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O funil do fanatismo

Por François Silvestre

Tudo tem limite. Tudo. A terra não é plana, mas limita-se. No entorno dela, aconchega-se a atmosfera. É um limite.

No momento em que um astro maior atrai um menor, que também o atrai, os atraentes se compõem e se limitam. Não fosse assim, o Sol engoliria a Terra e a Terra engoliria a Lua.

Isso não ocorre pela limitação gravitacional. Na relação direta do produto das massas e inversa do quadrado das distâncias. Newton descobriu, mas disse que o fez por postar-se nos ombros de gigantes.

Einstein subiu nos ombros de Newton e viu mais longe do que ele. Nos ombros de Einstein subiu Stephen Hawking.

Assim dito, o registro da tristeza de ver o fanatismo invadir o cérebro de pessoas inteligentes, de conhecimento antigo, professando estupidez como se dialética fosse.

Descrentes das divindades espirituais virarem adoradores de divindades humanas, e o pior, no que há de mais escatológico nesses adorados. Sem qualquer avaliação inteligente sobre o risco ridículo das suas crenças.

De tal natureza, que o limite da tolerância não se esgota. Mas se agasalha no limite da complacência.

E se Newton disse que descobrira coisas novas por postar-se nos ombros de gigantes, pensadores antes dele, o fanático inteligente usa ombros de anões pra ver mais perto do que poderia ver a sua própria inteligência.

François Silvestre é escritor

Às máquinas, o mundo!

Por Honório de Medeiros

Conto, em meu Poder Político e Direito – A Instrumentalização Política da Interpretação Jurídica Constitucional, um fato narrado por Sir Winston Churchill em My Early Life – A Roving Comission, para ressaltar seu “lado” pouco conhecido de epistemólogo que fez uma opção decidida pelo Realismo, em oposição ao Idealismo.

Esse seu “lado” de filósofo – é bom lembrar que ele foi também escritor, pintor e memorialista e a sua obra, nomeadamente as Memórias de Guerra (1948-1954), valeu-lhe o Prêmio Nobel da Literatura em 1953 – me veio à mente ao ler, quase que por acaso, uma frase que ele proferiu: “Moldamos os nossos prédios e depois eles nos moldam”.A leitura foi da excelente resenha que Ricardo Abromovay publicou na Revista “Quatro Cinco Um”, acerca de três obras ainda não traduzidas para o português e que tratam daquilo que o autor denomina de “Sociedade da Vigilância em Rede”.

Pois bem: Abromovay nos induz ao seguinte raciocínio analógico: se nos moldam os prédios que nós construímos, segundo o brilhante “insight” de Churchill, podemos esperar algo diferente em relação à “Rede”?

Até aí tudo tranquilo. É difícil quem pense o contrário entre “cabeças pensantes”.

O problema é que o diabo mora nos detalhes, como diz o famoso provérbio alemão.

Cito Abromovay:

“Na verdade, as informações permanentemente coletadas e analisadas por algoritmos, cujo funcionamento nos é completamente opaco, permitem que nossa conduta seja previsível e, justamente por isso, abrem caminho a uma interferência em nosso cotidiano que é inédita e atinge todas as esferas da vida social.

Em 2014, por exemplo, a Amazon patenteou um sistema que permite antecipar o que os clientes querem comprar, antes mesmo que eles próprios o saibam. A mágica está nas informações reunidas sobre cada um de nós e na análise que delas é feita”.

Apavorante.

Lembrei-me que certa vez perguntaram a Stephen Hawking se a inteligência artificial iria nos superar – a chamada “singularidade tecnológica”.

“É bem provável que sim”, respondeu ele.

E propôs embutir sensores éticos nas nossas máquinas inteligentes. “Como assim”, me perguntei. “Sensores éticos?”

E me lembrei da sociedade distópica imaginada por George Orwell em 1984: no futuro totalmente controlado por intermédio da inteligência artificial não é o “Grande Irmão” quem dará as cartas. Serão as máquinas.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

Ombros de gigantes

Por François Silvestre

Posto nos ombros de um gigante, um anão vê mais longe do que o próprio gigante.

Quando, numa conferência, alguém atribuiu a Isaac Newton o maior feito da física pela descoberta da gravitação universal, ele disse: “Eu me pus sobre os ombros de gigantes”. E pronunciou a frase, originária de Bernardo de Charters, que abre o texto.

Dentre os gigantes elencados estavam Pitágoras, Arquimedes, Copérnico, Bruno, Galileu e outros feitores de descobertas e desvendadores dos mistérios infinitos do Universo.

Einstein pôs-se sobre os ombros de Newton e viu mais longe. Percebeu que a atração da matéria, entre os corpos, não se limitava à relação proporcional do produto da massa e a inversa proporção do quadrado das distâncias. Acrescentou a percepção de que até a luz sofre alteração pela atração de uma grandiosa massa.

À gravidade de Newton, de massa e distância, agora se acrescenta movimento e velocidade.

Não apenas acrescentou, mas pôs uma pulga atrás da orelha no conhecimento do Universo até então. Ficou o dito precisando de comprovação.

Essa comprovação veio bem depois, na circunstância de dois eclipses do Sol, quando os observadores, postados em lugares diferentes e distantes, fotografaram os fenômenos. E viram que a luz de uma estrela, vista por nós, mudava de lugar ao passar pelo Sol.

A estrela ainda está no mesmo lugar, mas a sua luz, vista da terra, sofre alteração gravitacional ao passar por uma enorme massa. No caso, o Sol. Essa descoberta revolucionou a física e diplomou a credibilidade de Einstein. Para nós, leigos e escassos, não é fácil compreender o alcance dessas descobertas.

Stephen Hawking encangou-se nos ombros de Albert Einstein e foi mais longe. Aproveitando o avanço da relatividade, na comprovação de que o Universo não é composto de espaços planos, mas ondulados, Hawking ousou negar uma “verdade” cristalizada. A crença de que os Buracos Negros engolem matéria e carecem de irradiação.

Hawking anunciou a existência de luz nos Buracos Negros, radiação térmica resultante de efeitos quânticos. Essa radiação recebe o seu nome.

Como ele defende a tese da existência de outros Universos, não seriam os Buracos Negros apenas canais de ligação? Que em vez de engolirem a matéria apenas a transfere para outros espaços universais?

Você conseguiu entender tudo isso? Eu também Não. Ocorre que é mais fácil ver a radiação de Hawking do que ver um raio de luz no “buraco negro” da vida político-institucional do Brasil.

Aqui, no Brasil de hoje, não há gigantes. O país é visto e observado por anões nos ombros de pigmeus. Té mais.

François Silvestre é escritor

Justiça? Que justiça?

Por Honório de Medeiros

Aos meus alunos do curso de Filosofia do Direito, vez por outra eu propunha o seguinte problema:

“Façam de conta que vocês são chefes de uma estação de trens, responsáveis, entre outras coisas, pela direção que as locomotivas devem tomar em seus percursos diários.”

“Um dia, durante o expediente, vocês recebem um comunicado urgente lhes informando que uma das locomotivas que passam em sua estação está completamente desgovernada e em alta velocidade.”

“Em sua estação vocês têm a possibilidade de conduzir a locomotiva, apertando os botões A ou B, por duas diferentes opções.” “Seu tempo para decidirem é extremamente curto. Algo como segundos.”

“Vocês sabem que na linha A trinta homens estão trabalhando na manutenção. E sabem que na linha B cinco homens lá trabalham fazendo o mesmo.”

“Qual a decisão de vocês?”

Em todos os anos de ensino, a resposta foi sempre a mesma: todos optaram por apertar o botão B. Ao lhes indagar por que faziam assim, respondiam-me que lhes parecia certo submeter a linha na qual estavam menos homens à possibilidade do choque.

Então eu lhes perguntava: “E se, na linha B, estava um engenheiro de manutenção, que por coincidência, era pai de vocês e um irmão, seu auxiliar”? Seguia-se um silêncio embaraçoso.

A grande maioria se recusava a responder a questão. Um ou outro, muito pouco, tendia para um lado ou para o outro.

Questões como essas começam a ser esmiuçadas pela psicologia social, um ramo que em muito deve seus avanços à combinação de duas vertentes poderosas: a teoria da seleção natural de Darwin, e o afã em larga escala, tipicamente americano, de realizar pesquisas de campo.

É nesse nicho que transita Leonard Mlodinow, festejado autor de “O Andar do Bêbado”, em seu novo livro denominado “Subliminar: como o inconsciente influencia nossas vidas”.

Mlodinow é doutor em física e ensina no famoso Instituto de Física da Califórnia. Mais que isso, ele é coautor, junto com Stephen Hawking – sim, isso mesmo – de alguns livros de inegável sucesso tanto de público quanto de crítica.

Em “Subliminar” Mlodinow, fundamentado em vasta pesquisa, apresenta hipóteses instigantes, como essa que eu transcrevo abaixo:

“Como enuncia o psicólogo Johathan Haidt, há duas maneiras de chegar à verdade: a maneira do cientista e a do advogado. Os cientistas reúnem evidências, buscam regularidades, formam teorias que expliquem suas observações e as verificam. Os advogados partem de uma conclusão a qual querem convencer os outros, e depois buscam evidências que a apoiem, ao mesmo tempo em que tentam desacreditar as evidências em desacordo.

Acreditar no que você quer que seja verdade e depois procurar provas para justificá-la não parece ser a melhor abordagem para as decisões do dia a dia.(…)

Podemos dizer que o cérebro é um bom cientista, mas é um advogado absolutamente brilhante. O resultado é que, na batalha para moldar uma visão coerente e convincente de nós mesmos e do resto do mundo, é o advogado apaixonado que costuma vencer o verdadeiro buscador da verdade.”

Muito embora o autor se refira a advogados, claro que ele alude a todos quanto lidam com a tarefa de produzir, interpretar e aplicar a norma jurídica. Em assim sendo faz sentido acreditar, como muitos acreditam, que os juízes, por exemplo, primeiro constroem um ponto de partida extrajurídico (sua visão do mundo, seus valores, seus interesses pessoais, etc.) e, somente depois, buscam evidências que apoiem suas futuras decisões.

A Retórica é exatamente isso, enquanto técnica.

A pergunta seguinte: a partir de quê os operadores do Direito constroem esse ponto de partida pode ser lida em um dos mais instigantes capítulos da obra de Mlodinow: “In-groups and out-groups”.

Nesse capítulo o autor chama a atenção para um epifenômeno que, hoje, é fato científico: a tendência que temos de favorecer “os nossos”:

“Os cientistas chamam qualquer grupo de que as pessoas se sentem parte de um ‘in-group’, e qualquer grupo que as exclui de ‘out-group’. (…) É uma diferença importante, porque pensamos de forma diversa sobre membros de grupos de que somos parte e de grupos dos quais não participamos; como veremos, também veremos comportamentos diferentes em relação a eles.”

“Quando pensamos em nós mesmos como pertencentes a um clube de campo exclusivo, ocupando um cargo executivo, ou inseridos numa classe de usuários de computadores, os pontos de vista de outros no grupo infiltram-se nos nossos pensamentos e dão cores à maneira como percebemos o mundo.”

“Podemos não gostar muito das pessoas de uma maneira geral, mas nosso ser subliminar tende a gostar mais dos nossos companheiros do nosso ‘in-group’.” Essa constatação – de que gostamos mais de pessoas apenas por estarmos associados a elas de alguma forma – tem um corolário natural: também tendemos a favorecer membros do nosso grupo nos relacionamentos sociais e nos negócios (…)”

Ou seja, como diz o senso comum: para os amigos tudo; para os indiferentes, a lei; para os inimigos, nada…

Se assim o é, e a ciência vem mostrando que sim, um dos corolários da obra de Mlodinow é pelo menos intrigante, e dá razão ao que dizem, desde há muito, os anarquistas e marxistas: a “visão de classe” contamina as decisões do aparelho judiciário. Não somente do aparelho judiciário. Contamina a produção, interpretação e aplicação da norma jurídica.

Isso quanto aos marxistas e anarquistas. Quanto aos darwinistas, nem se discute mais o assunto.

Para quem não é anarquista ou marxista, basta Gaetano Mosca, que também aborda, brilhantemente, essa perspectiva, quando trata da “classe política dirigente”. E quanto ao mundo jurídico? Neste caso, ainda está muito atrasada a discussão. Ainda há “juristas” que discutem se Direito é ou não ciência…

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

O belo triunfo do improvável quando tudo parece cinza

Quando era um estudante de 21 anos, Stephen Hawking descobriu que sofria de esclerose lateral amiotrófica, doença degenerativa que mata as células nervosas responsáveis pelo controle da musculatura. Na previsão dos médicos, ele teria alguns meses de vida, nos quais assistiria o corpo fugir progressivamente de seu controle.

Contra fortes evidências, apostou na vida – e se tornou protagonista de uma história fantástica.

Aos 70 anos, já se casou duas vezes, teve três filhos e três netos, experimentou a gravidade zero num voo sub-orbital, acrescentou dados novos à teoria da relatividade de Einstein e popularizou a ciência ao escrever livros como Uma breve história do tempo (1988) e O universo numa casca de noz (2001).

“Não posso dizer que a doença foi uma sorte, mas hoje sou mais feliz do que era antes do diagnóstico”, afirma, em entrevista a ÉPOCA.

Doença degenerativa não impediu Hawking de vencer pela obstinação (Sarah Lee)

ÉPOCA – O senhor de considera uma pessoa de sorte, apesar de sua condição física. Por quê?

Stephen Hawking – Eu não tenho muita coisa boa para dizer da minha doença, mas ela me ensinou a não ter pena de mim mesmo e a seguir em frente com o que eu ainda pudesse fazer. Estou mais feliz hoje do que quando era saudável. Tenho a sorte de trabalhar com Física teórica, uma das poucas áreas em que a minha deficiência não atrapalha muito.

ÉPOCA – O senhor acha que viveu até hoje uma vida boa? Por quê?

Hawking – Quando minha doença foi diagnosticada, nem eu nem meus médicos esperavam que eu viveria mais 45 anos. Acho que meu trabalho científico me ajudou a seguir adiante. Na primeira hora, eu fiquei deprimido. Mas a doença avançou mais devagar do que eu esperava. Comecei a aproveitar a vida sem olhar para trás. Minha doença raramente atrapalhou meu trabalho. Isso porque tive sorte de encontrar a Física teórica, uma profissão em que minha doença quase não atrapalha. Faço meu trabalho dentro da minha cabeça. Na maioria das profissões, teria sido muito difícil.

ÉPOCA – Depois do diagnóstico, o senhor pensou em abandonar a própria vida?

Hawking – Eu acho que as pessoas têm o direito de encerrar a própria vida, se quiserem. Mas eu acho que seria um grande erro. Não importa quanto a vida possa ser ruim, sempre existe algo que você pode fazer, e triunfar. Enquanto há vida, há esperança.

ÉPOCA – O senhor teme a morte? Por quê?

Hawking – Medo de morrer eu não sinto, se é essa a pergunta, mas também não tenho pressa. Tem muita coisa que eu quero fazer antes.

ÉPOCA – O que o senhor ainda espera da vida?

Hawking – Todos nós vivemos com a perspectiva de morrer no fim. Comigo é exatamente igual, a diferença é que eu esperava a morte bem mais cedo. Mais ainda estou aqui. Antes de morrer, espero nos ajudar a entender o universo.

Nota do Blog do Carlos Santos – E você aí achando que tem problemas, avaliando que a vida é difícil, quase desistindo de tudo…

“Enquanto há vida, há esperança”, diz Hawking.