domingo - 04/10/2026 - 01:30h

Crime organizado e democracia

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa exclusiva, com recursos de IA, para o BCS

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Hoje é dia de eleição. Após uma campanha eleitoral na qual os candidatos apresentaram as suas propostas e, sobretudo, digladiaram-se nas redes sociais, o eleitor terá a oportunidade de exercer o direito ao sufrágio. E mais: saberemos quais os institutos de pesquisa merecem credibilidade.

Com efeito, muitos são os desafios a serem enfrentados neste país. A bem da verdade, a carência na saúde, na educação, na segurança pública, a falta de obras estruturantes e o desequilíbrio fiscal são problemas crônicos que, há muito, precisam de resolução.

No entanto, outro grande desafio que necessita de uma atenção especial e, principalmente, de ações firmes por parte dos governantes, é o combate ao crime organizado. Nesse sentido, o doutor Fernandes Neto, advogado militante na seara eleitoral do estado do Ceará, em livro que tem o título deste artigo, debruçou-se sobre o tema, trazendo a lume um denso trabalho de pesquisa.

No tocante a sobredita obra, bem prefaciou o procurador regional da República, Luiz Carlos dos Santos Gonçalves: “o cenário descrito por Fernandes Neto é alarmante: com cerca de 2.800 municípios sob influência faccional e uma percepção social de presença criminosa que alcança mais de 68 milhões de brasileiros, o crime organizado deixou de ser um problema estritamente policial para se tornar um desafio à legitimidade democrática. O autor demonstra com rigor estatístico o descompasso estrutural entre o tempo da justiça criminal e o ciclo eleitoral: enquanto um processo por organização criminosa leva, em média, 880 dias para transitar, um mandato eletivo pode ser integralmente exercido sob a sombra do patrocínio ilícito”.

A violência no Brasil vem amedrontando a sociedade. Não há tranquilidade social na maioria das cidades brasileiras. É um grave problema. O crime organizado se infiltrou, de igual modo, na maioria das instituições, de norte a sul do país, tornando imperiosa a adoção de medidas firmes por parte do Estado brasileiro.

Sobre o tema, escreveu o mencionado advogado:

“A infiltração do crime organizado no processo político-eleitoral constitui um dos desafios mais prementes das democracias contemporâneas, e o Brasil experimenta, nas últimas décadas, uma escalada que supera qualquer paralelo histórico no hemisfério ocidental. As facções criminosas e milícias transitaram da condição de grupos de atuação marginal e circunscrita para a de agentes de influência política e de captura institucional, dotados de estatutos internos formalizados, hierarquias consolidadas e estratégias deliberadas de inserção no processo representativo. Esse fenômeno exige respostas jurídico-eleitorais que o ordenamento brasileiro ainda não desenvolveu de forma sistemática” (…).

Como se vê, a situação reclama uma pronta resposta estatal. Este texto, vale dizer, não tem como explicitar os temas descritos no aludido livro, ante a complexidade das questões abordadas pelo autor da obra.

De toda forma, esperamos que os nossos futuros representantes, eleitos no dia de hoje e em um eventual segundo turno, possam enfrentar o problema com a seriedade e a urgência que a situação requer.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Artigo
domingo - 27/09/2026 - 07:38h

Feiras e mercados

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa exclusiva em estilo impressionista, com recursos de IA, para o BCS

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As feiras livres são um dos costumes nalgumas cidades do Brasil, sobretudo no interior. Em alguns lugares há um dia específico para a feira acontecer. Os feirantes chegam na madrugada para abrirem as suas barracas, e a freguesia costuma frequentar, cedinho, o local.

Há muitos anos, quando meu avô materno negociava com redes, ele semanalmente ia à feira da cidade de Assú. Lá, vendia a sua mercadoria, e voltava pra casa com mantas de carnes, sacas de feijão e arroz para alimentar sua numerosa prole.

Como sabemos, nas grandes feiras existe de tudo; raízes pra curar todo tipo de enfermidade, de dor nas costas a dor de cotovelo, variados tipos de chás, verduras, legumes, carnes, queijo, peixes, frutos do mar etc. Nas feiras, também, existem vendedores de vários produtos, como capas pra celular, carregadores, revistas, fumo e, se procurar direitinho, encontram-se produtos pra afastar mau-olhado.

Ora, quem não gosta de ir a Cobal, em Mossoró, pra comprar feijão-verde? Ou o queijo do botafoguense Aleixo? Meu sogro gostava de tomar sopa e comer pastéis no box do finado Eliezer; de comprar em dona Cecília, no Mercado do Bom Jardim; meu pai gosta de comprar carne de sol em Aírton, no Mercado do Alto da Conceição. Eu gostava de comer lá em Neto da Panelada, no Mercado Central.

Vez ou outra é comum a presença de artistas tocando variados instrumentos musicais. Há, ainda, fiéis que gostam de pregar a palavra de Deus. Por outro lado, há aqueles que gostam de tomar umas e, logo cedo, já estão “pra lá de Bagdá”; existem, também, os pedintes. Nas feiras e nos mercados, diga-se, existe espaço pra todos, pois é um ambiente simples e plural.

Aliás, nos grandes mercados, a exemplo de São Paulo, onde há pastel de bacalhau e sanduíche de Mortadela, e no de Belo Horizonte, come-se bem demais; é bacana o mercado de Porto Alegre. Sem esquecer da feira do Alecrim, em Natal, o Mercado de Ver-o-peso, em Belém, a Feira de Caruaru, o Mercado São José, em Recife.

Enfim, as feiras livres e os mercados fazem parte de nossa cultura. Por lá, encontramos de quase tudo; até pessoas que há tempos não víamos, carregando pra lá e pra cá as suas sacolas com compras; ocasião pra trocar um dedo de prosa ou falar da vida alheia.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 20/09/2026 - 06:40h

Tempos vividos

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa

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“O tempo, inabalável na mansa malha dos dias e das noites, nunca ofega. Inspira e expira o ventre onde tudo se cria. A mais sutil mudança na pedra, o deslocamento da menor partícula de ar divisível o mínimo escorrer das águas, a insignificante transformação humana se dão nas tramas airadas do tempo. O tempo flutua invisível e em espesso presente. Nada apodrece sem ele. Nada floresce. Nada se torna amável. Nenhum ódio viceja. Nenhuma umidade seca. Nenhuma sede cede. As tempestades não inquietam nele ventos, as avalanches não podem soterrá-lo, a perplexidade não o paralisa, o mal não o ameaça e o bem não faz com que se demore”.

As palavras acima foram extraídas do livro Véspera, de autoria da escritora Carla Madeira. É certo que nada escapa ao tempo. Com ele, aprendemos, amadurecemos, sorrimos, choramos. Acontece, no entanto, que na maioria das vezes não percebemos o tempo passar.

E, ao volvermos os olhos para o passado, sentenciamos: Ah, o tempo passou rápido, como envelheci, os meus filhos estão adultos, eu nem joguei bola com eles, e nem brinquei no parquinho da praça com os meus netos.

Então, percebemos que deixamos de viver o que há de melhor. Às vezes bate algum arrependimento, pois deixamos de estar ao lado de quem amamos ao eleger outras prioridades. Aí, no crepúsculo da vida, quando já gastamos toda saúde, tentamos fazer um acordo com o tempo, pedindo-lhe que passe devagar.

Concluímos que pequenos momentos da vida são extraordinários. Ou seja, deixamos pra depois as visitas a alguém especial, as demonstrações concretas de amor, os almoços com a família, o cafezinho com os amigos, a viagem dos sonhos, os reencontros.

O que vivemos valeu a pena? Ou será que os tempos vividos foram consumidos somente pelo trabalho? Cabe a você, dileto leitor, responder. De toda forma, nunca é tarde para refletir e, se quiser, usufruir do tempo que nos resta.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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domingo - 13/09/2026 - 10:42h

Coisas da infância

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa exclusiva com efeitos de IA para o BCS

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Fizesse chuva, fizesse sol, eu gostava de ir à casa de minha avó, na rua 06 de janeiro. Quase toda tarde ia com minha mãe e minhas irmãs. Quando descia do carro, corria pra rua vizinha, onde jogaria bola com os meus primos; as ruas naquela época ainda eram de areia.

Entrava pela noite jogando bola. Ao terminar, tomava sopa de feijão na casa de minha tia, picava pão francês e colocava no prato e, às vezes, ovos pra dar “sustância”. Quando estava enjoado da sopa, comia arroz de leite com carne assada lá em vovó.

Eram tardes/noites maravilhosas, com uma ruma de primos. Alguns mais velhos, outros, da minha idade ou mais jovens. Cada um com suas manias e apelidos. Eram o “Magrela”, “o Jarrão”, o “Mentirinha”, o “Saraça”.

Não conto as vezes que vi meu avô Vivaldo Dantas de Farias sentado na cadeira de balanço, lendo um livro, assistindo ao noticiário da televisão ou conversando sobre política. A Belina azul estacionada na garagem. Minha avó ficava pela cozinha, dando ordens ou na beira do fogão finalizando a “janta”; vez ou outra dava “carão” nos tios e primos mais danados.

Recordo vagamente da fábrica de redes da qual eles eram donos. Dos meus avôs por parte de pai, não lembro, eles morreram quando eu ainda era bem pequeno.

Depois voltávamos pra casa, na rua Tiradentes. Então, eu ia brincar com os meninos da rua Francisco Ramalho, jogar mais bola ou conversar “miolo de pote” no pé da calçada. Outras vezes, íamos andar de bicicleta no patamar da Igreja de São Vicente.

Quando ficava um pouco mais tarde, ficava assistindo a novelas ou algum programa humorístico dos anos oitenta. Na infância, é claro, havia os sonhos, os medos, as alegrias e tristezas. Lembro de muitos pedaços da minha infância; alguns foram doces como doce de leite.

Na verdade, “são sempre enormes as coisas da infância, as maiores que teremos na vida, eu penso. As mais inesquecíveis. Talvez, as mais sentidas como verdadeiras. Passamos o resto do tempo atrás dessa sensação”. (fragmento do livro, Véspera, da escritora Carla Madeira).

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 06/09/2026 - 11:52h

A caderneta do fiado

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

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Dia desses, em diligências lá pela zona rural de Grossos, deparei-me com uma situação que há muito não presenciava. Eu estava em uma bodega à procura de informações sobre uma pessoa a ser intimada. Após alguns minutos, chegou um morador da comunidade e pediu um quilo de arroz ao proprietário do estabelecimento comercial. Ao receber a mercadoria, o freguês solicitou que a compra fosse anotada na caderneta, o que foi prontamente atendido pelo comerciante.

Confesso que fiquei surpreso, pois achava que esse modo de mercadejar, em virtude da modernidade dos dias atuais, com as compras sendo realizadas por meio de cartões de crédito ou PIX, não era mais usual. Era comum tempos atrás, principalmente, nas mercearias dos bairros mais afastados. Muitos clientes eram aposentados, os quais realizavam as suas compras para pagar quando recebiam o “aposento”. Tudo devidamente anotado na caderneta do dono da bodega, como na caderneta do comprador, pra que na hora de pagamento, feita a conferência, não houvesse erros.

Indaguei ao comerciante se ele tinha muito “fiado” em sua caderneta, e ele me respondeu que sim, a maioria dos seus fregueses ainda comprava na caderneta, pois não tinham cartão de crédito ou se tinham, já estavam devendo ao banco. Segundo ele, tudo era feito na base da confiança, no apalavrado, mas devidamente anotado na caderneta, é claro.

Conforme falou, somente não vendia na caderneta bebida alcoólica, pois “beber é luxo”, e só deve beber cachaça quem tem dinheiro no bolso, disse, sorrindo. Ele também me falou que raramente tinha problemas para receber o que lhe era devido. A maioria era moradores que há muito residiam no local, muitos eram familiares ou amigos de longa data. Apesar de humildes, eram arrimos de família e cumpridores da palavra empenhada. Ali, naquela pequena comunidade rural, e acredito que em muitos lugares deste país, ainda convivem o presente e o passado.

Ao terminar o bate-papo e sair da bodega, encontrei alguns “papudinhos” sentados na calçada; um deles pediu uns trocados pra “tomar umas”. Dei-lhe os vinte reais que tinha no bolso. Ele agradeceu, mas me alertou, com um leve sorriso: “na próxima vez traga cinquenta reais”. Eu entrei no carro e fui embora, morrendo de rir.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 30/08/2026 - 10:28h

Poucas palavras

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa

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Desde criança eu gosto de guardar o silêncio. Sempre fui de poucas palavras; talvez seja timidez. Na verdade, gosto de escutar, pois, ao ouvir, aprendo. Além disso, conheço um pouco o meu interlocutor, seu pensamento, suas ideias, seus sonhos.

Há quem goste de falar, falar, falar. Fala tanto que consegue se perder no labirinto de suas palavras. De tanto falar, perdem o rumo da prosa, o fio da meada. Existem aqueles que querem dominar o assunto, sobretudo, nesses tempos de polarização político-eleitoral. Há, também, os alunos da escolinha do professor “Rolando Lero”.

De minha parte, no entanto, prefiro ruminar, ponderar, para, somente depois, emitir alguma opinião. Isso, é claro, se tiver algum conhecimento sobre o assunto debatido. Acho singular quem conduz a conversa numa boa, sem querer ser o dono da razão, pois é desagradável um diálogo quando um dos interlocutores só gosta do monólogo.

A troca de ideias, analisando o mundo real, sem a construção de narrativas ou a defesa intransigente de um ponto de vista ou de uma pessoa, torna a conversa agradável e construtiva, mesmo com opiniões divergentes. Por outro lado, em um diálogo no qual o vazio de ideias prevalece não há o que se lucrar. Não esqueçamos que as palavras têm força, iluminam ou obscurecem, alegram ou entristecem a alma, podendo machucar alguém do nosso bem-querer.

No mesmo compasso, eu procuro escrever crônicas economizando as palavras. Um texto, acredito, deve dizer muito em poucas palavras. É certo que nem sempre conseguimos, pois a construção de um artigo necessita de paciência, de lapidação, garimpar as palavras. De mais a mais, a maioria dos leitores, diante da correria do dia a dia, não aprecia textos extensos, ou seja, gosta de objetividade.

No entanto, não é fácil ser conciso. Muitas pessoas precisam de uma ruma de palavras para, ao final, dizerem pouco. “Quem fala demais dá bom dia a cavalo”, diz a sabedoria popular.

Por isso, eu tento guardar o silêncio; acho que tenho receio de tropeçar nas palavras.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 23/08/2026 - 06:00h

Sobre vencer na vida

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa exclusiva em estilo impressionista com recursos de IA para o BCS

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De vez em quando eu vejo nas redes sociais algumas pessoas comentarem sobre vencer na vida. Alguns, mostram uma vida de luxo, casas modernas, carros de última geração, viagens e outras postagens que mostram uma vida acima do padrão da maioria da população brasileira. Em alguns textos, alguns escrevem que vencer na vida é ter conquistado, por meio do trabalho, o que sonhou.

E eu fico a pensar o que é, realmente, vencer na vida. Na verdade, não há uma resposta pronta e acabada. Cada um de nós tem sonhos diferentes. Além disso, é bom não esquecer que cada pessoa tem uma realidade de vida. Uns nascem em berço de ouro, outros, não tem o que comer. A vida, não é novidade pra ninguém, não oferece oportunidade iguais, sobretudo neste país.

Enquanto para poucas pessoas é garantida uma educação de qualidade, em bons colégios, a maioria frequenta escolas sucateadas, com professores mal remunerados e desestimulados. Para muitas crianças a hora da merenda é a oportunidade de ter um prato de comida; para outros, a cantina da escola oferece-lhes do bom e do melhor.

Assim, para quem nasceu e cresceu em uma família carente, muitas vezes vencer na vida é ter o direito de fazer, no mínimo, três refeições diárias. É possuir uma casa com o mínimo de conforto; um trabalho honesto que lhe garanta uma renda para se manter, ou seja, que lhe seja assegurada a dignidade da pessoa humana.

No entanto, vencer na vida não se refere somente a bens materiais. Vencer na vida refere-se, principalmente, a conquistar bens imateriais, isto é, o que o dinheiro não compra. Exemplos? Sentar-se à mesa com a família, estar entre aqueles que amamos, viver em paz, compartilhar do bem-querer dos seus.

Creio que de nada adianta ter uma ruma de dinheiro, se nos faltam saúde, amor e sossego.

Mas, enfim, o que eu considero como vencer na vida pode não ser pra você. Portanto, cada um siga o seu caminho, perdendo aqui, vencendo acolá. Colhendo o que plantou.

Odemirton Filho é oficial de justiça.

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domingo - 16/08/2026 - 07:38h

No tempo das grandes campanhas eleitorais

Por Odemirton Filho

Geraldo Melo na campanha de 1986 (Foto: reprodução)

Geraldo Melo na campanha de 1986 (Foto: reprodução)

Conforme o calendário eleitoral, a partir de hoje os candidatos podem realizar propaganda, ou seja, podem fazer campanha pra valer, começar o “moído”, como se costuma dizer. Com certeza, serão as promessas de sempre. De minha parte, não me animo mais, nem acredito em palavras jogadas ao vento, como nos tempos da minha juventude.

No entanto, para mim, as melhores campanhas eleitorais foram as de 1986 e 1988, nas quais se sagraram vencedores, respectivamente, Geraldo Melo para o governo do estado, e Rosalba Ciarlini à prefeitura de Mossoró. Ali, sim, foram campanhas memoráveis.

Na de 1986, o “tamborete” embalou multidões com os seus jingles inesquecíveis. Até hoje não escutei músicas mais bonitas. Via-se nos rostos a alegria de cantar, de acompanhar o candidato nas passeatas e nos comícios. Orador de primeira linha, Geraldo sabia impressionar os eleitores, “novos ventos, novos tempos”.

Em relação à campanha de 1988, a “Rosa” fez uma campanha marcante. No início, ninguém acreditava em sua vitória. Mas ela conseguiu embalar os eleitores, “a rosa vermelha é do bem-querer, a rosa vermelha e branca hei de amar-te até morrer”… e, ao final, venceu o pleito.

Curti vários comícios no largo do Jumbo, da Cobal, no Ferro de engomar; vi muitas passeatas descerem o grande Alto de São Manoel, um mar de gente. Na verdade, a maioria das pessoas gostava era de curtir as bandas de expressão nacional que tocavam em cima dos trios elétricos.

Recordo-me que, no dia das passeatas, ônibus faziam o transporte de homens, mulheres e crianças da zona rural para a cidade; as carrocerias das camionetes ficavam lotadas com gente de todas as idades, de meninos a idosos, os comícios eram verdadeiros showmícios.

Hoje, os tempos mudaram. As campanhas eleitorais são realizadas, sobretudo, nas redes sociais, onde as fake news fazem a festa. Naqueles tempos, porém, as mentiras corriam boca a boca, nas ruas e nos pés das calçadas.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 09/08/2026 - 06:46h

Tá bonita demais!

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com uso de recursos de IA para o BCS

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Uma tarde dessas fui a Tibau. A última vez, creio, foi no comecinho deste ano. No entanto, pelas redes sociais, eu vi que a prefeitura iluminou um pedaço da praia das Emanuelas. Então, aguçou-me a curiosidade. E fui. Ou melhor, fomos eu e a minha mulher, Morgana.

No finalzinho da tarde pegamos o rumo da estrada; boquinha da noite chegamos à praia. E tá bonita demais. Sentamos à mesa numa das barracas, e ficamos a admirar tão bela paisagem, sentindo a brisa. Trocamos poucas palavras, já que lindeza do que estava a nossa frente, bastava-nos. Para nós, Tibau tem algo especial; lá nos conhecemos, lá começamos a namorar.

Mas, como ia dizendo, a praia tá bonita demais, a posteação clareava, refletindo no mar. Algumas pessoas estavam sentadas na areia, outras, caminhavam; crianças jogavam bola, tomavam banho de mar. Alguns casais saboreavam uma cerveja gelada com tira-gosto.

Sem dúvida, é mais uma oportunidade para os comerciantes locais movimentarem suas barracas, gerando emprego e renda para a população. Talvez, promovam festas, luaus, dando vida nova as noites da cidade, sendo uma excelente opção de lazer. Sem esquecer que a iluminação proporcionará mais segurança aos visitantes e moradores da localidade.

Acredito que todos que ali estavam aprovaram a iniciativa do poder público municipal, pois a cidade-praia carecia desse ambiente noturno à beira-mar.

O que nos chamou atenção foi o vai e vem de veículos. Parecia com o período do veraneio. Tibau, hoje, não fica movimentada somente no mês de janeiro. A quantidade de casas e condomínios que existem, atrai muita gente nos finais de semana. Aliás, estão mais do que certos, uma vez que é inconcebível aproveitar uma praia tão linda uma vez por ano, como era costume tempos atrás.

Para nós foi uma tarde/noite bastante leve, agradável. Contudo, sentimos falta da lua. Ela se escondeu, não deu o ar da graça. Achamos que foi de propósito, um convite pra retornarmos. Convite aceito. Qualquer noite, retornaremos com todo prazer.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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domingo - 02/08/2026 - 06:44h

A Casa da Revista

Por Odemirton Filho

Casa da Revista na Rua Santos Dumont, Centro de Mossoró (Foto: Relembrando Mossoró)

Casa da Revista na Rua Santos Dumont, Centro de Mossoró (Foto: Relembrando Mossoró)

Os tempos são outros. Vivemos a era digital, da Inteligência Artificial, dos celulares iPhones. Qualquer pesquisa pode ser realizada por meio da internet, onde encontramos tudo. Hoje, as interações humanas são, em boa parte, pelas redes sociais, e a leitura pode ser feita por meios de avançados recursos tecnológicos.

No entanto, tempos atrás, não era assim. Somente líamos livros físicos, e fazíamos as pesquisas escolares por meio de volumosas enciclopédias. Quando queríamos saber sobre as fofocas dos famosos, recorríamos às revistas especializadas no assunto.

Em Mossoró, a Casa da Revista foi, por vários anos, um estabelecimento comercial especializado no gênero. Por lá, encontrávamos variados tipos de leitura, de gibis a revistas com conteúdo para maiores de idade. Quem gostava de ler, quase semanalmente ia comprar revistas de publicação mensal/semanal ou em busca de novidades.

Noutros tempos, além da Casa da Revista, lembro que havia as bancas de revistas de Zé Maria e de Ademar, que, aliás, ainda existem. Havia, também, duas bancas que se localizavam, salvo engano, na praça dos Correios e ao lado da Catedral. Quem lembra de Antônio “Queixinho”, que comercializava revistas na calçada lateral do Cine Pax?

Falar em Zé Maria, recordo-me que inúmeras vezes fui, de manhãzinha, comprar jornal. Gostava de ler, principalmente, as colunas de Canindé Queiroz, Dorian Jorge Freire e José Nicodemos. Zé Maria achava bom que só resenhar sobre política e futebol; a turma que andava por lá, também, só que, às vezes, as discussões ficavam acaloradas.

Lembro, ainda, que a Casa da Revista, durante o mês de janeiro, abria um ponto de vendas num prédio ao lado do antigo posto da Telern, em Tibau.

Bem, eu não sei dizer por quanto tempo a Casa da Revista permaneceu em atividade; só sei que por muitos anos contribuiu para a cultura local.

E Você? Costumava ir à Casa da Revista?

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 26/07/2026 - 04:00h

O tempo e o silêncio

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

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O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, é uma das obras-primas da literatura mundial; é também um dos meus livros preferidos. Em um dos diálogos da história, um dos personagens afirma que para todos os males há dois remédios: o tempo e o silêncio.

Não sei se afirmação é verdadeira, mas, sem dúvida, leva-nos à reflexão. O tempo, senhor da razão, como se costuma dizer, pode acalmar um coração atribulado. Quer um exemplo? Às vezes, sentimos saudade de alguém ou dum momento vivido. O tempo nos ajuda a conviver com a saudade, apesar de não conseguir afastá-la, pois as lembranças ficam gravadas na memória afetiva.

Além do mais, as coisas costumam se acomodar com o tempo ou, quem sabe, nos conformamos com o acontecido, e deixamos a vida seguir o seu fluxo. Certamente, na alma ficarão cicatrizes. Contudo, aprendemos a conviver com a dor, com a decepção, com a saudade.

Num mundo repleto de egoísmo e vaidade, no qual o ser humano muitas vezes se acha infalível, o tempo mostra a verdade, ensinando-nos da pior forma. Há pessoas que passam a vida inteira cometendo o mesmo erro. Todavia, chegará o momento em que a vida cobrará o preço de nossas escolhas.

Por outro lado, vivemos tempos de muito barulho, sobretudo, nas redes sociais. As pessoas se expõem demais, mostrando a sua intimidade, o seu dia a dia, pois o importante é obter curtidas. Quanto mais, melhor.

Esquecem, porém, de guardar o silêncio. Deixam de conversar consigo mesmo, de sentir o coração, de ouvir a voz suave de Deus. Hoje, todos têm certezas, mesmo que não possuam o mínimo conhecimento sobre o assunto. Confundem liberdade de expressão com liberdade de agressão, sem falar naquelas pessoas que adoram ser desagradáveis ou deselegantes em seus comentários.

Enfim, eu não sei você, no entanto, eu confio na maturidade que o tempo traz e, em algumas situações, adoto o silêncio como resposta. Poucas coisas na vida valem o nosso sossego.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica / Cultura
domingo - 19/07/2026 - 10:34h

Dilema de fome

Por Marcelo Alves

Cena do filme da Netflix - "Sociedade da Neve" (Reprodução do BCS)

Cena do filme da Netflix – “Sociedade da Neve” (Reprodução do BCS)

Outro dia, xeretando o Migalhas, o badalado portal de notícias jurídicas, li uma pequena resenha sobre o filme “A sociedade da neve” (2023), na qual se indagava: “Você comeria carne humana para sobreviver? Esse é o dilema moral presente no filme ‘A Sociedade da Neve’, produção da Netflix dirigida por J.A. Bayona e indicada ao Oscar na categoria ‘melhor filme estrangeiro’”. Para quem não sabe, “em 1972, na Cordilheira dos Andes, um grupo de uruguaios encontrou no canibalismo a única forma de preservar a própria vida após um desastre aéreo. Os passageiros da aeronave estavam em uma situação de ‘vida ou morte’”.

Embora o caso seja comumente tratado como o “milagre dos Andes”, isso de antropofagia/canibalismo (termos com significados sutilmente diferentes, mas que aqui são tratados indistintamente), mesmo nas condições dadas, é deveras complicado. Para dizer o mínimo.

De fato, nada mais repugnante ao homem contemporâneo, talvez até mais que o homicídio em si, que pode ou não preceder a antropofagia/canibalismo, do que esse insólito comportamento de se alimentar da carne do seu semelhante. Como registra Lemos Britto, em seu “O crime e os criminosos na literatura brasileira” (Livraria José Olympio Editora, 1946), “apesar de toda a sua perversidade o homem não admite que um seu semelhante, civilizado, e normal de espírito, se alimente de carne humana, como um carnívoro irracional, e, mais ainda, que mate para comê-la”.

Lembrando que não há no direito penal brasileiro um crime específico para a antropofagia/canibalismo – os crimes praticados seriam o de homicídio doloso, caso se provoque a morte do semelhante para comer sua carne, ou o de vilipêndio de cadáver, quando, sem a prática do homicídio, viola-se o cadáver para consumir a carne –, vou além na indagação: “Você mataria e comeria a carne humana para sobreviver?”.

De minha parte, de supetão, afirmo que não. Mas, sobretudo, rezo para um dia não ter de responder, de facto, a esse dilema, como outrora o fizeram os réus dos casos U.S. v. Holmes (1842) e Regina v. Dudley & Stephens (1884), em naufrágios em alto-mar e homicídio/canibalismo nos respectivos botes salva-vidas. Prefiro tratar desse tema em literatura, especialmente recomendando, para os amantes do direito, a leitura da obra-prima ficcional do jurista Lon Fuller, “O caso dos exploradores de cavernas” (“The Case of the Speluncean Explorers”, 1949, no original).

Ocultando detalhes para evitar spoiler, no livro de Fuller, cinco exploradores de uma tal Sociedade Espeleológica ficaram presos em uma caverna após um grande deslizamento de terra. São resgatados quatro deles. Os exploradores acordaram que um deles fosse sorteado e sacrificado para servir de comida aos demais, evitando assim a morte de todos por inanição. Segundo a letra da lei, está-se diante de um homicídio, com previsão de pena de morte. Assim decidiu o júri de primeira instância. Pede-se clemência ao chefe do Poder Executivo. Apela-se à corte superior. E a coisa já não parece assim tão preto no branco.

O homicídio seguido do canibalismo é temperado pelo estado de necessidade e a falta de esperança dos envolvidos. A escolha da vítima contratualmente e pela sorte dá um toque a mais ao caso. A desistência contratual alegada é válida? Qual o peso da simpatia para com os réus e da comoção popular em tais casos? A condenação pelo júri tem sempre um quê de discricionariedade. Qual a lei aplicável? Qual o precedente aplicável? O perdão cai bem no caso? E tudo isso é analisado levando em consideração as muitas escolas da filosofia do direito – o jusnaturalismo, o positivismo, o historicismo, o consequencialismo e por aí vai –, o que empresta ao caso as mais diversas nuances. Temos, enfim, um caso em que diferentes veredictos se mostram possíveis.

Maravilhoso livro para matar sua fome… de leitura.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República,  doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Iluminação - Outubro de 2026
domingo - 19/07/2026 - 07:48h

O Zoológico da Esam

Por Odemirton Filho

Esam, que viria a se transformar na Ufersa, foi referência importante na revolução da fruticultura irrigada (Foto: Web)

Esam, em foto dos anos 70 (Foto: Arquivo/Web)

Os domingos, para a maioria das pessoas, é um dia para descansar, almoçar em família, ir à praia, passar o dia deitado na rede no alpendre dum sítio, participar da missa ou de um culto. É um dia preguiçoso, que a gente torce para que passe devagar, devagarinho.

Eu não sei se você lembra, mas, na década de oitenta, noventa, existia um Zoológico na antiga Escola Superior de Agricultura de Mossoró (ESAM). Naquela época, a cidade ainda tinha ares interioranos, e não havia muitas opções de lazer. Eu, então, costumava ir ao zoológico com a minha mulher e os meus filhos.

Quando chegávamos, comprávamos pipoca, confeitos, milho verde; aí percorríamos cada espaço do lugar. Os meninos adoravam ver os jacarés, as cobras, as “macaquices” dos macacos, entre outros poucos animais que existiam. O zoológico era pequeno, mas fazia a festa da garotada; era comum as famílias passarem um pedaço do dia por lá.

A infância tem dessas coisas. Para as crianças tudo é motivo de diversão. Assim, brincar na areia da praia, correr atrás de galinhas num sítio, nadar num açude, subir em árvores, tocar a campainha de uma casa e sair correndo, jogar bola na rua com os pés descalços, são algumas brincadeiras que fazem a felicidade das crianças, ou, pelo menos, faziam, na época que inexistia aparelho celular. Será que as crianças ainda brincam de esconde-esconde?

Confesso que gostava de ver o sorriso no rosto dos meus pequenos quando viam os animais. Para mim, era um momento de enorme felicidade. Como não tinha, e não tenho, muita grana, proporcionar-lhes um pouquinho de alegria me deixava bastante feliz.

Algumas vezes pegávamos o ônibus circular e íamos pra casa do meu sogro “filar a boia”. O meu filho mais velho achava o máximo andar de “busão”. Outras vezes, íamos tomar sorvete em Juarez, uma sorveteria que ficava ao lado do antigo supermercado Pague Menos, de seu Bastos.

Sem esquecer que, vez ou outra, víamos as manobras radicais de Júnior Banana, na praça do bicicross, no conjunto Ulrick Graff. Aliás, faça-se justiça, ele era incansável na conservação daquele equipamento desportivo.

Infelizmente, há anos o Zoológico da ESAM encerrou as suas atividades. Sem dúvida, foi uma perda para as famílias, principalmente para a criançada. No entanto, aqueles domingos estão guardados no coração com um enorme carinho; são esses pequenos momentos que fazem a vida valer a pena.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 12/07/2026 - 08:26h

Viver não é preciso

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

Calma, dileto leitor, não se impressione com o título desta crônica. Como muitos sabem, sobredita expressão faz parte de um poema de Fernando Pessoa, que diz: “navegar é preciso, viver não é preciso”.

Aliás, dizem que o verso foi inspirado nas palavras do general romano Pompeu, o qual exigiu que os seus marinheiros navegassem sob forte tempestade.

O poema, sem dúvida, concede-nos a oportunidade de interpretá-lo, pois para navegar é imprescindível traçar rotas, abastecer de mantimentos a embarcação, verificar as condições climáticas, entre outras providências, ou seja, tudo deve ser feito de forma precisa.

Doutro lado, viver, muito embora façamos planos, nem sempre acontece da forma como almejamos. Muitas vezes, a vida nos remete para outros caminhos; o que traçamos para nossa existência pode não sair como esperávamos.

Quantos de nós, apesar de arquitetar um projeto com régua e compasso, não conseguem executar a obra? Muitos, com certeza. Por quê? Porque a vida não é linear, ela, aqui e acolá, direciona-nos para outros lugares, por isso, o bardo português afirmou que viver não é preciso.

Eu, à guisa de exemplo, laborei em múltiplas atividades profissionais. Trabalhei no setor pessoal do antigo supermercado Pague Menos, em loja de peças de automóveis, comercializando carros, material de construção, com copiadora (xerox).

Posteriormente, fui aprovado num concurso público de agente educacional para trabalhar com adolescentes infratores, advoguei durante três anos, lecionei no curso de direito por quinze anos e há vinte anos exerço o cargo de oficial de justiça.

No tocante à vida pessoal, casei-me com apenas dezoito anos de idade, porém, jamais imaginei ser papai tão jovem.

Além disso, nunca cogitei que, um dia, escreveria crônicas. É certo que sempre admirei os textos de Dorian Jorge Freire e de José Nicodemos, achava bacana a forma como eles escreviam, narrando com sensibilidade e maestria as minúcias da vida. Somente tempos depois fui apresentado aos textos de cronistas reconhecidos nacionalmente, como Rubem Braga, Antônio Maria, entre outros de igual quilate, os quais me inspiram.

O fato é que boa parte do que aconteceu não foi planejado, as coisas foram acontecendo, as contingências da vida me levaram por essas veredas. Na verdade, tudo o que passamos na vida tem um propósito, são ensinamentos, mesmo que deixem marcas na alma; e sempre, sempre deixam cicatrizes.

Mas, enfim. Talvez o sentido e a beleza da vida estejam na imprecisão, nas curvas que encontramos no meio do caminho, forjando o espírito, fortalecendo-o para as batalhas do cotidiano.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 05/07/2026 - 07:04h

A avenida Presidente Dutra

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

Numa madrugada do último mês de junho, pelas três horas, com sono, e sentindo um tiquinho de frio, levantei-me para ir buscar a minha filha na Estação das Artes, em Mossoró. Ela está no vigor da mocidade e gosta de curtir as festividades juninas que acontecessem.

Então, lá fui eu. Tirei o carro da garagem, atento a qualquer movimento suspeito. Com redobrada cautela, conduzi o veículo pela avenida presidente Dutra, apesar de achar que àquela altura da madrugada as ruas estivessem vazias, sem um pingo de gente.

Sabe de nada, inocente! Havia várias pessoas subindo o grande alto de São Manoel, a pé, retornando das festas. Eram grupos de amigos e amigas, talvez, casais enamorados. Confesso que fiquei surpreso, pois pensava que, diante da insegurança na qual vivemos, as pessoas não cultivavam mais esse costume, e utilizassem o serviço de Uber; eu sei, eu sei, o dinheiro é contado e, na maioria das vezes, só dá mesmo pra tomar umas.

Lembro que na década de oitenta, quando se curtiam as noites da cidade, era comum as pessoas voltarem caminhando, depois dos grandes showmícios, das festas no posto Imperial ou de outros clubes. Cansei de ver inúmeras pessoas voltando para as suas casas, no frescor da madrugada.

Recordo-me que as carreatas/passeatas se concentravam na churrascaria O Laçador, para só depois desceram o grande alto. Várias vezes fiz esse percurso ao lado de amigos, não raro, tomávamos porres de “juntar menino”. Somente anos depois as carreatas das campanhas eleitorais e as comemorações da vitória de um time de futebol começaram a se concentrar no posto de “ceguinho”.

Na época da minha mocidade não existia o famoso Sebosão, nem as conveniências, como hoje em dia. Após as festas, íamos comer na lanchonete de Zecão, que se localizava próximo a uma das pontes, e a resenha dos jovens “boêmios” se estendia pela madrugada.

Por isso, enquanto eu descia a avenida Presidente Dutra naquela madrugada insone, e vi a galera voltando para as suas casas, viajei no tempo; lembrei, com um sorriso, do junho da minha vida. Foi um tempo danado de bom.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 28/06/2026 - 09:02h

Tudo que a fé pode tocar

Por Odemirton Filho

No momento, estou a escrever, em casa, sem nenhum tico de pressa. Enquanto escrevo, tomo um cafezinho, e vasculho nas gavetas da memória palavras que possam traduzir a letra da bela música do cantor Tiago Iorc. A canção fala sobre fé, de como conseguir tocar alguém que já se foi, e que deixou profundas saudades no coração.

Como se sabe, para escrever é preciso reflexão, inspiração. No entanto, nem sempre a razão é suficiente para que possamos discorrer sobre algo. Na maioria dos casos, ao escrever, é imprescindível inspiração. E ela nem sempre vem. Aí, nesse solilóquio, buscamos no fundo da alma algo que vale a pena expressar.

Peço licença, caro leitor, por um instante. Vou ali, ao quintal da minha casa, soltar estalos de salão (chumbinho) com o meu neto, pois o sorriso dele, ao escutar o estrondo”, faz-me feliz; ele também adora observar um canário que pousa na pequena poça d´água. Esses lúdicos momentos ao seu lado rejuvenesce o meu espírito, trazendo-me inspiração.

Agora, após brincar com o meu neto, retomo este texto, e encaro a tela do computador, duelando com as palavras. Volto à letra da música de Tiago Iorc. Imagino a saudade das pessoas que perderam alguém especial, a exemplo do pai, da mãe, do filho ou filha, dos avós, do marido ou da mulher; quem sabe, dum amigo ou amiga. “Como é o cheiro daí, o seu eu não esqueci, nessas horas da vontade ligar pra te ouvir e saber como você está”.

Então, num átimo, a saudade bate no peito de algumas pessoas. E devem pensam: por que não aproveitei mais a presença dela ou dele? Por que não conversamos mais? Por que não encontrei tempo para vivenciar momentos ao seu lado? Por quê?

Porque estamos sempre correndo pra lá e pra cá. Achamos que temos todo o tempo do mundo. Não. Não temos. Ele passa a galope. Deixamos transcorrer, “in albis” (em branco), o melhor da vida, isto é, estar na presença das pessoas que amamos. Aí, quando as perdemos, passamos a viver de arrependimentos e saudades.

Há um trecho da letra da música que diz assim: “eu te vejo em todo o canto, todo olhar, onde tem amor, sei que você está, agora você é tudo que a fé pode tocar”. Ou seja, é por meio da fé, do amor, que se toca na pessoa que já não está entre nós, numa profunda conexão espiritual.

Bom, finalizarei esta crônica, pois acredito que já disse tudo o que havia para dizer. Vou me arrumar para ir à cidadela curtir as festas juninas, na companhia da minha mulher, dos meus filhos, da minha nora e do meu neto.

E você, estimado leitor, tente aproveitar a vida ao lado dos seus, fazendo o que gosta; não espere para viver somente de saudades.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Iluminação - Outubro de 2026
domingo - 21/06/2026 - 11:00h

Um realista esperançoso

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa

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Certa vez, o escritor Ariano Suassuna, do alto da sua inteligência, afirmou que o “otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso”. Cá com os meus botões, fico a matutar a frase do autor de O Auto da Compadecida.

Será que ser otimista nos torna tolos? Será que viver torcendo para que tudo dê certo nos deixa alheio ao cotidiano que nos cerca? A vida, com os seus perrengues, às vezes nos deixa desanimados; são tantos problemas que a luta parece inglória.

No entanto, creio eu, que a pessoa otimista, mesmo levando pancadas diárias, utiliza essa animação para enfrentar as inúmeras batalhas da vida. A crença que tudo dará certo o faz seguir em frente; o otimismo é o oxigênio que precisa para continuar nessa peleja medonha.

Por outro lado, viver “chorando miséria” não é a melhor atitude. Eu tenho um colega de profissão que, se você conversar com ele uns minutinhos, ficará com o horizonte obnubilado. Pra ele, nada dará certo; pense num cabra pessimista! A latomia é grande, o homem consegue “acabar com o carnaval de Olinda”.

Na verdade, se a gente olhar o mundo no qual vivemos, certamente ficaremos desalentados. O homem, com o seu egoísmo e vaidade, deixa o mundo muito mais complicado. O espírito beligerante do ser humano torna o ambiente, não raro, inóspito. Alguns valores, outrora tão cultivados em nossas vidas, como a honestidade, hoje em dia são de somenos importância.

Um exemplo é a política. Há tempos vivemos tempos de intolerância e falta de diálogo. Muitos torcem contra determinada gestão, mesmo que os prejudique, se quem estiver à frente do Poder Executivo não for de sua preferência. Sobre corrupção nem comentarei, pois seria “chover no molhado”, diante de tudo o que aconteceu e acontece neste país verde e amarelo.

Por essas e outras razões, apesar de sempre esperar por dias melhores, o faço com os pés no chão; eu prefiro ser um realista esperançoso.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 14/06/2026 - 06:22h

Aqui há de um tudo

Por Odemirton Filho

Efeito de câmera e edição mostra o Corredor Cultural e seu entorno no dia do Pingo da Mei Dia (Foto: Realize Filmes)

Efeito de câmera e edição com o Corredor Cultural e seu entorno no dia do Pingo da Mei Dia (Foto: Realize Filmes/Arquivo/2025)

O mês de junho chegou chegando. O Pingo da Mei dia, como sempre, abriu brilhantemente os festejos juninos. O Mossoró Cidade Junina há tempos está consolidado. É uma festa bonita, a cidade, em alguns locais, fica lindamente decorada, sente-se um clima de alegria. Há quem não goste, é claro, o que devemos respeitar.

Entretanto, o que eu quero dizer, é que no tempo da minha juventude não havia tantas festividades juninas por estas bandas, pelo menos que me lembre. Nalgumas escolas e nos bairros mais afastados da cidade é que havia arraiás. Lembro que acendíamos uma pequena fogueira pra assar milho em frente da nossa casa e que preparavam algumas comidas típicas. E Só.

Contudo, festa junina como a de hoje, sinceramente, não recordo. Se havia, levei falta.

Aliás, como em toda cidade, nos tempos de minha adolescência, em Mossoró havia quase de um tudo. Porém, o que me vem à memória mais vivamente são as festas na ACDP, na AABB, no Realce e no clube do BNB. E como esquecer os grandes comícios no largo do Jumbo e da Cobal? O Potiba? Os bingos no Nogueirão?

Havia, também, a churrascaria Kancela, as noites no Meca Shopping, o burburinho do Burburinho, a pizzaria de Patrício Português, a sorveteria do Juarez e as festas no Imperial. Inesquecíveis, outrossim, são as Festas de Santa Luzia de antigamente.

O leitor chegou a prestigiar as vaquejadas do Puxaboi? Chegou a frequentar o Ferrão? Bons tempos, né?

Vale acrescentar que o carnaval na minha época de rapaz não era o forte em Mossoró. Dizem os mais velhos que carnaval bom de verdade eram os realizados na ACDP e no Ypiranga. Não posso afirmar, nem desafirmar, apenas escuto as histórias, e vejo um leve sorriso no rosto do meu pai quando fala sobre aqueles tempos.

Além disso, eu jamais poderia esquecer dos vesperais no Cine Pax, das sessões no Cine Cid e no Caiçara. Era um bocado de meninos e meninas indo assistir aos filmes de Caratê e de ação. Era bom que só andar de bicicleta no patamar da Igreja de São Vicente.

Tudo isso, são algumas de minhas lembranças. Certamente, os leitores têm as suas, pois cada um traz no peito algumas recordações, às vezes, até umas saudades. Não que eu queira voltar ao passado. Absolutamente. No entanto, para algumas pessoas relembrar o passado pode ser lenitivo para a alma. Eu, todavia, “vou viver as coisas novas que também são boas”.

E, pra finalizar o texto deste domingo, transcrevo um pedaço de uma crônica escrita pelo mestre Dorian Jorge Freire há muitos, muitos anos:

“Aqui há de um tudo. As miscigenações, lá fora temerárias, aqui são saudáveis, revelam o pluralismo democrático. Aqui todo mundo é partidário, toda gente passional, 8 ou 88. Tomamos partido em briga de galo, brigamos em dança de pastoril, eu com a Diana do cordão encarnado, você escravo da Diana do cordão azul. Aqui tudo é nosso: nossa cidade, nossa Catedral, nosso rio, nosso O Mossoroense, nosso baixo meretrício. (…) Sabe lá, Tágide minha, o que é viver em Mossoró, sem perder a perspectiva do futuro improvável, nem a saudade do passado presente”.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 07/06/2026 - 09:52h

Depois do medo, vem o mundo

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa (Arquivo)

Arte ilustrativa (Arquivo)

A frase acima, dizem, foi escrita pela poetisa Clarice Lispector. Não sei. Na verdade, para mim pouco importa a autoria. O importante é a reflexão que dela podemos extrair. Ademais, a leitura dominical deve ter leveza, para suavizar o coração. Mas quais são os nossos medos?

Com certeza, muitos enfrentam cotidianamente os seus medos. Temos incertezas que estremecem a alma e nos fazem vacilar na caminhada. Aqui e ali, tropeçamos. Ficamos na dúvida se as veredas que desbravamos estão corretas ou, talvez, pegamos o bonde errado.

Nesta vida desembestada, neste mundo das redes sociais onde quase tudo parece perfeito, ficamos a matutar se realmente estamos a fazer o certo. Ser CLT ou um empreendedor? Estudar e/ou trabalhar? Ou, quem sabe, tentar ser um influenciador de sucesso para ganhar muito dinheiro.

Nesse turbilhão no qual vivemos, com mentiras a mancheias, muitas vezes ficamos angustiados, pois a cobrança diária para sermos o melhor naquilo que nos propormos a fazer tornou-se abusiva. Em alguns casos, metas precisam ser cumpridas, sob pena de demissão, diminuição salarial ou empecilho para ascender na carreira profissional.

Quando lecionava, inúmeros alunos e alunas me confidenciavam que estavam com ansiedade, quiçá depressivos, com medo de não conseguirem ser aprovados na OAB e não lograr êxito na profissão. Eram pessoas jovens, tristes, sem o viço e a alegria da juventude.

É claro que é preciso se esforçar para alcançar objetivos, todavia, em tudo deve haver limites, sobretudo em respeito à saúde e ao bem-estar.

Decerto, cada um de nós sabe quais são os seus medos. Há os que temem não constituir uma família ou findar os dias sem alguém ao seu lado; no entanto, há quem prefira viver sozinho em seu mundo.

Enfim, depois de vencer o medo, vem o mundo, e, como já disse Nelson Mandela, “bravo não é quem não sente medo, é quem o vence”.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 24/05/2026 - 10:50h

Sobre escrever à mão

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

No último domingo, o programa de televisão, Fantástico, veiculou uma reportagem especial sobre como o hábito de escrever à mão perdeu espaço nos dias atuais. Hoje, poucas pessoas ainda cultivam essa prática, pois utilizam os computadores e celulares para digitar e enviar mensagens.

Foi-se o tempo que escrevíamos à mão cartas e bilhetes. Agora, digitamos as mensagens, enviando-as por meio de um “zap” ou e-mail. Conforme a reportagem, exames mostram que, ao escrever à mão, a atividade cerebral se espalha por diferentes regiões, formando um padrão amplo de conexões. Na digitação, esse padrão praticamente desaparece.

De minha parte, não posso negar que achei foi bom essa mudança. A minha caligrafia sempre foi sofrível, “garranchuda”, quase um hieróglifo. Minha mãe, coitada, gastou uma ruma de dinheiro comprando cadernos de caligrafia a fim de melhorar minha escrita, mas não teve jeito. Muitas vezes, eu mesmo não entendia o que estava escrito.

Quando eu lecionava, sempre usei slides nas aulas, uma vez que escrever na lousa, certamente, não era uma boa opção. Quando me submetia a provas subjetivas, elaborar uma dissertação, por exemplo, tinha que escrever devagar, com receio de não ser entendido pelo docente. Inúmeras vezes levei “batido” dos professores por causa da minha letra.

Quando eu corrigia provas subjetivas, já me deparei com alunos e alunas que tinham uma letra sofrível, quase ininteligível. Nessas horas, sentia-me feliz, pois percebia que não estava sozinho.

No mesmo passo, há vinte anos, quando iniciei a labuta enquanto oficial de Justiça, as certidões das diligências eram lavradas à mão, e eu tinha que ter o maior cuidado para escrever de modo que o magistrado compreendesse o teor.

De sorte, que admiro bastante quem tem uma letra bonita, daquelas que parecem um desenho. Milton Hatoum, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, escreve os seus romances à mão, fugindo dos padrões atuais.

Pode ser impressão, mas quando escrevemos à mão, percebo que fixamos mais o conteúdo que estamos estudando. Por outro lado, digitar, além de ser prático, garante que o texto sairá com um visual apresentável, pelo menos na forma. Enfim, como tudo na vida, sempre há os dois lados da moeda.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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  • Art&C - PMM - Iluminação - Outubro de 2026
domingo - 17/05/2026 - 07:40h

Sociedade do cansaço

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

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A vida sempre nos obrigou a travar uma luta constante. Na contemporaneidade, a multiplicidade de informações na internet e a exposição da vida privada nas redes sociais exercem uma enorme pressão no cotidiano. Em um livro que tem o título deste texto, o autor Byung-Chul Han, filósofo e ensaísta sul-coreano, descreve com propriedade sobre alguns aspectos do mundo atual.

Referida obra trata sobre alguns temas, como a Violência Neuronal, Além da Sociedade Disciplinar, o Tédio Profundo, Vita Activa e a Pedagogia do Ver.

No capítulo sobre a Violência Neuronal, o autor aborda como o excesso de positividade tem afetado, sobremaneira, a cidadão moderno. A busca incessante por desempenho e sucesso, deixa o homem atual vivendo sob enorme pressão. Não é fácil conciliar o dia a dia de nossas vidas, diante de tantos problemas que temos que enfrentar, com a imperiosa exigência de uma produtividade cada vez maior, o que tem ocasionado casos de depressão e síndrome de Burnout, por exemplo.

Noutro capítulo, denominado Além da Sociedade Disciplinar, comenta-se sobre a sociedade de desempenho, a qual substituiu a sociedade disciplinar, anteriormente batizada por Michel Foucault. Se antes a coercitividade era a característica indelével da sociedade disciplinar, na atual sociedade de desempenho é o próprio ser humano que se cobra internamente, com o escopo de performar, buscando excelência naquilo que se propõe a fazer.

Abordando o Tédio Profundo, o autor analisa a necessidade de o homem “colocar o pé no freio”, na busca do seu eu. O tédio seria o momento de procurar refletir o caminho a ser seguido, pois novas ideias somente surgem quando paramos a correria da vida para poder redimensionar as nossas ações.

No tocante à abordagem sobre a Vita Activa (vida ativa), termo usado pela filósofa Hannah Arendt, o autor enfatiza como o homem atual está sempre ativo, em constante movimento, tendo como objetivo conseguir mais e mais produtividade, deixando de lado o criativo, pois, como não consegue diminuir o ritmo de sua vida, não encontra tempo para refletir e engendrar coisas novas.

Por fim, no capítulo que trata da Pedagogia do Ver, Byung-Chul Han afirma que o homem moderno perdeu a sua capacidade de contemplação, uma vez que vive numa correria em busca de desempenho, tornando-se hiperativo e superficial.

Eis, de forma sucinta, alguns pontos abordados no referido livro. Concorde-se ou não com o pensamento do autor é, sem dúvida, um texto que nos leva a refletir sobre os dias atuais.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 10/05/2026 - 10:30h

Violência vicária

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com recursos de IA para o BCS

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A crescente violência contra a mulher no contexto doméstico e familiar tem suscitado debates no âmbito jurídico e legislativo, bem como, entre as entidades que lutam contra qualquer forma de agressão no seio das relações familiares. A Lei Maria da Penha (Lei n. 11.340/2006), apesar de ter avançado significativamente na responsabilização dos agressores, não tem se mostrado suficiente para acabar, de uma vez por todas, a violência contra as mulheres.

É um tema bastante sensível que precisa de um amplo debate e, sobretudo, de ações firmes, por parte do Estado e da sociedade para tentar conter essa crescente onda de violência. Um exemplo são as inúmeras medidas protetivas em favor das mulheres que são decretadas diariamente nas Comarcas de todo o país. Para se ter uma ideia, nos plantões judiciários nos finais de semana, boa parte dos mandados urgentes para cumprimento são medidas protetivas.

Em 2025, tramitaram 621.202 medidas protetivas, o que corresponde a aproximadamente 70 por hora, com tempo de resposta médio de 04 dias (Painel de Violência contra a Mulher – CNJ).

Nesse sentido, a Lei n. 15.384/26, que entrou em vigor no último dia 9 de abril, prevê punição no caso de violência vicária. Esta pode ser entendida como qualquer forma de violência praticada contra descendente, ascendente, dependente, enteado, parente, pessoa sob guarda ou responsabilidade direta da mulher ou pessoa de sua rede de apoio, com vistas a atingi-la.

Observe-se que a violência nesses casos não é praticada diretamente contra a mulher, mas sim em face de uma terceira pessoa, a qual tem ligação com a mulher que se quer atingir, fazendo-a sofrer. Seria uma agressão a um filho, pai, mãe, enteado, enfim, qualquer pessoa que faça parte da sua rede de apoio.

“O termo vicária deriva do latim vicarius, que remete à ideia de substituição. No contexto da violência de gênero, essa substituição ocorre quando o agressor, impedido de atingir diretamente a ex-companheira, instrumentaliza terceiros afetivamente significativos para produzir sofrimento emocional. A mulher permanece como alvo central; o ataque, porém, é executado por intermédio de outra vítima”. (disponível em www. migalhas.com.br).

Ademais, tipificou-se o denominado Vicaricídio, acrescentando o Art. 121-B ao Código Penal brasileiro, que assim dispõe:

“Matar descendente, ascendente, dependente, enteado ou pessoa sob guarda ou responsabilidade direta da mulher, com o fim específico de causar-lhe sofrimento, punição ou controle, no contexto de violência doméstica e familiar”. Nesse caso, a pena é de reclusão de 20 (vinte) a 40 (quarenta) anos, existindo hipóteses de aumento da pena, sendo considerado, além disso, um crime hediondo.

Do exposto, pode-se concluir que a entrada em vigor da lei foi mais um passo importante no combate à violência de gênero. No entanto, não se pode olvidar que ainda há um longo caminho a ser percorrido.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Artigo
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