luiz Campos – O riso e o drama” foi escolhido para ser veiculado na terceira noite do festival Curta Amazônia, dentro da “Mostra curta em todas as telas”, no dia 3 de agosto, a partir das 19h, na Praça da Estrada de Ferro Madeira Mamoré, em Porto Velho (RO), que tem como alvo o público juvenil.

A produção local surgiu dentro do projeto Mossoró Audiovisual, que tinha por objetivo capacitar jovens para a produção do audiovisual.

O documentário tem direção geral de Carlindo Emanoel, direção de Américo Oliveira, produção de Bruno Campelo, Diógenes Silva, roteiro de Thiago Braga, edição de Edileusa Martins e direção de arte do Grupo Arruaça de Teatro.

O elenco conta com as performances de Socorro Assunção, Américo Oliveira, Augusto Pinto, Carlindo Emanoel, Diógenes Silva, Luiz Campos, com depoimentos de Genildo Costa, Rogério Dias, Antonio Francisco e Gustavo Luz.