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O assassinato da palavra (“Palavricídio”) e o alfabeto infantil dos Emojis

Por Marcos Araújo

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Um dos fenômenos linguísticos desse tempo da digitalidade é a substituição da palavra pela figuração de um emoji. A humanidade, que um dia produziu Homero, Cervantes, Dante e Machado, agora se contenta com um polegar apressado e um rostinho amarelo piscando. Que triunfo.

Passamos milênios aperfeiçoando a linguagem — essa máquina complexa capaz de erguer filosofias, ciências e tragédias — para hoje substituí-la por um catálogo de figurinhas. É a consagração do Homo Sapiens versão fast-food: mastiga menos, pensa menos, fala menos. Basta um emoji e pronto: você comunica tudo… ou melhor, nada com aparência de tudo.

Não se trata de nostalgia filológica; trata-se de constatar um fenômeno linguístico preocupante: a regressão voluntária da competência verbal. A substituição sistemática de palavras por emojis não representa modernização, mas infantilização expressiva. E infantilização não no sentido doce: infantilização cognitiva, aquela que encolhe o pensamento ao tamanho de um balãozinho colorido.

O problema não é o emoji — o problema é o que ele substitui. Quando o ícone ocupa o lugar da frase, não economizamos tempo: empobrecemos o repertório mental. A linguística é clara e cruel: palavras não são ornamentos, são instrumentos de raciocínio. Ao abandoná-las, abrimos mão da única tecnologia capaz de organizar ideias complexas. O emoji, afinal, não argumenta; apenas sinaliza emoções básicas.

Há quem romantize o fenômeno, comparando emojis a hieróglifos. É uma analogia conveniente — e profundamente equivocada. Os hieróglifos eram sistemas semânticos sofisticados; os emojis são reações emocionais pré-fabricadas. Confundir ambos é o primeiro sintoma da crise linguística que fingimos não ver.

A linguística explica, mas o cotidiano comprova: quando você reduz palavras, reduz sentidos. Cada palavra abandonada é um conceito amputado, uma nuance enterrada viva. E ainda há quem comemore: “olha que lindo, agora todo mundo se entende!” Sim, claro. Basta reduzir a humanidade ao vocabulário emocional de uma criança de dois anos. Universalidade garantida.

Se a palavra é a espinha dorsal da civilização, o emoji é sua vértebra de plástico: simpática, decorativa e absolutamente incapaz de sustentar qualquer estrutura que não desabe ao primeiro vento.

Mas o melhor — ou o pior — é a ilusão de profundidade. O sujeito manda um 😔 e acredita ter comunicado sofrimento existencial. Um 😂 resolve qualquer conversa. Um ❤️ substitui qualquer afeto. É a terceirização absoluta das emoções: não formulamos mais sentimentos, escolhemos ícones.

Não deixa de ser trágico assistir à humanidade, orgulhosa de sua própria racionalidade, entregando sua herança linguística em troca de conveniência. Talvez, quando a última biblioteca silenciar, sobre apenas um símbolo iluminado na tela.

Provavelmente um 👍

Marcos Araújo é professor da Uern, advogado e escritor

A palavra é arte fugidia, uma arma

Por Honório de Medeiros

Foto produzida por Honório de Medeiros, de poema anônimo, escrito em muro sacro
Foto produzida por Honório de Medeiros, de poema anônimo, escrito em muro sacro

“As palavras valem também para isso, dar alguma existência aos nossos delírios”, disse Raduam Nassar em Cantigas d’amigos (Cadernos de Literatura Brasileira, Ariano Suassuna).

Ariano, entrevistado pelo “Cadernos”, em certo momento lembrou: “não sou um escritor de muitos leitores; costumo dizer que sou um autor de poucos livros e poucos leitores -, (…) Mesmo que eu não publique, tem um círculo de leitores que sempre lê o que escrevo”.

Retruca o “Cadernos”: “Este é um circuito antimoderno, o circuito da comunidade interessada”.

Qual uma confraria de amigos, na Idade Média, digo eu, onde foi iniciada essa tradição. Montaigne e Boétié, por exemplo.

Assim é, assim será o caráter dos tempos atuais e futuros, no qual a imagem evanescente e superficial é tudo, e as palavras, mesmo quando amalgamando belos e profundos textos, manjar para poucos.

A palavra é arte, arte fugidia, de domínio difícil e angustiante.

Relendo “O Crime do Padre Amaro” do imenso Eça, lá encontro essa ideia pela voz do seco Padre Notário:

– “Escutem, criaturas de Deus! Eu não quero dizer que a confissão seja uma brincadeira! Irra! Eu não sou um pedreiro-livre! O que eu quero dizer é que é um meio de persuasão, de saber o que será que passa, de dirigir o rebanho para aqui ou para ali… E quando é para o serviço de Deus, é uma arma. Aí está o que é – a absolvição é uma arma”.

A palavra é uma arma.

Recordo-me que dizia para meus alunos de Filosofia do Direito ser a confissão um inteligente serviço secreto, à serviço da aristocracia, para a manutenção dos interesses da elite dominante, nos tempos medievais.

A palavra: arte ou instrumento. Às vezes ambos ao mesmo tempo.

Não somente a palavra escrita, mas também a falada, mesmo aquela que suscita nossos delírios: arma com a qual nos ferimos.

Natal, em 7 de março de 2015

Honório de Medeiros é ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN, professor e escritor