Arquivo da tag: revista Preá

Memória de uma ousadia

Por Tácito Costa

Casa de Cultura Popular (Reprodução do BCS)
Casa de Cultura Popular (Reprodução do BCS)

A gestão do escritor François Silvestre foi a última a colocar uma política cultural estruturada à frente da Fundação José Augusto. Digo isso com conhecimento de causa: acompanho de perto, como jornalista, a vida cultural do Estado e participei diretamente daquela experiência, como assessor de imprensa e editor da revista Preá.

Também estive nas gestões do jornalista Woden Madruga, nos governos de Geraldo Melo e de Garibaldi Alves Filho. Conheço, portanto, relativamente bem a história cultural potiguar — e a da própria Fundação. Conheço a aldeia, seus mitos ocasionais, seus mecenas de vitrine e suas pajelanças. Não me vendam versão.

Reconheço que os tempos mudaram. Mas não era necessário que mudassem a ponto de o Estado se desobrigar de formular política cultural permanente, transferindo para editais aquilo que deveria constituir projeto continuado.

A gestão de François teve virtudes e enfrentou dificuldades, como qualquer outra. Havia, porém, um eixo: projeto, direção, entendimento de que cultura pública exige planejamento, recursos e continuidade. Algumas iniciativas atravessaram governos — como a Preá e as Casas de Cultura. Outras foram sendo abandonadas, até desaparecer.

Depois veio o chamado “Foliaduto”, episódio que ganhou proporções muito além dos fatos e produziu desgaste suficiente para interromper aquele ciclo. Seguiram-se perseguição, ressentimento, julgamento apressado e a satisfação discreta dos que preferem ver um projeto ruir a vê-lo prosperar.

Hoje consolida-se a ideia de que política cultural se resume a shows caros com artistas de fora, enquanto se paga pouco — e, não raro, mal ou com atraso — aos artistas da terra, quando não se lhes aplica o velho expediente do calote. Persiste a noção de que cultura pública é apenas calendário de eventos e distribuição episódica de recursos, quando deveria implicar visão de Estado.

A ousadia teve custo, mas o legado ficou — e é ele que a memória registra.

Tácito Costa é jornalista