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A sucessão de Fátima Bezerra não priorizará sua vontade

Fátima, Lula, Walter e Gleisi Hoffmann: tudo amarrado (Foto: cedida)
Fátima, Lula, Walter e dirigente petista Gleisi Hoffmann em 2022: o presidenciável decidiu em 2022 (Foto: Arquivo)

Encontro dois amigos petistas de origem e de longo curso. Um deles lança duas previsões vinculantes. Duas em uma: “A governadora Fátima Bezerra (PT) vai ficar até o fim do segundo mandato. Ela não concorrerá ao Senado.”

Retruco na hora: “Será candidata ao Senado e, portanto, não concluirá o mandato.”

Fixado o impasse, cada lado passou a seu arrazoado. Tese e antítese, em busca de uma conclusão.

“A governadora não vai deixar o governo de mão beijada para um Alves (vice-governador Walter Alves-MDB),” ouço. Ela mesma foi clara em entrevista no Podcast de Thaísa Galvão,” suplementa.

De fato, a governadora em entrevista à jornalista e blogueira Thaísa Galvão, dia 25 de setembro último, admitiu essa possibilidade. Implicitamente atingiu o seu vice, como se antecipasse que ele não tem chance mínima de ser o candidato a governador do sistema. Cutucou a onça com vara curta.

“Uma hipótese que eu tenho que ser muito franca, muito sincera, é sim cumprir na íntegra meu mandato e cuidar da minha sucessão. Eu posso ficar até 31 de dezembro e cuidar da sucessão,” afirmou Fátima no Podcast.

Meu interlocutor cita o exemplo da Bahia em 2022, para arrimar sua tese. “O governador Rui Costa não concorreu ao Senado e ficou até o fim do mandato, mesmo tendo uma eleição certa.”

Vamos entender o que correu na Bahia. Seis e meia dúzia não são a mesma coisa aqui.

O governador Rui Costa (PT) realmente seguiu no cargo até o fim, 31 de dezembro de 2022, abrindo caminho para que o então secretário de Educação, Jerônimo Rodrigues (PT), fosse eleito à sua sucessão. O petista venceu ACM Neto (DEM, hoje União Brasil).

Aliado do Partido dos Trabalhadores, o senador Otto Alencar (PSD-BA) não quis correr o risco de disputar o governo estadual, como defendia uma ala do PT e o presidenciável Lula (PT). E o partido evitou colocar em xeque a aliança com PSD, no estado, se lançasse Rui Costa contra Alencar. Vale lembrar que não foi uma situação nova na Bahia.

Costa foi o segundo governador a continuar no cargo na Bahia (Foto: Jonne Roriz/Veja/Arquivo)
Costa foi o segundo governador a continuar no cargo na Bahia (Foto: Jonne Roriz/Veja/Arquivo)

O atual senador Jacques Wagner (PT) ficou até o fim do segundo mandato de governador em 2014,  viabilizando outro candidato petista – o próprio Rui Costa. O PP indicou o vice João Leão e o PSD apresentou Otto Alencar, vice-governador de Wagner, ao Senado. O arranjo deu certo naquele ano e continuou em 2018.

Os sacrifícios assumidos em 2014, 2018 e 2022, na Bahia, tinham uma razão: manter coalizão de forças poderosas: PT, PSD e PP. Mesmo assim, houve baixa. Ano passado, o PP rompeu essa composição e o lugar de vice acabou ficando para o MDB, com Geraldo Júnior.

No RN, pelo que transpirou a governadora à Thaísa, a razão disfarçada seria impedir seu vice Walter Alves de ser candidato do PT. Ora, ora. Portanto, ínfima semelhança com a situação da Bahia em 2022.

Para não se calar, meu interlocutor insiste: “O PT não vai dar o governo de mão beijada a ‘Waltinho’.” E reforça: “Fátima não quer.”

Reajo.

Fátima não terá vontade própria na hora de decidir a chapa de 2026, como não teve em 2022. Tudo foi resolvido ‘democraticamente’ por quem manda: Lula. Ele retirou o nome preferido da governadora e pré-candidata à reeleição, seu vice Antenor Roberto (PCdoB), fixando Waltinho no lugar.

Lula fez o que os baianos aprenderam há mais tempo: política. Candidato presidencial, ele precisava do MDB e sua capilaridade nacional, à vitória contra Jair Bolsonaro (PL). Walter Alves vice era uma das exigências do emedebismo. E assim aconteceu.

Para 2026, de novo quem manda vai decidir e os aliados e devotos no RN vão baixar a cabeça, murchar as orelhas e obedecer. Se Lula quiser Walter Alves candidato a governador, se precisar dele nessa posição, assim vai acontecer.

Deixei o germe da desconfiança na cabeça dos meus amigos petistas. Como nenhum de nós tem bola de cristal, vamos dar tempo ao tempo. E seguirmos em frente nessa amizade.

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