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Diário de um voluntário – XLIII

George foi um dos vários médicos que morreram em meio à batalha contra a Covid-10 no RN (Foto: cedida)
George foi um dos vários médicos que morreram em meio à batalha contra a Covid-10 no RN (Foto: cedida)

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

O padre Fábio de Melo tem o dom da palavra, aquilo que ele nas suas missas tanto afirma: “Senhor, dizei uma só palavra e serei salvo”. No seu livro É sagrado viver, há momento de pura salvação:

– “A vida tem cores cinzas quando vista a partir das retinas do porto. Navios em espera cumprem o destino de sacramentar partidas e chegadas”.

Um sábado de junho de 2020. Chamada de vídeo, logo cedo. Era George Bezerra, um amigo que a pandemia da Covid-19 nos aproximou mais ainda: um tentava aliviar a angústia do outro, todas as noites. Ele tinha sido meu colega contemporâneo de medicina e quando entrei na UFRN, logo assumindo a coordenação da residência de cirurgia, tive o prazer de ser o seu tutor.

Ele informava que estava indo para UTI e logo seria realizada a tão temida IOT (Intubação orotraqueal). Ele lutou bravamente, conseguiu até sair da UTI, o que nos deixou extremamente alegres, mas a Covid-19 mostrou a sua verdadeira face traiçoeira e George não resistiu.

Acordei hoje lembrando dele. E como a sua morte foi decisiva para minha decisão de ser um voluntário da pesquisa da vacina de Oxford/AstraZeneca.

Imaginem, há um ano, com tantos absurdos colocados por uma seita de fanáticos negacionistas, divulgando vídeos de chips e jacarés: não era fácil ser um voluntário da pesquisa…

Mas, o que dá significado a vida, tem que dá significado a morte. E isso só se consegue através do amor. E a amizade é o amor philia dos gregos.

O escritor Hermann Hesse, no seu livro Demian, tem uma bela passagem que reflete isso:

– “Os mortos permanecem vivos entre nós, com essencial de suas influências, enquanto nós seguimos vivendo. Às vezes podemos falar com eles, conversar e pedir conselhos, melhor do que com os vivos”.

Lembrar de George, hoje, após um ano de sua partida é a certeza de que só há morte, quando há esquecimento.
George, portanto, vive.

Vive em cada um dos seus amigos. Vive em cada vacina aplicada nos braços dos brasileiros que acreditam que só o amor vencerá o ódio e a ignorância.

Francisco Ediilson Leite Pinto Júnior é professor, escritor e médico