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Meu 11 de Setembro, um dia que não acabou

Onde eu estava há 14 anos, no momento dos ataques terroristas de 11 de Setembro?

Lembro bem.

Como comum, em Mossoró. Como comum, manhã de sol.

A TV no quarto parecia uma geladeira. À época eu ainda conservava o hábito de manter um equipamento desse no quarto – permanentemente ligado.

Deparei-me com aquela cena de difícil compreensão: um edifício enorme, sob chamas.

As informações eram desencontradas e era difícil para mim, que acordava de uma noitada regida à Wyborowa, entender aquela imagem.

A princípio, pensei aturdido: é um filme.

Mas depois outro avião se choca contra novo edifício. Mais chamas. Não era um filme.

Segundo avião mergulha na direção da segunda torre: não era um filme (Foto: reprodução da Web)

A partir daí, a cobertura jornalística planetária passa a dissipar a ideia de acidente. Trabalhava-se com a certeza de um atentado terrorista.

A América imperial estava abalada. Mais do que nunca passou a ser um Estado policialesco, sempre sob o temor de mais atentados.

As chamadas “Torres Gêmeas”, o “World Trade Center”, desabaram e redefiniram – para pior – as relações entre Estados Unidos e o restante do mundo moderno.

Mesmo assim, parece que quase ninguém parou para refletir sobre o papel das grandes potências e da convivência do homem com o homem na Terra.

O surgimento do Estado Islâmico, guerras infindáveis, o populismo de ditadores sob o manto de supostas democracias e a migração de levas de refugiados africanos/árabes para a Europa, nos devolvem à barbárie. Se é que um dia nos livramos dela.

A guerra não é entre União Soviética e Estados Unidos, comunismo e capitalismo. Ocidente e Oriente, também não.

A grande batalha de hoje é a de sempre: o homem conseguir se enxergar como um só.

Síndrome de Zapruder

Por Marcos Araújo

Era uma tarde especial do dia 22 de novembro de 1963 para o ucraniano Abraham Zapruder. Simpatizante do Partido dos Democratas, ele tomara conhecimento pela televisão que naquele dia, a estrela maior do seu partido, o Presidente John Kennedy, passaria o dia em Dallas (Texas), e que desfilaria em carro aberto ali bem próximo da sua fábrica de confecções.

Após dispensar os funcionários para que acompanhassem o desfile, Mr. Zapruder dirige-se à Dealey Plaza. De posse de uma câmera Bell & Howell de 8 milímetros, modelo 414 PD de última geração, Zapruder subiu no topo de dois pedestais de uma pérgola de concreto e alí filmou, sem querer, a cena do assassinato do presidente.

Passados dois quartos de um século, o baixinho Zapruder ainda é estudado pela Psicologia por dois aspectos intrigantes: a) não ter parado de filmar a cena, mesmo sabendo que se tratava de um assassinato e que estava correndo risco de vida; e, b) ter colocado os interesses pessoais acima do fato histórico, recusando dar a fita para os investigadores e iniciar no mesmo dia um processo de venda da imagem aos órgãos de imprensa.

Denunciado ao FBI pelo repórter Herry McCormick, do Dallas Morning News, Zapruder somente concordou em entregar uma cópia do filme, pois pretendia vender o original.

O filme foi vendido à revista LIFE por 200.00o dólares.

A morte de Kennedy e a arte acidental de Zapruder mudaram a forma de cobertura jornalística no mundo todo. O jornalista, antes mero descritor dos fatos, passou a fazer parte da cena relatada. Em qualquer reportagem, a matéria só sai real se colocar o repórter como figurante e testemunha real do evento.

É mundialmente famosa a frase inicial da transmissão ao vivo de Peter Arnett e Bernard Shaw, jornalistas da CNN, no início da guerra do Golfo: “Os céus sobre Bagdá estão iluminados. Vemos flashes brilhantes por todo o céu.” Eles transmitiram ao vivo o bombardeio sobre a capital do Iraque.

Shaw estava vendo a história acontecer bem a sua frente, na janela da suíte 906 do Hotel Al-Rashid, no centro de Bagdá. Eles eram os únicos repórteres ocidentais que acompanhavam os clarões dos primeiros ataques.

No Brasil, alguns cinegrafistas já morreram na cobertura da guerra ao tráfico ou na filmagem de meros protestos. Recentemente, assistimos Marcos Uchoa, repórter da Rede Globo, correndo dos mísseis na faixa de Gaza.

Em Mossoró, blogs especializados transmitem a violência em tempo quase real. Há quem denomine essa compulsão por divulgar essas notícias como “mídia sangue-show”. A briga entre os fotógrafos é pelo melhor ângulo do cadáver. Embora exista uma corrente do jornalismo que pede “esqueçam o cadáver!”, outra, mais forte, insiste em trazer a imagem, da forma mais nítida possível, do coitado do cadáver.

Às vezes, a notícia é tão instantanea que a família toma conhecimento da morte de um ente por meio dos sites especializados. Em sua maioria, as matérias trazem o cadáver para a nossa mesa de trabalho ou para a sala da nossa casa.

DEPOIS de Zapruder, a imagem catastrófica tem muito valor. A disputa é mercadológica. A imagem do ataque às Torres gêmeas, em Nova York, foram negociadas por 100 mil dólares.  Em terra de Pindorama, recentemente, no episódio da queda do avião de Eduardo Campos, jornalistas buscavam comprar imagens ou vídeos de moradores da região, relacionados com o acidente. Se pagou milhares de reais por imagens feita por “amadores”.

Em uma delas, o narrador faz um comentário jocoso da explosão. Aproveitando o mesmo fato como exemplo, pela TV se viu o máximo da bestialização: pessoas tiravam selfies com a imagem do caixão de Eduardo Campos ao fundo.

Dizem os biógrafos e historiadores que Zapruder ficou com trauma, nunca mais pegou numa câmera. O mal, porém, já havia propagado.

O cientista Samuel Cohen, inventor da bomba de nêutrons, transformada em uma arma capaz de matar pessoas e deixar edifícios intactos, prestes a falecer em 2010, aos 89 anos de idade, disse ter se arrependido da sua criação. Era tarde demais! O mal já havia feito. E irremedialvemente.

Arrependido ou não, vem do comportamento-modelo de Zapruder uma síndrome pelo registro de imagens que, longe do interesse histórico, tem mesmo a necessidade de espetaculosidade ou exibicionismo.

Zapruder é o pai dos paparazzi, avô da selfie e de suas afilhadas belfies e felfies. O seu vírus contaminou o mundo, e a bobagem comportamental, que era já muita, aumentou…

Marcos Araújo é professor e advogado