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O fantasma de Lobato

Por François Silvestre

Fim dos anos Vinte, Monteiro Lobato encontra-se nos Estados Unidos em busca de informações sobre o petróleo. Observa que a coisa girava em torno de um tripé que envolvia siderurgia, escoamento e combustível. Aço, transporte e petróleo.

Sua fixação de extrair petróleo nas terras do Brasil não servia aos interesses dos petroleiros americanos. Nem aos brasileiros lacaios desses interesses.

O Presidente Washington Luiz dissera numa frase célebre que “governar é abrir estradas”. Essa manifestação chamou a atenção de Lobato, que de lá mandou uma declaração de apoio ao candidato oficial, Júlio Prestes. Estrada impõe transporte e transporte requer combustível.

Prestes ganhou, mas não assumiu. O movimento de 1930 pôs Getúlio Vargas no poder. Monteiro Lobato era uma figura célebre, por conta de sua atividade de escritor. Bastante popular em todo o Brasil. Jeca Tatu era lido de Sul a Norte.

Ele criou uma fixação sobre o petróleo. Mas essa fixação produziu inimigos terríveis, estrangeiros e internos. O governo o considerava adversário, por conta do seu apoio a Júlio Prestes, que derrotara Vargas.

O novo governo consolidado, Monteiro Lobato manda uma carta para Getúlio, explicando as necessidades brasileiras de investir na extração de petróleo. O governo fazia coro com os interesses americanos, na repetida balela de que não havia petróleo no Brasil. A carta foi respondida com o silêncio.

Lobato ainda tentou agir por conta própria, conseguindo extrair o óleo em alguns lugares. Tudo economicamente inviável. Os inimigos de Lobato o acusavam de querer lucros. Qual o crime, se o lucro é o salário da empresa?

Uma segunda carta, ácida, foi remetida. O governo respondeu com a prisão e condenação de Lobato. O gigante fora amordaçado. Saiu da cadeia falido e desencantado. Seu último desabafo: “…O pior foi a incoercível sensação de repugnância que desde então passei a sentir sempre que leio ou ouço a expressão “Governo Brasileiro”.

Pois bem. Morto Lobato, o tempo repôs a verdade. O Brasil tinha petróleo, muito e de boa qualidade. Veja a ironia: Foi Getúlio, agora presidente eleito, o criador da Petrobrás, em 1953.

E o slogan da Empresa foi a frase de Monteiro Lobato: “O petróleo é nosso”.  Na Carta testamento de Vargas, o suicida acusa as mesmas forças, inimigas de Lobato, de serem os inimigos do Brasil e do povo brasileiro.

O resto da história não é edificante. Mais recentemente, no governo de Fernando Henrique Cardoso, Paulo Francis denunciou roubalheira na Petrobrás. Não delatou a fonte, foi processado pela Empresa e condenado ao pagamento de uma multa de milhões de dólares.

Impagável.

Segundo amigos do escritor, esse processo teve papel marcante nas causas da sua morte.

Aí vem o petrolão. O mais fantástico escambo de corrupção já visto na parceria público-privada.

Agora, sob o pretexto de “salvar” a empresa, o governo escancara a fragilidade econômica de sua política.

Põe um pretenso administrador para brincar de capitalismo em plena recessão. Atrelando preços de combustíveis ao mercado internacional do petróleo. E nenhum economista desse arremedo de governo viu ou previu a monstruosidade do problema que estava e ainda está sendo montado. Mascarado em números falsos de inflação “sob controle” e mentira de crescimento do PIB.

O fantasma de Monteiro Lobato manda seu embaixador, Visconde de Sabugosa, repetir o alerta de que ao brasileiro só restam duas alternativas: Conhecer o Brasil, pela educação, para assumi-lo, ou entregá-lo pela ignorância. Té mais.

François Silvestre é escritor