Arquivo da tag: venezuelanos

Diáspora

Pão, pobreza, dividindo pão, fome. misériaPor Marcos Ferreira

O menino pequeno e negro abre a lixeira.

Revira o lixo e encontra um pedaço de pão.

Parece que contém um pouco de sujeira…

Estuda o fragmento e logo passa a mão.

 

Depois, espertamente, o garotinho cheira

A massa descartada e ele mordisca. Então

Descobre que seu gosto não é de primeira,

Porém não desperdiça aquela refeição.

 

É magro e cabeçudo, pernas bem cambadas.

Decerto o pobrezinho não tem nem dez anos.

À noite, com a mãe, dormindo nas calçadas.

 

Divide o pão com ela, cerca da metade.

A mãe quanto o pequeno são bolivianos,

Sozinhos e invisíveis na grande cidade.

Marcos Ferreira é escritor

Aporofobia e relevância social a partir da vestimenta

Por Marcos Araújo

Uma orientação é comum em todos os manuais de headhunters como requisito do candidato ao emprego: prezar pela aparência e pelas vestimentas usadas na ocasião da entrevista. De acordo com uma pesquisa da Office Team, empresa norte-americana especializada em recrutamento profissional, o guarda-roupa é um fator fundamental. Além do emprego, a pesquisa apontou que o jeito de se vestir influencia na hora do empregado(a) ser promovido.roupas, camisas, cabides,

Pensei neste quesito agora que temos 4 milhões de refugiados de guerras somente na Europa, fugidos às pressas, apenas com uma sacola de mão contendo um pouco de comida e poucas peças de roupa. Em situação símile, milhares de venezuelanos perambulam em solo brasileiro em busca de comida e trabalho, à espera de uma providencia humana ou divina quanto ao seu alimento, abrigo e vestuário.

Refugiados e os pobres, de uma maneira geral, sofrem de uma doença social chamada Aporofobia (termo cunhado pela filósofa Adela Cortina, professora da Universidade de Valência). A palavra vem do grego “áporos”, o pobre, o desamparado, e “fobéo”, que significa odiar, rejeitar. Apesar de estranha, a palavra representa uma terrível realidade quanto à rejeição da pobreza.

A humanidade é historicamente formada pelo preconceito. Apenas como exemplo, na idade média, os bárbaros eram vistos como inferiores e escravos. No período vitoriano, as pessoas tidas como feias eram alvo de preconceito, com a desculpa que seria a feiura um castigo de Deus aos “impuros de alma”. Durante a guerra civil americana, os negros eram os alvos de crueldades. Nas décadas de 60 e 70, era o público LGBTQAI+ os antagonizados, e hoje, os refugiados são os excluídos.

Um pijama listrado no período da 2a. Guerra mundial serviu de dístico para a morte de milhões de judeus. Várias décadas depois, as vestimentas ainda continuam sendo parâmetros distintivos de classes sociais. Um exemplo conhecido pode ser dado: na rua  João da Escóssia, imediações da Praça do Rotary, dois vendedores de água disputam a clientela. Um, se veste de forma mais humilde; o outro, traja-se com roupa social e gravata.

O primeiro é confundido como se fosse um pedinte; o segundo, tratado como um arrojado empreendedor. Para o primeiro, os vidros das janelas dos veículos são cerrados; para o segundo, os vidros são baixados e ainda se pronunciam palavras de estímulo. Os dois são niveladamente iguais empreendedores e vendedores de água. A diferença na acepção parte da “clientela”.

Mesmo num mundo tão globalizado e evoluído tecnologicamente, ainda se vê rincões da ignorância, da incivilidade e da exclusão social que se pautam em empregar pessoas a partir do vestuário, da beleza, elementos raciais, de cor, sexo, idioma, religião, origem nacional ou social, opinião política, nascimento ou outro status.

No mundo jurídico e social, as vestes são vistas como símbolos  do poder. Blazer, Black-tie, vestidos  longos e outras vestes talares são inventos artificiais criados para instituir um ritual simbólico de poder. Contudo, tomando por empréstimo a expressão “minha roupa não me define”, criada para combater a violência de gênero, deve ser realçado que o conhecimento, a inteligência, o respeito, o saber e a educação não precisam de vestes especiais.

São José, o santo festejado nesta semana, e o seu amado filho Jesus, simples carpinteiros, se cobriam com túnicas sem costuras ou adornos. Até despojado de suas vestes o Cristo foi, no momento do seu sacrifício.

Uma sociedade justa, humana e fraterna se constrói com menos simbolismo, tradição e escolha de vestes, e muito mais com os valores da igualdade, acolhimento, humanidade, liberdade e fraternidade.

Que o nosso mundo aprenda a horizontalizar a todos no acesso ao emprego e ao bem-estar social, sem o olhar discriminador de suas vestes.

Marcos Araújo é professor e advogado

Pedintes que vagam na capital

pedintes_ReproduçãoEstou impressionado com a quantidade de pedintes e improvisados ambulantes nos cruzamentos urbanos do Natal.

Há tempos não via isso.

Na verdade, não lembro de ter visto antes, em mais de 22 anos circulando constantemente em nossa capital, tanto a trabalho como por outras motivações.

Além da mendicância de origem nativa, também temos “importados” venezuelanos aqui e ali.

São adultos e crianças vagando à cata de migalhas à sobrevivência.

Acompanhe o Canal BCS (Blog Carlos Santos) pelo TwitteAQUIInstagram AQUIFacebook AQUI e Youtube AQUI.