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Exposição “Raízes de Mossoró” retratará o poeta Antônio Francisco

A população mossoroense conhece e admira o poeta, cordelista, historiador e escritor Antônio Francisco, mas terá uma oportunidade de conhecer de perto a história desse grande símbolo da cultura popular que orgulha a cidade.

Antônio Francisco é um símbolo da cultura popular nordestina (Foto: autor não identificado)
Antônio Francisco é um símbolo da cultura popular nordestina (Foto: autor não identificado)

O Partage Shopping Mossoró inaugura nesta sexta-feira (24/06) a exposição Raízes de Mossoró: Poeta Antônio Francisco, na Galeria Partage e que contará com mais de 80 itens do poeta, entre cordéis, livros, quadros de pintura própria, fotografias, troféus e medalhas, além de outros objetos pessoais de sua estima.

Com alto valor cultural e educativo, a exposição sobre o Poeta Antônio Francisco será realizada no período de 24 de junho a 24 de julho e estará aberta a visitação do público nos horários de funcionamento do shopping, todos os dias da semana.

Perfil

Antônio Francisco Teixeira de Melo é cordelista, escritor e historiador mossoroense, nascido aos 21 de outubro de 1949, em Mossoró, Rio Grande do Norte. É membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC) desde maio de 2006, onde ocupa a cadeira de número 15, cujo patrono é o poeta cearense Antônio Gonçalves da Silva, mais conhecido como Patativa do Assaré.

Reconhecido publicamente pela musicalidade de seus poemas e principalmente pela  relevância da sua produção literária, sua obra é alvo de estudo de vários compositores brasileiros, inspirando também uma nova e crescente geração de escritores populares de todas as idades, alguns deles conhecidos nacionalmente, como é o caso do cearense Bráulio Bessa.

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A triste partida

Por Patativa do Assaré

Setembro passou, com oitubro e novembro
Já tamo em dezembro.
Meu Deus, que é de nós?
Assim fala o pobre do seco Nordeste,
Com medo da peste,
Da fome feroz.

A treze do mês ele fez a experiença,
Perdeu sua crença
Nas pedra de sá.
Mas nôta experiença com gosto se agarra,
Pensando na barra
Do alegre Natá.

Rompeu-se o Natá, porém barra não veio,
O só, bem vermeio,
Nasceu munto além.
Na copa da mata, buzina a cigarra,
Ninguém vê a barra,
Pois barra não tem.

Sem chuva na terra descamba janêro,
Depois, feverêro,
E o mêrmo verão
Entonce o rocêro, pensando consigo,
Diz: isso é castigo!
Não chove mais não!

Apela pra maço, que é o mês preferido
Do Santo querido,
Senhô São José.
Mas nada de chuva! tá tudo sem jeito,
Lhe foge do peito
O resto da fé.

Agora pensando segui ôtra tria,
Chamando a famia
Começa a dizê:
Eu vendo meu burro, meu jegue e o cavalo,
Nós vamo a São Palo
Vivê ou morrê.

Nós vamo a São Palo, que a coisa tá feia;
Por terras aleia
Nós vamo vagá.
Se o nosso destino não fô tão mesquinho,
Pro mêrmo cantinho
Nós torna a vortá.

E vende o seu burro, o jumento e o cavalo,
Inté mêrmo o galo
Vendêro também,
Pois logo aparece feliz fazendêro,
Por pôco dinhêro
Lhe compra o que tem.

Em riba do carro se junta a famia;
Chegou o triste dia,
Já vai viajá.
A seca terrive, que tudo devora,
Lhe bota pra fora
Da terra natá.

O carro já corre no topo da serra.
Oiando pra terra,
Seu berço, seu lá,
Aquele nortista, partido de pena,
De longe inda acena:
Adeus, Ceará!

No dia seguinte, já tudo enfadado,
E o carro embalado,
Veloz a corrê,
Tão triste, o coitado, falando saudoso,
Um fio choroso
Escrama, a dizê:

– De pena e sodade, papai, sei que morro!
Meu pobre cachorro,
Quem dá de comê?
Já ôto pergunta: – Mãezinha, e meu gato?
Com fome, sem trato,
Mimi vai morrê!

E a linda pequena, tremendo de medo:
– Mamãe, meus brinquedo!
Meu pé de fulô!
Meu pé de rosêra, coitado, ele seca!
E a minha boneca
Também lá ficou.

E assim vão dexando, com choro e gemido,
Do berço querido
O céu lindo e azu.
Os pai, pesaroso, nos fio pensando,
E o carro rodando
Na estrada do Su.

Chegaro em São Paulo – sem cobre, quebrado.
O pobre, acanhado,
Percura um patrão.
Só vê cara estranha, da mais feia gente,
Tudo é diferente
Do caro torrão.

Trabaia dois ano, três ano e mais ano,
E sempre no prano
De um dia inda vim.
Mas nunca ele pode, só veve devendo,
E assim vai sofrendo
Tormento sem fim.

Se arguma notícia das banda do Norte
Tem ele por sorte
O gosto de uvi,
Lhe bate no peito sodade de móio,
E as água dos óio
Começa a caí.

Do mundo afastado, sofrendo desprezo,
Ali veve preso,
Devendo ao patrão.
O tempo rolando, vai dia vem dia,
E aquela famia
Não vorta mais não!

Distante da terra tão seca mas boa,
Exposto à garoa,
À lama e ao paú,
Faz pena o nortista, tão forte, tão bravo,
Vivê como escravo
Nas terra do su.

Patativa do Assaré – (1909-2002) – Poeta popular de origem cearense

 

O peixe

Por Patativa do Assaré

Tendo por berço
o lago cristalino,
folga o peixe
a nadar todo inocente.

Medo ou receio
do porvir não sente,
pois vive incauto
do fatal destino.

Se na ponta de
um fio longo e fino
a isca avista,
ferra-a inconsciente,

Ficando o pobre
peixe de repente,
preso ao anzol
do pescador ladino.

O camponês também
do nosso Estado,
ante a campanha eleitoral:
Coitado.

Daquele peixe tem
a mesma sorte.
Antes do pleito:
festa, riso e gosto.

Depois do pleito:
imposto e mais imposto…
Pobre matuto do
Sertão do Norte.

Patativa do Assaré (1909-2002) – Poeta, repentista e compositor cearense nascido em Assaré, sob o nome Antônio Gonçalves da Silva, que tem sua obra estudada até em instituições acadêmicas no Brasil e exterior.