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Uma avó revolucionária…

Por François Silvestre

…e seus descendentes conservadores. Bárbara Pereira de Alencar era republicana e revolucionária. A primeira mulher presa política no Brasil. Presa e torturada.

Meu bisavô, João Antunes de Alencar, filho do Exu, PE, era sobrinho neto de Bárbara. Também nascido na Fazenda Caiçara, onde nascera Bárbara. O romancista José de Alencar era seu neto. Pois bem. João Antunes de Alencar era Juiz de Martins, RN, quando da Proclamação da República, tendo renunciado à magistratura em solidariedade ao Império caído.

Aqui ele ajustou o casamento da sua filha Guilhermina, minha avó Mãe Guilé, com um filho de Bisinha Suassuna.

João Antunes de Alencar, filhos, noras, genros e netos. Mãe Guilé está de luto, viúva, ao lado dele (Foto de família)

O escritor José de Alencar era monarquista, tendo exercido cargos no Império e sido eleito senador pelo Ceará duas vezes, sem que o imperador o nomeasse. Há quem o acuse de escravocrata, mas sua atuação contra o tráfico negreiro, quando ministro da justiça do Império, atenua sem negar essa condição.

O pai do escritor, filho de Bárbara, era padre. Juntou-se com uma prima menor de idade, com quem teve mais de dez filhos. Dentre eles, o autor de “Iracema”, que nasceu em Messejana, CE, quando o atual Bairro de Fortaleza era Município.

Veja parte de um texto na Wikipedia sobre Bárbara de Alencar:

“Bárbara Pereira de Alencar nasceu no dia 11 de fevereiro de 1760 em Senhor Bom Jesus dos Aflitos de Exu, sertão de Pernambuco, na Fazenda Caiçara — pertencente ao patriarca da família Alencar, o português Leonel Alencar Rego, seu avô. Adolescente, Bárbara se mudou para a então vila do Crato, no Ceará, casando-se com o comerciante português José Gonçalves do Santos.[4][5]

A heroína republicana era mãe dos também revolucionários José Martiniano Pereira de AlencarTristão Gonçalves, e avó do escritor José de Alencar.[6][7]

No contexto da Revolução Pernambucana de 1817, foi presa e torturada numa das celas da Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção. É considerada, portanto, a primeira prisioneira política da História do Brasil.[8][9]

Morreu depois de várias peregrinações em fuga da perseguição política em 1832 na cidade piauiense de Fronteiras, mas foi sepultada em Campos Sales, no Ceará. Seu túmulo está em processo de tombamento”.

Esse texto é dedicado a Silvadabanca, na Praça D. José Gaspar, vizinhança da Biblioteca Mário de Andrade, Centro de São Paulo. (Foi do nome dessa fazenda, Caiçara, que tirei a denominação da fazenda de Isaurinha da Caiçara. Em A Pátria Não é Ninguém).

François Silvestre é escritor

O meu lado de ver e sentir

Por François Silvestre

Fui carola do catolicismo na infância. De rezar, confessar, comungar. Mãe Guilé foi minha primeira influência, no afago do seu jardim florido e no afeto que guarda minhas melhores lembranças da infância. Nunca mais eu tive nada parecido com a casa da minha avó. Seu jardim de jasmins e resedás.

Por essa dívida eu ainda concordo com Mãe Guilé? Não. A ela devo gratidão, mas abomino tudo que ela tentou impor-me de crenças e opiniões. Guardo seu colo, reverencio seu coração, mas dispenso seu pensamento. 

Depois, o Diocesano de Caicó. A primeira janela para o mundo. No trem sem linha, cujos catabis, nas estradas, de um velho caminhão de mangai eu ingressei na primeira e única universidade da minha iniciação.

Foi lá, nesse Colégio de padres, por quem guardo admiração reverencial, que comecei a duvidar dos deuses de Mãe Guilé. Monoteísmo de três deuses. Nada contra.

São os mitos mais fantásticos da criação humana. E o homem na ânsia de explicar-se criatura acaba criando os deuses que explicam sua existência. Criador criatura dos seus criadores.

Aí vem o fim da adolescência, o contato com teses revolucionárias, a constatação das injustiças sociais, o apelo à luta dosada de romantismo e esperança. Valia tudo pelo sacrifício pessoal. A negação do indivíduo, sacrificado pelo bem coletivo.

No que resultou? Na criação de mais um mito. Os deuses negados foram substituídos por novas divindades. Tudo mantido e alimentado no campo fértil do fanatismo.

Até que a ficha despenca. Ou despenha, igual a bananas maduras no cacho esquecido da bananeira.

A constatação histórica da falência dessa crença não me levou ao conluio com a crença antagônica. A esquerda foi a negação da minha esperança. A direita é a confirmação de que eu estava certo, mesmo errando.

Aqui eu mando um recado aos fanáticos. Tenho pena de vocês. Bocós. Vocês são manipulados e manipuláveis nesse embate de espertos aproveitadores da sua ignorância.

Rebanho. Cada lado cego da safadeza dos seus. E ávidos cobradores da sacanagem dos não seus. Mas todos são seus. Todos. E todos sobrevivem nessa patifaria porque contam, cada lado, com a burrice dos seus seguidores. De um lado e do outro.

A esquerda, que trocou o sonho pelo populismo esmoler; E a direita cujo sonho continua sendo a ganância.

Ambas irmãs, diferentes apenas na forma. O conteúdo é o poder, pra cujo alcance não há escrúpulo.

Não existe combatente mais fácil do que o estúpido. E o fanatismo é o estuário confortável da estupidez. Té mais.

François Silvestre é escritor

Casamento de arranjo

Por François Silvestre

Num Domingo de 1896, a Fazenda Cajuais se enfeita para celebrar o casamento de Quinquim e Guilé. Os noivos se conheceram naquela semana, pois o casamento fora acertado quase oito anos antes, quando da Proclamação da República, que fez o Juiz de Martins, pai de Guilé, retornar a Fortaleza, onde passou a morar na Rua Sena Madureira, centro da Capital cearense.

O dia foi marcado por festa e desgraça. Logo cedo, um garoto, encarregado de cumprir uma tarefa, põe o pé no estribo para montar num cavalo arreado. Antes de passar o pé direito por sobre a sela, o cavalo assustou-se com o grasnar de um ganso e partiu em disparada; arrastando, pelo pátio frontal da Casa Grande, o menino com o pé preso ao estribo. Ao ser seguro o cavalo, o garoto jazia sem vida.

À noite, após a celebração, um desafeto esfaqueia outro, respingando sangue no vestido da noiva. Duas mortes no mesmo dia. Foi assim que começou a vida de Guilé, no sertão potiguar, após abandonar o Conservatório de Música de Fortaleza, onde estudava piano.

Tinha doze anos, quando o casamento foi ajustado; agora, casava aos vinte anos. Quinquim completara quarenta anos.

Quinquim mantinha três outros relacionamentos, com amantes em Viçosa, Caieira, atual Almino Afonso, e Catolé do Rocha. Não largou nenhuma das mulheres. E Guilé fazia de conta que não sabia.

Cada uma delas recebia, mensalmente, uma feira de víveres, que incluía carne seca, queijo de coalho, goma pra tapioca, farinha, feijão, arroz e rapadura. Era um segredo do Polichinelo.

Fecha o pano.

Vinte anos depois, em 1916, morre Quinquim, aos sessenta anos. Guilé tem quarenta anos, com vinte filhos, dez naturais e dez de criação. Para cada filho nascido, outro era criado. Além de agregados, meeiros, vaqueiros, serviçais de casa, Cajuais era uma urbe. Viúva, o filho mais novo com apenas um ano. Minha mãe, a penúltima, tinha três anos.

Quinquim nunca se deixou fotografar. Não se conhece a sua face. Nesse ano de 1916, foi tirada a última foto de João Antunes e Auta Rodovalho, com os filhos, genros e alguns netos. Guilé está de preto, ao lado do pai. Cópia dessa foto está aqui na parede de Cajuais da Serra e na Casa de Cultura de Martins.

Dos mais antigos do que eu, de ouvirem dos mais antigos do que eles, soube de um episódio bem marcante a definir o caráter de Guilé. Ela mandou emissários às três amantes do marido finado, indagando sobre a quantidade da feira mensal.

Ela decidira manter a mesma remessa, sem alteração.

A de Viçosa, Maria Lopes, única cujo nome eu sei, mandou a relação. E recebeu a feira mensal enquanto viveu. A de Almino Afonso deu silêncio por resposta. A de Catolé do Rocha mandou um recado desaforado: “Diga a ela para enfiar sua feira no rabo”.

Ao saber da resposta, Guilé soltou uma sonora gargalhada e comentou:

“Era com essa aí que ele deveria ter casado”.

mais.

François Silvestre é escritor

* Extraído do Novo Jornal