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Antropologia da miséria…

Por François Silvestre

…ou miséria da antropologia.

A inversão substantiva tem o propósito de evitar que algum marxista da terrinha faça graça usando a resposta de Marx a Proudhon. Ao escrever a “Filosofia da miséria”, o anarquista recebeu de resposta o clássico “Miséria da filosofia”, no qual Marx triturou Proudhon. Mas isso é outra história…Messianismo, messiânico, Antônio Conselheiro, fanatismo,

Há muito tempo, nem lembro quando, escrevi que o Brasil não possuía Povo. Isto é, não existe povo brasileiro. Definitivamente, ainda não. Há um pré-povo, ora em formação, ora em deformação. E em cada processo deformador, mais longe fica a esperança do surgimento de um Povo.

Sérgio Buarque, o antropólogo da bondade, produziu uma obra ingênua, quase bocó, concluindo que o “brasileiro é um povo cordial”. Bobagem antropológica. Gilberto Freire, na sua obra capital, Casa Grande e Senzala, edificou um armazém cheio de assertivas verdadeiras, mas construiu um galpão lotado de conclusões equivocadas. Rui Facó bateu na trave, ao tratar das distinções contidas ou confundidas no estuário entre o fanatismo e o cangaço.

Darcy Ribeiro, o antropólogo do otimismo, partia de uma assertiva da mistura étnica, que sairia da combinação da tecnologia do europeu, da naturalidade do índio e da espiritualidade do africano. Muito bonito, mas o resultado, até agora, carece de beleza. Manoel Correia de Andrade e Josué de Castro trataram da geografia antropológica, tendo o homem como o centro geográfico da sua própria compleição, acima e mais importante do que a geografia. Não ousaram prever o resultado. Denunciaram. Assim o fez Paulo Freire, na sua máxima, “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar opressor”.

Fico nesses. Esse movimento messiânico que assistimos agora, do bolsonarismo, e todo messianismo carrega dosagem saturada de estultice, e toda estultice alimenta-se de violência, seja física ou verbal, é uma novidade social ou política? Não. Não mesmo. É da nossa antropologia.

O que foi Canudos? Um movimento messiânico, sob a gerência de um anacoreta fanático, que abominava a República, ainda no seu nascedouro, na última década do Século Dezenove, e pregava a volta da Monarquia, sob a regência de Deus. E o Conselheiro era o porta voz da divindade.

O que foi o Contestado? Um movimento de origem politica, de fronteiras, que foi aproveitado pelo messianismo, também pregando o fim dos tempos, e negando a política temporal. Zé Maria, Maria Rosa e Adeod ato. Dois monges e uma monja. Na segunda década do Século Vinte.

O que foi o Caldeirão? Movimento messiânico no Sertão do Cariri, sob a orientação fanática dos Beatos Zé Lourenço e Severino. Sob a proteção meio escondida do Padim Cícero. Inclusive doou o terreno do acampamento. Pregavam o fim do mundo para breve, e para lá rumaram inúmeras famílias que abriram mão de todos os pertences, cujos poucos sobreviventes voltaram miseravelmente pobres. Muitos da região Oeste do Rio Grande do Norte.

Aí você pergunta: São movimentos comparáveis? Respondo: Do ponto de vista das motivações, dos hábitos, das intenções, da cultura, Não. Bem distintos.

Mas possuem todos eles a mesma carga cromossomática da nossa ainda miserável antropologia. É aí onde se pode avaliar a comparação, mesmo com todos os dados de distinção. Não é um povo, quem se repete em estupidez coletiva de tempos em tempos. Não é. Torcer pela evolução e transformação em povo é bom. Mas a torcida não pode preceder à avalição dos fatos. 

Somos um pré-povo, inculto, pouco dado ao estudo, pouco afeito à reflexão, de fácil manipulação, de tendência à condição de rebanho. Triste. Muito triste. Mas se quisermos evoluir, precisamos nos conhecer.

François Silvestre é escritor

Nem pacífico nem ordeiro

Por François Silvestre

A maior fraude antropológica sobre a natureza humana do brasileiro foi a consagração dessa bobagem de que somos um povo ordeiro e pacífico.

Pra começo de conversa nem somos um povo. Somos um pré-povo, em permanente debandada, socialmente desnutrido e culturalmente embotado.

Quem pensou sobre a nossa identidade, não se arriscou ao apontamento do nosso destino. Sérgio Buarque, Gilberto Freire, Darcy Ribeiro, Rui Facó, Câmara Cascudo, Caio Prado, Josué de Castro, Manoel Correia de Andrade, Werneck Sodré e tantos outros só mostraram a nossa face. Às vezes deformada.

Somos violentos e desordeiros. Porém, a “valentia” da nossa índole é de natureza individual. Intrassocial. Em matéria política e de organização coletiva somos cordeiros. Arrebanhados. Valentes no varejo e covardes no atacado.

Todas as ditaduras aqui estabelecidas tiveram o amparo da nossa covardia. Pelo medo ou pela colaboração. E todas elas só caíram após a exaustão da sua própria superação. Nenhuma foi derrubada.

Nunca fizemos uma revolução. Só golpes. Nem reformas nós fazemos. Nossa organização partidária é uma quadrilha cartorial. Cada um em torno de uma legenda que nega o próprio nome e de um programa prostituído de adjetivos.

“A índole pacífica do nosso povo” é uma fraude antropológica. Verso de um poema de vaselina. A entrar no traseiro da incultura.

Fomos descobertos porque estávamos no caminho da ganância dos impérios e da aventura dos corsários. Num entreposto à disposição da ladroagem.

E nunca mais nos libertamos dessa sina. Roubados por portugueses, franceses, holandeses, ingleses e corsários de todos os mares. Depois, dependentes do império americano.

Mas não fica por aí. Os nossos representantes não se prestam à defesa da nossa terra. Pelo contrário, roubam-nos o que sobrou da roubalheira imperial.

Um pré-povo disponível ao saque. Assaltado pelos donos do poder econômico. Pacífico ante os mandões, mas violentos entre si. Ninguém está seguro na pátria da bandidagem. E no falso combate, os fascistas e seus holofotes assinalados.

A criminalidade crescente, sem controle, confirma a negação intrínseca da nossa falsa índole mansa. E quem deveria combater, colabora; na inutilidade festiva da mídia. As ruas são dos bandidos. Encurralados estamos entre a bandidagem e o controle de faz de conta.

Em política, no Brasil, não há correligionários. Há cúmplices. Conchavos eleitorais. Compra e venda. “Eleitos e eleitores” no mesmo forno de assar patifaria. Exuberância de geografia num país de pífia história.

Dizia Darcy Ribeiro que a naturalidade do índio, a tecnologia do europeu e a espiritualidade do africano formariam um grande povo. Resta esperar o futuro.

Constituinte Originária agora ou oportunidade perdida.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.