domingo - 23/08/2026 - 06:00h

Sobre vencer na vida

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa exclusiva em estilo impressionista com recursos de IA para o BCS

Arte ilustrativa exclusiva em estilo impressionista com recursos de IA para o BCS

De vez em quando eu vejo nas redes sociais algumas pessoas comentarem sobre vencer na vida. Alguns, mostram uma vida de luxo, casas modernas, carros de última geração, viagens e outras postagens que mostram uma vida acima do padrão da maioria da população brasileira. Em alguns textos, alguns escrevem que vencer na vida é ter conquistado, por meio do trabalho, o que sonhou.

E eu fico a pensar o que é, realmente, vencer na vida. Na verdade, não há uma resposta pronta e acabada. Cada um de nós tem sonhos diferentes. Além disso, é bom não esquecer que cada pessoa tem uma realidade de vida. Uns nascem em berço de ouro, outros, não tem o que comer. A vida, não é novidade pra ninguém, não oferece oportunidade iguais, sobretudo neste país.

Enquanto para poucas pessoas é garantida uma educação de qualidade, em bons colégios, a maioria frequenta escolas sucateadas, com professores mal remunerados e desestimulados. Para muitas crianças a hora da merenda é a oportunidade de ter um prato de comida; para outros, a cantina da escola oferece-lhes do bom e do melhor.

Assim, para quem nasceu e cresceu em uma família carente, muitas vezes vencer na vida é ter o direito de fazer, no mínimo, três refeições diárias. É possuir uma casa com o mínimo de conforto; um trabalho honesto que lhe garanta uma renda para se manter, ou seja, que lhe seja assegurada a dignidade da pessoa humana.

No entanto, vencer na vida não se refere somente a bens materiais. Vencer na vida refere-se, principalmente, a conquistar bens imateriais, isto é, o que o dinheiro não compra. Exemplos? Sentar-se à mesa com a família, estar entre aqueles que amamos, viver em paz, compartilhar do bem-querer dos seus.

Creio que de nada adianta ter uma ruma de dinheiro, se nos faltam saúde, amor e sossego.

Mas, enfim, o que eu considero como vencer na vida pode não ser pra você. Portanto, cada um siga o seu caminho, perdendo aqui, vencendo acolá. Colhendo o que plantou.

Odemirton Filho é oficial de justiça.

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Categoria(s): Crônica
domingo - 16/08/2026 - 07:38h

No tempo das grandes campanhas eleitorais

Por Odemirton Filho

Geraldo Melo na campanha de 1986 (Foto: reprodução)

Geraldo Melo na campanha de 1986 (Foto: reprodução)

Conforme o calendário eleitoral, a partir de hoje os candidatos podem realizar propaganda, ou seja, podem fazer campanha pra valer, começar o “moído”, como se costuma dizer. Com certeza, serão as promessas de sempre. De minha parte, não me animo mais, nem acredito em palavras jogadas ao vento, como nos tempos da minha juventude.

No entanto, para mim, as melhores campanhas eleitorais foram as de 1986 e 1988, nas quais se sagraram vencedores, respectivamente, Geraldo Melo para o governo do estado, e Rosalba Ciarlini à prefeitura de Mossoró. Ali, sim, foram campanhas memoráveis.

Na de 1986, o “tamborete” embalou multidões com os seus jingles inesquecíveis. Até hoje não escutei músicas mais bonitas. Via-se nos rostos a alegria de cantar, de acompanhar o candidato nas passeatas e nos comícios. Orador de primeira linha, Geraldo sabia impressionar os eleitores, “novos ventos, novos tempos”.

Em relação à campanha de 1988, a “Rosa” fez uma campanha marcante. No início, ninguém acreditava em sua vitória. Mas ela conseguiu embalar os eleitores, “a rosa vermelha é do bem-querer, a rosa vermelha e branca hei de amar-te até morrer”… e, ao final, venceu o pleito.

Curti vários comícios no largo do Jumbo, da Cobal, no Ferro de engomar; vi muitas passeatas descerem o grande Alto de São Manoel, um mar de gente. Na verdade, a maioria das pessoas gostava era de curtir as bandas de expressão nacional que tocavam em cima dos trios elétricos.

Recordo-me que, no dia das passeatas, ônibus faziam o transporte de homens, mulheres e crianças da zona rural para a cidade; as carrocerias das camionetes ficavam lotadas com gente de todas as idades, de meninos a idosos, os comícios eram verdadeiros showmícios.

Hoje, os tempos mudaram. As campanhas eleitorais são realizadas, sobretudo, nas redes sociais, onde as fake news fazem a festa. Naqueles tempos, porém, as mentiras corriam boca a boca, nas ruas e nos pés das calçadas.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 09/08/2026 - 06:46h

Tá bonita demais!

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com uso de recursos de IA para o BCS

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Uma tarde dessas fui a Tibau. A última vez, creio, foi no comecinho deste ano. No entanto, pelas redes sociais, eu vi que a prefeitura iluminou um pedaço da praia das Emanuelas. Então, aguçou-me a curiosidade. E fui. Ou melhor, fomos eu e a minha mulher, Morgana.

No finalzinho da tarde pegamos o rumo da estrada; boquinha da noite chegamos à praia. E tá bonita demais. Sentamos à mesa numa das barracas, e ficamos a admirar tão bela paisagem, sentindo a brisa. Trocamos poucas palavras, já que lindeza do que estava a nossa frente, bastava-nos. Para nós, Tibau tem algo especial; lá nos conhecemos, lá começamos a namorar.

Mas, como ia dizendo, a praia tá bonita demais, a posteação clareava, refletindo no mar. Algumas pessoas estavam sentadas na areia, outras, caminhavam; crianças jogavam bola, tomavam banho de mar. Alguns casais saboreavam uma cerveja gelada com tira-gosto.

Sem dúvida, é mais uma oportunidade para os comerciantes locais movimentarem suas barracas, gerando emprego e renda para a população. Talvez, promovam festas, luaus, dando vida nova as noites da cidade, sendo uma excelente opção de lazer. Sem esquecer que a iluminação proporcionará mais segurança aos visitantes e moradores da localidade.

Acredito que todos que ali estavam aprovaram a iniciativa do poder público municipal, pois a cidade-praia carecia desse ambiente noturno à beira-mar.

O que nos chamou atenção foi o vai e vem de veículos. Parecia com o período do veraneio. Tibau, hoje, não fica movimentada somente no mês de janeiro. A quantidade de casas e condomínios que existem, atrai muita gente nos finais de semana. Aliás, estão mais do que certos, uma vez que é inconcebível aproveitar uma praia tão linda uma vez por ano, como era costume tempos atrás.

Para nós foi uma tarde/noite bastante leve, agradável. Contudo, sentimos falta da lua. Ela se escondeu, não deu o ar da graça. Achamos que foi de propósito, um convite pra retornarmos. Convite aceito. Qualquer noite, retornaremos com todo prazer.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 02/08/2026 - 06:44h

A Casa da Revista

Por Odemirton Filho

Casa da Revista na Rua Santos Dumont, Centro de Mossoró (Foto: Relembrando Mossoró)

Casa da Revista na Rua Santos Dumont, Centro de Mossoró (Foto: Relembrando Mossoró)

Os tempos são outros. Vivemos a era digital, da Inteligência Artificial, dos celulares iPhones. Qualquer pesquisa pode ser realizada por meio da internet, onde encontramos tudo. Hoje, as interações humanas são, em boa parte, pelas redes sociais, e a leitura pode ser feita por meios de avançados recursos tecnológicos.

No entanto, tempos atrás, não era assim. Somente líamos livros físicos, e fazíamos as pesquisas escolares por meio de volumosas enciclopédias. Quando queríamos saber sobre as fofocas dos famosos, recorríamos às revistas especializadas no assunto.

Em Mossoró, a Casa da Revista foi, por vários anos, um estabelecimento comercial especializado no gênero. Por lá, encontrávamos variados tipos de leitura, de gibis a revistas com conteúdo para maiores de idade. Quem gostava de ler, quase semanalmente ia comprar revistas de publicação mensal/semanal ou em busca de novidades.

Noutros tempos, além da Casa da Revista, lembro que havia as bancas de revistas de Zé Maria e de Ademar, que, aliás, ainda existem. Havia, também, duas bancas que se localizavam, salvo engano, na praça dos Correios e ao lado da Catedral. Quem lembra de Antônio “Queixinho”, que comercializava revistas na calçada lateral do Cine Pax?

Falar em Zé Maria, recordo-me que inúmeras vezes fui, de manhãzinha, comprar jornal. Gostava de ler, principalmente, as colunas de Canindé Queiroz, Dorian Jorge Freire e José Nicodemos. Zé Maria achava bom que só resenhar sobre política e futebol; a turma que andava por lá, também, só que, às vezes, as discussões ficavam acaloradas.

Lembro, ainda, que a Casa da Revista, durante o mês de janeiro, abria um ponto de vendas num prédio ao lado do antigo posto da Telern, em Tibau.

Bem, eu não sei dizer por quanto tempo a Casa da Revista permaneceu em atividade; só sei que por muitos anos contribuiu para a cultura local.

E Você? Costumava ir à Casa da Revista?

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 26/07/2026 - 04:00h

O tempo e o silêncio

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

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O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, é uma das obras-primas da literatura mundial; é também um dos meus livros preferidos. Em um dos diálogos da história, um dos personagens afirma que para todos os males há dois remédios: o tempo e o silêncio.

Não sei se afirmação é verdadeira, mas, sem dúvida, leva-nos à reflexão. O tempo, senhor da razão, como se costuma dizer, pode acalmar um coração atribulado. Quer um exemplo? Às vezes, sentimos saudade de alguém ou dum momento vivido. O tempo nos ajuda a conviver com a saudade, apesar de não conseguir afastá-la, pois as lembranças ficam gravadas na memória afetiva.

Além do mais, as coisas costumam se acomodar com o tempo ou, quem sabe, nos conformamos com o acontecido, e deixamos a vida seguir o seu fluxo. Certamente, na alma ficarão cicatrizes. Contudo, aprendemos a conviver com a dor, com a decepção, com a saudade.

Num mundo repleto de egoísmo e vaidade, no qual o ser humano muitas vezes se acha infalível, o tempo mostra a verdade, ensinando-nos da pior forma. Há pessoas que passam a vida inteira cometendo o mesmo erro. Todavia, chegará o momento em que a vida cobrará o preço de nossas escolhas.

Por outro lado, vivemos tempos de muito barulho, sobretudo, nas redes sociais. As pessoas se expõem demais, mostrando a sua intimidade, o seu dia a dia, pois o importante é obter curtidas. Quanto mais, melhor.

Esquecem, porém, de guardar o silêncio. Deixam de conversar consigo mesmo, de sentir o coração, de ouvir a voz suave de Deus. Hoje, todos têm certezas, mesmo que não possuam o mínimo conhecimento sobre o assunto. Confundem liberdade de expressão com liberdade de agressão, sem falar naquelas pessoas que adoram ser desagradáveis ou deselegantes em seus comentários.

Enfim, eu não sei você, no entanto, eu confio na maturidade que o tempo traz e, em algumas situações, adoto o silêncio como resposta. Poucas coisas na vida valem o nosso sossego.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica / Cultura
domingo - 19/07/2026 - 10:34h

Dilema de fome

Por Marcelo Alves

Cena do filme da Netflix - "Sociedade da Neve" (Reprodução do BCS)

Cena do filme da Netflix – “Sociedade da Neve” (Reprodução do BCS)

Outro dia, xeretando o Migalhas, o badalado portal de notícias jurídicas, li uma pequena resenha sobre o filme “A sociedade da neve” (2023), na qual se indagava: “Você comeria carne humana para sobreviver? Esse é o dilema moral presente no filme ‘A Sociedade da Neve’, produção da Netflix dirigida por J.A. Bayona e indicada ao Oscar na categoria ‘melhor filme estrangeiro’”. Para quem não sabe, “em 1972, na Cordilheira dos Andes, um grupo de uruguaios encontrou no canibalismo a única forma de preservar a própria vida após um desastre aéreo. Os passageiros da aeronave estavam em uma situação de ‘vida ou morte’”.

Embora o caso seja comumente tratado como o “milagre dos Andes”, isso de antropofagia/canibalismo (termos com significados sutilmente diferentes, mas que aqui são tratados indistintamente), mesmo nas condições dadas, é deveras complicado. Para dizer o mínimo.

De fato, nada mais repugnante ao homem contemporâneo, talvez até mais que o homicídio em si, que pode ou não preceder a antropofagia/canibalismo, do que esse insólito comportamento de se alimentar da carne do seu semelhante. Como registra Lemos Britto, em seu “O crime e os criminosos na literatura brasileira” (Livraria José Olympio Editora, 1946), “apesar de toda a sua perversidade o homem não admite que um seu semelhante, civilizado, e normal de espírito, se alimente de carne humana, como um carnívoro irracional, e, mais ainda, que mate para comê-la”.

Lembrando que não há no direito penal brasileiro um crime específico para a antropofagia/canibalismo – os crimes praticados seriam o de homicídio doloso, caso se provoque a morte do semelhante para comer sua carne, ou o de vilipêndio de cadáver, quando, sem a prática do homicídio, viola-se o cadáver para consumir a carne –, vou além na indagação: “Você mataria e comeria a carne humana para sobreviver?”.

De minha parte, de supetão, afirmo que não. Mas, sobretudo, rezo para um dia não ter de responder, de facto, a esse dilema, como outrora o fizeram os réus dos casos U.S. v. Holmes (1842) e Regina v. Dudley & Stephens (1884), em naufrágios em alto-mar e homicídio/canibalismo nos respectivos botes salva-vidas. Prefiro tratar desse tema em literatura, especialmente recomendando, para os amantes do direito, a leitura da obra-prima ficcional do jurista Lon Fuller, “O caso dos exploradores de cavernas” (“The Case of the Speluncean Explorers”, 1949, no original).

Ocultando detalhes para evitar spoiler, no livro de Fuller, cinco exploradores de uma tal Sociedade Espeleológica ficaram presos em uma caverna após um grande deslizamento de terra. São resgatados quatro deles. Os exploradores acordaram que um deles fosse sorteado e sacrificado para servir de comida aos demais, evitando assim a morte de todos por inanição. Segundo a letra da lei, está-se diante de um homicídio, com previsão de pena de morte. Assim decidiu o júri de primeira instância. Pede-se clemência ao chefe do Poder Executivo. Apela-se à corte superior. E a coisa já não parece assim tão preto no branco.

O homicídio seguido do canibalismo é temperado pelo estado de necessidade e a falta de esperança dos envolvidos. A escolha da vítima contratualmente e pela sorte dá um toque a mais ao caso. A desistência contratual alegada é válida? Qual o peso da simpatia para com os réus e da comoção popular em tais casos? A condenação pelo júri tem sempre um quê de discricionariedade. Qual a lei aplicável? Qual o precedente aplicável? O perdão cai bem no caso? E tudo isso é analisado levando em consideração as muitas escolas da filosofia do direito – o jusnaturalismo, o positivismo, o historicismo, o consequencialismo e por aí vai –, o que empresta ao caso as mais diversas nuances. Temos, enfim, um caso em que diferentes veredictos se mostram possíveis.

Maravilhoso livro para matar sua fome… de leitura.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República,  doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Refis - Agosto de 2026 - 06-08-2026
domingo - 19/07/2026 - 07:48h

O Zoológico da Esam

Por Odemirton Filho

Esam, que viria a se transformar na Ufersa, foi referência importante na revolução da fruticultura irrigada (Foto: Web)

Esam, em foto dos anos 70 (Foto: Arquivo/Web)

Os domingos, para a maioria das pessoas, é um dia para descansar, almoçar em família, ir à praia, passar o dia deitado na rede no alpendre dum sítio, participar da missa ou de um culto. É um dia preguiçoso, que a gente torce para que passe devagar, devagarinho.

Eu não sei se você lembra, mas, na década de oitenta, noventa, existia um Zoológico na antiga Escola Superior de Agricultura de Mossoró (ESAM). Naquela época, a cidade ainda tinha ares interioranos, e não havia muitas opções de lazer. Eu, então, costumava ir ao zoológico com a minha mulher e os meus filhos.

Quando chegávamos, comprávamos pipoca, confeitos, milho verde; aí percorríamos cada espaço do lugar. Os meninos adoravam ver os jacarés, as cobras, as “macaquices” dos macacos, entre outros poucos animais que existiam. O zoológico era pequeno, mas fazia a festa da garotada; era comum as famílias passarem um pedaço do dia por lá.

A infância tem dessas coisas. Para as crianças tudo é motivo de diversão. Assim, brincar na areia da praia, correr atrás de galinhas num sítio, nadar num açude, subir em árvores, tocar a campainha de uma casa e sair correndo, jogar bola na rua com os pés descalços, são algumas brincadeiras que fazem a felicidade das crianças, ou, pelo menos, faziam, na época que inexistia aparelho celular. Será que as crianças ainda brincam de esconde-esconde?

Confesso que gostava de ver o sorriso no rosto dos meus pequenos quando viam os animais. Para mim, era um momento de enorme felicidade. Como não tinha, e não tenho, muita grana, proporcionar-lhes um pouquinho de alegria me deixava bastante feliz.

Algumas vezes pegávamos o ônibus circular e íamos pra casa do meu sogro “filar a boia”. O meu filho mais velho achava o máximo andar de “busão”. Outras vezes, íamos tomar sorvete em Juarez, uma sorveteria que ficava ao lado do antigo supermercado Pague Menos, de seu Bastos.

Sem esquecer que, vez ou outra, víamos as manobras radicais de Júnior Banana, na praça do bicicross, no conjunto Ulrick Graff. Aliás, faça-se justiça, ele era incansável na conservação daquele equipamento desportivo.

Infelizmente, há anos o Zoológico da ESAM encerrou as suas atividades. Sem dúvida, foi uma perda para as famílias, principalmente para a criançada. No entanto, aqueles domingos estão guardados no coração com um enorme carinho; são esses pequenos momentos que fazem a vida valer a pena.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 12/07/2026 - 08:26h

Viver não é preciso

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

Calma, dileto leitor, não se impressione com o título desta crônica. Como muitos sabem, sobredita expressão faz parte de um poema de Fernando Pessoa, que diz: “navegar é preciso, viver não é preciso”.

Aliás, dizem que o verso foi inspirado nas palavras do general romano Pompeu, o qual exigiu que os seus marinheiros navegassem sob forte tempestade.

O poema, sem dúvida, concede-nos a oportunidade de interpretá-lo, pois para navegar é imprescindível traçar rotas, abastecer de mantimentos a embarcação, verificar as condições climáticas, entre outras providências, ou seja, tudo deve ser feito de forma precisa.

Doutro lado, viver, muito embora façamos planos, nem sempre acontece da forma como almejamos. Muitas vezes, a vida nos remete para outros caminhos; o que traçamos para nossa existência pode não sair como esperávamos.

Quantos de nós, apesar de arquitetar um projeto com régua e compasso, não conseguem executar a obra? Muitos, com certeza. Por quê? Porque a vida não é linear, ela, aqui e acolá, direciona-nos para outros lugares, por isso, o bardo português afirmou que viver não é preciso.

Eu, à guisa de exemplo, laborei em múltiplas atividades profissionais. Trabalhei no setor pessoal do antigo supermercado Pague Menos, em loja de peças de automóveis, comercializando carros, material de construção, com copiadora (xerox).

Posteriormente, fui aprovado num concurso público de agente educacional para trabalhar com adolescentes infratores, advoguei durante três anos, lecionei no curso de direito por quinze anos e há vinte anos exerço o cargo de oficial de justiça.

No tocante à vida pessoal, casei-me com apenas dezoito anos de idade, porém, jamais imaginei ser papai tão jovem.

Além disso, nunca cogitei que, um dia, escreveria crônicas. É certo que sempre admirei os textos de Dorian Jorge Freire e de José Nicodemos, achava bacana a forma como eles escreviam, narrando com sensibilidade e maestria as minúcias da vida. Somente tempos depois fui apresentado aos textos de cronistas reconhecidos nacionalmente, como Rubem Braga, Antônio Maria, entre outros de igual quilate, os quais me inspiram.

O fato é que boa parte do que aconteceu não foi planejado, as coisas foram acontecendo, as contingências da vida me levaram por essas veredas. Na verdade, tudo o que passamos na vida tem um propósito, são ensinamentos, mesmo que deixem marcas na alma; e sempre, sempre deixam cicatrizes.

Mas, enfim. Talvez o sentido e a beleza da vida estejam na imprecisão, nas curvas que encontramos no meio do caminho, forjando o espírito, fortalecendo-o para as batalhas do cotidiano.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 05/07/2026 - 07:04h

A avenida Presidente Dutra

Por Odemirton Filho

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Numa madrugada do último mês de junho, pelas três horas, com sono, e sentindo um tiquinho de frio, levantei-me para ir buscar a minha filha na Estação das Artes, em Mossoró. Ela está no vigor da mocidade e gosta de curtir as festividades juninas que acontecessem.

Então, lá fui eu. Tirei o carro da garagem, atento a qualquer movimento suspeito. Com redobrada cautela, conduzi o veículo pela avenida presidente Dutra, apesar de achar que àquela altura da madrugada as ruas estivessem vazias, sem um pingo de gente.

Sabe de nada, inocente! Havia várias pessoas subindo o grande alto de São Manoel, a pé, retornando das festas. Eram grupos de amigos e amigas, talvez, casais enamorados. Confesso que fiquei surpreso, pois pensava que, diante da insegurança na qual vivemos, as pessoas não cultivavam mais esse costume, e utilizassem o serviço de Uber; eu sei, eu sei, o dinheiro é contado e, na maioria das vezes, só dá mesmo pra tomar umas.

Lembro que na década de oitenta, quando se curtiam as noites da cidade, era comum as pessoas voltarem caminhando, depois dos grandes showmícios, das festas no posto Imperial ou de outros clubes. Cansei de ver inúmeras pessoas voltando para as suas casas, no frescor da madrugada.

Recordo-me que as carreatas/passeatas se concentravam na churrascaria O Laçador, para só depois desceram o grande alto. Várias vezes fiz esse percurso ao lado de amigos, não raro, tomávamos porres de “juntar menino”. Somente anos depois as carreatas das campanhas eleitorais e as comemorações da vitória de um time de futebol começaram a se concentrar no posto de “ceguinho”.

Na época da minha mocidade não existia o famoso Sebosão, nem as conveniências, como hoje em dia. Após as festas, íamos comer na lanchonete de Zecão, que se localizava próximo a uma das pontes, e a resenha dos jovens “boêmios” se estendia pela madrugada.

Por isso, enquanto eu descia a avenida Presidente Dutra naquela madrugada insone, e vi a galera voltando para as suas casas, viajei no tempo; lembrei, com um sorriso, do junho da minha vida. Foi um tempo danado de bom.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 28/06/2026 - 09:02h

Tudo que a fé pode tocar

Por Odemirton Filho

No momento, estou a escrever, em casa, sem nenhum tico de pressa. Enquanto escrevo, tomo um cafezinho, e vasculho nas gavetas da memória palavras que possam traduzir a letra da bela música do cantor Tiago Iorc. A canção fala sobre fé, de como conseguir tocar alguém que já se foi, e que deixou profundas saudades no coração.

Como se sabe, para escrever é preciso reflexão, inspiração. No entanto, nem sempre a razão é suficiente para que possamos discorrer sobre algo. Na maioria dos casos, ao escrever, é imprescindível inspiração. E ela nem sempre vem. Aí, nesse solilóquio, buscamos no fundo da alma algo que vale a pena expressar.

Peço licença, caro leitor, por um instante. Vou ali, ao quintal da minha casa, soltar estalos de salão (chumbinho) com o meu neto, pois o sorriso dele, ao escutar o estrondo”, faz-me feliz; ele também adora observar um canário que pousa na pequena poça d´água. Esses lúdicos momentos ao seu lado rejuvenesce o meu espírito, trazendo-me inspiração.

Agora, após brincar com o meu neto, retomo este texto, e encaro a tela do computador, duelando com as palavras. Volto à letra da música de Tiago Iorc. Imagino a saudade das pessoas que perderam alguém especial, a exemplo do pai, da mãe, do filho ou filha, dos avós, do marido ou da mulher; quem sabe, dum amigo ou amiga. “Como é o cheiro daí, o seu eu não esqueci, nessas horas da vontade ligar pra te ouvir e saber como você está”.

Então, num átimo, a saudade bate no peito de algumas pessoas. E devem pensam: por que não aproveitei mais a presença dela ou dele? Por que não conversamos mais? Por que não encontrei tempo para vivenciar momentos ao seu lado? Por quê?

Porque estamos sempre correndo pra lá e pra cá. Achamos que temos todo o tempo do mundo. Não. Não temos. Ele passa a galope. Deixamos transcorrer, “in albis” (em branco), o melhor da vida, isto é, estar na presença das pessoas que amamos. Aí, quando as perdemos, passamos a viver de arrependimentos e saudades.

Há um trecho da letra da música que diz assim: “eu te vejo em todo o canto, todo olhar, onde tem amor, sei que você está, agora você é tudo que a fé pode tocar”. Ou seja, é por meio da fé, do amor, que se toca na pessoa que já não está entre nós, numa profunda conexão espiritual.

Bom, finalizarei esta crônica, pois acredito que já disse tudo o que havia para dizer. Vou me arrumar para ir à cidadela curtir as festas juninas, na companhia da minha mulher, dos meus filhos, da minha nora e do meu neto.

E você, estimado leitor, tente aproveitar a vida ao lado dos seus, fazendo o que gosta; não espere para viver somente de saudades.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 21/06/2026 - 11:00h

Um realista esperançoso

Por Odemirton Filho

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Certa vez, o escritor Ariano Suassuna, do alto da sua inteligência, afirmou que o “otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso”. Cá com os meus botões, fico a matutar a frase do autor de O Auto da Compadecida.

Será que ser otimista nos torna tolos? Será que viver torcendo para que tudo dê certo nos deixa alheio ao cotidiano que nos cerca? A vida, com os seus perrengues, às vezes nos deixa desanimados; são tantos problemas que a luta parece inglória.

No entanto, creio eu, que a pessoa otimista, mesmo levando pancadas diárias, utiliza essa animação para enfrentar as inúmeras batalhas da vida. A crença que tudo dará certo o faz seguir em frente; o otimismo é o oxigênio que precisa para continuar nessa peleja medonha.

Por outro lado, viver “chorando miséria” não é a melhor atitude. Eu tenho um colega de profissão que, se você conversar com ele uns minutinhos, ficará com o horizonte obnubilado. Pra ele, nada dará certo; pense num cabra pessimista! A latomia é grande, o homem consegue “acabar com o carnaval de Olinda”.

Na verdade, se a gente olhar o mundo no qual vivemos, certamente ficaremos desalentados. O homem, com o seu egoísmo e vaidade, deixa o mundo muito mais complicado. O espírito beligerante do ser humano torna o ambiente, não raro, inóspito. Alguns valores, outrora tão cultivados em nossas vidas, como a honestidade, hoje em dia são de somenos importância.

Um exemplo é a política. Há tempos vivemos tempos de intolerância e falta de diálogo. Muitos torcem contra determinada gestão, mesmo que os prejudique, se quem estiver à frente do Poder Executivo não for de sua preferência. Sobre corrupção nem comentarei, pois seria “chover no molhado”, diante de tudo o que aconteceu e acontece neste país verde e amarelo.

Por essas e outras razões, apesar de sempre esperar por dias melhores, o faço com os pés no chão; eu prefiro ser um realista esperançoso.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 14/06/2026 - 06:22h

Aqui há de um tudo

Por Odemirton Filho

Efeito de câmera e edição mostra o Corredor Cultural e seu entorno no dia do Pingo da Mei Dia (Foto: Realize Filmes)

Efeito de câmera e edição com o Corredor Cultural e seu entorno no dia do Pingo da Mei Dia (Foto: Realize Filmes/Arquivo/2025)

O mês de junho chegou chegando. O Pingo da Mei dia, como sempre, abriu brilhantemente os festejos juninos. O Mossoró Cidade Junina há tempos está consolidado. É uma festa bonita, a cidade, em alguns locais, fica lindamente decorada, sente-se um clima de alegria. Há quem não goste, é claro, o que devemos respeitar.

Entretanto, o que eu quero dizer, é que no tempo da minha juventude não havia tantas festividades juninas por estas bandas, pelo menos que me lembre. Nalgumas escolas e nos bairros mais afastados da cidade é que havia arraiás. Lembro que acendíamos uma pequena fogueira pra assar milho em frente da nossa casa e que preparavam algumas comidas típicas. E Só.

Contudo, festa junina como a de hoje, sinceramente, não recordo. Se havia, levei falta.

Aliás, como em toda cidade, nos tempos de minha adolescência, em Mossoró havia quase de um tudo. Porém, o que me vem à memória mais vivamente são as festas na ACDP, na AABB, no Realce e no clube do BNB. E como esquecer os grandes comícios no largo do Jumbo e da Cobal? O Potiba? Os bingos no Nogueirão?

Havia, também, a churrascaria Kancela, as noites no Meca Shopping, o burburinho do Burburinho, a pizzaria de Patrício Português, a sorveteria do Juarez e as festas no Imperial. Inesquecíveis, outrossim, são as Festas de Santa Luzia de antigamente.

O leitor chegou a prestigiar as vaquejadas do Puxaboi? Chegou a frequentar o Ferrão? Bons tempos, né?

Vale acrescentar que o carnaval na minha época de rapaz não era o forte em Mossoró. Dizem os mais velhos que carnaval bom de verdade eram os realizados na ACDP e no Ypiranga. Não posso afirmar, nem desafirmar, apenas escuto as histórias, e vejo um leve sorriso no rosto do meu pai quando fala sobre aqueles tempos.

Além disso, eu jamais poderia esquecer dos vesperais no Cine Pax, das sessões no Cine Cid e no Caiçara. Era um bocado de meninos e meninas indo assistir aos filmes de Caratê e de ação. Era bom que só andar de bicicleta no patamar da Igreja de São Vicente.

Tudo isso, são algumas de minhas lembranças. Certamente, os leitores têm as suas, pois cada um traz no peito algumas recordações, às vezes, até umas saudades. Não que eu queira voltar ao passado. Absolutamente. No entanto, para algumas pessoas relembrar o passado pode ser lenitivo para a alma. Eu, todavia, “vou viver as coisas novas que também são boas”.

E, pra finalizar o texto deste domingo, transcrevo um pedaço de uma crônica escrita pelo mestre Dorian Jorge Freire há muitos, muitos anos:

“Aqui há de um tudo. As miscigenações, lá fora temerárias, aqui são saudáveis, revelam o pluralismo democrático. Aqui todo mundo é partidário, toda gente passional, 8 ou 88. Tomamos partido em briga de galo, brigamos em dança de pastoril, eu com a Diana do cordão encarnado, você escravo da Diana do cordão azul. Aqui tudo é nosso: nossa cidade, nossa Catedral, nosso rio, nosso O Mossoroense, nosso baixo meretrício. (…) Sabe lá, Tágide minha, o que é viver em Mossoró, sem perder a perspectiva do futuro improvável, nem a saudade do passado presente”.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 07/06/2026 - 09:52h

Depois do medo, vem o mundo

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa (Arquivo)

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A frase acima, dizem, foi escrita pela poetisa Clarice Lispector. Não sei. Na verdade, para mim pouco importa a autoria. O importante é a reflexão que dela podemos extrair. Ademais, a leitura dominical deve ter leveza, para suavizar o coração. Mas quais são os nossos medos?

Com certeza, muitos enfrentam cotidianamente os seus medos. Temos incertezas que estremecem a alma e nos fazem vacilar na caminhada. Aqui e ali, tropeçamos. Ficamos na dúvida se as veredas que desbravamos estão corretas ou, talvez, pegamos o bonde errado.

Nesta vida desembestada, neste mundo das redes sociais onde quase tudo parece perfeito, ficamos a matutar se realmente estamos a fazer o certo. Ser CLT ou um empreendedor? Estudar e/ou trabalhar? Ou, quem sabe, tentar ser um influenciador de sucesso para ganhar muito dinheiro.

Nesse turbilhão no qual vivemos, com mentiras a mancheias, muitas vezes ficamos angustiados, pois a cobrança diária para sermos o melhor naquilo que nos propormos a fazer tornou-se abusiva. Em alguns casos, metas precisam ser cumpridas, sob pena de demissão, diminuição salarial ou empecilho para ascender na carreira profissional.

Quando lecionava, inúmeros alunos e alunas me confidenciavam que estavam com ansiedade, quiçá depressivos, com medo de não conseguirem ser aprovados na OAB e não lograr êxito na profissão. Eram pessoas jovens, tristes, sem o viço e a alegria da juventude.

É claro que é preciso se esforçar para alcançar objetivos, todavia, em tudo deve haver limites, sobretudo em respeito à saúde e ao bem-estar.

Decerto, cada um de nós sabe quais são os seus medos. Há os que temem não constituir uma família ou findar os dias sem alguém ao seu lado; no entanto, há quem prefira viver sozinho em seu mundo.

Enfim, depois de vencer o medo, vem o mundo, e, como já disse Nelson Mandela, “bravo não é quem não sente medo, é quem o vence”.

Odemirton Filho é oficial de justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 24/05/2026 - 10:50h

Sobre escrever à mão

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

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No último domingo, o programa de televisão, Fantástico, veiculou uma reportagem especial sobre como o hábito de escrever à mão perdeu espaço nos dias atuais. Hoje, poucas pessoas ainda cultivam essa prática, pois utilizam os computadores e celulares para digitar e enviar mensagens.

Foi-se o tempo que escrevíamos à mão cartas e bilhetes. Agora, digitamos as mensagens, enviando-as por meio de um “zap” ou e-mail. Conforme a reportagem, exames mostram que, ao escrever à mão, a atividade cerebral se espalha por diferentes regiões, formando um padrão amplo de conexões. Na digitação, esse padrão praticamente desaparece.

De minha parte, não posso negar que achei foi bom essa mudança. A minha caligrafia sempre foi sofrível, “garranchuda”, quase um hieróglifo. Minha mãe, coitada, gastou uma ruma de dinheiro comprando cadernos de caligrafia a fim de melhorar minha escrita, mas não teve jeito. Muitas vezes, eu mesmo não entendia o que estava escrito.

Quando eu lecionava, sempre usei slides nas aulas, uma vez que escrever na lousa, certamente, não era uma boa opção. Quando me submetia a provas subjetivas, elaborar uma dissertação, por exemplo, tinha que escrever devagar, com receio de não ser entendido pelo docente. Inúmeras vezes levei “batido” dos professores por causa da minha letra.

Quando eu corrigia provas subjetivas, já me deparei com alunos e alunas que tinham uma letra sofrível, quase ininteligível. Nessas horas, sentia-me feliz, pois percebia que não estava sozinho.

No mesmo passo, há vinte anos, quando iniciei a labuta enquanto oficial de Justiça, as certidões das diligências eram lavradas à mão, e eu tinha que ter o maior cuidado para escrever de modo que o magistrado compreendesse o teor.

De sorte, que admiro bastante quem tem uma letra bonita, daquelas que parecem um desenho. Milton Hatoum, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, escreve os seus romances à mão, fugindo dos padrões atuais.

Pode ser impressão, mas quando escrevemos à mão, percebo que fixamos mais o conteúdo que estamos estudando. Por outro lado, digitar, além de ser prático, garante que o texto sairá com um visual apresentável, pelo menos na forma. Enfim, como tudo na vida, sempre há os dois lados da moeda.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 17/05/2026 - 07:40h

Sociedade do cansaço

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa exclusiva com recursos de IA para o BCS

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A vida sempre nos obrigou a travar uma luta constante. Na contemporaneidade, a multiplicidade de informações na internet e a exposição da vida privada nas redes sociais exercem uma enorme pressão no cotidiano. Em um livro que tem o título deste texto, o autor Byung-Chul Han, filósofo e ensaísta sul-coreano, descreve com propriedade sobre alguns aspectos do mundo atual.

Referida obra trata sobre alguns temas, como a Violência Neuronal, Além da Sociedade Disciplinar, o Tédio Profundo, Vita Activa e a Pedagogia do Ver.

No capítulo sobre a Violência Neuronal, o autor aborda como o excesso de positividade tem afetado, sobremaneira, a cidadão moderno. A busca incessante por desempenho e sucesso, deixa o homem atual vivendo sob enorme pressão. Não é fácil conciliar o dia a dia de nossas vidas, diante de tantos problemas que temos que enfrentar, com a imperiosa exigência de uma produtividade cada vez maior, o que tem ocasionado casos de depressão e síndrome de Burnout, por exemplo.

Noutro capítulo, denominado Além da Sociedade Disciplinar, comenta-se sobre a sociedade de desempenho, a qual substituiu a sociedade disciplinar, anteriormente batizada por Michel Foucault. Se antes a coercitividade era a característica indelével da sociedade disciplinar, na atual sociedade de desempenho é o próprio ser humano que se cobra internamente, com o escopo de performar, buscando excelência naquilo que se propõe a fazer.

Abordando o Tédio Profundo, o autor analisa a necessidade de o homem “colocar o pé no freio”, na busca do seu eu. O tédio seria o momento de procurar refletir o caminho a ser seguido, pois novas ideias somente surgem quando paramos a correria da vida para poder redimensionar as nossas ações.

No tocante à abordagem sobre a Vita Activa (vida ativa), termo usado pela filósofa Hannah Arendt, o autor enfatiza como o homem atual está sempre ativo, em constante movimento, tendo como objetivo conseguir mais e mais produtividade, deixando de lado o criativo, pois, como não consegue diminuir o ritmo de sua vida, não encontra tempo para refletir e engendrar coisas novas.

Por fim, no capítulo que trata da Pedagogia do Ver, Byung-Chul Han afirma que o homem moderno perdeu a sua capacidade de contemplação, uma vez que vive numa correria em busca de desempenho, tornando-se hiperativo e superficial.

Eis, de forma sucinta, alguns pontos abordados no referido livro. Concorde-se ou não com o pensamento do autor é, sem dúvida, um texto que nos leva a refletir sobre os dias atuais.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 10/05/2026 - 10:30h

Violência vicária

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com recursos de IA para o BCS

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A crescente violência contra a mulher no contexto doméstico e familiar tem suscitado debates no âmbito jurídico e legislativo, bem como, entre as entidades que lutam contra qualquer forma de agressão no seio das relações familiares. A Lei Maria da Penha (Lei n. 11.340/2006), apesar de ter avançado significativamente na responsabilização dos agressores, não tem se mostrado suficiente para acabar, de uma vez por todas, a violência contra as mulheres.

É um tema bastante sensível que precisa de um amplo debate e, sobretudo, de ações firmes, por parte do Estado e da sociedade para tentar conter essa crescente onda de violência. Um exemplo são as inúmeras medidas protetivas em favor das mulheres que são decretadas diariamente nas Comarcas de todo o país. Para se ter uma ideia, nos plantões judiciários nos finais de semana, boa parte dos mandados urgentes para cumprimento são medidas protetivas.

Em 2025, tramitaram 621.202 medidas protetivas, o que corresponde a aproximadamente 70 por hora, com tempo de resposta médio de 04 dias (Painel de Violência contra a Mulher – CNJ).

Nesse sentido, a Lei n. 15.384/26, que entrou em vigor no último dia 9 de abril, prevê punição no caso de violência vicária. Esta pode ser entendida como qualquer forma de violência praticada contra descendente, ascendente, dependente, enteado, parente, pessoa sob guarda ou responsabilidade direta da mulher ou pessoa de sua rede de apoio, com vistas a atingi-la.

Observe-se que a violência nesses casos não é praticada diretamente contra a mulher, mas sim em face de uma terceira pessoa, a qual tem ligação com a mulher que se quer atingir, fazendo-a sofrer. Seria uma agressão a um filho, pai, mãe, enteado, enfim, qualquer pessoa que faça parte da sua rede de apoio.

“O termo vicária deriva do latim vicarius, que remete à ideia de substituição. No contexto da violência de gênero, essa substituição ocorre quando o agressor, impedido de atingir diretamente a ex-companheira, instrumentaliza terceiros afetivamente significativos para produzir sofrimento emocional. A mulher permanece como alvo central; o ataque, porém, é executado por intermédio de outra vítima”. (disponível em www. migalhas.com.br).

Ademais, tipificou-se o denominado Vicaricídio, acrescentando o Art. 121-B ao Código Penal brasileiro, que assim dispõe:

“Matar descendente, ascendente, dependente, enteado ou pessoa sob guarda ou responsabilidade direta da mulher, com o fim específico de causar-lhe sofrimento, punição ou controle, no contexto de violência doméstica e familiar”. Nesse caso, a pena é de reclusão de 20 (vinte) a 40 (quarenta) anos, existindo hipóteses de aumento da pena, sendo considerado, além disso, um crime hediondo.

Do exposto, pode-se concluir que a entrada em vigor da lei foi mais um passo importante no combate à violência de gênero. No entanto, não se pode olvidar que ainda há um longo caminho a ser percorrido.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Artigo
  • Art&C - PMM - Refis - Agosto de 2026 - 06-08-2026
domingo - 03/05/2026 - 10:46h

As minhas janelas

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com recursos de IA para o BCS

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Estou lendo algumas crônicas de autoria de Paulo Mendes Campos. Segundo Flávio Pinheiro, em prefácio de um livro que reúne alguns textos do cronista, Mendes Campos “iluminou becos sem saída da vida, mas não cuidou apenas deles. Suas meditações eram temperadas por um ceticismo produtivo, para além do que há de enfadonho no niilismo ou de cômodo no pessimismo. Sempre teve, porém, um olhar perspicaz para descobrir o sabor oculto nas miudezas e circunstâncias da vida, com humor e ironia refinados e uma destreza para lidar com as palavras decantadas em invenção poética”.

Entre as crônicas, uma salta aos olhos. Trata-se de Minhas janelas, na qual o cronista discorre sobre a visão que tinha através das janelas das casas onde morou. Por ali, ele via o mundo em derredor, o vai e vem das pessoas, o caótico trânsito das regiões metropolitanas. “Morei em Belo Horizonte, no Leme, Copacabana, Leblon, Botafogo, Silvestre, andei aí pelo Brasil e por outros países”. Com efeito, o cronista perscrutava era a sua alma à procura de respostas.

Cá de minha parte, não posso afirmar que sou um andarilho. Quando eu era adolescente, morei por um ano na capital Alencarina. No entanto, a saudade bateu, e logo retornei à minha terra natal. Nunca tive – e não tenho – vontade alguma de sair do meu torrão, de residir em outras plagas. Viajar é bom, mas voltar pra casa é “felomenal”, diria Geovanni Improtta, personagem interpretado pelo ator José Wilker.

Assim, recuando no tempo, da janela da casa localizada na rua Tiradentes, n. 53, eu via a torre da igreja que foi trincheira para combater o bando do cangaceiro Lampião. Via seu Pedro Borges e dona Zélia, ao entardecer, sentados na calçada, saindo, vez ou outra, no Corcel I, verde. Eu via os meninos que moravam na rua jogando bola ou pedalando as suas bicicletas; via o pequeno muro da frente da casa de seu Sebastião Vieira e dona Ritinha, onde se cultivava um pequeno jardim.

Vislumbrava, outrossim, o vetusto prédio do Cine Teatro Caiçara. Aliás, permita-me fazer um parêntese. Certa vez eu assisti a uma peça de teatro no Caiçara, e nunca esqueci as palavras da atriz Aracy Balabanian, no palco, ante um prédio deteriorado e sem estrutura: “se os artistas de Mossoró fazem teatro nessas condições, eu também estou aqui para fazer”.

Pois bem. Através de uma janela lateral, eu via o quintal da minha casa, com um frondoso pé de seriguela que, não sei quantas vezes, deu sabor aos dias da minha infância. Pelas janelas da minha alma, eu via sonhos enquanto menino/adolescente que buscava desbravar o mundo.

Contudo, em nossas vidas nem sempre conseguimos cumprir o roteiro traçado, pois vamos, paulatinamente, construindo a nossa história, às vezes, por caminhos outros. Entretanto, nada tenho a reclamar, somente agradecer.

O narrado acima são recortes de tempos idos; as minhas janelas. Hoje, porém, vejo que é na sutileza dos detalhes que encontramos a grandeza da vida.

Por derradeiro, transcrevo as palavras do cronista Paulo Mendes Campos, extraídas da crônica anteriormente citada:

“Ando cansado de andanças, isto é, a idade vai chegando. Não quero mais ir, quero ficar; não quero mais procurar, quero conhecer o que já encontrei; para quem sou, as alegrias e as tristezas que tenho já estão de bom tamanho”.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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domingo - 26/04/2026 - 08:14h

Indenização por abandono afetivo

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com recursos de IA para o BCS

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No dia a dia das lides forenses, deparo-me com inúmeras ações de divórcio, as quais discutem, além da extinção do vínculo conjugal, determinações sobre a guarda e direito de visitas dos pais em relação aos filhos menores de idade.

Com efeito, é uma das ações judiciais mais sensíveis, uma vez que se discute a vida privada das pessoas, trazendo à tona os mais diversos sentimentos. A separação dos pais, sem dúvida, causa profundos prejuízos à formação das crianças e adolescentes, ante a abrupta ruptura do lar. Há, de igual modo, filhos que nunca viveram sob o mesmo teto dos pais, sendo frutos de relacionamentos esporádicos.

Se é certo que viver sob um teto no qual as brigas são constantes é deletério para qualquer pessoa, por outro lado, a ausência de um dos pais do convívio diário com os filhos lhes causam profundos danos emocionais. É sabido, porém, que ninguém é obrigado a amar outra pessoa, pois o amor é subjetivo; há quem não ame quem quer que seja, nem a si próprio. No entanto, os filhos merecem, pelo menos, o mínimo de atenção.

Nesse sentido, a Lei n. 15.240/25, diz que “compete aos pais, além de zelar pelos direitos de que trata o art. 3º da Lei, prestar aos filhos assistência afetiva, por meio de convívio ou de visitação periódica, que permita o acompanhamento da formação psicológica, moral e social da pessoa em desenvolvimento”.

O que seria, nos termos da referida norma, a assistência afetiva? Eis a resposta: orientação quanto às principais escolhas e oportunidades profissionais, educacionais e culturais; solidariedade e apoio nos momentos de intenso sofrimento ou de dificuldade; presença física espontaneamente solicitada pela criança ou adolescente quando possível de ser atendida.

Percebe-se que a norma exige muito mais do que o “pagamento da pensão do menino”. A presença do pai ou da mãe prestando-lhe assistência afetiva é fundamental. Isto é, acompanhar, dentro do possível, o cotidiano dos filhos é dever comezinho dos pais.

Nesse contexto, pode-se dizer que o comparecimento às reuniões escolares, às festas de aniversário ou no caso de enfermidades seriam alguns exemplos. Enfim, estar presente nos bons e maus momentos da vida.

Por conseguinte, a falta de assistência afetiva, nos termos da mencionada Lei, poderá ensejar o pagamento de uma indenização. Vejamos:

“Considera-se conduta ilícita, sujeita a reparação de danos, sem prejuízo de outras sanções cabíveis, a ação ou a omissão que ofenda direito fundamental de criança ou de adolescente previsto nesta Lei, incluídos os casos de abandono afetivo.”

A comprovação do abandono afetivo será devidamente apurada mediante a ação judicial cabível, sendo processada e julgada perante o Juízo competente, garantindo-se o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa para as partes envolvidas no litígio. Há vários pontos a serem discutidos no bojo da ação, como a prescrição, o valor da indenização etc. Todavia, somente o tempo, com a evolução das decisões e da jurisprudência, sedimentará o entendimento sobre o assunto.

Ao final da instrução processual, sendo julgado procedente o pedido na ação de indenização por abandono afetivo, o pai ou a mãe será condenado a pagar um valor ao filho, como forma de reparar a falta da assistência afetiva. Tal valor servirá, quem sabe, até para proporcionar aos rebentos um tratamento médico especializado, em consequência dos danos sofridos.

Por fim, há de se ressaltar que nenhum valor preencherá a ausência dos pais na vida dos filhos. Contudo, seria um forma de condenar o genitor ou a genitora negligente, atingindo o seu bolso, para muitos, a parte mais sensível do corpo humano.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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domingo - 19/04/2026 - 09:26h

O uso da Inteligência Artificial nas eleições

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com recursos de IA para o BCS

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Ao longo do tempo as campanhas eleitorais foram se modificando, acompanhando as mudanças da sociedade. Se, noutros tempos, as campanhas eram realizadas somente nas ruas, no corpo a corpo, no contato pessoal com o eleitor, hoje, as batalhas são travadas com mais ênfase nas redes sociais.

É no mundo virtual que candidatos se tornam conhecidos, ou cancelados, para usar um termo em voga. Diante dessas vicissitudes, a Justiça Eleitoral tem se desdobrado para acompanhar essa evolução social, editando Resoluções condizentes com a era tecnológica na qual vivemos.

Nesse sentido, a Resolução n. 23.755/26, dispõe que “a utilização na propaganda eleitoral, em qualquer modalidade, de conteúdo sintético multimídia gerado por meio de inteligência artificial ou tecnologia equivalente para criar, substituir, omitir, mesclar ou alterar a velocidade ou sobrepor imagens ou sons, impõe ao responsável pela propaganda o dever de informar, de modo explícito, destacado e acessível, que o conteúdo foi fabricado ou manipulado e qual tecnologia foi utilizada”.

Esclareça-se que conteúdos sintéticos são mídias, como textos, áudios, vídeo, imagens, softwares, gerados por Inteligência Artificial (IA), sem a participação direta do ser humano. A técnica do deepfake, na qual se criam conteúdos falsos, é uma realidade. Aliás, não é novidade que as mentiras e ofensas trocadas entre candidatos sempre foram marca registrada nas campanhas eleitorais, da era analógica a digital.

Assim, “ficam vedadas a publicação e a republicação, ainda que gratuitas, bem como o impulsionamento pago de novos conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por inteligência artificial ou por tecnologias equivalentes que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidata ou candidato ou de pessoa pública, mesmo que rotulados e em conformidade com as demais exigências deste artigo, no período compreendido entre as 72 (setenta e duas) horas que antecedem e as 24 (vinte e quatro) horas que sucedem o término do pleito”.

Com efeito, não se pode negar a influência da IA no mundo atual, sendo uma realidade inescapável da vida contemporânea. Reputações podem ser construídas, no entanto, muito mais rápido é a desconstrução da honra e imagem das pessoas, sobretudo, dos candidatos, que são expostos diariamente. Imagine-se a modificação de um vídeo de um determinado candidato, alterando-se o conteúdo de suas palavras. Pode ser “fatal” para a sua campanha.

Como bem salientou uma matéria da revista Veja: “fato é que a mentira, elemento intrínseco à estratégia eleitoral desde os primórdios da política, alcança novos patamares de potencial nocivo com a proliferação dos deepfakes. Sem mecanismos eficientes de controle e conscientização, não há nenhuma barreira para que agentes mal-intencionados tentem sequestrar o debate político e colher frutos nas urnas”.

No mesmo sentido, foram as palavras do professor Conrado Hübner Mendes: “o objetivo não é comunicar ideias ou fatos, apenas instigar a emoção tribal, a pulsão de pertencer a um grupo. Não está preocupado com pensar e argumentar, apenas a sentir e agredir”.

Por fim, destaque-se que a violação do que está disciplinado na referida Resolução no tocante ao uso da IA poderá ensejar a adoção de medidas coercitivas destinadas a assegurar a efetividade da ordem judicial, inclusive, a fixação de multa diária.

A Justiça Eleitoral, certamente, terá muito trabalho.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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domingo - 12/04/2026 - 14:22h

Banhos de chuva

Por Odemirton Filho

Ah, você não sabe o quanto é bom esse banho de chuva (Foto ilustrativa)

Ah, você não sabe o quanto é bom esse banho de chuva (Foto ilustrativa)

O menino tomava banho de chuva. Feliz. Dava voltas e mais voltas em derredor da rua Tiradentes e da rua José de Alencar, no centro de Mossoró. Aproveitava as biqueiras dos prédios e das casas. Vez em quando, seu pai e suas irmãs o acompanhavam nesses banhos de alegria.

Às vezes, ao lado de amigos, o menino andava pelas ruas adjacentes, na sua bicicleta Caloi. Ele se arriscava, diga-se, pois os raios rasgavam o céu. No entanto, sabe-se que quando somos crianças o medo não faz parte do dia a dia, porquanto o desejo de se aventurar sempre fala mais alto.

É certo que a infância deixa um legado de bons momentos. O menino sente saudades dumas coisas. O banho de chuva é uma delas. Por quê? Porque a água que caia do céu era sinônimo de alegria. Naqueles anos do início da década de oitenta, o menino sonhava, brincava, sorria, e também chorava.

Em 1985 o rio Mossoró transbordou. Foi um inverno inclemente; uma enchente daquelas. As ruas do centro da cidade ficaram alagadas, e o comércio cerrou as portas. O menino estava lá, andando pelas ruas, com as águas batendo em sua cintura.

Muito jovem, ele começou a ajudar na padaria de seu pai em pequenas tarefas, condizentes com a idade, a exemplo de encher os pacotes com bolachas sete capas. Decerto, essa pequena labuta contribuiu sobremaneira para moldar o caráter do homem que enfrentou, e enfrenta, desafios.

Como toda criança, o menino cultivava sonhos. Quando se é jovem, na maioria das vezes não se sabe qual o rumo seguir. É preciso que os pais ou o responsável pela educação, mostre-lhe o caminho. Nem todos, infelizmente, podem contar uma história feliz sobre a sua infância.

E aí, com o passar do tempo, seguimos outros rumos. Encontramos pedras na estrada, dificuldades que embaçam a visão sobre o mundo. A vida, como sabemos, não é linear, já que existem sinuosas curvas no decorrer de nossa existência.

Entretanto, quando volvemos os olhos para a nossa infância, e lá tínhamos o mínimo de amor e de alegria, tem-se a certeza que, apesar de curta, a infância ocupa um pedaço no coração de cada um.

O menino, hoje adulto, aqui e acolá abre um tímido sorriso quando vê a chuva caindo, pois lembra daqueles banhos de chuva, quando, todo molhado, saboreava as bolachas sete capas da padaria de seu pai.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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domingo - 05/04/2026 - 08:10h

O amor é o bem maior

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa em estilo renascentista com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

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Na bela música lindamente cantada por padre Zezinho, um dos versos diz que “o amor é o bem maior, difícil de encontrar”. No mesmo sentido, são as palavras em 1 Coríntios, 13:13: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o amor.”

No mundo contemporâneo, ou melhor, desde sempre, o homem não procura vivenciar esse amor que traz paz para a alma e dá bons frutos. O homem, na sua ganância insaciável, vive a promover guerras por todos os cantos. Hoje mesmo, mundo afora, guerras matam milhares de pessoas; crianças padecem, choram, ficam órfãos.

Dizia-se, na época da pandemia do coronavírus, que a humanidade sairia melhor daqueles dias de isolamento social; que entenderia o real significado do amor, da empatia, do bem conviver em sociedade. O tempo, infelizmente, mostrou-nos a dura realidade da insensatez, da ausência de humanidade que continua a permear as relações entre os homens.

As dificuldades do cotidiano, a dura batalha para enfrentar a vida, fazem-nos seres humanos individualistas. É cada um por si. Nem precisamos ir longe. O Brasil, tomado de assalto por interesses de grupos privilegiados, há tempos atravessa uma crise econômica e social sem fim. Já estou careca de ouvir o mesmo lenga-lenga das promessas vazias.

Hodiernamente, com o advento das redes sociais, vivemos em mundos díspares. De um lado, o mundo real, não palatável. Doutro, o mundo virtual, no qual se posta uma vida que nem sempre está em sintonia com a verdade. Ademais, a internet se tornou uma terra sem leis, sem respeito, sem pudor. Agride-se o outro pelo simples prazer de agredir.

Por isso, em mensagem para a Quaresma deste ano, o Papa Leão XIV afirmou: “comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não se pode defender, às calúnias”.

É claro que não é fácil amar pessoas que nos fizeram algum mal; seria romantizar a dura e crua realidade da convivência humana, buscando um mundo utópico. No entanto, façamos a nossa parte. Tentemos cultivar o amor em nossos corações, pois o amor é o bem maior.

Assim, neste Domingo da Ressurreição do Cristo Jesus, base da fé, que possamos decantar e, sobretudo, inspirar-nos com a bela música entoada pelo padre Zezinho:

Foi esse amor que fez a sepultura abrir; e o meu Salvador em glória ressurgir; o amor é inspiração, na vida uma canção, o amor”.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 29/03/2026 - 07:50h

Você tem sede de quê?

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

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Um dos grandes sucessos da banda de rock nacional, Titãs, foi a música, Comida, de composição de Arnaldo Antunes e parceiros. A letra da música é composta por versos que instigam a nossa reflexão. “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”.

O que queremos da vida? Cada um de nós tem os seus sonhos. A realidade vivenciada por cada pessoa é diferente, pois as veredas da vida nos apresentam diversos lugares, e é natural buscar um melhor caminho.

Na verdade, as pessoas têm múltiplas oportunidades para seguir na vida, e cada uma escolhe a sua trilha. No entanto, não podemos esquecer que nem todos têm as mesmas oportunidades. Às vezes, as contingências da vida nos levam por caminhos outros, nem sempre desejados; a necessidade nos obriga, o pragmatismo exige.

Você tem sede de quê? Um bom emprego? Ser um profissional liberal bem-sucedido? Um empreendedor? Muitas vezes, porém, para quem não tem nem um prato com comida, ter o direito de se alimentar, pelo menos uma vez por dia, é suficiente; ter uma casa para se abrigar e pagar as contas em dia, então, seria um sonho. Enfim, ter um pouco de dignidade da pessoa humana.

A sede que temos, entretanto, pode ser em ver um país melhor, sem a corrupção e os privilégios que há tempos impregnam as entranhas do poder. Um país com saúde, segurança e educação de qualidade para todos. É, quem sabe um dia…

Há, também, aqueles que querem somente a tranquilidade da vida, sem pressa de chegar. Basta, tão somente, a companhia daqueles que amamos, aproveitando a vida como se gosta. Eu, por exemplo, quero brincar com o meu neto, ter a doce companhia dos meus filhos, o cuidadoso amor da minha mulher, um bate-papo leve com amigos e, por que não dizer, um dinheirinho no bolso. Mas, sobretudo, muita saúde pra curtir esses momentos.

Pois é, “a gente não quer só comer, a gente quer comer e quer fazer amor; a gente quer prazer pra aliviar a dor; a gente não quer só dinheiro, a gente quer dinheiro e felicidade”.

Você tem sede de quê?

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
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