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Projeto “O Repente em Desafio e a Melhor Canção” vai ser lançado

Por Aldaci de França

Viola é um dos símbolos da cultura popular nordestina (Foto: Arquivo/PMM)
Viola é um dos símbolos da cultura popular nordestina (Foto: Arquivo/PMM)

Desde 1978 que habito o solo quente de Mossoró, cidade nordestina de porte médio, sempre efervescente na política, na educação (basta vermos a quantidade de faculdades e universidades que temos aqui), no comércio, na indústria, na cultura, na literatura e na arte, embora o tripé cultura-literatura-arte esteja sempre intrinsecamente ligado. É o que vivo, participo direta e indiretamente, além de defender com unhas e dentes esse lugar – a terra dos Monxorós.

Diante do exposto, mais uma vez nos voltamos à literatura oral cantada e à escrita, fruto de habilidades poéticas para se produzir o repente e o cordel, modalidades culturais da poesia popular nordestina, as quais em determinados aspectos se distanciam, e, noutros, se juntam sem diferenciação qualquer. É o que tem acontecido por décadas e séculos sob a regência da métrica, rima e conteúdo.

Reconhecendo o valor do repente, da canção e do cordel, e percebendo que em Mossoró há um campo fértil para essas modalidades culturais, decidimos por lançar com o apoio do Rotary Clube de Mossoró e dos abnegados pela poesia popular nordestina, mais um projeto de difusão da nossa cultura popular: “O Repente em Desafio e a Melhor Canção”.

Essa iniciativa vai acontecer neste próximo dia 27 de novembro de 2025, uma quinta-feira, às 19h30, na Catamarã, espaço de eventos localizado à rua Duodécimo Rosado com a Manoel João, no Bairro Doze anos, mais precisamente por trás do Colégio Diocesano Santa Luzia (CDSL) e Universidade Católica do RN (UniCatólica).

A proposta é fortalecer mais ainda a nossa Poesia Popular Nordestina em Mossoró, que inegavelmente há 23 anos tem sido contemplada no Mossoró Cidade Junina (MCJ), com o Festival de Repentistas do Nordeste, com espaço em duas noites no grande evento junino, além das cantorias regionais de pés de parede, que acontecem em nossa cidade em diversos bairro e na zona rural.

A creditamos que neste 27 de novembro de 2025, quem gosta e apoia a cultura popular vai estar conosco usufruindo dos mais inspirados repentes de Antônio Lisboa, Raulino Silva, Genaldo Pereira e Aldaci de França, da abertura com as apresentações especias de Guido Alves, Nildo da Pedra Branca, Maurílio Santos, Antônio Domingos e Nilson Silva.

Aldaci de França é Poeta repentista, escritor, cordelista e coordenador dos Festivais de Repentistas do Nordeste no Mossoró Cidade Junina (MCJ)

Métrica, rima e oração – base para uma boa produção poética

Por Aldaci de França

Reprodução de J. Borges
Reprodução de J. Borges

A cantoria nordestina é uma manifestação da cultura popular, fulgurante na região desde o início do Século XIX e teve o seu ponto de partida na Serra do Teixeira-PB. Por lá, os seus primeiros atores a praticavam em forma de trova medieval (estrofe de quatro versos).

Posteriormente, o paraibano Silvino Pirauá de Lima, repentista, pesquisador e cordelista ofertou o acréscimo de mais dois versos, o que proporcionou o surgimento da sextilha, estrofe de seis versos. Rima-se o segundo verso com o quarto e o sexto; para o primeiro, o terceiro e o quinto, não há necessidade da rima.

Conforme Aurélio e Houaiss (2010), Pirauá criou também o martelo malcriado em dez pés, decassílabos, desafio ainda hoje solicitado nas cantorias de pés-de-parede, principalmente pelos mais veteranos apologistas do repente. Contudo, esses gênero da cultura popular não teria brilho nem estética plausível, sem a sua técnica básica: rima, métrica e oração, critérios fundamentais para uma boa produção poética, concernente à prática da poesia oral cantada pelos cantadores, repentistas e na poesia escrita (cordel e poemas em formatos diversos).

Métrica, rima e oração, em 1946, já eram praticadas pelo repentista Pinto do Monteiro e pela trindade dos Batista: Dimas Lourival e Otácilio, no Teatro Santa Izabel em Recife-PE, na primeira cantoria oficial da Veneza Brasileira, ação promovida pelo escritor e dramaturgo Ariano Suassuna, como ele mesmo disse na Apresentação do Livro dos Repentes, organizado por Jeci Bezerra e Ésio Rafael (1991). Certamente esses poetas seguiram os seus antepassados, nesse aprendizado.

Esse critério é indispensável nos desafios de repentistas por ocasião da realização dos festivais, e, é atentamente observado no julgamento das duplas de repentistas nesses eventos que melhor difundem a cantoria nordestina. E se perguntarmos, qual a justificativa para a implacável exigência de métrica, rima e oração nos eventos de Cantoria?

Indubitavelmente, a resposta convincente passa pela ideia de que toda produção literária, tem a sua técnica própria de narração que melhor adorna esteticamente a obra. Exemplo: o soneto não seria tão interessante, se não fosse composto por dois quartetos (estrofes de quatro versos) e dois tercetos (estrofes de três versos), com os versos rimando entre si, com métrica de dez sílabas, onde o autor procede com fidelidade ao desenvolver a temática escolhida. Entrelaça tudo na construção poética, rima, métrica e oração, regra que deve ser aplicada tanto na poesia improvisada quanto na escrita.

Concluindo, deixo para o leitor um dos sonetos que podem servir de esclarecimento da regra básica da poesia popular nordestina. Assim, conheçamos um dos nossos trabalhos poéticos extraído do livro (VERSOS EM FORMS DIVERSAS, segunda edição, Sarau das Letras, P.49, FRANÇA, Aldaci de.).

Longe de Reclamos

Não tenho um segundo para reclamar
Mas tenho uma vida para ser feliz…
Uma estrada longa para caminhar
E poder chegar onde sempre quis.

Em dificuldades nem quero pensar,
Peço autoestima pra quem se maldiz;
Da dor da ferida, nem quero lembrar
Ou chorar as mágoas dessa cicatriz!

Vou sorrir dizendo a quem me escuta:
“Soldado guerreiro não foge da luta”,
Nem teme arranhões de ponta de espinho!

Porque as batalhas perdidas e ganhas
Que empreendi em tantas campanhas,
Deixaram-me o norte do melhor caminho…

Aldaci de França é poeta, repentista, escritor, cordelista e coordenador dos Festivais de Repentistas do Nordeste no Mossoró Cidade Junina