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E Pluribus Unum (De muitos, um)

Por Marcos Araújo

Nesses tempos em que nada se fixa mentalmente, que estamos dispersos e atônitos no cumprimento – ou desobediência – à diversidade de ordens para a sobrevivência (tomar ou não a Ivermectina, usar ou não a máscara, hidroxicloroquina serve ou não serve, isolamento social, algumas dessas orientações quiméricas e pseudocientíficas), lembrei-me do personagem Xidakwa, do conto “O Bebedor do Tempo”, do escritor português Mia Couto. Xidakwa não bebia cervejas, bebia o tempo. Todos nós estamos como ele, “bebendo o tempo” vivendo um dia por vez, sem saber como será o amanhã.

Aldir Blanc, músico genial, uma das vítimas da praga deste século, complementaria a tirada filosófica do personagem de Mia Couto com sua “resposta ao tempo”: “*Batidas na porta da frente, é o tempo / Eu bebo um pouquinho pra ter argumento / Mas fico sem jeito calado e ele ri / Ele zomba do quanto eu chorei /Porque sabe passar e eu não sei.” Aniversário, comemoração, alegria, brinde

Não estamos sabendo passar o tempo. Porque dele não podemos desfrutar. Meus filhos pequenos ficaram sem comemorar dois aniversários. Meu pai, já idoso, que adora festa de aniversário, vai para o segundo ano sem comemoração. Amores interrompidos, amizades distanciadas, famílias separadas, trabalhos alterados… Com tantas proibições, vivemos a “conta-gotas”, suplantando segundos, minutos e horas, enquanto não somos contaminados pelo vírus.

E o tempo se passando inexoravelmente na celeridade poética de Mario Quintana: “*Quando se vê, já são seis horas! Quando se vê, já é sexta-feira! Quando se vê, já é natal…Quando se vê, já terminou o ano… Quando se vê perdemos o amor da nossa vida (…)”.

Por certo, comungamos de um desejo coletivo em embarcar numa “Máquina do Tempo” (criação da imaginação singular do escritor inglês H. G. Wells, de 1895), para pular essa parte da história da humanidade.

A frase mais repetida na atualidade é “Cuide-se!”. Ou, a advertência sentencial: “importe-se com o outro!” Isso faria valer, em tese, o título desse escrito: E Pluribus Unum! (De muitos, um!). Esse foi o lema escolhido para unificar as 13 colônias na formação de um Estado Federal – os Estados Unidos da América como nação, por ocasião da declaração da independência em relação ao jugo inglês, em 1776. Os revolucionários, sob a inspiração do filósofo genebrino Pierre Eugene DuSimitiere, tomaram por princípio essa frase, para unificar os interesses diversificados dos diferentes Estados americanos.

Viver em sociedade implica, em tese, esse sentimento de que somos um só povo, uma só comunidade, uma só família (a família humana), ou seja, E pluribus Unum! Com sua autoridade moral, Padre Sátiro esta semana escreveu uma convocação aos mossoroenses para que todos se agreguem e se unam em um só propósito.

Insurretos, desorganizados e individualistas, não se aplica a nós brasileiros os ordenamentos mentais de coesão, solidariedade, ordem, disciplina e senso comum. Como diria Ary Barroso, por aqui “*Toda quimera se esfuma/ Como a beleza da espuma, que se desmancha na areia.”

Talvez até pudesse ser invocado o fato de que, do ponto de vista organizacional político-social, somos uma República Federativa. Seguindo o modelo das colônias americanas, o federalismo adotado pelo Brasil, desde a sua independência, tomou como base justamente a obra “The Federalist Papers”, de James Madison, Alexander Hamilton e John Jay (1993).

No Brasil, pelo menos nos termos da Constituição Federal, os Estados e os Municípios formam uma federação indissolúvel. Somos um só povo em um só Estado – o brasileiro. Na prática, porém, vivenciamos um divórcio, um conflito federativo sem precedentes, uma briga encimada por governantes ressabiados do dever de uma unidade constitucional obrigatória.

Assistimos, apáticos, à quebra da noção republicana de um só povo e uma só nação. Deve ser pela falta de exemplo dos nossos dignitários governantes. A deliberada beligerância entre Dória (São Paulo) e Bolsonaro (Brasil) é didática para dimensionar essa crise. Dos 27, apenas 05 Estados acorreram Manaus. Não é só a falta de nobreza no desempenho do cargo (noblesse oblige). Falta a noção de sacrifício. Marcel Mauss & Henri Hubert escreveram em 1899 “Sobre o Sacrifício” para dimensionar a importância de um líder que se sacrifica pelo seu povo.

Vale lembrar, nessas horas, o Cristo. Seu sacrifício em favor da humanidade foi o maior ato na edificação de uma fé que persevera por séculos. É Dele a frase que norteia a campanha da fraternidade deste ano: “Não rogo apenas por eles, mas também por todos aqueles que, por meio de sua palavra, vão crer em mim, para que todos sejam um, assim como, Pai, estais em mim e eu em Vós; para que eles seja um em nós…”(Cf.Jo, 17, 20-21).

Que tudo passe, e que não esqueçamos que somos unos!

Marcos Araújo é professor e advogado

Cultura, família, vida e a fome de liberdade de Katharina Gurgel

O segundo programa Carlos Santos – AOS VIVOS dessa segunda-feira (25 de Maio de 2020) recebeu a cantora e produtora cultural Khatarina Gurgel, em nosso endereço no Instagram AQUI.

A gente falou sobre teatro, crônicas, música, família e um monte de abobrinhas.

Confira no vídeo fixado nessa postagem, o papo leve que rolou com a participação dos internautas.

Experiência

Carlos Santos – AOS VIVOS é um projeto experimental, embrionário e laboratorial. Antecede investimento mais esmerado desta página, a ser desenvolvido adiante, em que pretendemos instigar o colaboracionismo de internautas e convergência de mídias num ambiente multiplataforma.

É um canal para a gente jogar conversa fora, não fazer um monte de coisas e sei lá o quê, semanalmente – sempre às segundas-feiras, às 21 horas.

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Morre o compositor Aldir Blanc, vítima da Covid-19

Do Correio Braziliense e G1

Morreu nesta segunda-feira (4/5) o compositor Aldir Blanc. O músico tinha 73 anos de idade e testou positivo para a Covid-19, diagnóstico confirmado dia 22 de abril.

O compositor e escritor Aldir Blanc foi diagnosticado com Covid-19 e faleceu nesta segunda (Foto: Fábio Motta/Estadão)

Aldir Blanc estava internado desde o dia 10 de abril com problemas respiratórios e infecção urinária. Ainda não há informações sobre enterro e velório do compositor, mas, como ele foi vítima de Covid-19, a cerimônia de despedida deve ser rápida e reservada.

A família e os amigos de Aldir Blanc chegaram a fazer uma movimentação pela internet para que o compositor fosse transferido para uma UTI porque o hospital onde ele estava internado não tinha leitos vagos.

A estratégia deu certo e o músico foi entubado com dificuldades respiratórias em uma unidade hospitalar do Rio de Janeiro.

Sozinho ou ao lado de parceiros, como João Bosco, Aldir Blanc é compositor de clássicos como Bala com balaMestre-sala dos mares, De frente pro crimeDois pra lá, dois pra cá. Aldir também e autor de O bêbado e a equilibrista, canção que, na voz de Elis Regina (veja vídeo abaixo), acabou se tornando um grito contra a ditadura militar no Brasil.

Medicina, música, literatura

Aldir Blanc Mendes nasceu no Rio de Janeiro, no dia 2 setembro de 1946. Em 1966, ingressou na Faculdade de Medicina, especializando-se em psiquiatria. Em 1973, abandonou tudo para se dedicar exclusivamente à música, tornando-se um dos mais importantes compositores de Música Popular Brasileira (MPB).

Blanc era também cronista, reconhecido pelas bem-humoradas histórias e personagens da Zona Norte do Rio.

Publicou vários livros, entre eles “Rua dos Artistas e Arredores” (Ed. Codecri, 1978); “Porta de tinturaria” (1981), “Brasil passado a sujo” (Ed. Geração, 1993); “Vila Isabel – Inventário de infância” (Ed. Relume-Dumará, 1996), e “Um cara bacana na 19ª” (Ed. Record, 1996), com crônicas, contos e desenhos.

Saiba mais detalhes clicando AQUI.

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A esperança equilibrista de uma bancada em desespero

Na bancada governista na Câmara Municipal de Mossoró, quase ninguém é “queridinho” do Palácio da Resistência, onde a prefeita Rosalba Ciarlini (PP) será inquilina até 31 de dezembro de 2020.

Mas essa mesma bancada banca seu desgaste, sem quase nada em troca. É uma esperança equilibrista, como na letra de Aldir Blanc para um clássico da Música Popular Brasileira (MPB) – O bêbado e a equilibrista.

Quadro "A balsa da Medusa", óleo sobre tela de Théodore Géricault, no Museu do Louvre em Paris

A rebelião dos vereadores em votações pontuais e discursos ocasionais, em verdade pouco impactou a vida do Executivo, mas lhe poupou de prejuízos incomensuráveis, talvez agora ignorados pela prefeita e o líder do seu sistema – ex-deputado estadual Carlos Augusto Rosado.

Só para lembrar: foi graças a essa mesma bancada, que em 2018 foi sepultada (veja Bancada de Rosalba Ciarlini acaba com a “CEI do Lixo”) a Comissão Especial de Inquérito (CEI) que apuraria contratos mais do que suspeitos na contratação de empresa para limpeza urbana, questão objeto até de relatório contundente do Ministério Público de Contas (MP de Contas) – MP aponta indícios de fraudes e danos em limpeza urbana.

Daqui para frente, será difícil para boa parcela desses parlamentares se livrar do peso do desgaste governista e de seus próprios pecados em votações e omissões.

O Palácio da Resistência vai escolher prioridades, sendo a primeira a própria reeleição da prefeita. Pela Câmara Municipal, um ou outro terá injeção diferenciada para igual feito. Já à maioria caberá o canibalismo pela sobrevivência, formando chapão em algum bote salva-vidas partidário.

Numa analogia, será a reprodução política da história da Fragata Medusa (1816) – veja AQUI, síntese de egoísmo e selvageria humanos, em nome da própria subsistência.

É o preço dessa relação de consórcio ou conluio com o governo, em que só um lado ganha e sempre a sociedade sai perdendo. Parceria entre machado e pescoço.

Rosalba é o machado, mas é o eleitor quem tem a força.

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