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A força do não voto e o decisivo papel da catequese eleitoral

Banido da Presidência da República após comandar um longo regime de exceção denominado de Estado Novo”, Getúlio Vargas mantinha postura de equidistância das eleições presidenciais de 1945. Contudo acabou sendo cabo eleitoral decisivo de um candidato na reta final da campanha: seu ex-ministro da Guerra – general Eurico Gaspar Dutra (PSD).

No dia 27 de novembro de 1945, cinco dias antes do pleito, ele pronunciou-se e defendeu o voto útil em favor de Dutra: “A abstenção é um erro. Não se vence sem luta, nem se participa da vitória ficando neutro”, resumiu em pronunciamento que contribuiu à vitória contra o principal adversário, o brigadeiro Eduardo Gomes (UDN).Noutro momento e num espaço geopolítico completamente diferente, a lição de Vargas segue valendo. Pode ser capaz de decidir os rumos das eleições sucessórias municipais em Mossoró, no próximo ano.

O não voto (abstenção/branco/nulo) é um contingente capaz de promover a vitória de um e a derrota de outro candidato, em face do tamanho de sua representatividade. Caso seja convertido para o modo ativo (voto válido), é uma massa poderosíssima.

Numa observação mesmo superficial e até simplista dos números das últimas eleições municipais (2016), em que houve vitória de Rosalba Ciarlini (PP), logo se contata que o não voto (ou alienação eleitoral) foi indiretamente importante à conquista dela. Bom número de eleitores não se identificou com ninguém e o capital próprio que a candidata possuía foi suficiente para fazê-la ganhar.

Dos 167.120 mil votantes habilitados, 131.988 tiveram votos validados. O não voto somou 35.073, sendo 22.683 (13,59%) de abstenções, 2.974 (2,06%) de votos em branco e 9.416 (6,54%) de votos anulados.

Eleições 2016

– Rosalba Ciarlini (PP) – 67.476 (51,12%)
– Tião Couto (PSDB) – 51.990 (39,39%)
– Gutemberg Dias (PCdoB) – 11.152 (8,45%)
– Josué Moreira (PSDC) –  1.370 (1,04%)
– Francisco José Júnior (PSD) – 602 (Votos inválidos)
– Branco – 2.974 (2,06%)
– Nulo – 9.416 (6,54%)
– Abstenção – 22.683 (13,59%)
– Válidos – 131.988
– Eleitores Aptos – 167.120
– Maioria pró-Rosalba Ciarlini de 15.486 (11,73%).

A maioria de Rosalba Ciarlini sobre seu principal adversário, Tião Couto (PSDB à época), foi de 15.486 votos (11,73%). Mas quando se somam os votos de todos os seus quatro adversários (um deles desistente, o então prefeito Francisco José Júnior-PSD), sua vantagem cai para apenas 2.362 votos (1,74%).

Tião Couto, Gutemberg Dias (PCdoB), Josué Moreira (PSDC) e Francisco José Júnior totalizaram 65.114 votos (49,38%), contra 67.476 (51,12%) de Rosalba.

Caminho pro vencedor

Da pré-campanha à campanha do próximo ano, as forças políticas envolvidas na disputa mossoroense não podem desconsiderar esses números e ignorar o poder decisivo do não voto. Identificar o porquê do alheamento e convencer parte dessa multidão a refletir sobre seu papel, deixando de ser um peso “neutro”, como identificou Getúlio Vargas, é uma missão arrojada que pode abrir caminho pro vencedor.

Há alguns meses, mesmo de forma tímida e desarticulada, algumas vozes oposicionistas passaram a defender a realização de uma campanha de esclarecimento para convencer milhares de eleitores que residem em Mossoró, mas que votam noutros municípios, a formalizarem domicílio eleitoral no município.

Eleitores aptos em Mossoró (10 Eleições Municipais)

2016 – 167.120

2014 – 164.940 (pleito suplementar)

2012 – 164.975

2008 – 153.027

2004 – 143.235

2000 – 127.894

1996 – 114.218

1992 – 99.623.

1988 – 80.397

1982 – 67.041

A esperança é de que possam provocar realização de um segundo turno, com alcance de 200 mil eleitores já no próximo ano. Trata-se de  um atalho complexo, baseado em desconhecimento mínimo dessa situação. Nas eleições estaduais do ano passado, o eleitorado em Mossoró foi de 174.189.

Poucas variações

Em relação ao pleito municipal de 2016, o aumento foi de 7.069 novos eleitores. Mas daí a saltar para 200 mil em tão  poucos meses, é puro delírio. Há uma estrada mais curta, apesar de acidentada, para se aproximar de um sucesso eleitoral.

Se há insatisfação, se existe indignação com o que se testemunha, não existe outra saída. O caminho não é sair da cidade ou se homiziar em casa. O remédio é ir às urnas. A classe política que se vire para ser convincente na catequese, até porque o não voto é um comportamento historicamente minoritário, com poucas variações de eleição para eleição, mas de suma importância na soma final.

Basta lembrar de Vargas.

Leia também: Conheça resultados e história de quase 50 anos de eleições municipais.

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Eleitor diz no Tocantins o que está “guardado” para outubro

No domingo (3), o estado do Tocantins realizou eleições suplementares para governador e vice, em seu primeiro turno. O resultado final desse pleito que chamou mais nossa atenção, sem causar qualquer estranheza, foi o total de votos extraviados. É o chamado “não voto”.

Simplificando: 43,54% dos eleitores não compareceram ou deixaram de escolher um candidato. Isso representa 443.414 votantes, quase a metade do eleitorado.

Segundo o Tribunal Regional Eleitoral (TRE/TO), as abstenções chegaram a 306.811 (30,14%). Os votos nulos somaram 121.877 (17,13%) e os votos em branco 14.660 (2,06%). O candidato mais bem votado, Mauro Carlesse (PHS), teve 174.275 votos.

Carlesse e Vicentinho vão disputar o segundo turno (Foto: Infográfico: Alexandre Mauro/G1)

Num comparativo com as eleições de 2014 ao governo, é fácil perceber o abalo nos números. Àquela ocasião, conforme o TRE/TO, abstenção-branco-nulo somados ficaram em 31,84%. Aumento de 11,7% nessa dispersão de votos.

Fenômeno parecido ocorreu ano passado no Amazonas, quando a evasão de eleitores também fora expressiva. À ocasião, o não voto totalizou 49,61% do colégio eleitoral do estado. O eleito, ex-governador Amazonino Mendes (PDT), empalmou menor votação do que a soma de votos nulo/branco e as abstenções. (veja boxe mais abaixo nesta postagem).

Sinal dos tempos. Como comentamos à época do pleito amazonense ocorrido no dia 27 de agosto de 2017, ele agora se repete em outro estado da federação e tende a se revelar como uma “onda” para as eleições deste ano em outubro.

Repulsa popular é crescente

Segue crescente a repulsa popular à política, aos políticos e aos partidos.

É algo de modo generalizado, sem controle e antídoto a curto prazo. Da direita à esquerda, de governismo à oposição, boa parcela da população só enxerga piratas e corsários.

Infelizmente, para quem se propõe a protestar contra tudo, todos e o que aí está, o não voto é um movimento inócuo. Sacramenta exatamente esse modelo e seus personagens.

No Rio Grande do Norte, estamos prevendo há muito e muito tempo: teremos situação muito parecida, com baixa renovação política e expressivo distanciamento do eleitor das urnas em outubro próximo.

As próprias eleições suplementares no Tocantins reiteram essa metástase da política e das instituições de estado e da “república” brasileira.

“Não voto” supera votos válidos no Amazonas no 2º Turno

Branco: 70.441 (4,06%);
Nulos: 342.280 (19,73%) nulos;
Abstenções: 603.914 (25,82%);
Total: 1.016.635 (49,61%).

Amazonino Mendes (PDT): 782.933 votos (59,21%);
Eduardo Braga (MDB): 539.318 (40,79%).

* A soma do total de abstenções, brancos e nulos é superior à votação do candidato vencedor, Amazonino Mendes (PDT).

A eleição suplementar de domingo foi convocada após a cassação do ex-governador Marcelo Miranda (MDB) e da vice dele, Cláudia Lelis (PV). Os dois foram considerados culpados por captação ilegal de recursos para a campanha eleitoral de 2014 pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Chegaram ao segundo turno, o atual governador interino Mauro Carlesse e Vicentinho Alves (PR). Na campanha e dia da votação, não faltaram denúncias de uso do poder econômico, compra de votos, gente detida por cooptação ilegal de eleitores e outras acusações do gênero.

Tudo como sempre, do mesmo jeito, para não ser diferente. E assim continuará, pois haverá sempre quem se proponha à venda do voto e gente comprando, nesse mercado eleitoral.

Vai piorar. Ainda não chegamos ao subsolo do fundo do poço.

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