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A linguagem de cada tempo

Por François Silvestre

“Cessem do sábio Grego e do Troiano/ as navegações grandes que fizeram;/ Cale-se de Alexandre e de Trajano/ A fama das vitórias que tiveram;/ Que eu canto o peito ilustre Lusitano,/ A quem Netuno e Marte obedeceram:/ Cesse tudo o que a Musa antiga canta,/ Que outro valor mais alto se alevanta”.

Camões inicia duas aventuras épicas. A intencional: de responder a Homero que fincara nos versos a aventura dos gregos e a Virgílio, que cumprira papel semelhante na origem da aventura latina.

A segunda não foi intencional: estruturar o esqueleto de um idioma. A “última flor do Lácio, inculta e bela”; do dizer de Bilac. Que responderia à pergunta do tempo: “ora direis ouvir estrelas”.

Era o português uma algaravia, desde 1139, (Sec. XII) que se confundia com o galego, a linguagem da Galícia. Ganhou contorno morfológico com a obra teatral de Gil Vicente e o Cancioneiro de Garcia de Resende, (Sec. XV). Porém, foi a épica camoniana (Sec. XVI) que teve o mérito de criar o arcabouço sintático da língua que nos define.

Os Lusíadas, muito mais do que a louvação heróica das aventuras marítimas, é uma fábrica de metáforas. O forno que modelou uma forma de compor versos, na língua nascente.

A metáfora consegue remodelar o conteúdo opaco para fazê-lo brilhante, na forma recriada. Não fosse ela, a poesia seria apenas uma repetida composição de rimas. Sonoridade vocálica, pobreza poética.

A rima, nos Lusíadas, é pobre. Combinando mais das vezes desinências verbais. A metáfora, não. E é delas que ele tira a tintura dos versos para engrandecer pequenos atos. Ao dar-lhes feição maior do que o gesto.

A aventura grandiosa da circunavegação Lusitana vai se desenrolando ao apelo metonímico da mitologia. Com a cumplicidade de Vênus e Marte, sofrendo a oposição de Baco e Netuno.

A metáfora produz poesia. Ela é a rainha das figuras na composição do estilo. Dando nós onde há linha lisa e alinhando a linha onde há nós. Mesmo que seja poesia de pedra, rústica ou polida. Afagando o ouvido ou a leitura.

Dante, Shakespeare, Neruda degustaram metáforas. E deram vida à poesia nossa de cada dia. O resto não é resto, é metáfora do que resta da sobra. Onde se escondem os verbos nos porões da zeugma ou se omitem os nomes, nos escaninhos da elipse.

Aí não se pode esquecer a política nossa de cada noite. No Brasil de hoje, só a língua, mesmo maltratada, ampara a Pátria.

Só que a metáfora na política é a tentativa de esconder a verdade, muitas vezes feia, para vender a mentira falsamente bela. E o povo, metáfora da abstração, deixa-se enganar concretamente na mesma cumplicidade da metafórica democracia de faz de conta.

Na circunavegação da falsidade, institucionalmente estabelecida, senhora dos poderes e controles, o embuste ético humilha a língua de Camões. Té mais.

François Silvestre é escritor

O tempo, os tempos e suas medições

Por François Silvestre

Quem caça o tempo, para medi-lo ou compreendê-lo, sujeita-se à angústia de trazer o bornal vazio.

O tempo é arisco. Indomável corcel, que não aceita sela nem se dá à montaria.

O pensante, ancestral dos nossos dias, rudimentar da vida de querer entender-se, usou a observação dos astros, no céu infindo, para situar-se. A primeira situação, no espaço, foi relativamente bem sucedida.

“Navegar é preciso, viver não é preciso” diziam os navegantes fenícios. E no destino da navegação, sem tempo para contemplações, filosóficas ou poéticas, ocupados os dias ao comércio, à praticidade de sobreviver, eles inventaram as consoantes.

E foram as consoantes, pouco mais de vinte, que acasaladas à sonoridade vocálica do “a” ao “u” permitiram ganhar tempo na comunicação. Era tudo uma questão de tempo.

Os sons vocálicos, herdeiros da sonoridade dos grunhidos, de nascimento nas cavernas, cuja perquirição fonética limita-se aos movimentos palatais, anteriores ou posteriores, tônicos ou átonos, não bastavam à comunicação sofisticada. Isso, no espaço do Ocidente. Juntar a eles um símbolo inventado, a consoante, foi a chegada da luz na escuridão, afugentando trevas.

E a escuridão foi fundamental à comunicação. Ela e as distâncias. Na caverna, ao dia, a comunicação dava-se pela mímica. Bastava grunhir e gesticular. Ao escurecer, foi necessário o som organizado. Grunhir não bastava mais. Nasceu o fonema vocálico.

Depois, foi preciso buscar alimentos mais longe da caverna. Surgiu o tambor, ancestral longínquo do telégrafo.

O tempo do homem não é o conhecimento. É a sobrevivência. Conhecer das coisas foi atividade dos desocupados, artistas ou filósofos, a serviço do poder ou contra os poderosos.

Os que estiveram a serviço do poder viveram mais e tiveram vida  fácil. Os que se rebelaram viveram miseravelmente, ou pouco, na angústia melancólica de uma biografia do porvir. De inútil espera.

Mas eu falava de medir o tempo. E o tempo do texto tá quase sem espaço. Passou Janeiro, homenagem a Jano, Deus etrusco, onde era porteiro, ao virar introdução nos mitos latinos. Foi-se Fevereiro, também etrusco, da purificação; februus.

E Março? Partiu. Do Deus Marte ou dos Marços, povos perdidos nas fronteiras da Galícia. Abril foi abertura, ou Afrodite, nascida da carícia da espuma. Maio, que chega apressadamente e promete fertilidade, pondo véus nas cabeças do cio, nos noivados que enfeitam o alvoroço.

Se em Maio há o cio, a Deusa Juno garante a procriação saudável. É Junho, tempo da colheita. Na terra e no ventre.

Aí chega o poder. Julho é Júlio César, trinta e um dias. Agosto é Augusto César, com dias iguais. Bastou tirar um dia da purificação februária. É escasso o tempo de purificar.

Os quatro derradeiros são números. Da praticidade romana, antes da reforma gregoriana.

mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.