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Nos alpendres de Tibau

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Corre o mês de janeiro.

Nos alpendres de Tibau, resenhas, churrasco e cerveja. E, claro, política, muita política. Os anfitriões recebem os convivas para lautos almoços. Abraços, sorrisos, conversas e cochichos. É ano eleitoral. Os interesses precisam ser afinados, as rotas precisam ser traçadas.

Porém, dos alpendres de Tibau vem à memória a minha infância. A família reunida, uma ruma de redes armadas, conversas e risadas dos primos. Contavam-se histórias de “trancoso”, de alma penada, tudo pra nos fazer medo.

Já na adolescência, recordo-me dos churrascos. Meu pai, tios e amigos bebendo, com força. Não conto as vezes que fui comprar cerveja na rua do restaurante Brisa. No finalzinho da tarde, as minhas tias chegavam da casa dos meus avós maternos pra jogarem conversa fora com minha mãe.

O alpendre sempre estava repleto de pessoas. O bate-papo adentrava noite adentro, regado a café coado, pães e bolo fofo ou de leite e, claro, o grude, iguaria tradicional da cidade praia.

Vale salientar que escrevo sobre os alpendres de Tibau, “porque o passado me traz uma lembrança do tempo que eu era criança”. No alpendre de Tibau os meus filhos também brincaram e fizeram peraltices, como um dia eu fiz.

No tocante aos arranjos político-eleitoral, em uma crônica datada de 16 de janeiro de 2023, o editor deste Blog escreveu que “é coisa do passado a lenda sobre a influência dos alpendres de Tibau. Subsiste no imaginário popular e em escassas resenhas políticas”.

“E em nada pesa, segundo ele, pro destino de Mossoró e do estado o que se conversa por lá. Some ao vento nos escassos alpendres que ainda não viraram muro de condomínios fechados”.

Creio que é verdade, uma vez que o dileto editor é versado no assunto. Aliás, eu conheço um alpendre em Tibau que já não recebe ninguém. Encontra-se vazio. O que é natural, ressalte-se, pois o poder é efêmero. É vã a crença na eternidade do poder e do prestígio.

Embora, para mim, já não tenham o brilho de outrora, vez ou outra, ainda fico nos alpendres de Tibau sentindo o vento que vem lá das bandas do Porto-ilha. Vislumbro o azul do mar, o horizonte e algumas jangadas, as quais trazem, além do carcomido cesto onde se colocam os peixes, boas lembranças. Nada é como antes. E nunca será.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

As escadarias de Zé Félix

Por Odemirton Filho

O veraneio em Tibau se aproxima. Lembranças daquele tempo. A nossa infância e juventude são marcadas por momentos, alegres e tristes, pitorescos, que afloram na nossa mente. É o passado que sempre assalta o presente, na vã tentativa de resgatá-lo.

Na infância, as ruas não eram pavimentadas, pisávamos na areia, descalços, sem compromisso de formalidade ou de vestimenta adequada. Livres, leves e soltos, como se diz. As moças não tinham no rosto as maquiagens, eram simples, também bonitas. Os rapazes sem cultuar os músculos ou seus corpos. Somente éramos.

Pela manhã, íamos à praia sob um sol escaldante, ficávamos horas a fio, sem medo do bronze. O picolé barato, de morango, derretia em nossas mãos. À tarde, no alpendre das casas, esperávamos o “gelé” e o grude, que logo passavam, regado a café.

No fim da tarde o morro de areias coloridas era o nosso parque de diversões. Com amigos e primos brincávamos, atirando pedra de areia uns nos outros. Era o labirinto. Nos escondíamos e voltávamos sujos, mas alegres.

Na adolescência eram as festas no Creda, clube do português Patrício, no qual as paqueras e namoros se desenhavam, sem compromisso. Brigas? Quase não existiam, um ou outro amigo mais afoito, que logo conseguíamos acalmar.

Mas, eram nas escadarias de Zé Félix que tudo acontecia. Paqueras, conversas, bebedeiras.

O vai e vem dos carros na rua principal era, como se diz, o “point” da galera. A juventude se encontrava e marcava para depois tomarem outro rumo. Todos estavam ali. O comerciante, no seu jeito de atender os clientes, era respeitado. Não se ousava desafiá-lo.

Hoje, o ponto de encontro mudou, é na entrada da cidade. Paredões de som disputam entre si, na tentativa de impressionar. O medo e a insegurança, marca atual do RN, pairam sobre cada um.

Os alpendres já não são seguros. O grude e o “gelé” quase não se encontram. A escadaria de Zé Félix está silenciosa. O Labirinto foi destruído pelo  crescimento da cidade. O Creda já não promove suas memoráveis festas. Do álibi se extrai pouco som.

Ressalte-se, por fim, que não são críticas à realidade atual. São lembranças. Cada época tem a sua magia e suas saudades.

Em cada recorte da vida temos momentos que nos marcam.  A vida são saudades.

Que venha o próximo ano! Traga-nos paz.

Odemirton Filho é professor e oficial de Justiça

Um tempo quente na política

Nunca antes na história de Mossoró o tempo esteve tão quente. Não me refiro à condição atmosférica, mas à política.

Os acontecimentos borbulham à superfície. Nos bastidores, também.

O veraneio que sempre encontra a cidade-praia do Tibau como endereço e fez dos seus alpendres um símbolo do poder, fica em segundo plano.

De Brasília a Natal, tudo pode acontecer.

Em Mossoró, mais ainda.

Fatos e versões se enroscam.

É preciso cuidado para não “engolir” mosca ou se publicar “barrigas” (notícias inverídicas, no jargão jornalístico).

Existe uma avidez por notícias, ao mesmo tempo que temos muitos interesses contrariados e vontades embutidas.

Garimpar, depurar e filtrar… sem pressa, terminam sendo mais importantes do que noticiar com açodamento.

Tempo quente…