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Quando o amor vai embora

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Tudo se reveste de fascinação e magia quando ele nos aparece (homem ou mulher) e uma voz diz assim bem no fundo do nosso coração: “Essa aí é a pessoa certa para você, é o grande amor que você sempre buscou. Agarre, cuide e ame com todas as suas forças! O resto foi apenas experiências, etapas do seu amadurecimento. Essa, no entanto, é aquela companhia para o fim dos seus dias, vai estar ao seu lado nos momentos alegres e também nos mais difíceis que vierem. Pode crer, sua cara-metade chegou. É sua alma gêmea, seu porto seguro”, diz a voz dentro da gente.

Ficamos de quatro, bobos, arriados. Enfim a felicidade bateu à nossa porta. As coisas mais triviais, mais simplórias, comuns, esses momentos se enchem de significado e satisfação. Qualquer lugar ou instante se torna memorável, precioso, pois o fato de estarmos juntinhos de quem amamos, geralmente de mãos dadas, é aquilo que de fato importa, conta. Compromissos outros nos separam momentaneamente, todavia contamos as horas para estamos com nossa bem-amada. Ou bem-amado. Enfim chega a noite e nos vemos na cama com esse ser maravilhoso, absoluta e insubstituível razão de nosso contentamento. Dormimos e acordamos colados com tal criatura cheia de virtudes e amor recíproco; os dias ficam cheios de encanto.

Fazemos planos em comunhão, gozamos de um relacionamento sem estresse, desgaste. A concórdia é completa. Uma vez ou outra nos ocorre beliscarmos a nós mesmos para descobrirmos se não estamos apenas sonhando. Mas não, nenhum delírio, nenhuma fantasia. A verdade e inegável e cristalina.

Então aquela mulher, ou aquele homem, torna-se nosso prumo, o centro de equilíbrio. Sentimo-nos firmes diante dos desafios que surgem. O cotidiano, por mais adversidades que nos traga, está sob controle. A saúde se fortalece. Não existe um problema para o qual não encontremos uma solução. Só porque sabemos que não mais nos encontramos sozinhos no mundo. A gente irradia felicidade, transborda bem-estar e otimismo. Cuidamos, além do espírito, do corpo; frequentamos uma academia de musculação; queremos estar bonitos para o outro ou outra.

Um dia, entretanto, somos pegos de surpresa. Uma profunda angústia tem início, o caos nos abocanha, o desespero nos domina. A cara-metade se põe diante de nós e, sem dó nem piedade, diz com frieza que não dá, que aquele amor abundante e inabalável simplesmente acabou, morreu, chegou ao fim. Pois é. E realmente nos abandona. Aí desabamos a chorar, ficamos sem chão. Nossa alma, há pouco radiante, cheia de certezas e confiança, planos e sonhos, agora está de joelhos; daí começa a rastejar, humilhar-se, implorar. Em vão, assim como um náufrago que se afoga nas próprias lágrimas, tentamos nos agarrar a frágeis argumentos, insistimos que ela (ou ele) pense melhor, que nos dê uma chance, que não se precipite, que não vá embora, que não nos vire as costas pelo amor de Deus! É inútil. A outra pessoa está decidida.

Não tem conserto. Nosso lindo castelo de amor e ternura tornou-se escombros. Aquele ser encantador, que superestimamos e divinizamos além da conta, talvez já tenha encontrado um outro alguém e não podemos fazer coisa alguma quanto a isso. De repente, então, tudo perde completamente a graça. O prazer e a importância de um monte de coisas súbito se anulam. Não existe uma só mensagem de ânimo, conselho de amigos, o carinho de familiares, nenhum tipo de reza que nos alegre ou conforte o espírito devastado. Afundamos num abismo existencial de onde não temos forças para sair. Fomos arrastados pelo caos violento de nossa mente e coração.

Nenhuma comida nos dá apetite. Perdemos inteiramente o gosto de saborear certos pratos. Sentimos vergonha de reencontrar determinados indivíduos e nos perguntarem por quem se foi. Há aqueles que se entregam à bebida, enchem a cara todo dia. Outros vão a psicólogos ou psiquiatras. As noites são um tormento. A insônia prevalece. Então vêm os remédios para dormir um sono ruim.

Após um longo tempo, contudo, nosso instinto de sobrevivência começa a reagir. Saímos da penumbra do quarto e fazemos as pazes com a luz do sol. Até que em uma inesperada saída (para um supermercado ou shopping center, por exemplo) nosso olhar esbarra em outro olhar. Então, embora com natural receio, começa tudo de novo. Agora é torcer que dessa vez seja para sempre.

Marcos Ferreira é escritor

O que é o amor?

A professora, escritora e palestrante Lúcia Helena Galvão mergulha na filosofia helênica e passeia pela mitologia grega, para responder a essa interrogação intrigante do entrevistador Murilo Gun: “O que é o amor?”

Ela lembra Platão: “A melhor coisa que podemos fazer por aqueles que amamos é crescermos como seres humanos.”

“Alguém que é profundo tem muito para dar.”

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Amar se aprende amando

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa
Arte ilustrativa

Hoje que te encontro a rir-se em desespero, carecendo de amparo e de equilíbrio, tenho a perder contigo estas velhas e repetidas palavras. Porque eu, assim como todo mundo, também sofri o meu bocado e magoei outros mais neste sempre desconcertante samba do crioulo doido: o amor. E quero dizer-te, por conhecimento de causa, que sei perfeitamente o que estou falando. Sim. A gente sofre, mas aprende.

Talvez o que eu te explique até possa consolar-te por alguns instantes, mas logo que reparares em volta e deres com a ausência de quem amas, tudo isto que te revelo perder-se-á pelo ralo escuro da incompreensão e do esquecimento. É assim o coração de quem ama, um terreiro de feitiços, magias, sortilégios, um rútilo salão de festas, um palco de inúmeros dramas e comédias, lágrimas e risos, dores e prazeres, sonhos e desenganos. Cada qual com a sua lombra e seu lundum, sua fala e o seu silêncio, seu fracasso e sua glória.

Diante dele, sobre ele ou debaixo dele — o amor —, não há quem não dance, quem não se dobre ou quem não vacile, quem não goze e quem não gema… O amor é cheio de caprichos, de vontades próprias. Não há quem não traga no rosto a cicatriz invisível de um beijo, a cruz do sonho morto fincada nas areias movediças do coração amante. Sei exatamente o que sofres neste minuto.

Porque eu, modéstia à parte, possuo doutorado sobre tal assunto. Sou Ph.D. em roedeiras e dores de cotovelo. Reconheço em teus olhos a mesma tempestade, o mesmíssimo ciclone que revolveu minhas entranhas e devastou esta minha alma condoreira.

Conheço muito bem o mau humor que ora te envenena a língua e amarga tuas palavras. Eu já tomei o chá amargo de todas as ervas e raízes do amor não correspondido, do amor sozinho, do sexo solitário. Eu também já catei papel na ventania, matei cachorro a grito e beijei de olhos abertos.

Sei o que é ser trocado por outro (ou outra, nalguns casos) e se sentir o cocô do cavalo do bandido, um zero à esquerda, um risco n’água, um fósforo molhado, uma lâmpada queimada, um cão sem dono. Eu também já quebrei a cara, já cuspi para cima e vi a menina dos meus olhos ir-se embora com o tal palminho de rosto das colunas sociais.

AÍ EU CUSPI NA CRUZ, joguei praga em santo, bati a porta e chorei mudamente embaixo dos lençóis. E só não briguei com Deus porque ele, apesar dos pesares, sempre aliviou a barra e nunca se enfezou comigo. Mas veja que o baque é forte, e a lombra do amor rejeitado já deixou muita gente de quatro.

Não mais me espanta que tenhas agredido o meu nome, condenado os meus dias e amaldiçoado as minhas noites. É que às vezes queremos lançar a culpa sobre alguém quando perdemos a compostura, o respeito, o amor-próprio, a autoestima, a dignidade, os brios, a razão e até nos descabelamos.

Assim nos vemos quando o cisne branco da felicidade (a nossa alma gêmea, nossa cara-metade, entres outras definições românticas) migra para bem longe dos nossos braços. De repente, não mais do que de repente, tudo é desventura e malogro… Faz-se da vida um filme em preto e branco e nada mais nos parece ter a menor graça ou importância.

Entretanto, não te esqueças de que tudo isso passa. Espera o mercurocromo do tempo atuar sobre as feridas da alma. Porque o coração, assim como o fígado, possui o poder de autorregenerar-se. O processo é doloroso e lento, mas é preciso não morrer da cura, como reza o soneto que te fiz.

Então, antes que o pandeiro se cale e as cinzas desabem sobre a quarta-feira, tira a tua dor da avenida que eu quero passar com o meu sorriso. Porque agora eu também já sei namorar, já sei “ficar” e tudo o mais que o diabo gosta.

Além disso, como diz o poeta Drummond, amar se aprende amando.

Marcos Ferreira é escritor

*Crônica publicada originalmente no dia 02 de maio de 2021.

Festival “A Praia é para Todos” acontece no próximo domingo

Praia das Emanoelas será local do evento (Foto: Arquivo/Divulgação)
Praia das Emanoelas será local do evento (Foto: Arquivo/Divulgação)

A inclusão vai invadir a praia. No próximo domingo (28) acontecerá a primeira edição do Festival “A Praia é para Todos”, iniciativa que teve início como um projeto, mas que cresceu e agora contará com uma ampla programação totalmente voltada às Pessoas com Deficiência (PcD).

As atividades serão realizadas na Praia das Emanuelas, em Tibau, em frente à barraca Beach Sea, a partir das 8h, se estendo ao longo de todo o dia.

São esperadas mais de 600 pessoas, de diferentes cidades potiguares. Já estão confirmadas, por exemplo, comitivas de municípios como Paraú, Campo Grande, Governador Dix-sept Rosado, Apodi, Baraúna, Olho D’água dos Borges, Caraúbas e Mossoró.

O público terá à disposição atividades como banho assistido com equipamentos adaptados, fit dance, música com os cantores André da Mata e Caroline Melo, práticas esportivas, jogos cognitivos, espaço para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), entre outras ações inclusivas. A realização é do Fórum de Mulheres com Deficiência de Mossoró e Região, com incentivo da Lei Paulo Gustavo, e com articulação do ativista social e ex-vereador Petras Vinícius.

“Com o apoio de pessoas que acreditam na inclusão como política de transformação social, o projeto ‘A Praia é para Todos’ se transforma agora em um grande festival, com uma programação diversa, ampla, pensada e preparada da melhor maneira para atender a todos. Além do banho assistido, contaremos também com muitas outras atividades, preenchendo de alegria e animação a Praia das Emanuelas”, pontuou o articulador.

Petras ainda destaca o apoio da Prefeitura de Mossoró na realização do evento. “Pela primeira vez, teremos oito ônibus saindo de Mossoró, com suporte da gestão municipal, permitindo que pessoas de diferentes instituições participem deste momento tão aguardado por todos. Será uma linda festa, um festival que ficará marcado na memória para sempre”, relatou.

O Festival “A Praia é para Todos” conta ainda com o apoio da Prefeitura de Tibau, Faculdade Católica do Rio Grande do Norte, Uern, Centro Cognitivo de Mossoró, TCM, Lume Indústria, Rede A Construtora, Mizu, Atacadão dos Ferros, Clínica Equilíbrio, Beach Sea, Life Aparelhos Auditivos, JPatrício Metais, Rotary Club Tibau, Farmafórmula, Castel, Cacim, Vale Norte, Sadef/RN, Cidade Verde – Casa Nova e Mzk Arquitetura, Design e Engenharia.

“Precisamos reforçar também a importância da parceria sempre frutífera com as instituições que defendem os direitos das pessoas com deficiência. Sem elas, o festival não seria possível. Agradecemos, de coração, todo o apoio da ADEFIM, Centro de Reabilitação, AMOR, ASMOR, APDA, AFATA, APAE, AAPD, Famílias que Lutam e Mulheres em Ação”, finalizou Petras Vinícius.

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Diário de um Voluntário – CCXLIII

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Francisco Edilson Leite Pinto Júnior e Viviane (Foto: redes sociais)
Francisco Edilson Leite Pinto Júnior e Viviane (Foto: redes sociais)

Confesso que não consegui dormir. “E se ela desistisse de vir comigo comer carne de sol com manteiga da terra o resto de sua vida?”…

A apreensão tomava conta de mim e também pudera, ela estava deixando seus 2 empregos, como nutricionista, no Rio, e ainda toda sua família para vir morar na cidade do sol.

Olhava a cada segundo para o relógio… o voo sairia às 09h, e eu, desde às 5:30h, estava esperando por ela, no Galeão.

De repente, a vejo – linda como sempre: um verdadeiro anjo que apareceu na minha vida e com seus os olhos de cristal, me enfeitiçou e assim, eu jamais soube o que seria a solidão…

Toda sua família estava lá, como que querendo passar a mensagem: “cuide muito bem dela, porque você jamais encontrará outro tesouro na sua vida!!”.

As lágrimas rolavam no seu rosto ao se despedir deles. E ali fiz uma promessa para mim mesmo: “cuidarei dela com o maior carinho do mundo e NUNCA deixarei o nosso amor envelhecer”…

Há 30 anos, exatamente, desde o dia 21/01/1994, que eu cumpro fielmente essa promessa. Somos grudados um no outro e contamos as horas para nos ver: um acorda e espera pelo outro para tomar café; andamos de mãos dadas, como dois namorados, nos beijamos em público e rimos, rimos muito das maluquices que nos acontece, como duas crianças que sabem que esse amor não acabará jamais…

Nossa história é um “Caso do acaso / Bem marcado em cartas de tarô. Meu amor, esse amor/ De cartas claras sobre a mesa, é assim … Signo do destino / Que surpresa ele nos preparou / Meu amor, nosso amor / Estava escrito nas estrelas / Tava, sim”.

Escrito nas estrelas e o que é melhor: escrito mais ainda no coração das nossas almas… E por isso, viveremos infinitas vidas juntos!

Te amo, minha bonequinha!!!

*Para Viviane Silveira Pinto

Francisco Edilson Leite Pinto Júnior é professor, médico e escritor

O bem volta!

Por Carlos Santos

(Imagem: Reprodução/Shutterstock)
(Imagem: Reprodução/Shutterstock)

Costumo dizer que “o bem volta.” Muitas vezes nem o percebemos, porque ele é simples, espontâneo e de coração. Não tem fatura, não precisa ser visto. Vem do fundo d’alma.

“E o mal?” – podem me perguntar. Fico com o ensinamento ancestral que a vida tem-me confirmado: “O mal por si só se destrói.”

O que nos confunde muito é a crença de que ele, o bem, deva voltar pelas mãos de quem de algum modo ganhou nossa generosidade ou compaixão. Teve o ombro. Por gratidão, digamos.

Seria uma espécie de reconhecimento ou materialização espiritual do toma lá, dá cá.

Ele pode bater à sua porta por outras mãos e formas, não necessariamente por quem você socorreu.

É comum que nem o identifiquemos de imediato ou jamais.

Mas, ele volta.

Mais ele volta.

E se a propaganda do que é feito não for a essência do gesto, para não se revelar um negócio, falso, eis o bem se preparando para retornar;

Principalmente, se nos sentimos mais felizes em ofertá-lo do que aquele que o recebe.

O bem está nas mãos de quem acolheu meu filho com carinho no seu primeiro dia de emprego, mesmo sem saber de minha existência;

Aparece no estresse do trânsito, quando o outro em vez de buzinar de ódio ao perceber uma manobra indevida, se aquieta – compreensível. Perdoa-nos;

Chega no sorriso sincero de quem me atende na lanchonete simples, não apenas por obrigação ou marketing, mas porque vê um rosto angustiado;

Está na oração reservada e sem voz de quem lembra de mim, de você, sem que saibamos, colocando-nos em seu pedido de proteção espiritual;

O bem tem a cara dos que me elegeram pai, não por orfandade, mas porque minha carência era bem maior;

Surge de supetão, assim mesmo de repente, de onde você menos espera, para dividir aquele restinho de refrigerante e o cachorro-quente contigo, na porta da escola;

Acolhe-nos através do amigo que nos faz irmão, pois nosso sangue é universal no sentimento;

Esse bem que conheço não estica o braço diante do semáforo, no vermelho, para deixar tilintar algumas moedas nas mãozinhas encardidas da criança faminta;

Nem pense em encontrá-lo no Instagram, Facebook, Twitter… Lá ele não aparece, por não ter necessidade de se exibir;

E fique certo: jamais existirá na primeira pessoa, visto que não aprendeu a conjugar a vida desse jeito;

O bem volta.

Às vezes a gente nem desconfia…

Mas, ele volta.

Mais ele volta.

O bem vai voltar, mas não porque doei o que me sobrava inútil: a camisa desbotada, o tênis esfolado ou o restante da quentinha que não consegui comer por completo;

Ele voltará porque resolvi dividir para lhe suprir, me desnudei para lhe vestir, renunciei para permitir que brilhes, estiquei o tapete em vez de puxá-lo à sua passagem, à sua vez, ao seu direito de vencer.

E se o bem não voltar?

O bem volta.

Carlos Santos é criador e editor do Blog Carlos Santos (BCS) e autor dos livros “Só Rindo – A política do bom humor do palanque aos bastidores (I e II)”

A intolerância incurável e a normalidade do ódio

medo, prisão, ódio, tensão, angústia, correntes, portaSegundo um campo da psicanálise, a intolerância é “incurável”. Porém, pode ser controlada.

Alojado em vários grupos de WhatsApp com tendências bolsonarista ou lulista, não coloco em dúvida essa corrente de pensamento, a partir do que testemunho passivamente. Menino, eu vejo.

A frequência com que cada lado vomita impropérios e despeja conteúdo contra o opositor, é revelador do vínculo umbilical entre ambos. Há maior prazer em insultar o ídolo alheio do que exaltar seu amo.

O oposto do amor é o ódio? Vários pensadores asseguram que não. Seria a indiferença.

Como leigo no tema, diletante no conhecimento cientificista, mas metódico na observação em considerável tempo de vida, raciocínio que o indiferente não é alguém imune ou liberto de quem odiou ou odeia. Apenas superou a dominação.

O intolerante está doente.

Se incurável, que cada um pelo menos consiga administrar sua normalidade.

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Amar se aprende amando

Por Marcos Ferreira

Hoje que te encontro a rir-se em desespero, carecendo de amparo e de equilíbrio, tenho a perder contigo estas velhas e repetidas palavras. Porque eu, assim como todo mundo, também sofri o meu bocado e magoei outros mais neste sempre desconcertante samba do crioulo doido: o amor. E quero dizer-te, por conhecimento de causa, que sei perfeitamente o que estou falando. Sim. A gente sofre, mas aprende.

Talvez o que eu te explique até possa consolar-te por alguns instantes, mas logo que reparares em volta e deres com a ausência de quem amas, tudo isto que te revelo perder-se-á pelo ralo escuro da incompreensão e do esquecimento.emojis-sorriso-com-olhos-de-coracao-aplique-emojisÉ assim o coração de quem ama, um terreiro de feitiços, magias, sortilégios, um rútilo salão de festas, um palco de inúmeros dramas e comédias, lágrimas e risos, dores e prazeres, sonhos e desenganos. Cada qual com a sua lombra e seu lundum, sua fala e o seu silêncio, seu fracasso e sua glória.

Diante dele, sobre ele ou debaixo dele — o amor —, não há quem não dance, quem não se dobre ou quem não vacile, quem não goze e quem não gema… O amor é cheio de caprichos, de vontades próprias. Não há quem não traga no rosto a cicatriz invisível de um beijo, a cruz do sonho morto fincada nas areias movediças do coração amante. Sei exatamente o que sofres neste minuto.

Porque eu, modéstia à parte, possuo doutorado sobre tal assunto. Sou Ph.D. em roedeiras e dores de cotovelo. Reconheço em teus olhos a mesma tempestade, o mesmíssimo ciclone que revolveu minhas entranhas e devastou esta minha alma condoreira.

Conheço muito bem o mau humor que ora te envenena a língua e amarga tuas palavras. Eu já tomei o chá amargo de todas as ervas e raízes do amor não correspondido, do amor sozinho, do sexo solitário. Eu também já catei papel na ventania, matei cachorro a grito e beijei de olhos abertos.

Sei o que é ser trocado por outro (ou outra, nalguns casos) e se sentir o cocô do cavalo do bandido, um zero à esquerda, um risco n’água, um fósforo molhado, uma lâmpada queimada, um cão sem dono. Eu também já quebrei a cara, já cuspi para cima e vi a menina dos meus olhos ir-se embora com o tal palminho de rosto das colunas sociais.

AÍ EU CUSPI NA CRUZ, joguei praga em santo, bati a porta e chorei mudamente embaixo dos lençóis. E só não briguei com Deus porque ele, apesar dos pesares, sempre aliviou a barra e nunca se enfezou comigo. Mas veja que o baque é forte, e a lombra do amor rejeitado já deixou muita gente de quatro.

Não mais me espanta que tenhas agredido o meu nome, condenado os meus dias e amaldiçoado as minhas noites. É que às vezes queremos lançar a culpa sobre alguém quando perdemos a compostura, o respeito, o amor-próprio, a autoestima, a dignidade, os brios, a razão e até nos descabelamos.

Assim nos vemos quando o cisne branco da felicidade (a nossa alma gêmea, nossa cara-metade, entres outras definições românticas) migra para bem longe dos nossos braços. De repente, não mais do que de repente, tudo é desventura e malogro… Faz-se da vida um filme em preto e branco e nada mais nos parece ter a menor graça ou importância.

Entretanto, não te esqueças de que tudo isso passa. Espera o mercurocromo do tempo atuar sobre as feridas da alma. Porque o coração, assim como o fígado, possui o poder de autorregenerar-se. O processo é doloroso e lento, mas é preciso não morrer da cura, como reza o soneto que te fiz.

Então, antes que o pandeiro se cale e as cinzas desabem sobre a quarta-feira, tira a tua dor da avenida que eu quero passar com o meu sorriso. Porque agora eu também já sei namorar, já sei “ficar” e tudo o mais que o diabo gosta.

Além disso, como diz o poeta Drummond, amar se aprende amando.

Marcos Ferreira é escritor

Onde está o amor?

Por Inácio Augusto de Almeida

Era uma vez um homem que sentiu vontade de saber onde estava o amor.

Ele sempre ouvia falar do amor. Diziam-lhe que o amor era lindo, muito mais lindo do que o mais bonito pôr do sol, mais radiante do que uma manhã de primavera.

Da bondade do amor também lhe falaram. Só que ninguém nunca lhe disse onde estava o amor.

E o homem saiu a procurar…

Perguntou a uma estrela onde estava o amor e a estrela lhe respondeu que o amor não estava com ela, mas que ele perguntasse à lua. Quem sabe se a lua, muito maior do que ela, pequenina estrela, não saberia responder onde estava o amor?

O homem agradeceu e seguiu o conselho da estrela. Enfim, não é a lua a rainha dos namorados? Então a lua deve saber onde está o amor. Talvez o amor esteja com ela.

– Lua, disse o homem, você que é o ornamento do céu, diga-me onde está o amor.

A lua olhou demoradamente para o homem e numa voz meiga, respondeu:

– Não sei meu bom homem, não sei. Por que você não pergunta ao mar? O mar é muito maior do que eu. Ele deve saber onde está o amor.

O homem não descansou sequer da viagem que fizera da estrela até a lua. Começou logo a caminhar em direção ao mar. E chegando ao mar, perguntou:

– Mar, onde está o amor? A lua me disse que você sabe onde está o amor.

O mar quase se zanga e numa voz rouca respondeu ao homem:

Se a lua não sabe, ela que é a deusa dos namorados, como posso eu saber, eu que vivo aqui preso a receber toda a sujeira do mundo? Eu também quero saber onde está o amor. Descubra logo, homem, descubra antes que os seus semelhantes acabem comigo com tanta sujeira que jogam em mim.

O homem desistiu de caminhar. Não, não iria sair mais perguntando a ninguém. Sentou-se numa pedra e, desesperado, começou a chorar.

Quando chorava muito, já desiludido de encontrar o amor, eis que uma abelha, bem pequenina, pousa no seu ombro.

Por que você está chorando, meu bom homem?

– É porque procurei o amor em todos os lugares e ninguém soube me dizer onde encontrá-lo. Eu preciso encontrar o amor. Eu preciso!!!

– E onde você foi procurar o amor?

– Procurei nas estrelas, na lua, no mar.

– Você procurou nos lugares errados. Você perguntou onde estava o amor a quem não sabia onde ele estava.

Surpreso e menos triste, o homem perguntou a abelha:

– E a quem eu devia perguntar? A você que é tão pequenina? Se a estrela, a lua e o mar não me souberam dizer onde está o amor, como pode você, tão pequenina, saber?

– Não, eu também não sei, mas você, você meu bom homem, você sabe onde está o amor. Por que você não pergunta a você mesmo onde está o amor?

O homem parou de chorar. Sentiu o seu coração dizer que o amor estava dentro dele mesmo. Finalmente tinha descoberto o amor. E ficou a imaginar o quanto tinha procurado em vão, o quanto tinha sido tolo ao procurar fora uma coisa que estava dentro do seu coração. E começou a rir satisfeito, feliz. Tinha descoberto onde estava o amor.

Sorridente e agradecido deu a mais linda flor que encontrou à pequenina abelha e saiu saltitante, amando a tudo e a todos.

– Muito obrigado, abelhazinha, muito obrigado.

E a abelhinha se afastando no seu lento voo olhou para trás para gritar:

– Avise aos outros homens, avise aos outros homens, avise a todos…

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

A aula de amor

Por Francisco Edilson Leite Pinto Junior

À tarde do dia 15/06/2012 ficará marcada para sempre na minha memória. Interessante é que o meu corpo, cansado do plantão noturno, no dia anterior, na Liga contra o Câncer, dizia: “não vá!”. Mas, algo muito maior, ficava sussurrando no meu ouvido e me empurrava literalmente para aquele encontro: “Vá! Saiba que esta será uma oportunidade única. Imperdível!”.

Não sei se foi com Malba Tahan que li que há quatro coisas que não voltam atrás: a pedra atirada; a palavra dita; o tempo que passou e a ocasião perdida. Então, não poderia perder esta ocasião de estar na companhia de meus três professores de pediatria: Dr. Heriberto Bezerra, Dra. Zélia Fernandes e Dr. Nei Fonseca.

Os dois últimos, juntamente comigo e o jornalista Leonardo, da oficina da notícia, faríamos uma entrevista – que na verdade virou uma verdadeira aula de amor -, com o Prof. Heriberto Bezerra que passara, recentemente, a condição de membro EMÉRITO da Academia de Medicina do RN.

Logo na primeira pergunta que fiz, disse-lhe que iria contar uma história, de pronto o Prof. Heriberto respondeu: “Vamos ver se o peso da idade me permitirá lembrar!”. É: 87 anos, não são 87 dias… Aí surgiu, no canto esquerdo da varanda, uma voz: “Pode deixar que eu estou aqui para lhe ajudar a lembrar de tudo!”. Era a voz, doce e meiga, de D. Maria, esposa do professor Heriberto.

Deu para perceber, então, que entrevistar o Professor Heriberto era também entrevistar a sua companheira de mais de 65 anos, pois ali, havia duas almas num só corpo. Ali, a frase de Nietzsche – “terei o prazer de conversar com ela quando for velho…”- fazia todo o sentido.

Meu Deus! Agradeci por este momento inesquecível! As perguntas iam sendo feitas, mas o meu interesse, era saber quando todo aquele amor tinha começado: “Sempre fui radical”, dizia o professor Heriberto, “ai, participei de uma greve, quando estudante na faculdade de medicina, em Recife, em 1942, contra o professor de patologia que tinha uma didática péssima. Então, após a greve só tive duas escolhas: sair da faculdade ou ir transferido para Salvador”.

Bendita greve! Bendito Professor de patologia e a sua péssima didática, pois foi, na cidade de todos os santos, que o amor brotou. E continua até hoje. Dava para perceber, a alegria estampada nos olhos dos dois a cada revelação, a cada caso contado, a cada história. Era uma verdadeira cumplicidade que o tempo não fora capaz de destruir; é isso mesmo: “O Amor tudo crer, tudo espera, tudo suporta…!”.

E meninos, eu vi! Vi o amor do Dr. Heriberto pela sua profissão (que contagiou os eternos alunos: Dr. Nei Fonseca e a Dra Zélia Fernandes a escolherem a pediatria como especialidade); vi o seu amor pela docência; vi o seu amor pelo seu time de coração, o America; vi o seu amor pela academia de medicina (“Patrimônio das minhas vaidades”, como ele bem disse), mas vi, principalmente, o seu amor pela sua companheira de anos, D. Maria.

É lógico que não poderia sair dali sem saber qual o segredo de tanta paixão e tanto amor, sentimentos tão raros entre os casais hoje em dia. “O segredo?! Acho que foi deixar que ela sempre mandasse em tudo!”, afirmou o velho mestre.  Todos nós rimos: mestre, alunos e a sua amada. E por fim, a grande revelação: “Sou um homem feliz!”. Também pudera: amando e sendo amado, até hoje, não poderia ser diferente.

Chegando ao carro, agradeci a Deus por essa transfusão de energia que tinha recebido. Eu, que depois de duas semanas vivenciando momentos tão difíceis, onde a ingratidão, a incompreensão e a decepção estavam rondando a minha alma, recebia como um bálsamo dos deuses, esta senhora aula sobre a vida, sobre o amor.

É claro que fiz logo um pedido a Deus: “Oxalá, Meu Pai! Permita-me viver com a minha adorada esposa o mesmo tempo! Permita-me que as projeções do estimado professor Carlos Dutra, de que viverei 92 anos estejam certas, mas que só farão sentido se for ao lado da minha amada Viviane!”.

Para quem ainda não sabe, minha Viviane também surgiu de uma forma interessante na minha vida.

Estava iniciando a minha segunda residência, a de oncologia no INCA (Instituto Nacional de Câncer), quando ficou determinado que teríamos também que estagiar nas outras unidades, fora do INCA. Como sempre sou do contra… logo me revoltei, ensaiei até uma greve, mas o bom senso – do meu colega de turma Luciano Luís -, prevaleceu: “Homem, deixe de besteira! Quem sabe lá não vamos aprender mais do que aqui?…”.

E lá vou eu para o Hospital de Oncologia, próximo à rodoviária do Rio de Janeiro. E num domingo ensolarado, tive o primeiro contato com a minha adorada. Ela apareceu no refeitório e eu nunca mais a deixei. Nem poderia! Afinal, Viviane é a minha outra metade que veio me completar. Tem razão Mario Quintana ao dizer: “O amor é quando a gente mora um no outro”.

Viviane é uma verdadeira garrafa de náufrago jogada ao mar, e ao encontrá-la, salvei a mim mesmo. Ela é aquele “anjo lindo que apareceu com olhos de cristal; me enfeitiçou… e meu coração quando está ao seu lado, fica louco de satisfação: solidão nunca mais!”.

Dia 02 de julho de 2012, fará vinte anos do nosso primeiro beijo. E que me perdoem os meus estimados enólogos Prof. Elmano Marques, José de Medeiros Jr., Gilvan Passos e Ivan Brasil, pois não há Cabernet Sauvignon, Pinot Noir, (nenhum Barolo, nenhum Brunello), nada que suplante o aroma e o sabor daquele beijo…

Pois é, meu estimado professor Heriberto Bezerra: muito obrigado por mais uma aula; e a você minha adorada Viviane, muito obrigado: por me fazer conhecer a felicidade! Por me dar o maior tesouro, Lucas! Pelo seu amor, pois é através dele que consigo respirar…

Francisco Edilson Leite Pinto Junior – Professor, médico e escritor.