Arquivo da categoria: Nair Mesquita

À Difusora

Hoje a Rádio Difusora de Mossoró chega aos seus 57 anos. De minha parte, todos os vivas do mundo.

A Difusora é um bem imaterial, passado como herança por meus pais a mim. Nunca imaginaram, sei, que também a integraria: repórter, redator, comentarista político, comentarista esportivo e até o frustrado início como operador de transmissor. Uma "derrota" necessária.

Muito antes disso, a Difusora era companhia diária onipresente em nossa casa. Inundava o cotidiano entre nós. Era da família.

Livros, revistas, jornais, TV e rádio faziam parte do nosso dia-a-dia. Mas era a Difusora que exercia aquela força suprema. Sobre um móvel à sala, o seletor de canais parecia petrificado no prefixo 1.170KHz. Ninguém ousava – nem queria alterá-lo.

Ídolos sem rosto, vozes com vida. Era a Difusora que conhecíamos. 

Do futebol à política, a sua voz ecoava para deleite de Dona Maura, Sêo Chico… Bate uma saudade de parte do que se foi, mas é bom ter ficado muito. Inclusive a Difusora.

Como esquecer tudo isso? Nesses 57 anos tem um pouquinho da gente.

Parabéns e muito obrigado.  

Para não esquecê-los

“Ver bem não é ver tudo. É ver o que os outros não vêem.” (José Américo de Almeida)

Tenho cuidado maternal no manuseio desse achado. É exemplar ainda de sua primeira edição, coisa aí de 1977. "A casa do meu avô", mesmo assim, não resiste ao tempo e ao folhear encantado do adolescente que ainda vive em mim. A contracapa amarelada desprende do corpo do livro de Carlos Lacerda, como se fora uma cápsula solta à Via Láctea. É parte de um todo, que não aceito seccionar.

Li-o novamente agora. Foi o terceiro passeio ao sítio do doutor Sebastião Lacerda nos últimos 25 anos. De novo com outro olhar. Tenho em mãos um Lacerda plácido, faceta memorialista. Doce. Diferente do orador iconoclasta, do jornalista crítico e do político em permanente erupção. Aqui e ali os escaninhos à crítica sociopolítica, como não poderia deixar de ser.

Bem, mas não é necessariamente sobre meu xará que me detenho a escrever. Mas claro que não passam ao largo, ele e o livro. Nem poderiam sobrar.

Alimento o hábito de releituras. Como dizem os de cultura esmerada e inseparáveis amigos dos livros: a cada viagem, novas descobertas. É como se abríssemos uma nova janela à paisagem em permanente mutação. Paixões renovadas, novos encontros, desapontamentos. Olhos afeitos à curiosidade.

Faz-me lembrar de José Américo de Almeida. Político paraibano arretado e sua “A bagaceira”. Triângulo amoroso, conflito social, sol, sertão, gente, dores e horrores, alegria e êxtase. Pai e filho lutando pelo amor de Soledade, mergulhados num íntimo de cisma e reflexão psicológica.

Partindo daí, meu reencontro é também com Aluízio Alves, aquele que “veio do sertão, lá do Cabugi…”

Em um de nossos últimos bate-papos, já falando com dificuldade e encerando o piso do apartamento em Natal, numa locomoção arrastada, ele nutria novos planos como escritor. “O que não esqueci” vez por outra renova minha admiração pelo político-intelectual. Ouvir – ler – Aluízio pescando minudências de um passado remotíssimo, era um banho de sapiência no inculto jornalista provinciano.

Nesse olhar que junta Carlos Lacerda, José Américo e Aluízio, dou por falta de uma companhia igualmente prazerosa. Sumiu por empréstimo involuntário ou furto qualificado, o volume de “Antes que me esqueça”, de José Américo. Percebeu a semelhança com o título fixado por Aluízio em suas memórias? Bem, mas esse é outro viés de apreciação.

O desejo de também rever Antes que me esqueça remete esse leitor à crucial constatação de que vivemos um tempo de aridez cultural na política. Lacerda, Aluízio e Américo são apenas alguns nomes recolhidos, como parte de uma vasta lista de personagens com densidade erudita, vinculados à atividade pública. No passado, infelizmente.

Tudo isso fundamenta mais ainda minha angústia. O que prospera é uma literatura hagiográfica de encomenda, canonizando vigaristas que estão na política.

A casa do meu avô, A bagaceira, O que não esqueci e Antes que me esqueça deixam entreaberta a porta à observação dos valores culturais que a política brasileira produzia, em volume considerável, no século XX. Hoje estamos numa entressafra.

Vivemos desprovidos de homens de letras que na política expressem um pouco de humanidade e vocação para o social. Talvez esteja em parte explicado, não justificado, o império da delinqüência que prospera de Brasília ao RN. É por isso que não devo esquecê-los, Lacerda, Aluízio e Américo.

E=MC2

“Você talvez diga que sou um sonhador, Mas eu não sou único.  Eu espero que algum dia você junte-se a nós,  E o mundo viverá como um único”. (Imagine – John Lennon)

Em 1905, Einstein entregou ao mundo a sua famosa equação (E=MC2) e, a partir daí, foi fácil entender que nada mais somos do que energia armazenada e que a matéria mesmo em repouso é simplesmente energia. Portanto, essa duas – massa e energia – podem ser convertidas entre si. 

E não podia ser diferente, pois está lá na Gênese (2:7): “Deus formou o homem do pó da terra ou barro, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem se tornou vivo…”. Sopro de vida que os hebraicos chamam de “Ruach” (energia, dinamismo).

Assim, em cada célula – são 1016 ao todo – que compõe o corpo humano, existe um número enorme de pequenas partículas denominadas de átomos (1012). E esse átomo pode ainda ser dividido em pedaços ainda menores, o chamado Quark. 

O fato é que cada vez que inspiramos, recebemos do meio ambiente, aproximadamente 10 átomos – sendo que uma parte significativa dessa quantidade exorbitante entra no nosso corpo para formar as células – e, ao expirarmos, eliminamos a mesma quantidade. Assim, em menos de um ano de inspiração e expiração, chegamos a trocar 98% dos átomos do nosso corpo. 

Estudos com isótopos radioativos mostram que, neste instante de nossa existência, possuímos um milhão de átomos que pertenceram um dia ao corpo de Cristo, ao corpo de Gandhi, de Leonardo da Vinci, de madre Tereza de Calcutá, de Hitler, de Saddam Hussein, etc, etc… Por isso, o médico indiano Deepak Chopra afirma: “Nós não podemos nos separar fisicamente de nada e de ninguém que já tenha existido”. E era por isso, que o poeta John Donne dizia: “Ninguém é por si só uma ilha”. Interessante tudo isso.

No entanto, é também muito interessante a indagação feita pelos Professores José Pedro Andreeta e Maria de Lourdes Andreeta, no livro “Quem se atreve a ter certeza?”: “Ainda que a nossa vida seja muito curta, os elementos que emitimos (Neutrinos) continuam nossa jornada após a nossa morte. Eles seguramente chegarão ao outro extremo do universo. Carregados de energia pessoal, levando a nossa marca, qual será a mensagem que estamos enviando ao universo?”. 

Para responder essa pergunta, seria melhor caro leitor, parar um pouco, respirar bem fundo (lembre-se da troca de átomos) e, a seguir, recapitular os últimos acontecimentos… No Senado Federal, vários senadores estão sendo investigados por crimes (sonegação fiscal, nepotismo, ladroagem…); aqui em Natal, sete vereadores (parece até conta de mentirosos. Aliás, será a conta mentirosa ou os edis é que estão mentindo?) foram acusados de receber propina para votar contra o povo, a favor da construção civil.

Aconteceu mais um acidente aéreo no país e parece que, desta vez, houve falha mecânica (o avião da TAM estava avariado no reverso – mecanismo que ajuda o avião a frear -, já há alguns dias e não foi consertado, pois precisava continuar voando)… não sei se seria mais um caso em que o dinheiro está em primeiro lugar e o homem vindo depois…

Então, avaliando todas essas situações, chegamos à triste conclusão de que os homens estão enviando seus neutrinos ao universo de forma deturpada, defeituosa… Ah, Meus Deus! Será que as pessoas não entendem que todos os caminhos levam ao mesmo lugar: sete palmos debaixo da terra?

E olha: não adianta tentar vender a alma ao demônio (inimigo da luz) como mostrou Goethe no seu poema trágico do “Dr. Fausto”, pois este, mesmo tendo riquezas, poder político, capacidade de viajar para todos os lugares e sendo amado por todas as mulheres que desejasse, não era feliz. Vivia eternamente insatisfeito. 

O Dr. Fausto só obteve a felicidade – a ponto de dizer: “Deixe que este momento se prolongue… ele é tão bom”–, quando passou a construir diques, tomando a terra do mar para que nela as pessoas pudessem viver e trabalhar. 

Mas… Infelizmente, as pessoas, não conhecendo a estória do Dr. Fausto, continuam impregnando o universo de egoísmo e não percebem que é na alegria do outro que está a felicidade que tanto procuram. 

Francisco Edilson Leite Pinto Junior Professor, médico e escritor

Somos amigos, não esqueça (Oração do Afeto)

Desperto ainda pela madrugada. Manhãzinha, para ser preciso. Uma luz assenta meu quarto, preguiçosamente, desejando-me bom-dia a seu modo. Invade-o pela janela envidraçada e semi-encoberta pela veneziana encardida. É minha primeira companhia de hoje. Como quase sempre. Ele, o sol, raramente falta a esse encontro matinal.

Eu!? Bem… repito Quintana: passarinho!

Ao computador, a boa nova que poderia ser banal. Sou avisado generosamente. Hoje, 20 de julho, é o “Dia do Amigo”. E-mails lembram-me da data, risível ou desdenhada por mim num passado que se distancia, quando parecia movido por uma pressa hedonista. Não, hoje não é um dia qualquer, amigo.

Particularmente, tenho a tese de que esses apegos crescentes às datas não surgem por acaso. Há muito de entonação biológica. É a idade de longo curso, lapidando e nos transformando. Para melhor ou para pior? Bem, aí é outra questão.

Refugiei-me por anos, décadas até diria, numa couraça a me proteger dos apelos mercantis: dia disso, dia daquilo. Não, definitivamente eu não me enquadrava na liturgia mecânica da alegria prefixada. Ou, quem sabe, não me convertera numa porção mais comum e humanizada do homo sapiens.

Fui ajudado, socorrido a tempo. Sou um simples mortal, que se derrete às lembranças e às datas, sem vê-las como antes. O que era número na cronologia romana de medir o tempo, agora representa valor existencial.

Desperto da aridez, fertilizado para me deixar tocar pelo aroma do bem-querer; o abraço que aproxima corações e me faz gente. De carne e osso. Alma carregada de todos os sentimentos do mundo. 

Da amizade sai toda a carga platônica de enxergar o homem. O homem em suas contradições, seus pecados, virtudes, força e fragilidade. Nela não há a figura do ex, o que se foi, aquele que partiu a deixar saudades. Não há vácuos. Sobra a permanente concessão ao afeto, a renúncia ao ter em nome do ser. Banho ritual pela compaixão.

A gente gosta e pronto. Defeitos? Onde? Nada disso. Conta a cultura oral da política de minha terra, que provocado a deixar um aliado às feras, o deputado Vingt Rosado resmungou: “Amigo meu não tem defeito. Inimigo, se não tiver, eu boto!”

Ah, que embrulho no estômago! Fica aquele gosto acre na boca, a respiração parece faltar. Nosso rosto espelha contrariedade. Olhos aturdidos, quase saltam pela tangente. As pernas não dão sinal de vida. Será que estão no lugar? Espero que sim, para correr daqui. Estão falando de e não “sobre” meu amigo. O corpo sozinho responde por mim: eu não gosto que falem “de”… Pronto. É isso. É meu amigo e daí?

Em troca, não apresento fatura, não invoco São Francisco e sua oração do “é dando que se recebe”, nem desconfio que vou ser traído. A ingratidão não existe. É tudo invenção de quem se foi, deixando para trás minha mão estendida.

Somos amigos, não esqueça.

Sabor do saber

"A boca fala do que está cheio o coração": esse é um ditado da sabedoria judaica que se encontra nas escrituras sagradas.

Bem que poderia ser a explicação sumária daquilo que a psicanálise tenta fazer: ouvir o que a boca fala para chegar ao que o coração sente. Acontece comigo.

Cada texto é uma revelação do coração de quem escreve. Pois o meu coração ficou cheio com uma coisa que me disse minha neta Camila,  de 11 anos. O que ela falou fez meu coração doer. Como resultado, fico pensando e falando sempre a mesma coisa.

A Camila estava na sala de televisão sozinha, chorando. Fui conversar com ela para saber o que estava acontecendo. E foi isso que ela me disse: "Vovô, quando eu vejo uma pessoa sofrendo, eu sofro também. O meu coração fica com o coração dela".

Percebi que o coração da Camila conhecia aquilo que se chama "compaixão". Compaixão, no seu sentido etimológico, quer dizer "sofrer com". Não estou sofrendo,  mas vejo uma pessoa sofrer. Aí, eu sofro com ela. Ponho o outro dentro de mim.

Esse é o sentido do amor: ter o outro dentro da gente. O apóstolo Paulo escreveu que posso dar tudo o que tenho aos pobres, mas, se me faltar o amor, nada serei, porque posso dar com as mãos sem que o coração sinta. A compaixão é uma maneira de sentir. É dela que brota a ética.

Alguém foi se aconselhar com Santo Agostinho sobre o que fazer numa determinada situação. Ele respondeu curto e definitivo: "Ama e faze o que quiseres". Pois não é óbvio? Se tenho compaixão, nada de mau poderei fazer a quem quer que seja.

Fernando Pessoa escreveu um curto poema em que descreve a sua compaixão. Por favor, leia devagar: "Aquele arbusto fenece, e vai com ele parte da minha vida. Em tudo quanto olhei fiquei em parte. Com tudo quanto vi, se passa, passo. Nem distingue a memória do que vi do que fui". Compaixão por um arbusto… Ele explica esse mistério da alma humana dizendo que "em tudo quando olhei fiquei em parte. Com tudo quanto vi, se passa, passo…".

Os olhos, movidos pela compaixão, o faziam participante da sorte do pequeno arbusto. Eu já sabia disso, mas nunca havia enchido o meu coração a ponto de doer. Doeu porque liguei a fala da Camila a essa tristeza que está acontecendo no Brasil.

Os corruptos são homens que passaram pelas escolas, são portadores de muitos saberes. Tendo tantos saberes, o que lhes falta? Falta-lhes compaixão. A falta de compaixão é uma perturbação do olhar.

Olhamos, vemos, mas a coisa que vemos fica fora de nós. Vejo os velhos e posso até mesmo escrever uma tese sobre eles, se eu for um professor universitário,  mas a tristeza do velho é só dele, não entra em mim. Durmo bem. Nossas florestas vão aos poucos se transformando em desertos, mas isso não me faz sofrer. Não as sinto como uma ferida na minha carne.

Vejo as crianças mendigando nos semáforos, mas não me sinto uma criança mendigando em um semáforo. Vejo os meus alunos nas salas de aulas, mas meu dever de professor é dar o programa  e não sentir o que os meus alunos estão sentindo. De que vale o conhecimento sem compaixão? Todas as atrocidades que caracterizam  os nossos tempos foram feitas com a cumplicidade do conhecimento científico.

Parece que a inteligência dos maus é mais poderosa que a inteligência dos bons. Sabemos como ensinar saberes. Há muita ciência escrita sobre isso. Não me lembro, no entanto, de nenhum texto pedagógico que se proponha a ensinar a compaixão. Talvez o livrinho "Como Amar uma Criança", do Janusz Korczak – mas Korczak é uma exceção.

Ele sabia que, para ensinar algo a uma criança, é preciso amá-la primeiro. Korczak era um romântico. Por isso o amo. Aí, fiz a mim mesmo uma pergunta pedagógica: "Como ensinar a compaixão?".

Conversando sobre isso com minha filha Raquel, arquiteta, ela se lembrou de um incidente dos  seus primeiros anos de escola, quando ainda era uma menina de sete anos. Seria o aniversário da faxineira, uma mulher que todos amavam. A classe se reuniu para escolher o seu presente. Ganhou por unanimidade que, no dia do seu aniversário, as crianças fariam o seu trabalho de faxina. Disse-me a Raquel que a faxineira chorou.

Sei que as crianças aprendem com um olhar especial, o olhar de suas professoras. Elas sabem quando as professoras as olham com os mesmos olhos com os quais Fernando Pessoa  olhava o arbusto quando escreveu o poema. Sei também que as histórias provocam compaixão quando o leitor se identifica com um personagem.

Sei de um menininho que se pôs a chorar ao final da história "O Patinho que Não Aprendeu a Voar".

Ele teve compaixão do atinho. Identificou-se com ele. Vai carregar o patinho dentro de si, embora o patinho não exista. Lemos histórias para as crianças e para nós mesmos não só para ensinar a nossa língua mas também para ensinar a compaixão.

Mas continuo perdido. Preciso que vocês me ajudem. Como se pode ensinar a compaixão?

Rubem Alves, 72, escritor

Nome das coisas

Outro dia fui comprar um abajur. A mocinha me olhou e perguntou:

– Luminária?

Eu olhei em volta, tinha uma porção de abajur.

– Não, abajur mesmo, eu disse.

– De teto?

Fiquei olhando meio pasmo para a vendedora, para o teto, para a rua. Ou eu estava muito velho ou ela estava muito nova.

-No meu tempo – e isso faz pouco tempo – o abajur a gente punha no criado-mudo, na mesinha da sala. E lá em cima era lustre. –

Lustre?

Descobri que agora é tudo luminária. Passou por spot, virou luminária.Pra mim isso é pior que bandeirinha virar auxiliar de arbitragem, e passe (no futebol) a chamar-se agora assistência. Quem são os idiotas que ficam o dia inteiro pensando nessas coisas? Mudar o nome das coisas? Por que eles não mudam o próprio nome? A mocinha-da-luminária, por exemplo, se chamava Mariclaire.

Desconfio até que já tivesse mudado de nome. Pra que mudar o nome das coisas? Eu moro numa rua que se chama Rodovia Tertuliano de Brito Xavier. Sabe como se chamava antes? Caminho do Rei. Pode? Pode! Coisa de vereador com minhoca na cabeça e tio para homenagear. Mas lustres e abajur, gente, é demais.

Programação de televisão virou grade. Deve ser para prender o espectador mais desavisado. Entrega em domicílio virou delivery. Agenda de correio, mailing. São os publicitários, os agentes de ‘marquetingui’? Quer coisa mais bonita do que criado-mudo? Existe nome melhor para aquilo? Pois agora as lojas vendem mesa-de-apoio. Considerando-se a estratégica posição ao lado da cama, posso até imaginar para que tipo de apoio serve.

Antigamente virava-se santo, agora vira-se beato, como se já não bastassem todas as carolas beatas que temos por aí. Mudar o nome de deputado para putado ninguém tem coragem, né? Nem de senador para sonhador. Sonhadores da República, não soa bem? E uma bancada de putados? A turma dos dez por cento agora se chama lobista! E a palavra não vem de lobo, mas parece.

E por que é que agora as aeromoças não querem mais ser chamadas assim? Agora são comissárias. Não entendo: a palavra comissária vem de comissão, não é? Aeromoça é tão bom e terno como criado-mudo. Pior se as aeromoças virassem moças-de-apoio, taí uma idéia. E tem umas palavras que surgem de repente do nada.

Luau – Isso é novo. Quando eu era jovem, se alguém falasse essa palavra ou fosse participar de um luau, era olhado meio de lado. Era pior que tomar vinho rosê. Coisa de bicha, isso de luau. Mas a vantagem de ser um pouco mais velho é saber que o computador que hoje todo mundo tem em casa e que na intimidade é chamado de micro, nasceu com o nome de cérebro-eletrônico. Sabia dessa? E sabia que o primeiro computador, perdão cérebro-eletrônico, pesava 14 toneladas? E que, na inauguração do primeiro, os gênios da época diziam que, até o final do século, se poderia fazer computadores de apenas uma tonelada?

Outra palavrinha nova é stress.

Pode ter certeza, minha jovem, que, antes de inventarem a palavra, quase ninguém tinha stress. Mais ou menos como a TPM. Se a palavra está aí a gente tem de sofrer com ela, não é mesmo? No meu tempo o máximo que a gente ficava era de saco cheio. Estressado, só a turma do Luau.

E agora me diga: por que é que em algumas casas existe jardim de inverno e não jardim de verão? E se você quiser mudar o nome desta crônica para lingüiça, pode. Desde que coloque o devido trema. Também conhecido como dois pinguinhos.

Mário Prata, escritor

O universo dinâmico

"O que for a profundeza do teu ser, assim será teu desejo. O que for o teu desejo, assim será a tua vontade. O que for a tua vontade, assim serão teus atos. O que forem teus atos, assim será o teu destino”. (Brihadaranyaka Upanishad IV, 4.5).

Não sei se Ricardo Reis, uma das entidades do magnífico Fernando Pessoa, quando convidou Lídia para sentar à beira do rio e observá-lo, sossegadamente, sabia que estava, na verdade, desvendando os mistérios da física moderna: “Vem sentar-te comigo à beira do rio… fitemos o seu curso e aprendamos que a vida passa… passa e não fica, nada deixa e nunca regressa. Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado, mais longe que os deuses…”.  

No mundo subatômico, as partículas encontram-se numa inquietude – num eterno estado de movimento –, fazendo com que a matéria jamais permaneça em repouso. A tendência, portanto, do universo consiste em mover-se sempre para frente… 

Então, nada é mais correto do que este pensamento anônimo (não sei se li isso do escritor  Malba Tahan): “Há quatro coisas que não voltam atrás: a pedra atirada, a palavra dita, o tempo que passou e a ocasião perdida”. 

Ah! Como tudo seria mais fácil se as pessoas tivessem, pelo menos, um pouco desses conhecimentos – afinal já alertava Platão que “Deus é um geômetra” e por isso, na porta da sua academia, em Atenas, tinha a seguinte inscrição: “Só é permitida a entrada a quem conhece geometria” –, pois, assim, com certeza, evitaríamos erros e arrependimentos, já que tomaríamos as nossas decisões, com a consciência de que nossos atos não têm volta…É a lei de causa e efeito. 

Às vezes, temos que escolher entre ser solidário ou não a uma pessoa, ser leal ou não a um amigo, ou ainda se vale ou não a pena ocupar um cargo qualquer, mesmo que para isso tenhamos que nos afastar daqueles que sempre estiveram do nosso lado, já que este lado agora terá que ser ocupado por bajuladores e “pseudo-amigos” de plantão… decisões difíceis essas, não? 

Decidir depois de seis longos meses, pode ser um tempo longo demais… pois tudo passa, aliás como dizia Heráclito: “tudo flui”. E é contra os relógios que teremos de lutar… Então, quem sabe: não espera acontecer, mas sim faz a hora, como bem lembra o Geraldo Vandré. 

Nas sete leis espirituais do sucesso, Deepak Chopra nos ensina que é fundamental estarmos alerta para as nossas escolhas a todo o momento, como também cientes de suas conseqüências. E, além disso, saber se ao fazer determinada coisa, isso poderá trazer felicidade não só a mim , mas também aos que estão ao meu redor…

Então estou certo de que o fim depende do começo… por isso, nada melhor do que terminar este artigo, voltando ao magnífico Fernando Pessoa, agora sob as veste de Alberto Caeiro, em seu Guardador de rebanhos:

“Ah!… fôssemos nós como devíamos ser / E não haveria em nós necessidade de ilusão… / Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida… / Mas graças a Deus que há imperfeição no mundo / porque a imperfeição é uma coisa, / E haver gente que erra é original, / E haver gente doente torna o mundo engraçado. / Se não houvesse imperfeição, havia uma coisa a menos, / e deve haver muita coisa / Para termos que ver e ouvir…”.

Que assim seja: “Quem tiver olhos e ouvidos, que vejam e ouçam…”.

Francisco Edílson Leite Pinto Júnior – Professor, escritor e médico nas horas vagas 

Guerra e Cangaço em Fernando de Noronha

A ilha de Fernando de Noronha, no litoral nordestino, durante a Segunda Guerra, por sua estratégica posição geográfica, acolheu considerável aparato militar. Aldemar Duarte Leite, meu pai, que servia ao Exército brasileiro, ali esteve por quase dois anos.

De vez em quando, ele contava algumas histórias daquele tenso período de sua vida. Lembro-me de uma delas que tem muito a ver com nossa Mossoró, principalmente agora quando se comemoram os oitenta anos da resistência ao bando de Lampião.

Os dias de folga da rotina militar na ilha não ensejavam maiores opções de lazer. As restrições limitavam os momentos de descontração que, invariavelmente, ficavam resumidos a jogos e outros passatempos improvisados. Certo dia, houve uma espécie de torneio de tiro ao alvo, onde o sargento Duarte —nome de guerra — terminou vencendo.

Em meio a abraços e cumprimentos festivos dos colegas, um prisioneiro — a ilha abrigava, então, prisioneiros políticos e do cangaço — aproximou-se e, a pretexto de felicitá-lo, entabulou um rápido diálogo:

— Atirando bem desse jeito, já sei que seu Duarte é de Mossoró… Qual é seu parentesco com Manoel Duarte? 

— Sou sobrinho dele, por quê?

— O que ele conta a vocês sobre o “acontecido”?

— Ele não gosta de falar do assunto, e nós respeitamos seu silêncio. Mas, hoje, por minha formação militar, vejo que ele agiu como agiríamos, por exemplo, aqui, em caso de ataque.

Papai, que nem estava preparado para a situação, foi muito feliz ao responder com admirável desembaraço, pois, além de não escamotear o assunto, sob pretexto de um possível medo de vingança, já que os prisioneiros conviviam soltos com eles, deixou claro que não iria acrescentar detalhes e, talvez, o mais importante, delimitou que “o acontecido” teria que ser visto sob um ângulo, ou raciocínio, de guerra, onde matar ou morrer são, infelizmente, inevitáveis conseqüências.

Por outro lado, mesmo considerando que à época do diálogo já havia sido transcorrido cerca de quinze anos do episódio, percebe-se que a derrota e as baixas do grupo, ocorridas no chão mossoroense, ainda permaneciam fortemente acesas para os remanescentes do cangaço.

A reserva que Manoel Duarte sempre mantinha em torno do assunto foi, no mínimo, sábia. Jamais aceitou fanfarrices, alardeando que cangaceiros tinham tombado sob sua mira, como muitos fariam.

Levou, ou melhor, continuou com sua discreta e honrada vida, após ter aceitado a convocação do destemido prefeito Rodolfo Fernandes, para que se entrincheirasse em defesa de sua gente, numa enorme demonstração de coragem e desprendimento.

Aliás, sempre que falo ou leio sobre este tema, termino me questionando: quantos desses nomes tão festejados e repetidamente homenageados em nossa cidade deixariam as chamadas “áreas de conforto” e arriscariam suas vidas em uma empreitada como essa?

Por isso, viva Manoel Duarte e todos aqueles verdadeiros heróis da resistência!…

David de Medeiros Leite – Advogado e professor da Uern

Toda mãe é uma heroína

Abaixo, uma crônica que eu gostaria de ter escrito, se tivesse talento para tanto. Seu autor é o jornalista Rubens Lemos Filho, numa homenagem pessoal à sua mãe, que tomo emprestada para exaltar todas as mamães, a começar pela minha, dona Maura, minha fada-madrinha.

Eu sou devedor da minha mãe. Sou muitas vezes impaciente com ela. Visito pouco a minha mãe. O meu álibi é a falta de tempo. Minha mãe me liga dia sim, dia não. Eu atendo. Muitas vezes não retorno. É um estresse a minha vida. Mas a minha mãe precisa ter um pouco mais de prioridade. Afinal de contas, sem ela, meu pai não teria me feito numa proveta inexistente em 1970.

Quando eu tinha um ano, foi nos braços dela que eu voltei do Chile quando caiu o Governo Salvador Allende, Palácio La Moñeda bombardeado pelas forças satânicas de Pinochet. Meu pai, exilado político, nos mandou de volta para o Brasil. No avião , agentes disfarçados da Repressão prenderam minha mãe na escala no Rio de Janeiro. Queriam notícias do meu pai, queriam que ela dedurasse o homem que amou em toda a sua vida e até depois de morto.

Fizeram tortura psicológica. Ameaçaram me tomar. “Seu filho vai ser educado na Febem”, disse um lambaio dos repressores da época. Minha mãe teve um gesto só das mães. Fechou-me em seu peito e berrou, grávida da minha irmã Yasmine. “A minha vida vocês podem tirar, mas o meu filho vocês não tiram”. Estou vivo até hoje.

Esta semana eu não fui ver uma grande amiga da minha mãe, Dona Francisquinha Dias Leão. Assistiam missa juntas quase diariamente. Eram duas carolas. Duas não, três, porque a minha avó de 87 anos ia com elas aqui e acolá. Dona Francisquinha morreu de uma queda. Com a partida dela, subiu minha admiração no ateísmo. Deus, tão bom, tirou uma mulher que o amava de uma queda. O filho dela, médico Marcos Leão, é gente da melhor qualidade. Não quero imaginar o domingo dele.

Voltando à minha mãe, que se chama Isolda, católica de ler a Bíblia ao contrário ou de cabeça para baixo, é um exemplo de sofrimento e luta. Me criou e aos meus irmãos com a maior dignidade e um sacrifício estóico . Nenhum saiu para mau caráter. Todas as mães são heroínas. Só lamento o amor duplicado que ela tem pelos meus filhos e sobrinhos. Besteira minha. Aliás, é ciúme.

Rubens Lemos Filho – Jornalista

De tempo, vida e caravelas…

Quero lhes falar sobre o tempo. Virtual? Talvez.

Quero lhes falar sobre a vida. Fugaz? É possível.

Quero lhes falar sobre o recomeçar. Posso, sei.

Falo da crença no possível, despojado do retrovisor da existência e evitando ser apenas trapo humano, moendo e remoendo gente e fatos.

Medo? Muitos. Ainda bem. Tenho-os pulsantes, como necessários sacrários do porvir, bússolas da sobrevivência.

Neste ambiente universal, intangível e imaterial ganho corpo. De novo. Os propósitos são abstratos: cumprir minha sina-paixão. Transpirar, existir, resistir. Ombrear-se a outros que têm minhas crenças, mas respeitando o contraditório. Estimulando-o até.

Sou filho de uma porção menor, mas nem por isso tacanha ou acovardada. Nada além de um indivíduo normal, que labuta. Estranho, talvez, por não ser parte de uma maioria incomum.

Este novo endereço eletrônico não revela nada de especial. Não o trato como avanço. É mais um passo no eterno caminhar, sem o pânico de olhar para trás. “As caravelas mandei-as queimar, para não ter a veleidade de voltar”.

Obrigado pela visita. Seja bem-vindo.

Vamos recomeçar?