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Nem o amor pode atrasar o fechamento

Por Joaquim Ferreira dos Santos

Danuza Leão, Samuel Wainer e Pink Wainer (Foto: Reprodução de O Globo)
Danuza Leão, Samuel Wainer e Pink Wainer (Foto: Reprodução de O Globo)

Até hoje me arrepio ao pensar na cena. Danuza Leão, então colunista social, atravessa a redação do Jornal do Brasil. Vem em minha direção para conversar algo que se perdeu na fumaça dos cigarros, naquele longínquo 1993, ainda permitidos em ambientes fechados. O que aconteceu em seguida, a razão do arrepio, foi o que restou de memorável.

Ao chegar à minha mesa, Danuza sentou-se sobre o tampo e ali ficou, em sua deliciosa mistura de vamp com pitadas de witty, desfiando o que suponho ter sido algum “babado forte” bem ao nosso gosto. Até que me dei conta:

— Danuza, você está sentada no Samuel Wainer.

Era um envelope com cópias de reportagens sobre a vida do jornalista, marido dela até o dia em que, protagonizando um dos maiores “babados fortes” da história, ela o trocou pelo compositor e também jornalista Antônio Maria, empregado da mesma Última Hora de que Wainer era proprietário. Como Maria era o personagem do livro que eu escrevia naquele momento, lá estava o envelope cheio de pesquisas servindo de assento à minha amiga.

— Meu Deus! — disse Danuza, subitamente séria, dando um pulo para fora da mesa e retirando-se para sua sala.

A vida de Samuel Wainer, um modernizador da imprensa, está num documentário de Dario Menezes que os canais Brasil, Globoplay e Curta mostram ainda este semestre, quando se comemoram, mais exatamente em junho, os 75 anos da fundação da Última Hora. Na virada para os anos 1960, não foi apenas um grande jornal, mas um responsável pela educação sentimental, sexual e afins de muito menino carioca. Era o que se lia lá em casa.

Um dos colunistas da seleção escalada por Wainer era Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta. Ele ilustrava a seção com fotos de vedetes, moças de índole progressista que tinham como característica física um par de coxas roliças, chamadas “mocotó” – em suas melhores circunferências, mediam de um canto ao outro desta página. Eram as certinhas do Lalau. Uma delas, Carla “Joãozinho Boa Pinta” Morel, era tão certinha que namorava o presidente da República, por acaso casado, João Goulart.

Uma vez perguntei à Danuza o que a fizera trocar o poderoso Wainer por Maria, sempre de grana curta, acima do peso, as calças seguradas pelo poder dos barbantes, além de forte tendência à melancolia, autor de “Ninguém me ama”.

– Ele me ouvia.

Em três palavras, Danuza me deu uma aula de sensibilidade feminina. Para a felicidade dos leitores, no entanto, Wainer só ouvia aquilo, o gemido das rotativas do jornalismo. Um dia, diante de toda a redação, Jacinto de Thormes, colunista social, o acusou de estar comendo sua mulher. Samuel confirmou, e deu de ombro – isso era o de somenos:

– Estão comendo a minha também e nem por isso atrasei o fechamento.

Toda a saga do grande jornalista (1910-1980) está no ágil doc de Dario Menezes. Foi ele quem deu a Nelson Rodrigues a ideia de deslocar o “Crime e Castigo”, de Dostoievski, para o noticiário policial carioca, o mote de “A vida como ela é”.

A coluna tinha adultério, ciúme e traição em Copacabana, mas Nelson podia ter se inspirado nas cenas passionais da vibrante redação que Samuel Wainer comandou na Praça da Bandeira. O jornalismo tinha sua importância, mas não bastava – não basta.

– É o amor – escreveu Nelson em uma dessas colunas – que impede o homem de trotar pela Presidente Vargas montado por um Dragão da Independência.

Joaquim Ferreira dos Santos é jornalista e escritor

*Texto originalmente publicado em O Globo

Em busca de Dorian

Por Esdras Marchezan

Há 13 anos, Mossoró despedia-se de um de seus maiores jornalistas. Morria Dorian Jorge Freire.

Maior expoente até hoje da imprensa mossoroense, com passagem pelos jornais O Mossoroense (RN), Última Hora (SP), Diário Carioca, Brasil, Urgente, Revista Escola (SP), Revista Realidade (SP), Diário de Natal (RN), Tribuna do Norte (RN) e Gazeta do Oeste (RN), é considerado um de nossos maiores cronistas.

Mas Dorian é muito maior que suas crônicas, iniciadas em 1948, nas páginas de O Mossoroense, sob a bênção do pai Jorge Freire e de Lauro da Escóssia.

A trajetória de Dorian na imprensa paulista, principalmente no Última Hora, de Samuel Wainer, e no ousado Brasil, Urgente, inserem ele no rol dos grandes nomes da nossa imprensa.

Iniciado como estagiário na redação paulista do jornal de Wainer, em alguns anos, Dorian ganhou espaço na cobertura política, chegando a assinar a principal coluna da editoria “Revista dos Jornais”. Suas opiniões eram repercutidas fortemente na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Na “Última Hora” entrevistou personalidades e fez grandes e ilustres amizades, como Hilda Hist, Alceu Amoroso Lima, e Ignácio de Loyola Brandão, apenas para citar alguns. Foi repórter, chefe de redação e articulista dos melhores.

No Brasil, Urgente, jornal combativo ligado à Igreja Católica, mostrou perseverança e coragem ao enfrentar o sistema político de então, com um periódico mantido praticamente por seus leitores. Não resistiu ao golpe de 64.

No Rio Grande do Norte, foi responsável pela modernização das redações do Diário de Natal e Tribuna do Norte. Regressando a Mossoró, em 1975, após concluir o bacharelado de Direito, em São Paulo, lidera uma das retomadas históricas de “O Mossoroense”, implementando muito do modernismo vivenciado no jornalismo paulista.

Traído pela saúde, como tantos de nós seremos ainda, dedica-se à escrita da crônica diária, prática que manteve até os seus últimos dias, mesmo com um dedo somente a bater nas teclas da máquina de escrever.

No ano passado, junto aos estudantes Marcos Leonel, Leonora Sales e Fernando Nícolas, dei início a um projeto de pesquisa com o objetivo de contar a história deste jornalista tão importante para a história da imprensa potiguar.

Os primeiros resultados serão apresentados em breve, e a pesquisa seguirá durante este ano, com apoio do amigo Clauder Arcando.

Não é justo deixarmos a nossa história à mercê das traças. É preciso resgatar e contar aos mais novos quem foi Dorian Jorge Freire, e toda sua grandeza para a imprensa potiguar.

Viva, Dorian!

Esdras Marchezan é jornalista e professor e subchefe de Gabinete da Universidade do Estado do RN (UERN)

“Última Hora” será lançado na próxima quinta-feira

O lançamento do livro “Última Hora” do mossoroense José Almeida Júnior, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2017, acontecerá na quinta (21), a partir das 19h.

Será no foyeur do Teatro Municipal Dix-Huit Rosado, em Mossoró.

A publicação conta a história de “Marcos”, um jornalista atormentado entre a militância comunista e o trabalho no jornal que apoia Getúlio Vargas. O autor José Almeida Júnior reconstrói os últimos meses do presidente no governo, antes do suicídio, e a briga entre Samuel Wainer, da Última Hora, e Carlos Lacerda, da Tribuna da Imprensa.

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“Última Hora” chega pelas mãos de autor mossoroense

Nasceu “Última Hora”, romance que venceu o Prêmio Sesc de Literatura em 2017. A publicação conta a história de “Marcos”, um jornalista atormentado entre a militância comunista e o trabalho no jornal que apoia Getúlio Vargas. O autor José Almeida Júnior reconstrói os últimos meses do presidente no governo, antes do suicídio, e a briga entre Samuel Wainer, da Última Hora, e Carlos Lacerda, da Tribuna da Imprensa.

Livro foi premiado (Foto: cedida)

O livro será lançado oficialmente pela Editora Record em quatro cidades: 28/11 em São Paulo, 05/12 em Brasília, 07/12 em Belém e 21/12 em Mossoró, no Teatro Municipal Dix-huit Rosado.

Natural de Mossoró, José Almeida Júnior é formado em Direito pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), com pós-graduação em Direito Processual e em Direito Civil. Há dez anos reside em Brasília, onde exerce o cargo de Defensor Público do Distrito Federal.

‘Democrata’ e ditador

“Getúlio Vargas lançou as bases do trabalhismo brasileiro e influenciou o pensamento de esquerda de políticos como Jango, Brizola e Lula. Por outro lado, Vargas perseguiu comunistas e implantou uma ditadura violenta durante o Estado Novo. Tive a curiosidade de compreender o comportamento dos comunistas, que haviam sido perseguidos no Estado Novo, durante o governo democrático Vargas do início dos anos 50”, conta o autor, em entrevista ao blog da editora.

No livro, Almeida Júnior refaz uma das maiores batalhas da imprensa na época, a de Carlos Lacerda, da Tribuna da Imprensa, e Wainer. Com o apoio da cadeia de jornais e rádios de Assis Chateaubriand, o Chatô, e de outros magnatas das comunicações, como Roberto Marinho, Lacerda perseguiu o dono da Última Hora até o desfecho final da crise, com o suicídio do presidente. Marcos, que ora se alia a Wainer ora ajuda Lacerda, é o contraponto entre esses personagens tão complexos.

Boa literatura

“Procurei encontrar as contradições em Wainer e Lacerda e explorá-las no ponto de vista de Marcos”, diz o autor.

“Histórico, mas sem qualquer ranço de didatismo, Almeida Júnior consegue, ao mesmo tempo, com enorme competência, reviver uma época e insuflar vida a personagens reais, tornando-os complexos”, assinala o escritor Luiz Luffato, resenhando as 352 páginas de “Última Hora”.

“O romance é lapidar em nos lembrar a história do país sem expor a pesquisa – um bordado que camufla o cerzido e deixa ver apenas o que interessa: a boa literatura, diz a também escritora Andréa del Fuego, na orelha do livro.

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