Por Marcos Ferreira
Sendo bastante franco, pois é bom que exercitemos a franqueza de vez em quando, há certos dias em que me sinto inseguro, sem confiança no meu próprio taco, e alimento dúvidas de que estes meus malabarismos com as palavras possam agradar às pessoas que me leem, ou lhes servirem para alguma coisa, na prática. Vou logo avisando que não se trata de falsa modéstia. Não, senhoras e senhores.
Falo assim porque a leitura de alguns autores e obras me faz conservar meus pés bem firmes no chão, impedindo-me de inflar, de sair por aí com aquele ego e jactância tão peculiares aos narcisistas do universo intelectual, daqui quanto alhures.
É preciso (ao menos é o que eu acho) que as páginas que escrevemos sejam proveitosas para quem as lê. Do contrário, ainda que o texto seja muito aprazível e comportadinho, o leitor não cairá na mesma armadilha ou tapeação. Cativar o leitor significa oferecer-lhe bem mais que palavras adocicadas. A depender do indivíduo, do seu paladar ou nível glicêmico, há circunstâncias em que uma boa caneca de café amargo pode fazer mais sucesso que um pudim de leite.
Com isto, à maneira de Jorge Luís Borges, quero dizer que me orgulho mais dos livros que li do que daquelas que escrevi. Então, a exemplo destas crônicas dominicais, que meu editor Carlos Santos tem a coragem de publicar em seu concorrido blogue, minha verve é mediana, palavrinha esta com que me esquivo do termo medíocre, cuja acepção de maior notoriedade é depreciativa.
Apesar dos pesares, sem melhor desempenho noutro ofício, noutro mister, noutro ramo de arte ou atividade remunerada, insisto no manejo do alfabeto. Persevero nesta solitária carpintaria do nosso idioma, nos arriscados malabares da língua portuguesa, sobre a corda bamba e sem rede de proteção.
Tornei-me escritor porque não consegui ser outra coisa na vida. Fui incompetente ou fracassei em tudo o mais que me dispus a realizar. A minha carteira de trabalho é prova do meu acanhado histórico profissional, onde meu vínculo com uma fabriqueta de calçados talvez seja a atividade de que mais eu me orgulhe.
Escrever é minha apoteose, é o meu barato, a minha praia, meu oceano, a minha onda, o meu habitat. Exceto isto, sou um peixe fora d’água, um estranho no ninho, impostor. Entre letras e palavras, ouso afirmar, eu me sinto em casa, são e salvo.
Nessas horas penso no quanto é necessário valorizarmos e respeitarmos o tempo que nossos supostos leitores dedicam às páginas que produzimos. Leitores são plateia fina, preciosa, artigo raro, quase um luxo. Valorizemos tal categoria, não desperdicemos o tempo daqueles que nos leem com sensaborias, nonadas, empulhações, mixórdias.
Há ensejos em que o estimado leitor e a gentil leitora têm outros afazeres e preferências para o momento, além destas linhas que ora cometo sem grandes expectativas de aplauso, e findam pausando tais prioridades para saber o que estamos contando numa crônica subnutrida e de curto fôlego como esta.
NÃO RARO eu tenho a forte sensação, ao ler ou reler grandes obras de autores vultosos, nacionais quanto estrangeiros, de que somos (falo por mim) o substrato do substrato da literatura. Pois é, bate esse complexo de inferioridade, como se o que escrevemos (escrevo) fosse a escumalha, a borra da arte escrita. Papel aguenta tudo, é depositório de gemas preciosas e de pedras falsas.
Compreendo, contudo, que os leitores também são outros, quiçá mais indulgentes, inclinados a perdoar e até bendizer uma literatura, digamos, de brilho e quilate menores. O padrão de excelência e êxito de um escritor como Machado de Assis, para nos atermos aqui às letras nacionais, é altíssimo, virou unanimidade e transcendeu o próprio tempo. Mas não só da obra do grande Machado vive e é feita a literatura brasileira.
Então, minhas senhoras e meus senhores, fiando-me na diversidade de gosto e de plateia, na subjetiva margem do que venha a ser literatura de boa qualidade, sigo com a minha luta neste obscuro ringue das palavras.
De um lado, de estatura intelectual franzina, este sapateiro das letras. Do outro, sempre favorita e imbatível, a Literatura com os seus punhos de ferro. Várias vezes fui derrotado por pontos; noutras ocasiões, por nocaute, e beijei a lona. Entretanto, eis-me de pé, embora ligeiramente grogue, oferecendo a cara à tapa, sujeito a novos golpes de infertilidade e a novo tombo. Mas, como Davi perante Golias, não fujo da raia. Não teme a derrota quem da derrota é produto.
Por hoje, minhas senhoras e meus senhores, é só isto que lhes tenho a dizer. Perdoem a brevidade e a magreza deste velho tema: o ato de escrever, já tão batido, repisado e banal. Todavia não convém ficarmos aqui enchendo linguiça e a paciência do leitor. Até o próximo round. Isto é, domingo.
Marcos Ferreira é escritor