Por Inácio Augusto de Almeida
Era um tipo baixinho, gordinho e tinha uma cara de safadinho. Andava sempre em companhia de um deficiente físico, a quem o Lopes costumava chamar de o único bideficiente físico do mundo. E explicava:
– Além do problema na perna, é deficiente, também, de caráter.

Mas a grande restrição não era feita ao bideficiente. O gordinho safadinho é que o Lopes não conseguia engolir. Mas como a profissão o obrigava a alguns sacrifícios…
– Doutor! Manda o quê, Doutor?
– Tô atrás do Sandoval. Preciso mandá-lo até Vargem Grande. Ele é forte e estamos precisando de um cabra forte para carregar o teodolito. Coisa de poucos dias, já que o trabalho da topografia está quase terminando.
– Então o trecho Vargem Grande/Urbano Santos está terminado?
– Não, Lopes, quase terminado. Se acabar logo como você quer, deixa de chegar dinheiro, há, há, há.
– Claro, claro (ladrãozinho safadinho). Mas o Sandoval só costuma aparecer aqui lá por volta das dez horas. Fica lendo até tarde.
– Pelo menos nestes dias que ele estiver carregando o teodolito não vai estragar a vista.
– Preste atenção no que eu vou lhe dizer, Doutor. O Sandoval ainda vai ser gente. E gente muito importante. Ele já tomou consciência de que somente através do estudo se consegue avançar na vida.
– Tá bom, Lopes. Me ache o Sandoval. Eu quero que ele viaje amanhã.
– Tudo bem, Doutor.
As portas de vai-e-vem do Grêmio 1º de Janeiro não paravam. Era um entra e sai constante.
“Rui Barbosa tinha razão. Como tinha. Eita nulidadezinha que não se cansa de triunfar, de rir da honra… Honra? Será que ele sabe o que é honra?”
Maurílio, dono do único laboratório de análises clínicas de São Luís, na sua indefectível indumentária branca, posou a mão no ombro do Lopes e o convidou a uma partida de sinuca.
– Vamos, meu Sócrates dos trópicos. Vamos a uma partida de bilhar?
– É o jeito, meu estimado “drácula”. Vamos às bolas, meu bom “vampiro”.
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Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador
(Continua no próximo domingo)