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O papel da retórica de Hitler em meio ao caos

Hitler confiava tanto na sua oratória que participou de mais de 500 atos eleitorais, a maioria comícios. GETTY IMAGES

Por Miguel Ángel Criado (El País)

Em apenas cinco anos, entre 1928 e 1933, os nazistas deixaram de ser uma força marginal para ganhar as eleições nacionais da Alemanha com quase 44% dos votos. Nesse meio tempo, seu líder, Adolf Hitler, participou de mais de 500 atos por todo o país. Houve dias em que esteve em cinco cidades diferentes, sendo o primeiro político a usar o avião para ir aos comícios. Entretanto, uma exaustiva análise dos resultados eleitorais daqueles anos mostra que o partido nazista não teve um extra de votos onde Hitler subiu no palanque.

Depois de seu fracassado golpe de Estado de 1923 e de uma breve estadia na prisão, Hitler estacionou sua ideia de tomar o poder pela força e apostou na via eleitoral —queria acabar com a democracia por dentro—. Para muitos, é então que surge o Hitler político. De verbo fácil e uma reconhecida habilidade para o discurso político, confiava em sua capacidade de mobilizar as massas. Além disso, em um partido tão hierarquizado e militarizado como o Nacional-Socialista Operário Alemão (NSDAP), todo o protagonismo era para o chefe.

“Por isso sabemos sobre a estratégia de campanha dos nazistas, não foi só que Hitler concebesse tudo. Ele mesmo parecia acreditar no poder de sua retórica e achava que era talvez a ferramenta de propaganda mais efetiva que tinham, mais do que os jornais, por exemplo”, diz o pesquisador Simon Munzert, da Escola Herthie de Governança de Berlim e coautor do estudo.

À frente do seu tempo

“Não chegaria a descrever Hitler como o primeiro político moderno, porque isto implica analogias com o político moderno genérico, mas a campanha nazista e as ferramentas que usaram estavam à frente do seu tempo, ao menos na Alemanha”, acrescenta.

No púlpito, Hitler discursa para multidão (Foto: Web)

O papel central do líder se traduziu em uma frenética atividade política nas cinco eleições parlamentares e uma presidencial em dois turnos das quais participou. Entre março de 1927, quando foi revogada a proibição de falar em público imposta pelo juiz ao lhe conceder a liberdade condicional, até a noite anterior às últimas eleições democráticas, em março de 1933, Hitler participou de 566 atos políticos, a maioria comícios.

No princípio, só algumas centenas de pessoas compareciam. Mas, já em 1932, até 100.000 foram ver o líder nazista no estádio Victoria, em Hamburgo. Estima-se que 4,5 milhões de pessoas compareceram aos seus comícios. Qual foi o impacto eleitoral dos discursos de Hitler?

“Nossos resultados sugerem que foi completamente inapreciável”, sustenta o pesquisador alemão. Com seu colega Peter Selb, cientista político da Universidade de Konstanz (sul da Alemanha), Munzert repassou os registros eleitorais das seis eleições em 3.864 municípios e 1.000 condados. Seu trabalho, antecipado na publicação especializada American Political Science Review, incluiu dados sobre a localização dos comícios, as pessoas que compareceram e o número de membros do NSDAP nas cidades que o líder visitava. E compararam seus resultados eleitorais com os das eleições anteriores e com os de cidades próximas, mas onde Hitler não havia discursado.

Nas eleições presidenciais, em que Hitler usou o avião, e seu principal rival, o presidente Hindenburg, não fez campanha, os pesquisadores estimam que o efeito médio das suas aparições sobre o aumento da votação do NSDAP nas cidades onde ele esteve foi de apenas 2%. Ainda assim, Hitler perdeu aquelas eleições.

“O efeito foi ainda menor nas outras eleições, e não distinguível de zero”, comenta Munzert. O que observaram, embora sem significação estatística, é que em muitos dos distritos e condados onde Hitler fez algum discurso a participação nas eleições subsequentes diminuiu. Os autores sugerem que a intimidação e a violência das SA, a força paramilitar nazista, pode ter levado parte dos eleitores dos outros partidos à abstenção.

Líderes carismáticos e o caos

“Surpreende-nos como foi marginal o efeito das aparições de Hitler, em especial se levarmos em conta que quem o ouviu e os historiadores confirmam sua excepcional habilidade para a retórica”, diz em nota o cientista político Selb. É preciso levar em conta também que a capacidade de Hitler para chegar a audiências maciças era, àquela altura, muito limitada. Sua presença nos jornais era muito reduzida, quando não vetada, e o Volkischer Beobachter, a publicação nazista, tinha uma circulação escassa. Quanto ao rádio, os nazistas mostrariam seu domínio do novo meio já no poder, não antes. Daí o suposto peso de seus discursos.

Em sua conclusão, os autores do estudo questionam a ideia de que os líderes carismáticos sejam cruciais para explicar o sucesso dos partidos de extrema direita tanto na Europa dos anos 30 como agora.

“A mistificação do poder dos demagogos parece tão errônea agora como foi então”, escrevem. Para eles, por o foco em personagens como Hitler nos leva a descuidar de outros fatores tão ou mais relevantes: “As circunstâncias econômicas e políticas em que triunfaram eleitoralmente, o desemprego maciço e a ruína econômica, a falta de confiança na democracia entre as elites e a população, a desconfiança popular contra os partidos estabelecidos e instituições fracas”.

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A distância entre a retórica e a realidade no RN

Por Carlos Duarte

O contraponto ao artigo de domingo passado de minha coluna (veja AQUI), inserido no Blog Carlos Santos à semana passada, assinado pelo secretário de Planejamento e das Finanças, Gustavo Nogueira, vem corroborar com o seu objetivo principal: a discussão sobre a profunda desigualdade da distribuição das riquezas e a mediocridade de gestão da massa falida do estado do RN.

A própria Nota de Esclarecimento Oficial do Governo Robinson Faria (PSD) – veja AQUI – ressalta o direcionamento da quase totalidade dos investimentos e projetos para a região metropolitana de Natal, ratificando a nossa afirmação de que não existem estratégias de desenvolvimento para o RN, além da reta Tabajara.

No texto, o secretário acha “desonesto esquecer o colapso da economia para justificar as falhas que acontecem numa gestão, mais injusto ainda ignorar os efeitos devastadores da maior crise hídrica dos últimos 50 anos”. Ressalta, também, que o governador recebeu uma gestão falida e culpa os governos anteriores por terem feito escolhas equivocadas, ao longo do tempo.

Por fim, insinua que a crítica (construtiva) deste articulista está fora do contexto macro da economia e trata-se de uma mera peça político-acusatória, carregada de injustiça em suas entrelinhas.  Ou seja, esse governo não tem culpa de nada.

Discutir a melhoria de distribuição de produção e riquezas de uma economia, seja regional ou mundial, é salutar em qualquer lugar do planeta, até mesmo nas economias mais estáveis e sustentáveis, em que se possa considerar a maximização de bem estar da sociedade. Só fica fora de contexto mesmo, quando interesses escusos de gestores públicos sobrepujam os interesses de seu povo.

É oportuno que o secretário leia o artigo do, então, candidato e vice-governador Robinson Faria, publicado no dia 13 de janeiro de 2013, na Tribuna do Norte, sob o título: “PIB no RN é Produto Interno Baixo” (//www.tribunadonorte.com.br/noticia/pib-no-rn-e-produto-interno-baixo/241017).

No seu artigo, com visão de candidato, Robinson ressalta as potencialidades do RN, critica a falta de investimentos dos governos anteriores, faz comparações pertinentes e enfatiza que o RN está condenado a uma situação de inércia em diversos setores produtivos.

“Fica evidente a absoluta falta de prioridade do Governo do Estado em realizar investimentos capazes de proporcionar incremento ao ritmo de crescimento da economia do Estado. Não se sabe ao certo se é por miopia administrativa, incompetência ou descaso. Ou as três coisas de uma vez”, diz o governador.

Por fim, assevera: “E o mais importante é que o Estado tenha um projeto de gestão e nele estejam estabelecidas as prioridades, os objetivos e as metas para seu crescimento econômico. Tudo isso, sem esquecer a imperiosa necessidade de resgatar e ampliar fortemente a capacidade de investimento do Estado para, pelo menos, cinco vezes a que o atual governo investe”.

Embora o seu discurso não contemplasse a distribuição de produção e riquezas do Estado, ele vendeu a imagem de um governante desenvolvimentista.

Durante a campanha eleitoral, levantou a bandeira de que seu governo seria o guardião de todos os norte-rio-grandenses com uma gestão voltada para solução dos graves problemas da Segurança Pública. Pura enganação.

O que se observa, hoje, é o cidadão de bem acuado e com medo do domínio de marginais – que elevam os índices de criminalidade e de violência, a patamares nunca vistos antes, em todos os estamentos da sociedade potiguar.

Essas e outras atitudes é que são desonestas e injustas, senhor secretário.

Iludir o povo (sofrido e carente), mediante promessas falsas, apenas com retórica não vinculada a uma plataforma viável e exequível de governo é, no mínimo, má-fé.

O governador Robinson Faria não é um neófito em política e gestão pública. Foi deputado estadual, presidente da Assembleia, em diversas legislaturas, secretário de Estado (no governo Rosalba) e vice-governador.

Portanto, ele não apenas herdou um Estado falido. É também artífice da calamidade e do colapso econômico e financeiro em que ora se encontra o RN. Colaborou com as escolhas equivocadas de gestões anteriores, ao longo do tempo.

Este articulista não escreve de modo subliminar ou com insinuações em entrelinhas. É direto e objetivo em suas opiniões e acusações (quando requer o caso). Se precisar, fará o desenho.

No entanto, as simples reverberações de políticos de oposição ou os meros arranjos paliativos governistas não colaborarão para uma saída honrosa. Ao contrário, isso irá piorar o caos ora instalado.

Nesse momento, deverão prevalecer o bom senso e a união de todos para se buscar soluções aos inúmeros conflitos adaptativos complexos, que permeiam a administração pública.

No âmago, todos torcem para que essa gestão encontre o caminho pretendido pelo governador Robinson de Faria: quintuplicar o PIB do RN, ainda que sem distribuição.

SECOS E MOLHADOS

Duarte Filho – Surgem alguns comentários nas redes sociais de que o grupo Hapvida vai reabrir o Hospital Duarte Filho (HDF), com autorização do Ministério Público. Será mais uma opção de escolha àqueles que podem pagar por um plano de saúde, em Mossoró e região. Vai gerar emprego, renda e ainda ajuda a desafogar o sofrível sistema público de saúde.

Em tempo – O Hospital Duarte Filho nunca foi um ente público. Tinha um convênio mínimo e precário com o SUS e nunca esteve nas prioridades da Prefeitura de Mossoró e nem do Governo do Estado. Ao contrário, os gestores públicos contribuíram para antecipar o seu fechamento. O HDF era de propriedade da Sociedade de Caridade de Mossoró, entidade sem fins lucrativos, formada, em 1927, com a colaboração de empresários da época. Foi transferido para uma Fundação do grupo Hapvida, que funciona plenamente em Fortaleza.

Auxílio – Enquanto a sociedade sofre com os efeitos colaterais da crise econômica do Brasil, um grupo de privilegiados (promotores de justiça do Estado de PE) articula manobras silenciosas para manterem os seus subsídios de moradia. São valores adicionados aos seus salários, da ordem de R$ 4.500 a R$ 5.000,00, por mês. Há uma grande possibilidade da perda dessa vantagem, por inconstitucionalidade, cujo processo está tramitando no STF. A estratégia, agora, contempla duas alternativas: a) substitui-las pelo VTMP (Valorização por Tempo de Serviço do Ministério Público), que tramita no Congresso Nacional, sem perspectiva e clima para aprovação; e b) transformar o auxílio saúde existente em gatilho para o auxílio moradia, dando poderes ao Procurador Geral do Estado – que o fará por ato administrativo, em consonância com o orçamento aprovado. Simples, assim.

Crise – Com uma arrecadação de R$ 14 milhões, por mês, a Prefeitura de Guamaré (RN) está com atraso na folha de pagamento e fornecedores. Guamaré tem cerca de 12 mil habitantes e, no início do ano passado, havia uma reserva de cerca de R$ 20 milhões em caixa. Guamaré é um fenômeno que teima em resistir a uma Lava Jato própria.

Realidade versus retórica

Por François Silvestre

O atual governo é continuação. Monótona repetição de uma década, sem criatividade e vazio retórico. Do segundo governo Wilma e do governo Rosalba, que Robinson jurou não continuar“.

Quando estive na Secretaria de Planejamento, recebi uma vasta explicação sobre o programa de implantação de uma prática estratégica de governabilidade. O Secretário e sua equipe inovadora fizeram uma apresentação retoricamente impecável. Tudo com vistas à colheita de reconhecimento futuro.

Na época, não contestei. Deixei que o futuro respondesse, torcendo pelo o sucesso da retórica.

Num certo momento, o Secretário sentenciou, com muita ênfase: “Foi o discurso de um governo técnico que ganhou a eleição”.

Ouvi calado para cumprir uma regra da hospitalidade sertaneja. Quando o dono da casa pede a opinião do visitante, acata a resposta mesmo que dela discorde. Porém, quando a opinião é expressa pelo dono da casa o visitante há de retribuir com a mesma gentileza.

Silenciei, cumprindo a regra não escrita da terra e da gente de onde venho. Deste sertão profundo, cujos galhos da jitirana, a se enfronharem, refazem de infância meus olhos de criança.

Incomodou-me o gentil silêncio. Por quê? Porque o interesse histórico, que é também interesse público, obrigou-me a questionar o que se revelou retórica do entusiasmo. Ainda mais a tratar-se da história política daqui. Dessa terra que carrego no matulão para qualquer lugar aonde me leve o destino de retirante.

Não, meu caro, não foi discurso técnico que elegeu Robinson. Foi um conjunto de fatores tão marcadamente convergentes, que o discurso fica na rabeira da fila. Essa promessa técnica não ganhou a eleição nem se revelou competente no governo.

A vitória de Robinson nada deve à retórica. Foi rejeição popular ao fantástico acerto de cúpula que ignorou completamente a memória coletiva. Desmentindo outra falácia técnica, de que o povo não tem memória.

Um candidato sem máculas, simples, de comunicação fácil, contra um agrupamento de “aliados” que durante três décadas trocaram acusações e insultos. O povo reprovou o ajuntamento “heterogêneo”.

Disse o Secretário que “o tempo era outro”. Retórica do vazio. Aí estão os fatos. Este texto não inova, republico as mesmas razões, pela atualidade e comprovação de que a retórica não faz a realidade. É o inverso. A realidade desmente a retórica.

Mudança é a mais prostituída palavra de cada governo.  Na hora da disputa do voto, os técnicos são dispensáveis. E a mudança decantada é a de “que tudo mude pra que fique tudo do mesmo jeito”. Da lição de Lampedusa.

O que mudou? Absolutamente nada.

O atual governo é continuação. Monótona repetição de uma década, sem criatividade e vazio retórico. Do segundo governo Wilma e do governo Rosalba, que Robinson jurou não continuar.

A beleza virtual do quadro prometido, numa tela enorme, queda-se vencida pela realidade mal enfrentada.

E todos nós pagamos por mais uma retórica abatida em pleno voo.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Retórica, técnica de obtenção e manutenção do poder

Por Honório de Medeiros

Na verdade a Retórica é uma técnica de obtenção e manutenção do Poder. Muito além de uma técnica de persuasão, como propõem alguns teóricos.

A persuasão é, apenas, um dos instrumentos da Retórica, tal como a manipulação ou a sedução. Embora se costume dizer que a Retórica seja uma técnica de persuasão, de convencimento, ela é muito mais que isso.

Pressupõe a existência, em polos distintos, de alguém a almejar que o Outro faça ou deixe de fazer algo, e a existência desse Outro.

Há uma tentativa de circunscrever a Retórica ao espaço da persuasão, quando a vontade do Outro cede, por vontade própria, posto que convencido, à vontade do persuasor.

Nada menos verdadeiro: na tentativa de persuasão do Outro, por mais ética que tenha sido, uma vez que ocorra, a vontade do persuasor se impôs à do persuadido alterando sua percepção das coisas e dos fenômenos.

Como a ninguém é dada a primazia de saber o que é certo ou errado, se o Outro é persuadido sem que sua percepção das coisas ou fenômenos tenha ocorrido por si mesma, sem interferência externa, então temos, mesmo se inconsciente, uma imposição de vontade.

Evidente que no mundo das verdades da ciência não se há de falar em persuasão: aqui a demonstração lógica se impõe por si mesma. Nessa perspectiva da persuasão a ocultação inconsciente da intenção da imposição da vontade do persuasor pressupõe, na maioria das vezes, uma crença, a fé nos próprios desígnios de quem persuade.

Mas nem sempre é assim.

Aquele que tenta persuadir não raro o faz deliberadamente, querendo influenciar o Outro a modificar sua vontade, mesmo respeitando regras éticas no que diz respeito ao seu procedimento, tentando evitar a manipulação. O persuasor pensa: “quero persuadir, não manipular”.

Em tese, seria esse um dos alicerces da Democracia. A manipulação, por sua vez, é “la bête noire” da Retórica. Aqui não há limite ético quanto à intenção da alteração da vontade do Outro.

Assim ocorre, também, no que diz respeito à sedução.

Qual a diferença entre manipulação e sedução? Sutil.

Somente pode ser percebida por intermédio da introdução da noção de “vontade”.

Essa noção, segundo Hannah Arendt, foi introduzida na discussão filosófica por intermédio de São Paulo, em sua famosa Carta aos Romanos. E, através dela, podemos entender que o “eu quero” nem sempre corresponde ao “eu posso”. Ou seja, minha vontade pode determinar claramente o rumo a ser seguido, entretanto não consigo me colocar em movimento.

Na manipulação, mesmo que enganado, vez que manipulado, a vontade do Outro adere à vontade do persuasor; na sedução, a vontade do Outro é contra, mas cede por não ter forças para a recusa.

Na sedução o Outro não é enganado e não muda sua percepção das coisas ou fenômenos, entretanto não é possível resistir ao sedutor.

Seja persuasão, seja manipulação, seja sedução, todas são instrumentos da Retórica, que é uma técnica de Poder, e têm, como objetivo, fazer com que a vontade de quem a utiliza influencie, no sentido de alterá-la, as ações do Outro.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e Governo do RN.

De legalistas seletivos ou de ocasião

Por Honório de Medeiros

Alguns serventuários da Justiça são hipócritas seletivos: muitas vezes criticam a norma jurídica, dizendo-a injusta, como se soubessem, em essência, o que é certo ou errado, bom ou mal, mas quando lhes convém a ela se apegam para defenderem interesses pessoais ou corporativos.

São os legalistas de ocasião.

A ilusão ou cinismo em defender que a norma jurídica possa ser Justa-em-si-mesma se deve ao atraso peculiar da filosofia e sociologia no nicho jurídico e à incompreensão acerca do assunto por parte da Sociedade. E esse nicho se mantém assim, incólume em seu atraso, ao longo do tempo, porque cumpre um determinado papel, na engrenagem social, de dar uma aparência de legitimidade (apego ao Justo) à odiosa opressão do Estado.

O Estado necessita parecer legítimo, mesmo não o sendo desde seu surgimento. Nasceu banhado em sangue, assim vive e, se desaparecer, assim desaparecerá.

Qualquer norma jurídica, assim como qualquer partitura musical, ou qualquer trecho em idioma a ser traduzido, nada é em si mesma. Passa a ser na medida em que a interpretamos.

Então somos nós, ao interpretá-la, que somos Justos ou não, bons músicos ou não, bons tradutores ou não, aos nossos próprios olhos ou aos olhos dos outros. Não por outra razão o senso comum diz: tal juiz é justo, aquele outro não o é.

Entretanto mesmo quando estão legalistas, não largam os serventuários da Justiça o viés do Justo. Nessas ocasiões se contorcem em piruetas retóricas para dar uma aparência de legitimidade (apego ao Justo) naquilo que fazem.

É assim que se configura a pseudo legitimidade do Estado, do qual esses serventuários são instrumentos. Pois bem, muito embora não exista um Justo-em-si-mesmo, todos nós estamos construindo um Justo particular que emana de nossa individualidade e circunstância pessoal, na medida em que julgamos, seja lá o que seja que estejamos a julgar.

Um juiz, por exemplo, dá vida a uma norma jurídica na medida de seu conhecimento, sua história pessoal, sua circunstância de vida, quando a interpreta. Alguém que interprete uma partitura musical – um músico, faz o mesmo.

Um tradutor que interprete um trecho de um idioma, também. Antes da interpretação, nada; depois da interpretação, tudo… Não pode ser diferente, não há como ser diferente.

Uma norma jurídica não é Justa pelo fato de ser uma norma jurídica. Ela pode ser Justa na opinião pessoal do Juiz que a interpreta, ou na opinião pessoal de alguns outros que leram sua interpretação. Mas nunca será Justa-em-si-mesma.

Não por outra razão o Estado desestimula o ensino e o estudo da Filosofia e Retórica. Não a Retórica que se confunde com Oratória, mas a Retórica que estuda os meios por intermédio dos quais se manipula, constrange, seduz as pessoas.

Então convenhamos: usar a norma jurídica como escudo para defender interesses pessoais ou corporativos, alegando respeito à legalidade é, realmente, muita hipocrisia. Ou desfaçatez…

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Estado do RN

Involução

Por François Silvestre

Hoje termina a fúria do campeonato eleitoral. O Brasil é uma involução democrática. Do ponto de vista da grandeza de quadros, de métodos, de ação, o cenário que se montou desde as “diretas Já”, seguidas da eleição de Tancredo Neves, não produziu evolução.

Desde o lastimável governo Sarney, passando por Collor, com o intervalo razoável de Itamar Franco, o Brasil entrou num embate entre o neoliberalismo econômico e o neopopulismo social. É essa a disputa de hoje. Eterna e monótona, como a seca.

E ambos os lados, por mais que se digam antagônicos, são complementares. Ambos bebem na fonte mais atrasada do capitalismo. Entre a retórica do democratismo econômico e a demagogia do paternalismo caritativo. Duas faces cruéis do esperneio liberal. Não há socialismo nem evolução democrática nesse cenário.

Vinte anos do mesmo ramerrão. E até o entusiasmo parece a caricatura de uma festa repetitiva.

A única coisa que salva esse embate é a sua comparação com a Ditadura. Melhor do que os tempos de coturno e chumbo. Mas o Brasil não pode passar o resto dos tempos justificando retrocessos, por ganharem em comparação com uma ditadura morta e sepultada.

É bem verdade que a humanidade, nesses últimos vinte anos, evoluiu em tecnologia mais do que nos dois últimos séculos. Porém, involuiu em caráter humano a níveis inferiores ao tempo do iluminismo.

A continuar nessa marcha acabaremos quadrúpedes, dominando máquinas cada vez mais sofisticadas e nos tratando mutuamente como feras sedentas de sangue. Antropófagos da robótica.

FICO ME DELICIANDO com a estultice explícita de patrulheiros; ingênuos e agressivos, deselegantes e arrogantes, cada qual se achando portador de um facho libertário. Nos dois lados. Tochas a iluminar uma corte dividida entre a retórica e a demagogia.

Porém, sem eles e sem essa histeria, os protagonistas do embate não teriam sustentação nem justificativa. Há um complô entre enganadores e enganados.

O Brasil é uma republicona bananeira, com escassez de bananas. Os símbolos do embate são duas figuras carimbadas. Fernando Henrique Cardoso e Luis Inácio Lula da Silva. Para dar nome aos carreteiros, vez que os bois somos nós.

São as duas margens do rio seco. O resto é figurante. Ou melhor, o resto é o leito do rio, imprensado numa dialética de faz de conta. Se um é o símbolo da retórica, do Estado capitalista do conicato; o outro é o arquétipo da demagogia, do Estado capitalista das prebendas.

Ambos tentam o riso sem graça, no picadeiro de um circo de lona encardida. Sociólogos da “bondade étnica”. Um país violentíssimo, com anemia cerebral, sob o mando de instituições corporativistas e sedentas de privilégios. Tudo num conluio midiático, onde a aparência esconde as intenções.

A bajulação cega mais do que o diabetes. E até a santidade, em excesso, faz mal.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no periódico natalense Novo Jornal.

Influência não se reduz a palavras bonitas

Por Diogo Sponchiato (Revista Galileu)

No dia a dia, a palavra “retórica” virou praticamente sinônimo de boa lábia, recurso empregado por políticos, advogados ou marqueteiros para conquistar uma plateia. O termo, no entanto, tem uma abrangência muito maior: trata-se de uma disciplina, inventada ainda na Grécia antiga, que busca estruturar falas e linhas de raciocínio capazes de defender de forma efetiva e convencedora um conjunto de ideias.

Lineide do Lago Mosca mostra o real significado da retórica à Gallileu

 

Essa arte não se resume ao uso de palavras requintadas, nem a um modo mecânico de proferir frases feitas. Para desmistificar o campo de pesquisa e reflexão da Retórica (essa, sim, com “r” maiúsculo) e os ingredientes de um discurso poderoso e influente, conversamos com a professora Lineide do Lago Mosca, do departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade de São Paulo e coordenadora do Grupo de Estudos de Retórica e Argumentação da USP.

As pessoas tendem, em geral, a associar o termo “retórica” a falas empoladas, discurso de político… Segundo a disciplina da Retórica — que faz parte do currículo de áreas como Letras e Direito —, quais as bases de um discurso eficaz e persuasivo?

Lineide Mosca – A retórica não se restringe a técnicas de oratória, que ensinam simplesmente a falar bem. Seu conceito é muito mais abrangente, porque envolve também as ideias e o raciocínio de quem fala. Um discurso efetivo é estruturado em cima do modo de pensar e do repertório do indivíduo, da sua articulação de ideias, ou seja, a capacidade de dispor e conectar os argumentos, e a elocução, que se refere aos recursos na fala que melhoram as chances de que ela cumpra sua finalidade. O objetivo, em linhas gerais, é que a comunicação seja feliz, cumpra suas intenções diante do interlocutor. Não se trata apenas de falar bem, mas de escolher os meios que tornem o discurso eficaz. Estamos partindo do pressuposto de que não basta ter “o que” dizer. É preciso saber “como” dizer.

O visual e os gestos de quem discursa também contam bastante, não?

Lineide Mosca – Sem dúvida. Outro componente da retórica, para que o discurso seja eficiente, é o que chamamos de canalização, isto é, os elementos não verbais que ajudam o discurso a funcionar. Ela envolve a locomoção de uma pessoa pelo espaço, seus gestos, sua expressão facial… Outro aspecto importante para que o discurso exerça influência é o recurso da memória, que é o que entendemos por manter o fio da meada. Em outras palavras, conectar, ao longo da fala e de maneira lógica e clara, considerações sobre o passado e o presente.

Tem-se a impressão de que, ao longo do tempo, a retórica perdeu um pouco de valor na vida das pessoas comuns. Que impacto ela exercia no cotidiano das antigas civilizações ocidentais?

Lineide Mosca – Na Grécia antiga (e mais em tarde entre os romanos), a retórica fazia parte da formação do cidadão. Isso porque a vida cotidiana não se separava da vida política. Os cidadãos recebiam aulas de retórica, até porque precisavam delas para defender suas ideias e opiniões nas assembleias e no meio de outros cidadãos. Era, portanto, uma disciplina que prestava um serviço para a vida em sociedade. Com o tempo houve uma redução dessa dimensão política para a maior parte dos indivíduos, que deixaram de ter acesso ou necessidade de recorrer aos elementos retóricos.

E qual seria o berço da retórica?

Lineide Mosca – As primeiras escolas de retórica surgiram na Sicília [atual Itália] sob a ideia de usar a força da palavra para expulsar os constantes invasores da ilha. Depois as bases da disciplina foram levadas para a Grécia propriamente dita. Convencer pela palavra oferecia uma alternativa à guerra e ao emprego da força bruta, além de já estar atrelado aos preceitos que irão basear o Direito.

Pode-se dizer que a retórica se modernizou mais recentemente?

Lineide Mosca – No século 20 importantes estudiosos da retórica retomaram princípios do filósofo grego Aristóteles, que já havia discutido e estruturado em suas obras os pilares do discurso eficaz e influente. A escola da neoretórica, como ficou conhecida, também passou a lidar mais com a noção de controvérsia e de questionamento. Não se quer mais difundir verdades absolutas por meio do discurso, mas construí-lo em cima de perguntas e respostas, ou seja, de questionamentos, integrando aí diversas disciplinas do conhecimento. A retórica se desligou também do estilo floreado que a caracterizou até o século 19, o que ocorria inclusive por motivos políticos e de censura.

E o aspecto emocional do discurso, o dom de modular as emoções ao falar e tocar no ouvinte, qual seu papel na hora de persuadir alguém?

Lineide Mosca – Aristóteles já destacava a emoção como um dos componentes da retórica ao lado do uso do raciocínio e da forma como é conduzido o discurso. Mas precisamos levar em conta que até mesmo a razão se organiza de acordo com as emoções. Acontece que qualquer informação que vamos dar a alguém é carregada de certa intenção ou sentido e é por isso que dizemos que não existe discurso neutro. O apelo emocional numa fala, porém, depende da sua dosagem e do seu contexto. O emocionalismo pode parecer sensacionalista e criar rejeição dos ouvintes. Temos de considerar que falar é agir sobre o outro, e que essa pessoa pode aceitar ou não o que verbalizamos. Isso envolve a credibilidade, a imagem e o poder de influência que construímos inclusive por meio desse elo emocional com o interlocutor.