Arquivo da tag: Yuval Harari

Educação Ambiental e Utopia – caminhos para um futuro sustentável

Por Zildenice Guedes

Foto ilustrativa Gov.Br
Foto ilustrativa Gov.Br

O termo Educação Ambiental tem sua origem na evolução da questão ambiental, que despontou em meados da década de 1960. De lá para cá, muita coisa mudou, e muitas questões passaram a se colocar como urgentes. O sentimento identificado nas primeiras conferências internacionais voltadas à discussão sobre a necessidade de um novo modelo de desenvolvimento para a humanidade era de que era preciso considerar a escassez dos recursos naturais e, diante disso, o comprometimento desses recursos para as futuras gerações.

Foi nesse contexto que se definiu o conceito de Desenvolvimento Sustentável, proposto pela Comissão Brundtland, conhecido como “Nosso Futuro Comum” ou “Relatório Brundtland”, instituído pela referida comissão no ano de 1987. Duas questões precisam ser consideradas: a primeira é que estava evidente, já no início das discussões, que o modelo de desenvolvimento consolidado pelos países desenvolvidos não poderia ser adotado pelos países em desenvolvimento. A ideia de “crescimento a todo custo” mostrava-se, de fato, insustentável — sem contar as grandes tragédias ambientais que marcaram esse processo histórico.

Diante disso, tornou-se urgente repensar e buscar um novo modelo de desenvolvimento, que fosse viável para as futuras gerações, que não comprometesse o acesso aos recursos naturais, bem como a possibilidade de usufruir de um planeta que passava a ser percebido sob outra perspectiva. Essa nova visão foi proposta pelo cientista inglês James Lovelock, em 1979, com o conceito de Gaia — a Terra como um organismo vivo, mãe de todas as espécies, inclusive da humana.

A Educação Ambiental emerge nesse contexto com um propósito fundamental: reconhecer que não haverá Desenvolvimento Sustentável se não educarmos as pessoas para estabelecerem uma nova relação com a natureza. Nesse sentido, é necessário compreender que a natureza não pode ser reduzida apenas à sua função de fornecedora de recursos para a espécie humana. Este planeta é a casa de inúmeras outras espécies e formas de vida, das quais nós, seres humanos, dependemos — e isso é importante ressaltar.

O autor Eli da Veiga (2015) afirmou que o conceito de Desenvolvimento Sustentável está profundamente relacionado à utopia, à nossa capacidade imaginativa de criar outros futuros possíveis. Tenho refletido sobre isso e concordo com seu pensamento. Afinal, qual o sentido de discutir Desenvolvimento Sustentável ou Sustentabilidade, se não for para questionar as múltiplas crises que enfrentamos e, a partir disso, nos movermos em direção a um futuro viável para as pessoas e para as demais espécies neste planeta — que é nossa casa comum? Apesar disso, somos reiteradamente tomados por um pensamento reducionista, que insiste em ignorar a nossa interdependência com os outros seres vivos.

A Educação Ambiental sempre foi urgente e necessária e no momento presente ela se coloca como imperativa. Ao pensarmos nas cidades e nos territórios que temos — e naqueles que queremos —, certamente a Educação Ambiental atravessa essas reflexões. Está diante de nós o fato de que as mudanças climáticas e seus efeitos já chegaram, e as consequências são cada vez mais intensas e desafiadoras. As cidades e as áreas rurais precisam ser espaços de promoção da qualidade de vida, o que passa necessariamente pela Educação Ambiental — por refletirmos sobre como cuidamos do que está ao nosso redor e do qual fazemos parte.

Não é mais possível negligenciar o fato de que nós, seres humanos, somos natureza. Por isso, é necessário um esforço coletivo para que tenhamos cidades e zonas rurais mais arborizadas, corpos hídricos livres de contaminação por dejetos e resíduos das ações humanas, além de áreas de lazer que favoreçam o contato humano com a natureza, numa perspectiva de interação e valorização do capital natural, simbólico e cultural presente nesses espaços.

Concordo com Yuval Harari quando afirma que a maior habilidade que precisamos desenvolver neste século tão desafiador é a cooperação. Acredito profundamente nisso. E acredito, ainda, que a efetividade da Educação Ambiental nos impõe esse sentimento de responsabilidade compartilhada. Sim, deve ser responsabilidade de todas as pessoas.

Se podemos ser otimistas ou utópicos — bem, comecei este texto falando em utopia e não poderia encerrá-lo sem voltar a ela. Afinal, não considero que estou concluindo, mas sim convidando outras pessoas a se inquietarem e refletirem sobre como, numa perspectiva colaborativa, podemos contribuir para a efetividade e o fortalecimento da Educação Ambiental. Mesmo sendo utopia, ela é extremamente necessária para tempos tão desafiadores.

Ressalto que o convite à utopia, aqui proposto, é um chamado para sairmos da inércia e do lugar em que estamos, para fazer ecoar nossa voz de forma que outras se juntem a ela — e, assim, possamos ser parte do futuro possível que desejamos para este planeta, que é a nossa casa. Nossa única casa.

REFERÊNCIA:  VEIGA, José Eli da. Para entender o Desenvolvimento Sustentável. São Paulo: editora 34, 2015.

Zildenice Guedes é pós-doutora em Ciências Ambientais – Ufersa, doutora em Ciências Sociais – UFRN, mestre em Ambiente, Tecnologia e Sociedade – Ufersa e professora da Uern

Verdade, realidade e perda da inteligência, problemas para esse século

redes sociais, algoritmo, inteligência artificial, Internet, tecnologia,Por Marcos Araújo

A mais impactante e a mais sentida transformação da sociedade neste século se deu no campo da tecnologia, especialmente pelo seu uso transformador na produção da informação. Vivemos numa sociedade em rede, para usar a expressão do sociólogo Manuel Castells. Essa “rede digital” é a nova morfologia social, modificando o processo produtivo, o poder e o ambiente cultural.

Um cidadão médio do Século XXI recebe em um dia mais informação do que um cidadão médio do século XIX recebeu em toda sua vida. A informação, que em passado bem recente tinha centralizada a sua fonte nos meios de comunicação, está no presente disseminada em bilhões de postagem de usuários da internet, que passaram a ser alimentadores de conteúdo.

A sociedade hiperconectada não armazena mais informação. A exteligencia é buscar a informação externa, tópica, onde ela está. A expressão exteligência foi empregada pela primeira vez pelo matemático francês Ian Stewart e pelo biólogo inglês Jack Cohen e lançado no livro Figments of Reality: The Evolution of the Curious Mind (Invenção da realidade: a evolução da mente curiosa), em 1997.

Com a internet, os smartphones e os aplicativos, estamos cada vez menos exigindo raciocínio de nosso cérebro. Hoje, buscamos na internet informações que satisfaçam nossa curiosidade diversiva (a curiosidade mais fútil e sem profundidade) e a curiosidade empática (a curiosidade de saber da vida alheia) e estamos deixando muito pouco espaço para a curiosidade epistêmica (a curiosidade mais analítica, profunda, que incita questionamentos e raciocínios mais profundos).

O Google tem as respostas, então não precisamos mais decorar moeda de países, governantes, capitais, distâncias, CEP´s… O Waze nos mostra o caminho. O smartphone salva os telefones dos amigos, compromissos, agenda, desperta para os compromissos, faz cálculos. Estamos delegando a dispositivos fora de nosso cérebro funções que eram prioritariamente mentais, e com isso, estamos tornando nosso cérebro preguiçoso. A sociedade está emburrecendo e perdendo o poder de criatividade.

Não foi à toa que Umberto Eco em 2015 testificou que “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”, que antes falavam apenas “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”. Acrescentou ele que “normalmente, eles (os imbecis) eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel”.

A (des)informação trazida pelos “imbecis” que alimentam as redes sociais afetam um elemento moral muito valioso para uma sociedade: a verdade.

A busca da verdade é objeto da ciência desde sempre. E o comportamento social que enfatiza a verdade como objeto de fala vem desde a Grécia antiga, chamada de Askésis por Sócrates (filósofo grego do século IV a.C.). A parresia socrática, no dizer de Michel Foucault, se refere tanto à atitude moral, ao ethos, do mestre, do diretor de consciência, quanto à técnica necessária para transmitir os discursos verdadeiros.

Sócrates foi colocado diante de um dilema: no seu julgamento lhe foi oferecida a absolvição caso ele deixasse de professar sua filosofia e, após a condenação, foi oferecida também a oportunidade de fugir.  Ao escolher beber cicuta e morrer, ao invés de fugir, Sócrates não renunciou à sua verdade. Escolheu falar a se calar.

O outro dilema secular é a fuga da realidade, também causada pela utilização massiva dos recursos da internet (cibercultura). Aplicativos e redes sociais têm servido para a construção de estereótipos virtuais. A hiperconexão tem produzido pessoas superficiais, totalmente desligadas da realidade.

É preciso perder a ingenuidade em relação à cibernética. A internet é como um iceberg. A gente só vê uma parte aparente. A parte mais complexa e dura está submersa. Aplicações e ambientes tecnológicos estão voltados para o básico: culturalmente, só pensamos sob a ótica do ligar e desligar os computadores.

Não percebemos ainda, mas os aplicativos estão dominando a nossa vida. Estamos tão apaixonados pela conectividade que ninguém se atém a ler os termos e condições de uso de determinados aplicativos, e nem mesmo os seus efeitos. A nossa tecnodependência no Whatsapp, Instagram, Facebook, Youtube e outros apps tem sido uma fonte inesgotável para a coleta dos nossos dados e dos nossos impulsos emocionais.

Tem sido a partir deles que os coletores têm feito uma avaliação psicométrica das nossas necessidades de consumo, de saúde, do estágio cultural, do posicionamento político, das condições econômicas etc. Vivemos uma cleptocracia digital. Os coletores de dados têm a psicografia como arma, e fazem operações psicológicas nas ofertas (Psyops).

Um neurocientista francês chamado Michel Desmurget, diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde da França, apresentou em 2020 um estudo que demonstra de forma enfática como os dispositivos digitais estão afetando seriamente o desenvolvimento neural de crianças e jovens.

Estamos criando uma sociedade com mais inteligência em rede, mas com menos inteligência individual. E considerando o avanço dos algoritmos de Inteligência Artificial, muito em breve estaremos confiando a esses algoritmos a tomada de decisões. E então a IA vai decidir onde trabalharemos, o que faremos, com quem casaremos, o que vamos comer, etc. E neste ponto, a profecia de Yuval Harari: “Afinal, qual será o significado da vida quando todas as decisões importantes serão feitas por algoritmos?”

Não padeço de cainofobia (do grego “kainos”, medo do novo), mas o nosso futuro preocupa. Desnecessário dizer os inúmeros benefícios das redes sociais, assim como do desenvolvimento tecnológico como um todo. A reflexão é de como está sendo utilizada e qual a postura que podemos adotar para minimizar os efeitos negativos desse cataclisma sócio-tecnológico.

Marcos Araújo é professor e advogado

Ler para não crer

Por Marcelo Alves

A sábia menina Mafalda, do cartunista Quino (1932-2020), tem uma frase fantástica, que vivo repetindo por aí: “viver sem ler é perigoso. Te obriga a crer no que te dizem”. Não sei de quando é essa sentença, já que a tira de quadrinhos foi criada lá nos anos 1960. Mas a ideia por detrás dela nunca foi tão atual.Fake News - tecla

Hoje, a desinformação proposital, que batizamos de “fake news”, ganhou o mundo e, para atender aos interesses dos nossos milicianos digitais, fez casa no Brasil, sobretudo por meio do WhatsApp. Li na Internet dados estarrecedores. Em 2018, o instituto francês Ipsos divulgou o estudo “Fake news, filter bubbles, post-truth and trust” (“Notícias falsas, filtro de bolhas, pós-verdade e verdade)”, realizado em 27 países, que revela o buraco em que nos metemos: 62% dos entrevistados brasileiros disseram ter acreditado em fake news, valor bem acima da média mundial de 48%.

Já o “Reuters Institute Digital News Report” (relatório anual feito pelo Instituto da Universidade de Oxford), na versão 2021, constata que o WhatsApp é, com o Facebook, uma das principais redes de notícias no país. 47% dos brasileiros pesquisados usam o WhatsApp como fonte de informação. E isso é muito superior – muito mesmo – à média dos países desenvolvidos, a exemplo do Reino Unido e dos EUA, onde se tem 14% e 6%, respectivamente.

Embora “a incerteza trazida pela pandemia tenha encorajando o apetite das pessoas por informação confiável” – e esse é o dado positivo de 2021 –, vocês podem imaginar, por comparação, a borda/precipício da “terra plana” em que a milícia do WhatsApp nos pendurou.

As fake news crescem a partir da divulgação criminosa por gente de má-fé. Mas também na medida do compartilhamento, sem a leitura questionadora, das pessoas de boa-fé. Uma coisa que sempre me indignou, agora muito mais, é a capacidade do ser humano de repetir lugares-comuns e cretinices.

As sofisticadas fake news são um plus em relação a isso. Com títulos ou imagens sensacionalistas, distorcendo a verdade, apelam ao emocional do divulgador. Corroboram os seus preconceitos inconfessáveis. Fazem-no divulgar aquilo que acredita mas não tem a coragem de assumir com suas próprias palavras. As leis da imitação, de Gabriel Tarde (1843-1904), nunca encontraram terreno tão fértil como no estrume iletrado do WhatsApp.

O caso dos movimentos antivacina ilustram tragicamente a situação. Amalucados criminosos, contrários às vacinas, espalham falsidades, sugerindo que as vacinas podem ser ineficazes ou mesmo prejudiciais à saúde. Coisas sutis como provocar autismo nas crianças ou conspirações como modificar o nosso DNA. De mentira em mentira, volta o sarampo ou temos uma explosão de Covid nos não vacinados, perigando o fim da pandemia em prejuízo de todos.

Há gente como Pierre Lévy (1956-) e Yuval Harari (1976-) que veem na Internet e na inteligência artificial, em contrapartida ao lado positivo, um perigo enorme à democracia e ao mundo civilizado. O controle imperceptível que as fake news – e as bolhas de informação criadas por elas – podem ter sobre o que pensamos e compartilhamos é imenso. E acabam nos dando de volta sempre mais do mesmo, insuflando os nossos – às vezes, terríveis – preconceitos. Peter Sloterdijk (1947-) nos fala de um mundo ou vários mundos forjados a partir de “bolhas”. Bolhas cheias de “idiotas da aldeia”, como dizia Umberto Eco (1932-2016).

A pergunta é: existe solução para isso no estado democrático de direito? Não queremos um big brother, por óbvio. Há dicas para não se cair nas mentiras das redes sociais.

Desconfie de títulos milagrosos ou sensacionalistas. Eles são criados para gerar robotização. Confira a data da publicação. Notícia real, mas antiga, distorce a verdade. Confira e investigue a fonte. Ela existe ou é apenas um print de WhatsApp? A fonte tem credibilidade? Aliás, é bom consultar os sites de verificação gratuitos. Existem vários.

Sinceramente, eu não sei a solução. Apenas acredito no infinito poder das palavras. Das bibliotecas, dos livros e da leitura questionadora, assim como o autor de “O nome da rosa”. E que “viver sem ler é perigoso”, como diz a Mafalda.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL