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Gratidão

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

É lugar-comum dizer que a gratidão é a memória do coração. No entanto, ao finalizar o ano de 2025, eu não posso deixar de agradecer por tudo que vivi neste ano que se encerra.

Como todo e qualquer ano de minha vida, enfrentei desafios, preocupei-me com as dificuldades do cotidiano. Chorei. Sorri. Ao lado da minha família vivenciei momentos de imensa felicidade; o nascimento do meu primeiro neto encheu o meu coração de amor, trazendo mais alegria ao nosso lar.

Não há nada melhor para os pais do que presenciar os filhos trilhando os seus caminhos, lutando e alcançando objetivos. Nesta vida, não se consegue nada sem uma batalha diária; viver, sabe-se, é uma peleja medonha.

Vencer na vida, entretanto, não é somente conseguir um bom emprego ou ser realizado profissionalmente. Vencer na vida, sobretudo, é ser um homem e uma mulher de bem, com caráter e honestidade, pautando-se por valores, cultivando-se bons sentimentos. “Na verdade, quem luta apenas na esperança de bens materiais não colhe nada que vale a pena viver”, disse o escritor Antoine de Saint Exupéry.

Assim, viver o presente é o que importa. Se ontem erramos o caminho, que hoje possamos mudar o rumo e seguir por uma nova rota. O futuro? Coloque-o nas mãos Deus.

Em um mundo repleto de desamor, intolerância, vaidade, egoísmo e violência, é preciso sabedoria e serenidade para se blindar e conduzir a vida. Cada um sabe muito bem o que enfrentou este ano. Com certeza, foram inúmeras batalhas, dificuldades de todos os tipos.

Porém, apesar dos pesares, estamos vivendo, construindo e narrando a nossa história e, o mais importante, com saúde.

Gratidão. Que 2026 seja repleto de bênçãos para todos nós.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

Ariano Suassuna e o aristocrata pelo espírito

Por Honório de Medeiros

Acabei de ler a apresentação que Ariano Suassuna, fez da obra de um seu parente, Raimundo Suassuna, acerca da genealogia da família que lhes deu o sobrenome (“Uma Estirpe Sertaneja Genealógica da Família Suassuna”; A União; 1993; João Pessoa).

Ariano, a quem Raimundo Suassuna pedira que fizesse uma apresentação “simpática”, de seu livro, praticamente escreveu um ensaio onde, entre outras coisas, abordou duas coisas que me chamaram a atenção: seu orgulho por ser um “Suassuna”; e o seu conceito de “aristocracia”.

É preciso que se diga que o orgulho de Ariano com o fato de pertencer a essa lendária família nordestina é decorrente da intensa, profunda, ligação que ela tem com o Sertão.

Ariano Suassuna entende que existe uma aristocracia pelo espírito, que é profundamente diferente daquela resultante de títulos nobiliárquicos.

Ele estabelece essa diferença confrontando o “homem” com o “cortesão”. Neste caso, chega a manifestar, implicitamente, um verdadeiro asco dos títulos comprados, recebidos por favores prestados através de subserviência, barganhados, ou oriundos de qualquer outra forma utilizada por serviçais do poder que caracterizam, em última instância, o comportamento dos alpinistas sociais.

A verdadeira aristocracia, para Ariano, é aquela adquirida pelo espírito. Essa nobiliarquia é decorrente de uma postura moral ilibada, aliada a um exponencial senso de honra e vocação pública.

Aristocrata, então, seriam Albert Schweitzer, Gandhi, Albert Sabin, entre outros. Titãs morais, verdadeiros cavaleiros da távola redonda, homens sem mácula e sem medo, sempre à disposição dos injustiçados ou a serviço de causas mais que nobres.

Individualidades poderosas, que se recusaram ser conduzidas, cooptadas, amordaçadas. Não aceitam ser a folha que o rio leva para o mar; muito antes, pelo contrário, assemelham-se às represas que domam a marcha das águas.

Essa aristocracia pelo espírito de Ariano é fecundada, em termos ideológicos, por um socialismo que lembra o cristianismo primitivo em sua perspectiva ética.

É como se ele acreditasse que a verdadeira revolução seria aquela promovida através da encampação da dignidade como único fulcro da conduta humana, legitimando-a.

É um contraponto dialético à ética burguesa que exposta a olho nu por suas contradições básicas, mostra a conduta humana amesquinhada por obra e graça da lógica do capitalismo. Esse burguês, caricato, cortesão, jamais diria: “ao Rei tudo, menos a honra”, mas, sim, “à elite tudo, até o bolso”.

Trata-se de uma crítica ética ao capitalismo. A busca do lucro, revestida pelo fetiche ideológico da “competição”, da “livre concorrência”, amesquinha o homem que aceita participar de tal jogo.

Um aristocrata pelo espírito, cuja conduta é calcada na honra, no senso de justiça pública, recusa-se a aceitar uma competição cujo resultado final seja a obtenção de um ideal tal como, por exemplo, a obtenção de lucro.

Talvez haja algo de quixotesco na dimensão humana de Ariano Suassuna. É interessante, entretanto, observar o quanto sua concepção filosófica, nesse aspecto, aproxima-se daquela professada por Saint-Exupèry, aristocrata pelo espírito e por genealogia, em seus escritos de “Cidadela”, livro póstumo. E, por outra, do “bushido”, o caminho do samurai.

Note-se que Yukio Mishima, em seu comentário acerca do “Hagakure”, um manual escrito por um samurai, para samurais, critica asperamente os nobres por ele chamados de “aristocratas de contas de despesas”. Ou seja, tanto para Ariano, quanto para Saint-Exupèry e Mishima, o homem, assim considerado, é aquele que transcendeu o apequenamento, o amesquinhamento inerente à ética do capitalismo, da qual nos fala Max Weber, e tornou-se um aristocrata pelo espírito. Aristocrata pelo Espírito: Não considerei correto o título “aristocrata do espírito”.

Difícil dizer por quê. Acho que “aristocrata pelo espírito” expressa com maior clareza a ideia de uma nobreza obtida através do espírito – tudo aquilo que caracteriza o humano, como a razão, incluindo, inclusive, o seu pendor místico.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN