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Serra de João do Vale tem marcas de disputas coloniais

Por Tárcio Araújo (para o Blog Carlos Santos)

Nesta segunda reportagem na série especial sobre a Serra de João do Vale (veja a primeira AQUI), que fica entre os municípios de Jucurutu, Triunfo Potiguar e Campo Grande no RN e Belém do Brejo do Cruz na Paraíba, vamos abordar o processo histórico desde seus primeiros moradores da etnia Pegas até a ocupação portuguesa.

Em princípio, era Pepetama a morada dos Pegas, seus primeiros habitantes.  Os silvícolas dominavam a região e viviam da caça, pesca e cultivo de mandioca. Mais para as ribeiras do rio Piranhas os indígenas Janduís a chamavam de Poockciabo; ‘montanha sagrada’.

"Tanques" dos holandeses são um vestígio da presença de novos ocupantes da terra indígena (Fotos: Duca Silva/Janúncio Tavares)

A primeira sesmaria (terreno abandonado ou inculto que os reis de Portugal cediam aos novos povoadores para ocupação e produção agrícola e pecuária) da antiga Pepetama data de 17 de junho de 1691. Seriam quatro léguas de terras doadas ao Capitão Manuel Vieira do Vale, como registra o professor e arqueólogo Valdeci dos Santos Junior em seu livro “Os índios Tapuias no Rio Grande do Norte”.

Mas antes disso, desde o início do século XVII os portugueses já empreendiam missões pelo sertão do Rio Grande e se fixavam em pontos estratégicos como as ribeiras do rio Piranhas. Pouco a pouco os lusos foram expandindo sua ocupação nos sertões feita a ferro e fogo sob o mugir dos bois e o relinchar dos cavalos.

Ao longo dos anos do século XVII se deram as primeiras criações de gado na região e consequentemente, a perseguição declarada aos índios nativos o que resultou em inúmeros conflitos e mortes.

Nova Holanda

Em 1631, após o avanço dos holandeses com a conquista de Olinda e Recife, a Companhia das Índias Ocidentais fundava a Nova Holanda no Nordeste Brasileiro. Esse feito fez com que as etnias tapuias buscassem apoio dos flamengos contra a opressão dos portugueses no interior das capitanias.

Marciliano, ou Marcilliaen, como chamavam os holandeses, era o indígena líder da etnia dos Pegas da serra de Pepetama que em 02 de Outubro de 1631 compareceu ao Conselho de Guerra Holandês, no Recife, enviado pelo líder da nação Tapuia, Janduí, e o grande guerreiro Oquenaçu, para propor aliança frente aos lusos no interior da Capitania. O que se consolidou nos anos seguintes durante o domínio batavo no Nordeste.

Alcino Simão, 78, de família antiga da serra, tem pele clara avermelhada e olhos azuis, que o caracterizam de raiz holandesa (Foto: Francinildo Silva)

Neste período se deu o avanço holandês no Nordeste em consonância com os indígenas. Diferentemente do litoral onde a principal produção era açucareira, nos sertões eles buscavam minerais preciosos.

Na Serra de João do Vale há vestígios Arquitetônicos deste período, como dois tanques de pedras em forma circular que denotam a presença holandesa. Como revela o professor e arqueólogo Valdeci dos Santos Junior:

– “As rochas graníticas no entorno das paredes desses tanques são herança dos holandeses quando ocuparam a região.  Eles chegaram a explorar a então serra de Pepetama em busca de minérios. Nesse tempo ainda não existia as cercas de arame farpado ou cercas de madeira, pois os cercamentos das terras só começaram em 1750.  Os holandeses tinham essa prática de cercar tanques naturais em lajedos que acumulavam água durante as chuvas, como forma de evitar que alguns animais viessem a morrer dentro desses tanques e contaminar a água usada para matar a sede deles e dos animais que eles criavam”.

Os documentos mais antigos também corroboram para a presença holandesa na serra de João do Vale, quando mencionam a existência de estruturas em pedra: “Vestígios de um antiquíssimo alicerce, feito de pedras, a uma distância de 1500 metros da pedra grande, que assinalava o poço da Água Fria, talvez ainda remanescente da chamada situação do flamengo”. Encontramos tanques que séculos depois ainda servem como reservatório, com cerca de 12 metros de diâmetro e dois de profundidade.

A partir de 1654, com o fim do domínio holandês no Nordeste, os portugueses retomaram seu avanço aos sertões expandindo as fazendas de gado, e impondo um verdadeiro massacre aos indígenas Tapuias e Janduís, o que culminou com a deflagração da chamada ‘Guerra dos Bárbaros’ no Nordeste brasileiro, até meados do século VXIII.

Leilão

Remanescentes Pegas que sobreviveram ao massacre foram transferidos para o litoral. A então serra Cepilhada rebatizada pelos luso-brasileiros, passou a regime devoluto. Finalmente em 19 de Novembro de 1761 é arrematada em Leilão pelo Capitão Mor João Bezerra do Vale por 420$000 (quatrocentos e vinte contos de réis). Desde então herdou o topônimo do seu donatário.

"Serra dos Pegas" foi área de disputas no Brasil Colônia, com índios, portugueses e holandeses (Foto: Francinildo Silva)

Processo de ocupação se intensificou no século seguinte com colonos oriundos dos brejos paraibanos, Cariri e Borborema. Os Ramalhos, foi a primeira família a ocupar os altiplanos da serra de João do Vale, por volta de 1840, oriunda da região de Conceição do Piancó na Paraíba.

Manuel Ramalho do Nascimento Junior e Isabel Marta da Conceição tiveram 17 filhos. Sobre esse fato o escritor João Ramalho, descendente desse ramo familiar, aponta: “Viviam eles do amanho da terra e da criação de gado grosso e miúdo”.

Câmara Cascudo em ‘Nomes da Terra’ volta seu olhar para a Serra de João do Vale ao descrever o cenário do lugar nas primeiras décadas do século XX:

“A Serra do Doutor, antes dos espigões paralelos e do “Alto da Lancinha”, se distende um contraforte…A serra se ergue adiante, massiva e alta, com o nome de João do Vale. A serra tem habitantes e plantios. Lavourinhas e distende-se vagarosamente pelo dorso compassivo do monstro. Casitas, Cachicholos, baiucas, lugarejos sem nome, arruados desconhecidos, crescem assustadoramente numa expansão de força viva da terra fecunda. Raro é, todavia, a casa de tijolo”.

No final do século XIX, um dos filhos do casal Manuel Ramalho e Isabel Conceição, Joaquim Ramalho, de inclinação religiosa desde a infância, protagonizou um movimento messiânico que reuniu milhares de peregrinos na Serra de João do vale. Este momento da história vamos abordar na próxima reportagem especial Serra de João do Vale.

Uma morte a ser lamentada

Após conclusão de etapa de coleta de material de campo, como entrevistas, recebemos a notícia na sexta-feira (11), que o escritor João Ramalho, 89 anos, tinha falecido acometido pela Covid-19, em Natal, onde residia e onde o entrevistamos em julho do ano passado.

Escritor João Ramalho faria 90 anos em agosto, mas foi vítima da Covid-19 em Natal (Foto: Adriano Pinheiro)

O escritor João Pegado de Oliveira Ramalho, funcionário público federal, era aposentado pelos Correios. Suas obras destacam a cultura e a memória regional. Nascido em 1930 no sítio Cruzeiro, Campo Grande- RN, João Ramalho gostava de prestigiar suas raízes.

Escreveu obras como “Campo Grande – Monografia Histórica Geográfica”, “Histórias Alegres do Povo de Campo Grande” e “O Beato da Serra de João do Vale”, além de vários outros trabalhos. Completaria 90 anos dia 25 de agosto próximo.

Que descanse em paz! E muito obrigado.

* No próximo domingo (19) teremos a terceira reportagem dessa série. Aguarde.

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Serra de João do Vale, um destino a ser descoberto no RN

Por Tárcio Araújo (Para o Blog Carlos Santos)

Imagine um lugar onde os seus moradores ainda conservam costumes sociais como sentar todas as tardes e noites no alpendre para prosear; contar histórias, onde a carne de sol é batida no pilão e o almoço preparado na panela de barro em fogo à lenha.

Ecoturismo, contato direto com vegetação preservada e imagens idílicas, revelam potencial da serra (Foto: Francinildo Silva)

Um lugar de religiosidade forte, onde se reza as novenas, tradição que lembra os tempos dos nossos avós e antepassados até mais longínquos.  Um lugar onde a natureza ainda dar o tom de verde com árvores nativas que já não vimos mais no sertão catingueiro; onde o canto dos pássaros é a sinfonia que ecoa pelo a brisa úmida das manhãs, com temperaturas que chegam até 14° em alguns meses do ano.

Um lugar onde as pessoas vivem muito tempo; alguns com mais de cem anos. O segredo de tanta longevidade talvez seja o leite e o queijo feitos lá mesmo. Talvez seja a fava sem amargo que brota dos terrenos arenosos, ou quem sabe o clima temperado que predomina durante o ano. E talvez seja o conjunto de todas estas coisas juntas, onde o tempo parece passar em marcha lenta.

Esse é o cenário da Serra de João do Vale, a cerca de 730m de altitude, estendida por 277km² entre os municípios de Jucurutu, Campo Grande e Triunfo Potiguar no Rio Grande do Norte e Belém do Brejo do Cruz na Paraíba. Fica a 130 quilômetros de Mossoró e 275 de Natal.

Até hoje sem pavimentação ou asfalto que leve os visitantes até o seu platô, o acesso é feito por estrada carroçável, tanto por Jucurutu quanto por Triunfo potiguar. Em tempos de chuva, esse acesso fica ainda mais difícil, recomendado apenas para veículos 4×4.

A REGIÃO tem sido explorada pelos amantes de todo terreno, o off-road (veja AQUI, AQUI e AQUI). Muitos se aventuram em eventos já reconhecidos e existem aqueles que fazem sua própria rota ou enveredam pela “Trilha do Pacifico”, considerada a mais íngreme e acidenta do Rio Grande do Norte.

Jipieiro desafia a Trilha do Pacífico na Serra de João do Vale (Foto: arquivo/2019)

É somente o barulho dos motores em dias de aventura, que quebra o silencio da localidade.  A dificuldade de acesso talvez tenha sido o fator primordial para a preservação dos costumes e da natureza em seu entorno. Um ponto positivo!

Seus primeiros moradores foram os índios Pegas que a denominavam de “Pepetama”. Os Tapuias (Janduís) a conheciam por “Pookiciabo” (informações do livro “Os índios Tapuias do RN”, de Valdeci dos Santos Júnior)..

Depois os holandeses penetraram seus sertões quando da ocupação batava no território potiguar entre 1630 a 1654. Até hoje há vestígios da passagem holandesa.

A partir do domínio português, após a “Guerra dos Bárbaros”, em 1713 a serra ganhou a alcunha de Cepilhada e em 1761 é adquirida em leilão pelo Capitão-Mor João do Vale Bezerra. Seu dono virou topônimo preservado até hoje.

Mortes e abandono

De lá pra cá, a serra teve uma ocupação lenta e foi sempre ignorada pelas autoridades públicas. No final do século XIX, por muito pouco um movimento messiânico liderado pelo religioso Joaquim Ramalho não ganhou contornos de uma versão potiguar do que foi Canudos na Bahia. Esse fato foi registrado pelo escritor Câmara Cascudo.

No século XX, o algodão foi a primeira grande cultura agrária do povoamento. Depois vieram o caju e a fava como fontes de produção e sustento de sua população nativa.

Antonio Francisco da Silva ( sêo Virô) 92, um dos moradores mais antigos. aprendeu a ler e escrever com o Mobral. Sua vó participou do movimento messianico do beato joaquim Ramalho em 1899. (Foto: Francinildo Silva)

Isolados durante séculos, sem acesso e sem estradas, os moradores padeceram de assistência. O lugar é marcado por um passado de mortandade de crianças e de mulheres grávidas que sem atendimento agonizavam até a morte, no parto.  Lembranças tristes que permeiam até hoje a memória da comunidade; histórias passadas pela cultura oral de pai para filho, de pai para filho…

No final da década de 70 do século XX, o Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL) foi o divisor de águas à sua gente. Visto como um programa educacional federal fracassado, no propósito de tirar milhões de adultos do analfabetismo, ao ser extinto em 1985 deixou alguns legados na serra. Muitos aprenderam além do beabá, moradias ganharam melhorias estruturais e sanitárias.

Foi também por meio dessa iniciativa, que foi construída a primeira estrada da comunidade, por volta de 1980. Ligava-a ao que é hoje o município de Triunfo Potiguar.

Atualmente, quase 2.000 mil pessoas moram no alto da serra, distribuídas por 05 comunidades chamadas de “Chãs”. As condições de hoje são melhores do que no passado, com energia elétrica, unidades de saúde e escola para as crianças. No entanto o abastecimento d’água ainda é precário.

Pavimentação

Um outro gargalo é a falta de pavimentação dos 19 km até Jucurutu. É um um pleito da comunidade que já perdura há mais de quatro décadas. Seu custo é estimado em cerca de R$ 25 milhões. Noutra frente, há um acesso por Triunfo Potiguar com cerca de 17 quilômetros, com cerca de um terço tendo pavimentação deteriorada a paralelepípedo.

O futuro que se avizinha é de expectativa para o desenvolvimento do turismo serrano com seu vasto potencial climático e paisagístico.  Mas para isso, a construção da estrada é o primeiro grande desafio a ser superado.

Natureza exuberante, clima e tranquilidade revelam potencial turístico do lugar (Fotos: Francinildo Silva)

Em outra frente, há estudos e experimentos para instalação de unidades de energia eólica na área, aproveitamento do ecoturismo e do turismo de aventura. Belezas exuberantes não faltam.

Nesta série de 05 reportagens (Especial Serra de João do Vale), vamos trazer as histórias de um lugar rico em cultura e tradições, de personagens reais e de belezas naturais pouco conhecidas. Um cantinho do estado do RN que até parece não existir. Enfim, não existe mesmo no mapa das autoridades e para a enorme maioria dos norte-riograndenses, sequer para aposta num turismo doméstico.

Mas não se engane: a Serra de João do Vale vai ser um destino no roteiro de muita gente que ama a natureza. Quando? Esperamos que não dure mais umas quatro décadas. Todos temos pressa em usufruir, de forma sustentável, desse paraíso em pleno sertão nordestino (veja vídeo abaixo com o amanhecer na serra).

Seja bem-vindo ao Especial Serra de João do Vale. Aguarde as próximas reportagens.

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