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A aventura da reportagem e os moinhos de vento de F. Gomes


Meados da década de 90, eu comandava a redação do jornal Gazeta do Oeste, com a colaboração de vários nomes. Éramos uma equipe; a chefia seria mais uma referência hierárquica do que posto de comando.

Entre as nossas metas: alcançar o Seridó, fincar bandeira e expandir influência geopolítica do periódico.

Lembro-me bem a primeira manchete num domingo, com o jornal chegando à região, a partir de Caicó, logo cedinho da manhã:

– Bom-dia, Seridó!

Nossa referência no lugar não poderia ter sido melhor: jornalista-radialista Francisco Gomes de Medeiros, o "F. Gomes". À tiracolo, "Saci", um intrépido repórter-fotográfico, com permanente bom humor e fidelidade canina ao amigo.

Quantas histórias!

Um, poderia ser "Dom Quixote"; o outro, por que não "Sancho Pança?"

Em seus papeis, unha-e-carne, isca e anzol, irmãos siameses, escreveram parte considerável da rotina e dos sobressaltos da região. Da política à nauseante área policial.

Duelavam contra moinhos. Tinham zelo e apetite pela notícia. Faziam parte de uma espécie em extinção no jornalismo, sempre convertendo qualquer dificuldade em estímulo à produção da reportagem.

Gomes, voz mansa, quase inaudível. Olhos claros que espalhavam brilho, sem ofuscar a centelha de cada um de nós. Tímido. Introspectivo. Um leve sorriso lhe escapava aqui e ali. 

Saci, o tagarela histriônico, não era bobo nem lhe fazia rapapés. As lisonjas ao quase-irmão eram apenas um atestado de reconhecimento e um adesivo de admiração. Que era mútua.

Cheguei à escolha de ambos, para compor a equipe da Gazeta do Oeste, usando a mais comum das técnicas de recrutamento: fui ouvir primeiro nos botecos, cabarés, restaurantes, praças e com o povo comum, quem era quem no lugar.

A pessoa certa

F. Gomes não era unanimidade. Ainda bem. Tinha defeitos, porém nenhuma deformidade moral.

Era a pessoa certa pro nosso projeto? O tempo confirmou que sim.

Acertei em cheio. Ganhei um repórter de faro fino, texto límpido e largo conceito. Mais: agreguei um amigo. Dois. Bota Saci e seu permanente bom humor na conta, por favor.

Quantas histórias!

Uma delas não me sai da memória jamais. Saci narrou pra alguns de nós, numa mesa de bar, em que o abstêmio F. Gomes, refrigerante no copo, apenas sorria pausadamente. Confirmava tudo com ar de satisfação.

Os dois cobriam desaparecimento de um homem, quando o corpo foi localizado já em processo de decomposição, numa área de topografia acidentada. Sem temores, Saci topou jogar o "presunto" sobre o próprio ombro, para "ajudá-lo" a descer de um local de acesso difícil e declive acentuado.

Mais prudente, caderninho à mão, em suas anotações, F. Gomes quase perde a cena rocambolesca que veio a seguir. Saci tropeça e desce colina abaixo com o presunto, numa sequência interminável de tombos.

Já embaixo, em meio à cena tétrica e batendo a poeira, o repórter-fotográfico dá boas gargalhadas ao lado do amigo.

Entre mortos e feridos, escapou Saci. Ainda bem.

– Esse homem não tem jeito – transpirava o repórter F. Gomes.

Agora, em pleno outubro de 2010, passado tanto tempo, vejo F. Gomes no centro da própria notícia. Cinco tiros e um cadáver: ele morto. Mas nem por isso menor ou subjugado.

Continuará vivo. 

É-me interessante conservar a imagem do repórter sereno, mas destemido.  Do amigo leal, íntegro e generoso.

Continuamos por aqui, nesse interminável duelo contra os moinhos de vento. Entretanto conscientes de que essa é nossa realidade, nua e crua.

Um abraço, meu amigo.

Mais enredo à história de Massilon e o ataque a Mossoró


Sobre a crônica "Cangaceiro Massilon e a República do Patamar de São Vicente" (veja AQUI), postada no domingo (10), assinada pelo jornalista Jânio Rêgo, o economista Nilson Gurgel tem comentário de contraponto.

É um texto coloquial, prosa solta que oferece informação adicional ao livro assinado pelo pesquisador Honório de Medeiros, denominado de "Massilon – Nas veredas do cangaço e outros temas afins".

O pronunciamento de Nilson ajuda no próprio debate quanto à temática do livro, ainda a ser lançado em Mossoró, que mostra versão sobre ataque do bando de Lampião a Mossoró em 13 de junho de 1927.

Leia abaixo o que escreve Nilson Gurgel:

Carlos Santos e Jânio Rêgo,

Já que falou em "Chico Honório", nada contra ele que só escreveu o que foi referenciado pelos outros. Falo no que foi dito de "Papai Tilon" que ia me buscar quando pequenininho no Poço de Tilon e me levava para Pedra de Abelha (hoje Felipe Guerra) na garupa de seu cavalo de nome "Motor".

O que foi dito dele, de verdade, só bate a parte que ele era adversário ferrenho dos Pintos, principalmente de quem ele falava sempre, Lucas Pinto, que conheci muito.

Só para dar uma amostra da minha memória, ele – Lucas Pinto – ia para Mossoró e, na hora do almoço, lanchava um pacote de bolachas que trazia de Apodi, debaixo de um pé de Ficus Benjamim que havia quase na esquina feita pela da rua da "Paraíba" com a Alberto Maranhão na calçada da firma Alfredo Fernandes com quem, acho, mantinha negócios.

Não vou esticar, pois pretendo tirar a limpo a historia, mas adianto o seguinte: Papai Tilon lutava para tornar o hoje Felipe Guerra independente de Apodi, era conhecido pela docilidade, unanimidade de toda família, amigos e conhecidos vivos e mortos que convivi e conversei, inclusive recentemente (Depois de Chico Honório).

Tenho memória de acontecimentos desde os meus 03 anos de idade quando fui a aula de "tia" Silvia lá no Brejo (Pedra de Abelhas). Eu, Assis de Ferrerinha (Cobrão) e outros que ainda me lembro, inclusive detalhes do dia para quem interessar possa.

Finalmente, sei, inclusive, onde seu Décio Holanda (este era realmente traquino) está enterrado, segredinho meu contado por tia Chicuta, irmã de mamãe, viuva dele (tenho foto).

Tem muita gente famosa no Brasil que descende do tio, afim, Décio e Papai Tilon, doido para conversar comigo sobre o assunto.

Ao amigo Honório, agradeço pelo trabalhão que teve para levantar a história e digo: Tem muita coisa que bate e, a dica é, rastro de fuga tem coincidências iniciais, mas depois tem coincidências mais fantásticas com outras histórias que sei muito bem.

Que mundo fantástico esse de se levantar histórias de nossos antepassados.

Ah! lembrei tenho foto do meu primeiro dia de aula e, outra dica, Gesumira Gurgel de Alencar, mãe de Humberto de Alencar Castelo Branco, era prima legitissima de Papai Tilon. OK?

Nilson Gurgel – Economista e webleitor

Aos meus mestres, meu carinho

Tenho as melhores lembranças de minha formação educacional. Privilegiado, sempre estudei em boas escolas.

Mais do que isso: tive excelentes professores.

Hoje, Dia do Professor, assevero sem pestanejar que essa é a profissão do futuro. É inexorável.

Mesmo com considerável atraso, nas últimas duas décadas o país começou a despertar para a necessidade de crescer como nação, pelo caminho mais sólido: a instrução. O saber.

Neste dia, mergulho num passado longínquo, aurora de minha vida.

Oportunidade de agradecer à Deusa, Tamela, Dagmar Filgueira, Oscar, Iara Linhares, Crispiniano Neto, Janjão e tantos outros.

A vocês todos, meu muito obrigado. Com carinho.

“A montanha dos sete abutres” e os mineiros do Chile

Passei uma parte das últimas horas acompanhando pela Internet e TV, operação para resgate de 33 mineiros numa mina do Chile. Confesso minha emoção.

Transmitida para mais de uma centena de países, ao vivo, essa situação produz uma série de reflexões sobre a vida, o trabalho e a própria existência humana.

Enterrados vivos há mais de dois meses, esses homens passam por uma experiência incomum. Difícil ser o mesmo depois de ter a morte como companhia diária durante tanto tempo.

No meu caso, a imaginação não parou até agora.

Foi-me possível lembrar de um filme que vi há vários anos: "A montanha dos sete abutres", ainda em preto e branco. É uma fita extraordinária, com o celebrado Kirk Douglas.

Entendo-a como fundamental para estudantes e profissionais de comunicação, pois retrata situação de soterramento numa mina, transformada em abordagem sensacionalista por um jornalista sem escrúpulos.

Quanto a essa situação do Chile, pelo visto o seu final caminha para resultado mais satisfatório.

A vida não vai imitar a arte.

Cangaceiro Massilon e a República do Patamar de São Vicente


Acho que compreendo a dificuldade de Carlos Santos em escrever no seu blog sobre "Massilon – Nas veredas do cangaço e outros temas afins", o livro de Honório de Medeiros sobre o cangaceiro que foi um dos protagonistas mais importantes do ataque de Lampião a Mossoró em junho de 1927, mesmo ele tendo acompanhado o autor no primeiro lançamento do livro, no sertão do Cariri, durante um seminário sobre o tema Cangaço.

Não é fácil escrever sobre aquilo que acicata nossa memória e nos remete à infância, à turma do Patamar, ao que ele próprio, Santos, tratou de nomear como a "República Independente do Patamar da Igreja de São Vicente" da qual somos remanescentes, como o autor Honório de Medeiros que diz assim, na introdução do livro:

“Nasci e cresci à sombra da Igreja de São Vicente, a igreja da “bunda redonda”, brinquei, assisti missa, novena de Santo Antônio, sem perder o contato com as marcas que o combate contra Lampião deixou em suas paredes e na sua torre”.

Centralizando a figura do cangaceiro potiguar que foi parceiro de Lampião no ataque que foi rechaçado da torre da igreja, Honório de Medeiros remonta a engrenagem do coronelismo e do Poder político no Nordeste rural e  repagina e estimula a revisão crítica da história da invasão do Rei do Cangaço a Mossoró em 1927. (…) um novo conceito para o cangaço, dentro de uma perspectiva científica que identifique o geral no particular e afaste, de vez, o estudo do cangaço do mero “contar casos”.

Surpreende no livro também, além desse viés do pesquisador sobre o cangaço, o caráter genealógico e emotivo que o autor revela na introdução: (…)se agregou o interesse de sempre acerca da história da minha família materna, da qual é o momento precioso, desde a fundação de Martins até a resistência oposta por Rodolpho Fernandes à Lampião”.

Ao mesmo tempo em que escreve sobre o roteiro geográfico e factual de Massilon que passa pela Paraiba e Ceará, estados por onde andou em busca de informações, Honório constrói um arcabouço emocional da marcante trajetória e origem da família materna dele, os Fernandes do Rio Grande do Norte, do qual ele faz questão de revelar que é a nona geração do patriarca que fundou e deu nome à cidade serrana de Martins.

Mas para leitores como nós, eu e Carlos, fica difícil não ver em cada capítulo a imagem da Igreja de São Vicente. Mesmo que não seja o capítulo em que Honório descreve, preciso como um roteiro cinematográfico, a hora do tiro  disparado por Manoel Duarte e que matou o cangaceiro Colchete.

O patamar hoje está mais curto e mais baixo do que aquele em que os republicanos brincavam pela manhã e à noite. Apenas dois degraus e chão pedregoso  como nunca. Arrancador de chamboque nos dedos dos pés.

Os canteiros, construídos por padre Sátyro no auge da perseguição aos jogos de bola dos meninos,  estes permanecem intactos sendo que agora têm  plantas. As crianças foram rareando nas residências em torno do Patamar. A cidade. O tempo. Os hábitos.

O jogo de bola acabou-se muito antes da capelinha da bunda redonda tornar-se cult e festejada.

Estivemos lá na igreja, na missa e quermesse dos 80 anos de idade do Careca com a entrega aos fiéis da capela pintada, restaurada, nova como em 1919. E amarela, bem amarelinha. Foi muito interessante.

Padre Sátyro no altar: "Eu vi São Vicente sorrir! Eu vi São Vicente sorrir!"

O octogenário e sua retórica vibrante, sabedoria dos oradores sacros, tradição dos copistas do conhecimento e da liturgia.

Depois tivemos que ouvir a Prefeita da Cidade.

Mas nos compensaram os doces vicentinos vendidos no meio da rua lateral, a Francisco Ramalho, defronte à casa de Marcos Porto, esse já tornado memória e lenda do Patamar que já carece de um livro. Ele também um Fernandes.

No Rio Grande do Norte esse lado familista é muito importante. O livro de Honório permite ver que laços ancestrais construíram esse orgulho familiar que de certa forma marca o Estado do Rio Grande do Norte.

Jânio Rêgo é jornalista – janiorego@blogdafeira.com.br

 

E daí??


"A vida é muito curta para ser pequena
(
Benjamin Disraeli)

É sempre a mesma história. Basta a Mega-Sena acumular para que os telefonemas não parem de tocar: “Edilson, já fez a sua fezinha?”. E a resposta não poderia ser diferente: “Claro que não. Já viu um raio cair duas vezes no mesmo lugar?! Minha ‘Mega-Sena’, eu tirei em 1994… Portanto, duvido que ganhe novamente”.

Pois é caro leitor, só conheço uma pessoa que ganha na Mega-Sena todos os dias, desde 1994, faça chuva ou faça sol: Viviane, minha esposa. Pense numa mulher de sorte. Pensou?

Multiplique por mil e eleve a décima quinta potência, aí você terá o resultado de apenas 0,1% da sorte de Viviane. Dizem que quem tem sorte nasce com “aquilo” virado para a lua, então, acredito que Viviane nasceu mesmo toda virada para a lua.

Pois, não acredito que exista mulher mais sortuda do que ela. Mas, a verdade é que nós dois temos sorte – ela muito mais do que eu, é claro… e muito dessa sorte vem do fato de termos um filho maravilhoso.

Lucas é uma criança bela, tanto por fora (é a cara do pai), como por dentro. Não é à toa que o considero como o meu sensor anti-vaidade.

O ano era 2005. Estávamos nós três, em Recife. Eu e Viviane brindávamos a defesa de minha tese de doutorado em cirurgia, pela UFPE. Aí Lucas me saiu com essa: “O que vocês estão brindando?”; “Meu filho, seu pai é agora um Doutor de fato!”, respondi cheio de empáfia.

Ele olhou-me com espanto e disse: “E daí ser um Doutor?! Você nem sabe falar japonês…”.

As palavras de Lucas penetraram, como uma lâmina fria de um bisturi, cortando a catarata de minha alma, que teimava em me manter cego.

Por favor, caro leitor, não me condene. Entenda que como professor de uma instituição de ensino superior, não poderia ter tido um comportamento diferente, afinal, não é lá mesmo, nas universidades, que encontramos as maiores vaidades de vaidades?

Se você acha que o meu caso é único, veja o que aconteceu com o professor João Batista Pinheiro Cabral, quando lecionava na UnB. Certo dia, chegando ao Departamento de história, encontra em todas as portas as mais diversas placas de identificação: “Professor fulano de tal – PHD pela Harvard, Sorbonne, etc. etc.”

Cada um que colocasse uma titulação maior. Então, o estimado conterrâneo nosso, para não ficar atrás, – já que ele tinha pós-doutorado, resolveu também fazer a sua placa: “João Batista Pinheiro Cabral – A-L-F-A-B-E-T-I-Z-A-D-O”… University; Professor beltrano – Doutor pela University Paris.

Pois é, meu caro leitor, as universidades estão cheias de “doutores”, mas que são completamente analfabetos para a vida (E o danado é que o MEC considera este aspecto – número de doutores – como o fator mais importante para pontuar uma escola de ensino superior, como excelente ou péssima).


Ainda bem que Cristo – e nem Deus-, quiseram ser pesquisadores do CNPq, pois seriam reprovados: o primeiro por nunca ter escrito nada em revista Qualis A – parece nome de margarina, não é mesmo?; O segundo, por só ter uma publicação, a bíblia, e o MEC quer que o professor publique e muito, todos os anos. Coitado do Cervantes se fosse professor da Universidade Brasileira, teria que publicar um “Dom Quixote”, a cada dois anos…

“Doutores”, preocupados com provas, notas, chamadas, etc. etc., mas, esquecem o que ensinava o magnífico Paulo Freire: “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou sua construção… Quem ensina, aprende ao ensinar e quem aprende, ensina ao aprender”.

Portanto, ser professor é antes de tudo ser humilde – (Cristo, o mestre dos mestres, andou de jegue) – que não quer dizer subserviente-, mas sim, alguém capaz de aprender a aprender.

“Quem se contamina com o vírus da auto-suficiência diminui a sua produção intelectual. Quem se embriaga com o orgulho está condenado a infantilidade emocional”.

Os romanos tanto sabiam disso – que o orgulho, a vaidade, a soberba eram sentimento extremamente danosos para os homens-, que quando um general retornava de uma dura batalha, com uma retumbante vitória, ele deixava o seu exército fora da cidade de Roma, subia numa biga (carro de combate com dois cavalos) e, dirigindo-se ao Senado, a cada quinhentas jardas, um escravo lhe soprava no ouvido: “lembra-te que és mortal!”… “lembra-te que és mortal!”…

Então é isso, caro leitor: mesmo com doutorado – e falando até japonês-, o homem nunca deixará de ser um cadáver adiado, como lembrava Fernando Pessoa.

Sorte minha – e mais ainda de Viviane -, ter o meu Lucas, para me ensinar que o buraco é mais em baixo.

Francisco Edilson Leite Pinto Júnior é professor, escritor e médico

O 11 de Setembro hiperrealista


Hoje faz nove anos do atentado terrorista às torres gêmeas em Nova York, Estados Unidos.

Eu não estava lá, que se diga.

Mas é difícil esquecer o que pude testemunhar àquela manhã.

Acordei com a imagem na TV, em meu quarto. Só quando o segundo avião explodiu contra o segundo espigão é que comecei a entender um pouco a cena.

Ao vivo, as informações eram desencontradas.

Primeiro, seria um acidente. Depois o emaranhado de notícias e declarações nos remeteu à dura realidade daquela barbárie.

Se fosse filme não seria tão aterrador.

Hollywood nunca conseguiu ser tão hiperrealista. Jamais atingirá o paradoxo da perfeição trágica em seus estúdios.

Receita de domingo

Ter na véspera o cuidado de escancarar a janela. Despertar com a primeira luz cantando e ver dentro da moldura da janela a mocidade do universo, límpido incêndio a debruar de vermelho quase frio as nuvens espessas. A brisa alta, que se levanta, agitar docemente as grinaldas das janelas fronteiras.

Uma gaivota madrugadora cruzar o retângulo. Um galo desenhar na hora a parábola de seu canto. Então, dormir de novo, devagar, como se dessa vez fosse para retornar à terra só ao som da trombeta do arcanjo.

Café e jornais devem estar à nossa espera no momento preciso no qual violentamos a ausência do sono e voltamos à tona. Esse milagre doméstico tem de ser. Da área subir uma dissonância festiva de instrumentos de percussão — caçarolas, panelas, frigideiras, cristais anunciando que a química e a ternura do almoço mais farto e saboroso não foram esquecidas.

Jorre a água do tanque e, perto deste, a galinha que vai entrar na faca saia de seu mutismo e cacareje como em domingos de antigamente. Também o canário belga do vizinho descobrir deslumbrado que faz domingo.

Enquanto tomamos café, lembrar que é dia de um grande jogo de futebol. Vestir um short, zanzar pela casa, lutar no chão com o caçula, receber dele um soco que nos deixe doloridos e orgulhosos.

A mulher precisa dizer, fingindo-se muito zangada, que estamos a fazer uma bagunça terrível e somos mais crianças do que as crianças.

Só depois de chatear suficientemente a todos, sair em bando familiar em direção à praia, naturalmente com a barraca mais desbotada e desmilingüida de toda a redondeza.

Se a Aeronáutica não se dispuser esta manhã a divertir a infância com os seus mergulhos acrobáticos, torna-se indispensável a passagem de sócios da Hípica, em corcéis ainda mais kar do que os próprios cavaleiros.

Comprar para a meninada tudo que o médico e o regime doméstico desaconselham: sorvetes mil, uvas cristalizadas, pirulitos, algodão doce, refrigerantes, balões em forma de pingüim, macaquinhos de pano, papaventos.

Fingir-se de distraído no momento em que o terrível caçula, armado, aproximar-se da barraca onde dorme o imenso alemão para desferir nas costas gordas do tedesco uma vigorosa paulada. A pedagogia recomenda não contrariar demais as crianças.

No instante em que a meninada já comece a "encher", a mulher deve resolver ir cuidar do almoço e deixar-nos sós. Notar, portanto, que as moças estão em flor, e o nosso envelhecimento não é uma regra geral. Depois, fechar os olhos, torrar no sol até que a pele adquira uma vida própria, esperar que os insetos da areia nos despertem do meio-sono.

A caminho de casa, é de bom alvitre encontrar, também de calção, um amigo motorizado, que a gente não via há muito tempo. Com ele ir às ostras na Barra da Tijuca, beber chope ou vinho branco.

O banho, o espaçado almoço, o sol transpassando o dia. Desistir à última hora de ver o futebol, pois o nosso time não está em jogo. Ir à casa de um amigo, recusar o uísque que este nos oferece, dizer bobagens, brigar com os filhos dele em várias partidas de pingue-pongue.

Novamente em casa, conversar com a família. Contar uma história meio macabra aos meninos. Enquanto estes são postos em sossego, abrir um livro. Sentir que a noite desceu e as luzes distantes melancolizam.

Se a solidão assaltar-nos, subjugá-la; se o sentimento de insegurança chegar, usar o telefone; se for a saudade, abrigá-la com reservas; se for a poesia, possuí-la; se for o corvo arranhando o caixilho da janela, gritar-lhe alto e bom som: never more.

Noite pesada. À luz da lâmpada, viajamos. O livro precisa dizer-nos que o mundo está errado, que o mundo devia, mas não é composto de domingos.

Então, como uma espada, surgir da nossa felicidade burguesa e particular uma dor viril e irritada, de lado a lado. Para que os dias da semana entrante não nos repartam em uma existência de egoísmos.

Paulo Mendes Campos (1922-1991) – Cronista mineiro

Certas coisas…

Como foram felizes Nelson Motta e Lulu Santos ao dizerem: “Não existiria som, se não houvesse o silêncio/ Não haveria luz se não fosse a escuridão. A vida é mesmo assim/ Dia e noite, não e sim…”.

Pois é meu caro, a vida é mesmo assim: uma enorme contradição. Vida, morte; alegria, tristeza; casamento, separação; inteligência, ignorância; delicadeza, brutalidade; amizade, inimizade; rico, pobre; sonho, realidade; verdade, mentira; guerra, paz; amor, indiferença; e por aí vai.

Ah! Pensas que o contrário do amor é o ódio? Engana-se. No ódio, ainda existe uma energia, que em questão de segundos, pode-se transformar em amor. Mas, na indiferença não há nada. Nenhuma troca. Tudo frio. 

Eu sei que é difícil entender tudo isso: a vida, os homens, suas contradições. E é por isso que muitas vezes: “Têm certas coisas que eu não sei dizer…”.

Muitas vezes, têm certas coisas que não compreendo… Gostaria sim, meu caro, de já ter a maturidade de um Rilker, para entender que: “Talvez todos os nossos dragões de nossa vida sejam princesas que guardam apenas o momento de nos ver um dia, belos e corajosos. Talvez todo horror, em última análise, não passe de um desamparo que implora o nosso auxílio”.

Ultimamente tenho me horrorizado muito com as pessoas. Chego até a pensar que elas são más. Que não tem coração. Que não têm espelhos em suas casas. Que não tem alma, nem sentimentos. Que são puras máquinas automatizadas.

Meu Deus, quanta ignorância minha! Afinal, o que é o homem, senão “uma alma infante que carrega um cadáver…”, como lembra Marco Aurélio, nas suas meditações.

“Nós somos medo e desejo”, meu caro, “Somos feitos de silêncio e sons…”. E eu poderia neste momento calar, até por que: “Cada voz que canta o amor não diz/ Tudo que quer dizer,/ Tudo que cala fala/ Mais alto ao coração”.

Mas, acredite, meu caro, silenciosamente eu vou te falar com paixão, carinho e respeito. Respeito pelo passado. Respeito pelo meu presente. Pela função de professor, que exerço, há mais de 18 anos. E na função de professor, isto sim, aprendi com Guimarães Rosa: “Aquilo que a gente mais ensina, é o que a gente mais precisa aprender…”. 

Então é preciso apreender que ética, nada mais é do que amor. Sim, esqueceu os ensinamentos de Kant? “Não fazer ao outro, o que não gostaria que fizessem a nós mesmos… aja como se sua ação pudesse ser uma lei universal”, não são os princípios kantianos tão ensinados dentro da sala de aula, que se não ganharem as ruas, todo esse ensinamento fica vazio, sem sentido?

Aliás, quer coisa mais vazia e sem sentindo do que aquilo que eu ensino, só serve para os outros e não para mim? O mestre é o exemplo, meu caro. O exemplo. Aprenda isso. 

Aprenda também o que certa vez, foi ensinado por Albert Camus, que ao ser indagado como escreveria um livro sobre Ética, respondeu: “As primeiras noventa e nove páginas, eu deixaria em branco. E na última, escreveria apenas uma palavra: amor”.

Então, se ainda tinha dúvidas, meu caro, de que ética é amor, aprenda mais isto. Aprenda, também, o que disse Aristóteles, na sua “Ética a Nicômaco”: “Qualquer um pode zangar-se – isto é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa, na medida certa, na hora certa – não é fácil”.

Por isso, é preciso, de vez em quando, voltar a Rilker e entender que certos horrores não passam de um desamparo que implora o nosso auxílio…  e olhando bem, o seu erro pode nem ter sido tão grande e grave assim.

Afinal, como dizia Karl Popper: “Somente os grandes homens cometem grandes erros”. Pois bem! Agora eu me calo. Pois, “Tudo o que cala fala mais alto ao coração”, não é mesmo?

Francisco Edilson Leite Pinto Júnior é professor, médico e escritor

O delta de Nilo

"Seu" Luiz Maria Alves foi o todo-poderoso diretor-geral do "Diário de Natal", em sua fase áurea, dos anos 70 ao final da década 80. Em Mossoró, o jovem areia-branquense Nilo Santos fazia parte dessa saga, como um emergente repórter.

Vivíamos o tempo do radicalismo, numa Mossoró dividida entre "aluizistas" e "rosadistas". Sem meios-termos. O indivíduo era "verde"  ou "encarnado".

Nilo compôs equipe do Diário de Natal de agosto de 1974 a março de 1982. Como não poderia deixar de ser, vez por outra era molestado pela politicalha.

Delegações de aluizistas e rosadistas tinham se queixado quanto à atuação de Nilo na cobertura política de Mossoró. Insinuavam que seria recomendável o seu expurgo. Informado sobre as queixas, Luiz Maria Alves transpirou: 

– Isso é muito bom! Prova que ele está trabalhando corretamente.

Meu amigo Nilo, que morreu no último dia 23 de junho, de infarto, aos 58 anos, não sabia desse episódio até final de 2007. À ocasião, nós nos despedíamos de um programa na FM 95, de existência rápida e densa, sabendo que "as férias" anunciadas para nós significariam um bota-fora.

A linha política seria mudada, por vontade e força financeira da Prefeitura de Mossoró. 

Pedi a palavra no ar e relatei essa história. Sublinhei, que era uma forma de homenageá-lo e agradecê-lo pela convivência sempre decente, leal, profícua e bem-humorada. Vi-o baixar a cabeça. Ficou em silêncio.

Seus olhos úmidos e lábios que se comprimiam, também me fizeram chorar.

O texto enxuto, o jeito despojado e alheio ao "ter", a fina ironia, a falta de pressa, o humor quase perene e a memória prodigiosa são as imagens que conservo do meu editor no final dos anos 80 (na Gazeta do Oeste). Uma amizade esculpida em em mais de 20 anos.

Sobre memória, a propósito, quem teria uma melhor? Frases, diálogos, datas etc. pareciam saídas de um banco de dados. Reconstituia tudo com detalhes, em filigranas. 

Entrava em erupção, se mexessem em seus "calos". Ao despejar suas lavas, a língua de fogo não poupava a ninguém. Bom sair de perto.  Que o diga Aluízio Alves (já falecido).

Certa vez, Aluízio amuou-se porque Nilo, chefe da Sucursal da TV Cabugi/Tribuna do Norte, fizera cobertura política de algo que ele não gostara. A voz rouca do ex-governador, ao telefone, encontrou áudio estridente do jornalista que não sabia enxergar só um lado da notícia.

Depois de sentir abrupto corte na ligação, Aluízio tentou falar outra vez com Nilo, mas sem sucesso. Quando finalmente sua ligação foi atendida, o fotógrafo Claudino Nunes é quem recebeu o recado:

– Diga a Nilo que deixe de ser "bruto".

Mesmo assim, nunca mais interveio no trabalho do subordinado.   

Desse tempo vivido, bem vivido, ainda fica gravada sua forma de tratamento a todos nós. A mim, à autoridade constituída, à pessoa simples que nos servia café, não importa. Para ele, todos eram o "Mestre".

A reverência nos nivelava e mesmo assim não nos fazia iguais ou superiores. "Nilão", como o víamos, era bem maior. De margem a margem, até desaguar em cada um de nós, como rio benfazejo.

É meu testemunho.

Ir a cantoria ou ser o próprio cantador

"Só é cantador quem traz no peito o cheiro e a cor de sua terra, a marca de sangue de seus mortes e a certeza de luta de seus vivos." (François Silvestre)

Além dos magistrais discursos de Odilon Ribeiro Coutinho, meus ávidos olhos de jovem militante não conseguiam enxergar “novidade nova” no decorrer da campanha eleitoral de 1982.

Até que um dia, em pleno centro urbano de Mossoró, deparo-me com um comício diferente; ou, pelo menos, algo fora do comum: um jovem candidato a deputado federal havia estacionado sua Kombi de som e iniciava a fala aos circunstantes, dizendo que deixaria outro microfone em uma das mesas do bar da esquina, à disposição de quem desejasse lhe formular perguntas.

E o meu espanto aumentou quando ele, o candidato, recitou, e distribuiu, uma poesia de sua autoria intitulada: Ir a cantoria ou ser o próprio cantador. Misto de apresentação pessoal e convocação à luta em defesa da democracia, o poema retratava o momento político que vivíamos, intercalando pitorescas imagens sertanejas, em meio a corajosas denúncias.

Vale lembrar que ainda estávamos sob o tacão do regime de exceção, e era preciso ser forte e aguerrido para contestar a situação.

Passados tantos anos, verifico que, atualmente, François Silvestre está fazendo o “diferente” na literatura potiguar. Na essência, François não mudou: carrega o mesmo caçuá transbordante de talento e ousadia. Se não peguei o microfone naquela tarde para louvar a iniciativa inovadora do comício-debate, desejo agora fazer breve comentário sobre seu (dele, François) mister literário.  

Nos últimos anos, François vem lançando uma esteira de bons livros. Cito dois, especialmente: O mel de Benquerê e A pátria não é ninguém. O primeiro reúne deliciosas crônicas relativas a fatos e personagens de nosso sertão, e o segundo, em forma de romance, retrata o sombrio período da ditadura militar, numa narrativa que sugere um tom autobiográfico, esboçando, propositadamente, tênue linha entre realidade e ficção.   

Já  o recém-lançado Esmeralda – Crime no Santuário do Lima configura-se um romance policial ambientado no Rio Grande do Norte, e cuja trama gira em torno do assassinato da cigana Esmeralda, ocorrido, paradoxalmente, em um ambiente de oração. Os suspeitos são cuidadosamente caracterizados, tanto em seus aspectos psicossociais quanto em suas habilidades manuais, sendo tudo condizente, e habilmente pensado, para o desenlace do drama. 

Enfim, além do estilo que lhe é peculiar – frases curtas, mas incisivas, e um linguajar intencionalmente calcado na oralidade popular nordestina –, François Silvestre realça, nesse Esmeralda – Crime no Santuário do Lima, outras duas louváveis características: a poética que perpassa toda a obra, do que resultam em belas construções, e o manejo dos instrumentos literários capazes de dotar o romance de uma urdidura que prende a atenção do leitor, até o desfecho. O que não é pouco, diga-se de passagem. 

David Leite é advogado, professor e escritor

Laplace Rosado Coelho

Foi tudo tão rápido e inesperado que ainda estou tentando me recuperar do abalo de sua partida. Estava conversando com Dix-sept Filho quando fiquei sabendo do seu encantamento, bem na hora de quando o conduziam para a última morada, por esse motivo fiquei absolutamente impossibilitado de dar-lhe o último adeus.

Como queria dar-te o último adeus, pois o senhor era justo, honrado, digno, afetuoso, educado e extremamente atencioso.  Laplace era a personificação de muita coisa boa, muitos atributos positivos, muitas virtudes herdadas dos velhos troncos.

Laplace foi meu colega no curso no Mestrado em Desenvolvimento e Meio ambiente. Aproximei-me dele justamente quando pagávamos disciplina ministrada pelo nobre professor-doutor Alf Schwartz. Ele e Joaninha passaram a ser amigos próximos, muito queridos, depois me aproximei de Sérgio, que também possui as mesmas virtudes do pai.

O amor de  Laplace pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) estava estampado no sorriso franco e meigo quando se referia á Instituição de Ensino Superior que dirigiu, da qual faço parte como muito orgulho e honra. O amor que devoto à Uern foi um dos motivos da identificação imediata com Laplace Rosado.

As visitas à fazenda Rancho Verde, nas quais desfrutei de sua companhia, são momentos que guardarei para sempre, pois no relicário sagrado edificado por Benedito Vasconcelos Mendes e Suzana Goretti, vivemos momentos inesquecíveis, reverenciando o repositório fantástico das peças históricas sobre o setor produtivo e a vida social do povo do semiárido. Quantas lembranças boas Laplace, quantas saudades, quantas recordações.

Sua presença física ainda é uma constante, pois ainda não acredito que partistes, mas me conforto sabendo que estás ao lado de Deus. Joaninha, minha querida amiga Joaninha, a senhora precisa de forças, de palavras de conforto, pois sei a intensidade do amor que dedicastes e vai dedicar sempre a este homem fantástico que teve o privilégio de nascer no “País de Mossoró”.

Os momentos inesquecíveis que passei privando da amizade de Laplace Rosado serão guardados a sete chaves no fundo do meu coração, nunca hei de esquecer a serenidade e a educação do grande benfeitor da educação e da justiça em Mossoró e no rio Grande do Norte.

Deus Eterno Todo Poderoso recebeu mais um anjo de luz que Mossoró concedeu como graça pela grande benesse de ter-nos contemplados com sua magistral pessoa humana, pelo tempo que passastes em nosso convívio.

Que Deus te abençoe meu amigo Laplace, que Deus te cubra de glórias.

José Romero Araújo Cardoso é geógrafo e professor-adjunto da Uern.

Cachorro velho

Uma velha senhora foi para um safari na África e levou seu velho vira-lata com ela. Um dia, caçando borboletas, o velho cão, de repente, deu-se conta de que estava perdido.

Vagando a esmo, procurando o caminho de volta, o velho cão percebe que um jovem leopardo o viu e caminha em sua direção, com intenção de conseguir um bom almoço.

O cachorro velho pensa:

– Oh, oh! Estou mesmo enrascado!

Olhou à volta e viu ossos espalhados no chão por perto. Em vez de apavorar-se mais ainda, o velho cão ajeita-se junto ao osso mais próximo, e começa a roê-lo, dando as costas ao predador…

Quando o leopardo estava a ponto de dar o bote, o velho cachorro exclama bem alto:

– Cara, este leopardo estava delicioso! Será que há outros por aí?

Ouvindo isso, o jovem leopardo, com um arrepio de terror, suspende seu ataque, já quase começado, e se esgueira na direção das árvores.

– Caramba! pensa o leopardo, essa foi por pouco! O velho vira-lata quase me pega!

Um macaco, numa árvore ali perto, viu toda a cena e logo imaginou como fazer bom uso do que vira: em troca de proteção para si, informaria ao predador que o vira-lata não havia comido leopardo algum…

E assim foi, rápido, em direção ao leopardo. Mas o velho cachorro o vê correndo na direção do predador em grande velocidade, e pensa: "Aí tem coisa!"

O macaco logo alcança o felino, cochicha-lhe o que interessa e faz um acordo com o leopardo. O jovem leopardo fica furioso por ter sido feito de bobo, e diz:

– Aí, macaco! Suba nas minhas costas para você ver o que acontece com aquele cachorro abusado!

Agora, o velho cachorro vê um leopardo furioso, vindo em sua direção, com um macaco nas costas, e pensa:

– E agora, o que é que eu posso fazer?

Mas, em vez de correr (sabe que suas pernas doloridas não o levariam longe…) o cachorro senta, mais uma vez dando costas aos agressores, e fazendo de conta que ainda não os viu.

Quando estavam perto o bastante para ouvi-lo, o velho cão diz:

– Cadê o filha da puta daquele macaco? Tô morrendo de fome! Ele disse que ia trazer outro leopardo para mim e  não chega nunca! 

Moral da história: não mexa com cachorro velho…

Idade e habilidade se sobrepõem à juventude e intriga. Sabedoria só vem com idade e experiência.

Fábula de origem desconhecida

Que belo dia para dizer “obrigado”

"Aprendi com as primaveras a me deixar cortar para poder voltar inteira." (Cecília Meireles)

Há exatos três anos esta página entrava no ar, oficialmente, dando visibilidade à "Coluna do Herzog". De lá até aqui, uma vivência enriquecedora.

Como profissional e indivíduo, sinto-me mais denso e inteiro, não obstante inacabado e consciente de minhas limitações.

É um período que atraiu intolerância e perseguições abjetas. Mas também de renovação, semear de uma bolha crítica e construção de uma nova ordem. Chance de ser melhor, sendo o mesmo; consciente de que sou microscópico – sem me permitir ser pequeno.

Aos poucos, o Blog deixou de ser meu para ser nosso; é de muitos para que não sejamos poucos.

Se somos ninguém, aos olhos de uma minoria irada, é porque já conseguimos o grande feito de sermos alguém. Essa é a grande conquista de quem pensa e desafia a tirania da liberdade apenas para os que dizem "sim". 

Não espelhamos heroísmo, não estamos cobertos pelo manto do martírio, nem se atribua a nós o rótulo de "vítima." Somos, eu e você, com necessárias diferenças e divergências, parte de um todo miscigenado – capaz de ouvir, para poder falar.

Que belo dia para dizer "obrigado".

Se foi possível chegar até aqui, tenho que lhe agradecer, webleitor. Qual nosso limite? Não sei. 

A semente foi plantada. Agora somos muitos.

* Veja abaixo, o primeiro texto postado nesta página à madrugada do dia 3 de maio de 2007. Parece profético e continua atualíssimo, sem que uma vírgula precise ser posta ou subraída: 

De tempo, vida e caravelas…

Quero lhes falar sobre o tempo. Virtual? Talvez.

Quero lhes falar sobre a vida. Fugaz? É possível.

Quero lhes falar sobre o recomeçar. Posso, sei.

Falo da crença no possível, despojado do retrovisor da existência e evitando ser apenas trapo humano, moendo e remoendo gente e fatos.

Medo? Muitos. Ainda bem. Tenho-os pulsantes, como necessários sacrários do porvir, bússolas da sobrevivência.

Neste ambiente universal, intangível e imaterial ganho corpo. De novo. Os propósitos são abstratos: cumprir minha sina-paixão. Transpirar, existir, resistir. Ombrear-se a outros que têm minhas crenças, mas respeitando o contraditório. Estimulando-o até.

Sou filho de uma porção menor, mas nem por isso tacanha ou acovardada. Nada além de um indivíduo normal, que labuta. Estranho, talvez, por não ser parte de uma maioria incomum.

Este novo endereço eletrônico não revela nada de especial. Não o trato como avanço. É mais um passo no eterno caminhar, sem o pânico de olhar para trás. “As caravelas mandei-as queimar, para não ter a veleidade de voltar”.

Obrigado pela visita. Seja bem-vindo.

Vamos recomeçar?

O sorriso do presidente do Brasil

Tenho lido, ouvido mais ainda, algo que parece quase consenso ou verdade: José Serra (PSDB) não é simpático; Dilma Roussef (PT) não é simpática.

Mesmo que eu desconfie sempre das "verdades" absolutas, por dever de ofício e natureza, sou obrigado a admitir: os dois não não ganhariam título de muso ou miss simpatia em qualquer evento de beleza ou político.

E daí?

Nunca votei em gente por ser simpática. Nem mesmo em épocas mais primárias da juventude, nos primórdios da condição de eleitor, fui movido por arcadas dentárias reluzentes. Nem sou a favor de banguelas, que se diga.

Quero um presidente digno, competente, diáfano e se for o caso – pode assumir sua casmurrice à vontade. Quem ri desbragadamente é atoleimado ou quer fazer alguém de trouxa.

Não quero um presidente com acenos forçosos, comportamento dissimulado e frases perfeiras e arrumadas.

Serra, Dilma, Ciro Gomes (PSB), Marina Silva (PV) e seja lá mais quem apareça, que seja apenas presidente do Brasil. Comandante-em-chefe de uma nação miscigenada, de povo inventivo, tropical e assumidamente diferente.

Tenho sempre muitas reservas à simpatia laboratorial, aos afagos de tamanduás e aos tapinhas nas costas. Para mim, esse tamborilar de dedos sobre as omoplatas, é a sinfonia da perfídia. Normalmente assim escolhem onde vão enterrar o punhal.

Prefiro, portanto, um presidente amuado, chato e azedo. De minha parte, nenhum problema.

Basta ser presidente desse Brasil que canta e é infeliz-feliz, num dueto dissonante;

De Darcy Ribeiro e Carlos Lacerda;

Da Casa Grande e da Senzala;

Do Maracanã lotado, ou da várzea onde a bola saltita entre as imperfeições da terra batida;

Da pauliceia desvairada, do meu sertão humano e acolhedor;

Do nó que aperta a gravata nas salas com ar-refrigerado ou do nó que entala a garganta dos injustiçados;

Do menino que para no sinal com a mão estendida, do filho que não sabe o que fazer com tanta fartura dia após dia;

Do capital que escraviza a qualquer preço, do trabalho feito por qualquer valor.

De um Brasil novinho em folha. Um Brasil que faz 510 de existência histórica hoje.

De um Brasil que dizem ser do futuro, de uns poucos, para espertos, forjado na impunidade e avesso ao bem comum. Um Brasil desigual, covarde e injusto, mas minha pátria-mãe-gentil.

Encarnado, verde, da esquerda, da direita, operário, engravatado… Não importa. Quero um presidente para o Brasil, não para uns poucos, mesmo que não sorria.

Acorde! Nós estamos sendo filmados.

O Valioso Tempo dos Maduros

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que futuro.

Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturas.

Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral. As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos.

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa…

Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade. O essencial faz a vida valer a pena. E para mim, basta o essencial!

Mário de Andrade (1893-1945)

* Colaboração do Blog Fator RRH AQUI.

A Rodney Ênio Lima de Andrade

Rodney de Renato, Rodney de Lizete, Rodney de Ilnara, Rodney dos irmãos, Rodney dos amigos, Rodney da medicina, Rodney torcedor do Fluminense, Rodney das infantis brincadeiras na avenida Rio Branco, Rodney dos carnavais em Tibau, Rodney da clínica oftalmológica…   

Quando pensei em escrever algo sobre você, Rodney, confesso que fiquei em dúvida em relação à qual dessas características deveria realçar. No entanto, logo percebi que falando sobre quaisquer de suas facetas, terminaria por delinear-lhe o perfil, pois sempre foi de fácil percepção a inconfundível marca que lhe perpassou a vida, ou seja, a plenitude com que você vivia cada sentimento.

Lembro-me bem, Rodney, de uma semana que Vilani e eu passamos no Rio Janeiro, quando você ali cursava residência médica. Como estávamos de férias, Vilani, um tanto preocupada, comentava que não podíamos abusar de sua solicitude, e isso lhe poderia atrapalhar a rotina acadêmica.

Eu a tranquilizava dizendo da certeza de que a imersão do Rodney residente nas atividades era equivalente e proporcional à intensidade de sua benevolência e presteza, quando estava nos ciceroneando.

Naqueles dias, em nossos roteiros, percorrendo os típicos recantos cariocas, lembro-me que você, sorrindo, ou quase, seguia explicando detalhadamente os principais aspectos geográficos da Cidade Maravilhosa. E tampouco esqueço que, ao passarmos pelo bar “Garota de Ipanema”, eu falei que não havia necessidade de pararmos, pois nos bastava vê-lo de passagem. Infalível foi seu contra-argumento de que de nada adiantaria passar em frente ao lendário bar sem parar para conhecê-lo nos detalhes internos.

Da mesma forma, em Vila Isabel, onde você fez questão de também estacionar o carro para passearmos pelas calçadas onde estão gravados acordes de Noel Rosa, já que você sabia do meu interesse. Aliás, algum tempo depois, ao cometer o poema “Cenas Cariocas” – constante de nosso livro Incerto Caminhar –, canhestramente registrei algo em relação àquele momento. 

Rodney, como foi valioso você ter vivido intensamente cada momento de sua vida… Extremado filho, seu carinho e preocupação com seus pais, Lizete e Renato, emocionava. Seu amor por Ilnara, saltava aos olhos. Do zelo para com seus pequenos filhos, nem se fale.

E com seus amigos?

Ah, Rodney, qualquer um de nós, ao ser saudado por você, sentia que sua festa conosco nunca era “da boca pra fora”. Além de perguntar por esposa, filhos e familiares, você também demonstrava real interesse pelo que estávamos fazendo na vida profissional, essas coisas.

Palavras e gestos característicos dos que regam amizades, com o mesmo esmero de quem cuida de um belo pomar.  

No entanto, Rodney, sexta-feira passada, como se fosse um soco no estômago, recebi a notícia de que você havia partido. Tomado de tristeza, tentei direcionar meu pensamento para você vivo, ágil, intercalando a sisudez da consulta médica com algo de pitoresco de nossa Mossoró.

A cada retorno a seu consultório, ao ouvir-lhe o diagnóstico de aumento de meu grau, eu reclamava em tom de blague: “é a velhice chegando…”. E você, invariavelmente, reagia amenizando: “O que isso, homem? somos quase da mesma idade…” 

Rodney, sabemos não existir palavras que sirvam de bálsamo para amenizar a dor que dilacera o coração dos seus, que ficam. Qualquer argumento ou gesto, mesmo aceito e entendido como manifestação de amizade, infelizmente pouco adiantará.

Consciente disso, faço este singelo comentário apenas como forma de registrar, para seus filhos, a lição por você legada, e que somente consigo definir valendo-me de Fernando Pessoa: “Para ser grande, sê inteiro”. 

Saudades, Rodney.

David Leite é advogado, professor, escritor e atual chefe de Gabinete da Reitoria da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN).  

Tempo para tudo: Eclesiastes 3:1-8

Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.

Há tempo de nascer, e tempo de morrer;

Tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;

Tempo de matar, e tempo de curar;

Tempo de derribar, e tempo de edificar;

Tempo de chorar, e tempo de rir;

Ttempo de prantear, e tempo de dançar;

Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras;

Tempo de abraçar, e tempo de abster-se de abraçar;

Tempo de buscar, e tempo de perder;

Tempo de guardar, e tempo de deitar fora;

Tempo de rasgar, e tempo de coser;

Tempo de estar calado, e tempo de falar;

Tempo de amar, e tempo de odiar;

Tempo de guerra, e tempo de paz.

Tá reclamando de quê?

Tá reclamando do Lula? do Wellington Salgado? do Sarney? do Collor? Do Renan? do Palocci? da Dilma? do Jucá? do sapo barbudo? Brasileiro reclama de Quê?

O brasileiro é assim:

1 – Saqueia cargas de veículos acidentados nas estradas;
2. – Estaciona nas calçadas, muitas vezes debaixo de placas proibitivas;
3 – Suborna ou tenta subornar quando é pego cometendo infração;
4 – Troca voto por qualquer coisa: areia, cimento, tijolo, dentadura;
5 – Fala ao celular enquanto dirige;
6 – Trafega pela direita nos acostamentos num congestionamento;
7 – Para em filas duplas, triplas em frente às escolas;
8 – Viola a lei do silêncio;
9 – Dirige após consumir bebida alcoólica;
10 – Fura filas nos bancos, utilizando-se das mais esfarrapadas desculpas;
11 – Espalha mesas, churrasqueira nas calçadas;
12 – Pega atestados médicos sem estar doente, só para faltar ao trabalho;
13 – Faz gato de luz, de água e de TV a cabo;
14 – Registra imóveis no cartório num valor abaixo do comprado, muitas vezes irrisórios, só para pagar menos impostos;
15 – Compra recibo para abater na declaração do imposto de renda para pagar menos imposto;
16 – Muda a cor da pele para ingressar na universidade através do sistema de cotas;
17 – Quando viaja a serviço pela empresa, se o almoço custou 10 pede nota fiscal de 20;
18 – Comercializa objetos doados nessas campanhas de catástrofes;
19. – Estaciona em vagas exclusivas para deficientes;
20 – Adultera o velocímetro do carro para vendê-lo como se fosse pouco rodado;
21 – Compra produtos pirata com a plena consciência de que são piratas;
22 – Substitui o catalisador do carro por um que só tem a casca;
23 – Diminui a idade do filho para que este passe por baixo da roleta do ônibus, sem pagar passagem;
24 – Emplaca o carro fora do seu domicílio para pagar menos IPVA;
25 – Freqüenta os caça-níqueis e faz uma fezinha no jogo de bicho;
26 – Leva das empresas onde trabalha, pequenos objetos como clipes, envelopes, canetas, lápis…. como se isso não fosse furto;
27 – Comercializa vale-transporte e vale-refeição que recebe das empresas onde trabalha;
28; – Falsifica tudo, tudo mesmo… só não falsifica aquilo que ainda não foi inventado;
29 – Quando volta do exterior, nunca diz a verdade quando o fiscal aduaneiro pergunta o que traz na bagagem;
30 – Quando encontra algum objeto perdido, na maioria das vezes não devolve.

E quer que os políticos sejam honestos?

Esses políticos que aí estão saíram do meio desse mesmo povo ou não?

Brasileiro reclama de quê, afinal?

E é a mais pura verdade, isso que é o pior! Então sugiro adotarmos uma mudança de comportamento, começando por nós mesmos, onde for necessário!

Vamos dar o bom exemplo! Espalhe essa idéia!

"Fala-se tanto da necessidade deixar um planeta melhor para os nossos filhos e esquece-se da urgência de deixarmos filhos melhores (educados, honestos, dignos, éticos, responsáveis) para o nosso planeta, através dos nossos exemplos…" 

Autor Desconhecido

* Texto que circula em e-mails em massa pela Internet, que o Blog entende ser interessante e capaz de provocar o bom debate e a reflexão.

À altura do medo (em Martins)

Da infância ainda trago o medo de altura. Do mar, também. Situações traumáticas com um e outro, assim imagino, devem ter-me aprisionado a eles. Porém sinceramente, não lembro. Ou seletivamente não quero recordar.

Em relação ao primeiro, não passo de pequenos desafios. O olhar semi-paralisado, espiando o mundo da janela do apartamento em Natal, denuncia meu pavor. Vem-me leve vertigem e uma imagem em queda livre passa à cabeça.

É sempre assim.

Do mar, a admiração respeitosa, como se lá o senhor absoluto fosse Netuno. Nem encontrar Atlântida me encoraja além dessa reverência. Fica o prazer contemplativo. Platônico.

O rugir das águas, naquela coreografia de fluxo e refluxo, impõe-me o respeito. Não ouso desafiá-lo.

Se é possível remédio longe das terapêuticas científicas, creio ter encontrado para a acrofobia, esse medo de lugares elevados. Do mar, não. Ainda sou seu refém em terra firme. Muito firme, que se diga.

Vem de Martins um sopro de vida. A cura. Ela e suas curvas desafiadoras; os mirantes que nos fazem seres celestiais; a Matriz imponente; a noite que chega mansa, só alterada pelo coaxar dos sapos, ziziar das cigarras e o tititi da gente às calçadas num sossego sem fim.

Mas tudo quase inaudível. Talvez só minha curiosidade seja capaz de captar tantos sons. Ou imaginá-los.

Lá em cima, o burburinho deixa o ritmo mais lento. Medo de quê? Seguimos um relógio diferente nessas paragens. "O tempo parece que não passa por aqui", diz Larissa, morena jambo que abre sorriso contagiante, como se fora um personagem travesso de Jorge Amado. Tem razão. Está ótimo assim mesmo.

De um mirante para outro. No Canto, expulsos por uma fina neblina. No Jacu, nem isso nos repeliu. Como recuar diante de um céu negro quase ao alcance da mão? 

Milhares de luzes lá embaixo, em cidades que tentamos identificar pelo aglomerado luminoso, refletem como se fossem estrelas coladas ao chão; sob nossos pés. Nem percebo que a balaustrada é o limite entre minha "doença" e o abismo, ou a divisória entre o ser e o não-ser feliz.

Faltava encontrar François Silvestre. Condescendente com o silêncio cúmplice do lugar, tomou distância da metrópole e do agitado tombadilho da vida, para ser de novo só François, sem o "doutor", nesse chão. Ele fez a viagem de volta para ficar.

François é douto ao natural, sem o título solene que muitos exigem como tratamento pomposo. Para azar nosso, meu e de Honório de Medeiros, parceiro dessa viagem, não o encontramos. Não o acordaríamos de uma merecida sesta.

Raimunda e sua família, contagiada com a aprovação do filho Juninho (curso de Direito), oferta-nos o último sabor de Martins. Huum!!! A vítima é um robusto pato, o "Donald" – a meu critério batizado cinicamente assim, já indefeso à mesa.

Às favas a etiqueta. Passa o pato pra cá. Medo agora, só de uma indigestão, pelo pecado santo da gula.

Foto – Autor: Fábio Pinheiro

Paisagem afetiva de Uiraúna

A paisagem é nova para mim. Mas é certo que não difere muito do comum aos meus olhos no torrão nordestino. Por trás das lentes que refreiam o sol, há um olhar curioso. Meu olhar.

Não fossem as placas que identificam onde começa ou termina alguma cidade, tudo continuaria familiar. Sertanejo. Observo que há um caboclo high-tech, pulverizado de antenas parabólicas, celulares e internet.

Letreiros em pequenos comércios fazem de um inglês canhestro a segunda língua desse chão longínquo. Tem "lan-house", "hot-dog"… Tá dominado, tá tudo dominado. E faz tempo.

Uiraúna – Paraíba. É o que indica um pórtico. Apontando nossa chegada, nosso destino nessa tarde que está apenas começando.

Falo para Honório de Medeiros, com quem divido a cabine de um carro nessa excursão, meu encantamento com a fonética dos topônimos paraibanos. O pássaro negro, Uiraúna, não conheço. A cidade, ídem. 

Gosto do som Tupi: Ui-ra-ú-na!

Será que seu canto tem sonoridade? A descobrir.

Doutor Etelânio Vieira e Catarina (sua mulher) vão à frente noutro carro. Ele é uma espécime rara de "batedor": loquaz; sorriso estampado no rosto e um sem-número de assuntos a infileirar na prosa. Sobra-lhe, ainda, o dom da pintura. É um artista de esmero na condução dos pincéis. 

Foi dele proposta convincente que ouvimos à noite anterior em Pau dos Ferros, em meio ao vinho e, no meu caso, a doses moderadas da branquinha "Serra Preta". Lentas, graduais e restritas. Mudaríamos o roteiro. Mudamos.

Eu e Honório iríamos para São Miguel no Rio Grande do Norte. Estamos em Uiraúna. "Culpa" agora compartilhada. Boas razões para agradecer.

O que nos atraia era conhecer um casarão na "Fazenda Canadá". De longe, a sua imagem nos dizia que valeria a pena a viagem. A construção em paredes grossas, sobrado, cheia de compartimentos, foi passagem aterrorizante de Lampião e seus sequazes, na marcha para Mossoró em 1927.

Foi erguida no final do século XVIII, com reforma em 1900. Deixa-nos boquiabertos. "Seu" Teodoro Figueiredo (tio de Etelânio) e família são nossos anfitriões, com a genesoridade comum ao sertão. Podíamos demorar horas.

"Temos que ir", avisa Honório.

É, temos. 

Ficou a vontade de um pouso maior, com a mente fervilhando de imaginação sobre uma época tão remota. O cenário é arrebatador. O casarão adaptado à vida moderna, parece congelado no tempo.

O giro pela pracinha central de Uiraúna, o único "arranha-céu" de poucos pavimentos, a calmaria monástica, gente no ramerrame das calçadas; cerveja à mesa no boteco. Toda essa imagem passa à janela do carro.

Estamos a caminho do "Sítio Curupaity".  

Sim, por que Curupaity, hein?

"Seu Bosco", depois de servir cervejas e um uísque, que divide comigo, esclarece minha dúvida. Ele e Honório lembram-me de uma batalha da Guerra do Paraguai. "Ah, tá!" faço de conta que sabia, sem confessar minha ignorância.

A mesa farta explica por que Eletânio continua tão cevado. Dona Socorro, sua sogra, ao lado do marido (Bosco), cobra de nós o mesmo desempenho do genro no controle de garfo e faca. Impossível. Mas não decepcionamos.

– Vamos embora!?

Etelânio e Catarina permanecem. Quanto a nós, a promessa de voltar.

O aceno, o riso solto de todos que ficam para trás, é a paisagem mais bonita que guardo. É o que levamos de melhor.

Acorde

Sábado. A sensação de que poderia dormir um pouquinho mais tendo em vista que passara a semana acordando cedo, se desfez. Acordo com fogos e uma turba ensandecida…

Assusto-me!

Imediatamente levanto e olho pela janela: Uma voz ecoa: "Lá vêm eles abraçando seu povo!", esgoelava-se o locutor para comunicar que os candidatos estavam chegando…

Carros de som, mini-trios, centenas de bandeiras que se embaralhavam confundindo a mente com tantos números… Dou-me conta que nos é chegada mais uma eleição, mais um ano de decisões onde temos a chance de mudar a cara do nosso país.

Ainda meio atordoado e atônito, arrumo a cama e observo aquele cenário: chegam os candidatos e seus asseclas subservientes. De quatro em quatro anos eles levantam-se de seus acolchoados assentos, saem do ar-condicionado para as ruas e com um grande sorriso no rosto e a mão estendida tentam novamente persuadir e ludibriar o povo.

Doce ludíbrio…

Crianças correm atrás da multidão, encantam-se com tantos fogos… Crianças essas, que muitas vezes não têm o devido acesso à educação ou, quando têm, esse se mostra insuficiente e precário.

Escolas desestruturadas, professores despreparados e alunos sem um futuro para trilhar… Mas a corja está lá, com uma mão estendida e um pseudo-sorriso no rosto…

Já não existe mais diferença entre o rico e o pobre, entre o empresário e o favelado; todos têm o mesmo poder nas mãos. Voltando a dissimulação, o que se vê são beijos, abraços, crianças são levadas ao colo, idosos são tratados com carinho, catadores de lixo são visitados, e até mesmo favelas são invadidas por essas comitivas de hipócritas farsantes.

O preceito é o mesmo de outrora: perpetuar-se no poder e lutar contra meios e reformas que possam ensejar uma sociedade plural, consciente, conhecedora dos seus direitos e deveres, inteligente, que faça ponderações, que conteste, afinal, isso poria em risco suas posições e assentos políticos. Políticos não, politiqueiros rasteiros, sem o mínimo de decência e hombridade, à exceção de poucos, que felizmente ainda existem.

O locutor esforça-se para fazer seu trabalho: profere com empolgação e entusiasmo o nome e número dos respectivos candidatos. As bandeiras balançam, eles acenam… As ruas são poluídas por ‘santinhos’, panfletos… Agora são "do povo" e deles vieram; são "gente da terra", exaltam a voz para alardear.

Até outubro será esse o panorama em vigor: aula de hipocrisia e desrespeito para com o cidadão. Casas, escolas, empresas, tudo é minuciosamente visitado; agora todos importam, seja bastardo ou abastado… Pelo menos até Outubro, todos serão tratados em pé de igualdade, com equidade…

Após esse período eles voltam, não para o povo, ou de onde vieram, mas para seus assentos acolchoados e suas salas com ar-condicionado com vários assessores, amoucos, rodeando-os e puxando-lhes o saco…

Agora já não mais existirão os sorrisos e abraços, não serão mais do povo e dele querem distância. Enquanto isso, o “povo” novamente volta à sua miséria e descaso, nosso país segue em decadência, continua com seu “eterno desenvolvimento”, a população vivendo em condições miseráveis; educação de péssima qualidade; saúde que mata nos corredores lotados dos hospitais; segurança que não existe… 

É tempo de mudança, mais um ano de decisões, e o poder está em nossas mãos. Sabemos usá-lo, basta querer, basta fazer! A mudança dar-se-á quando iniciarmo-na por nós mesmos. Façamo-la, então!

Mudemos e façamos mudar o próximo, façamos mudar o país, o mundo! O poder é nosso! Ninguém pode tirá-lo, use-o da melhor maneira, elejamos quem merece, observemos os fatos, candidatos, o que realmente mostra preocupar-se com o povo e seus problemas; elejamos certo, para que nossos netos possam não conhecer essa realidade que vivemos; elejamos certo para que um dia possamos ver as mesmas crianças que corriam atrás da turba, correndo para seus lugares na festa de formatura, ocupando seu lugar de direito na sociedade, correndo e realizando seus sonhos, nossos sonhos, sonho de um país plural, sonho de uma vida melhor e mais digna para todos.

Lázaro Fabrício é cientista social e produtor cultural – www.lazaroffsouza.blogspot.com