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As redes sociais e o filtro da virtude

capa-redes-2Por Fred Rêgo

Ah…  As tão supérfluas e necessárias ´Redes Sociais` – como viver sem elas? Não sei responder, mas posso dizer que eu já sei viver sem depender delas – o que já é um grande avanço nos dias de hoje –  e,  como tudo na vida, elas têm suas vantagens e desvantagens – quem irá perceber uma ou outra é obrigatoriamente você mesmo, seja consciente ou inconscientemente.

Sendo direto, é você quem controla suas ´redes sociais`, da mesmíssima forma como as suas ´vontades`, ou se deixa ser controlado por elas –, simples assim.

O assunto abre um leque de temas bastante interessantes para o debate. Abro aqui um parêntese para a série da Netflix – “Black Mirror”, que aborda no contexto do mundo extremamente imerso nas redes sociais, a extrapolação das reações humanas por meio de uma ficção científica instigante.

Contudo, eu vou me deter a um  tema estritamente característico da espécie humana, e, que os “Digitais Influencer´s” e “Artistas” sabem muito bem explorar: a necessidade de se mostrarem virtuosos.

Preste atenção:  eu não disse quem eles têm necessidade de SEREM virtuosos mas de SE MOSTRAREM virtuosos – existe um abismo moral entre essas duas sentenças -, é impossível não fazer referência a São Mateus: “quando deres esmolas, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita. Assim, a tua esmola se fará em segredo; e teu Pai, que o vê escondido, recompensar-te-á” (Mateus 6:3-4).

Acredito que seria melhor se tais ´influencers` praticassem o que propagandeiam aos quatro ventos, mas não é isso que a realidade inevitavelmente nos faz perceber: são categóricos com o “Fique em casa” – desconhecendo ou mesmo não se importando com a impossibilidade da maioria da população aderir a essa grife – mas não perdem a oportunidade de um feriadão em Fernando de Noronha, Jericoacoara etc.; pregam incansavelmente a respeito da importância do  “Lockdown” irrestrito – sem se preocuparem com o aparato comprobatório da tese – mas vão às suas redes sociais reclamarem por que seu box de Crossfit será fechado e/ou sua praia interditada, impossibilitando sua prática do surf.

O mundo moderno se transformou em algo que nenhuma distopia ´orwelliana ou ´huxleyana´ conseguiu prever – a Verdade virou algo subjetivo: existem até empresas que ´checam-na` e, ironicamente, que perdem ações judiciais por propagarem mentiras.

Nesse bojo, o PARECER virtuoso arregimenta um número muito grande de seguidores, que muitas vezes, inconscientemente, chegam a acreditar nessas “narrativas do bem”, mas, como nos exemplos do parágrafo anterior, são surpreendidos com a Verdade.

NESSE CONTEXTO, me refugio no conhecimento antigo, onde, no início, nossa civilização resolveu firmar os pés e apoiar a alma, exatamente na Grécia antiga e em Jerusalém. Em torno de 330 a.C., Aristóteles ensinava ao seu filho Nicômaco a Ética:

“É, portanto, correto dizer que alguém se torna justo realizando ações justas e moderado realizando ações moderadas; e ninguém poderá ter sequer uma mera perspectiva de se tornar bom sem realizá-las. Mas a maioria dos seres humanos omitem-se quanto a essa realização e se dedicam à discussão [da virtude], imaginando que filosofam e que isso os tornará bons; são como pacientes que ouvem meticulosamente ao que o médico diz, mas deixam completamente de cumprir suas orientações”. (ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco, 4ª edição, p. 89. Editora Edipro.).

E sem esquecer da nossa alma, tomemos bastante atenção nas palavras de São Paulo:

“Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas por atos e em Verdade. Nisto é o que conheceremos se somos da verdade, e tranquilizaremos a nossa consciência diante de Deus, caso nossa consciência nos censure, pois Deus é maior do que nossa consciência e conhece todas as coisas”. (Primeira epístola de São João, 3 : 18 – 20).

A intenção desse pequeno texto é fazer você, assim como eu que convivemos nesse campo de batalhas de narrativas que se tornaram as redes sociais, refletir e se questionar a respeito das fontes que você toma como referência – elas vivem o que pregam? E quando falo em ´campo de batalha` é de uma forma bastante positiva, pois o ambiente democrático necessita dessa constante para que, por meios antagônicos, cheguemos a conclusões discutidas e acatadas pela maioria.

Vejo muita gente, incluindo os ´influencers´, apontando o dedo para a “polarização” política no Brasil, mas vamos lembrar que sem ela não é possível a discussão verdadeira.

Deixo aqui um questionamento:  a quem interessa o fim da discussão política?

Fred Rêgo é acadêmico de Direito e engenheiro civil

Olavo de Carvalho…

Olavo, o sofista (Foto: arquivo)

Por François Silvestre

..o bazófio. Essa figura tem planado nas nuvens da marginalidade filosófica. Aquele tipo de pensador que chupa conceitos clássicos de pensadores consagrados, distorcendo-os ou podando-os. Uma esperteza bem comum entre leitores de si mesmos, no exercício aprendido e apreendido nas mumunhas do sofisma. O sofista foi o primeiro marginal da filosofia.

O arauto da bazófia.

Essa é a escola clássica de Olavo de Carvalho. Não deixa de ser clássica, posto que é o classicismo da desonestidade filosófica.

Sua incursão pelo aristotelismo não passa da conclusão primária de que até os macacos intuem que o conjunto das bananas é maior do que o conjunto das bananas maduras. Ele não conseguiu sequer alcançar o aproveitamento que Tomás de Aquino fez de Aristóteles, na Escolástica. E muito menos da incorporação ao tomismo do pensamento de Platão, que o fez Santo Agostinho, na Patrística.

Olavo de Carvalho é um analfabeto “erudito”. Um inútil à humanidade, que vive do financiamento dos seus discípulos e de organizações fascistas espalhadas pelo mundo. Nunca deu um nó num saco de estopa.

Fala do Brasil, mas foge daqui como o cão da cruz.

Sua pátria é o dinheiro e sua coragem é um fuzil que atira em alvos de papelão.

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Estou muito bem

Algumas pessoas me perguntam por que sou arredio a debates em redes sociais. Por uma questão de civilidade e saúde mental, respondo-lhes.

Não tenho linguagem para sustentar altercações baseadas em insultos, recalques e democracia da opinião única.O silêncio me dá paz.

Estou muito bem.

Redes sociais são um péssimo ambiente para discussões. Assemelham-se ao trânsito, em que qualquer um infla músculos e verbo, numa coragem que talvez não tivesse em outro espaço ou contexto.

A arte de ter razão, aqui lembro Schopenhauer, é arrimada na estupidez.

Sei bem que essa interação gera mais seguidores, projeção e acessos.

Esses ativos não me atraem tanto, que fique claro.

Sou iluminista por convicção e exercício diário, o que por si só contraria essa selvageria virtual entre seres que sabem ‘tudo’ sobre tudo.

Descobri com o tempo que minha Santa Mãezinha, Dona Maura, sempre foi aristotélica: “A virtude está no meio”. Segundo ela, na moderação, na tolerância. Na prática de contar até dez, até 1000, para não perder a cabeça.

Aqui, não. Nesse mundo, aluado tem fãs.

Mentiria se lhe falasse que não gostaria de ter 1 milhão de pessoas me acompanhando.

Quem tem seguidor é líder de seita.

Se milhares me ouvem e, às vezes me escutam, ótimo. Se esperam a ofensa pela ofensa: ‘peguem o beco’.

Sei ouvir.

Falem, por favor.

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Falácia do espantalho

Por Odemirton Filho

Na defesa de uma tese ou de uma ideia é fundamental que o expositor apresente argumentos para basear seu trabalho ou raciocínio em socorro daquilo que entende correto.

Sendo assim, “argumentar é a capacidade de relacionar fatos, teses, estudos, opiniões, problemas e possíveis soluções a fim de embasar determinado pensamento ou ideia”.

Com efeito, apenas emitir uma opinião acerca de um determinado assunto não a torna digna de certeza ou validade, porquanto estamos diante de uma crença do interlocutor. Falta, no mais das vezes, argumentação para dar substrato ao que se estar a defender.

Nesse diapasão, estamos vivenciando, sobremaneira, nas redes sociais, um debate infrutífero, em alguns casos, despido de qualquer cobertura de razoabilidade ou atividade argumentativa.

O que se presencia é um acinte a boa regra de convivência na sociedade. Não se discutem fatos, agride-se as pessoas sem o menor receio. O que importa é contrapor-se ao seu interlocutor, mesmo com fragilidade de argumentos.

É a falácia do espantalho.

Falácia é uma palavra de origem grega utilizada pelos escolásticos para indicar o silogismo de Aristóteles (silogismo é um tipo de argumento lógico que aplica o raciocínio dedutivo para extrair uma conclusão de duas ou mais proposições, que se supõe sejam verdadeiras).

É, desse modo, entendida como qualquer erro de raciocínio, seguido de uma argumentação inconsistente

“A metáfora usada para dar nome a essa falácia é bastante expressiva. Ela faz referência a uma estratégia de ataque ou rebelião que leva grupos de pessoas a criar uma espécie de boneco de palha do líder do grupo a ser atacado e transferir simbolicamente o ataque da pessoa para o boneco que a representa”.

“Em contextos de argumentação, essa é uma estratégia que consiste em substituir a opinião real sustentada por um adversário por uma versão distorcida dessa opinião, ou seja, criar um espantalho da opinião real, e em seguida, refutá-la ao invés da opinião real”.

Ou seja, usa-se o ardil para distorcer aquilo que o outro disse a fim de tirar a credibilidade do explanador. Se esse não coaduna com o que pensa, o debatedor procura encontra um caminho inverso, ao contrário do que foi efetivamente dito.

Na campanha eleitoral que findou, essa falácia foi devidamente usada, seja por alguns candidatos, seja por seus eleitores. Não se apresentava um contraponto ao que foi dito, procurava-se desqualificar o opositor, muitas vezes, atacando sua honra, esquecendo de apresentar argumentos com o mínimo de plausibilidade.

As redes sociais estão aí como prova. Mesmo pós-eleição o que vale é achacar, desmerecer, ofender, sejam em comentários ou em um diálogo.

Acrescente-se que a falácia não é somente na seara política. Toda e qualquer opinião contrária ao que se pensa, em simples conversas, é motivo para discordar e atacar de forma insubsistente.

A dialeticidade que deve servir de base para impugnar um arrazoado, cedeu espaço para opiniões destituídas de qualquer fundamento. Fala-se o que se pensa, sem sopesar as palavras ou o vazio de seus argumentos.

Qualquer palavra dita por aquele que, no meu entender, é “persona non grata” é distorcida para que possa, a falta de boa técnica argumentativa, refutar o pensamento contrário.

São crenças e ideologias amorfas que já não se coadunam com o tempo presente.

O mundo virtual, certamente, trouxe-nos um cabedal de conhecimento. Entretanto, a superficialidade de nossas opiniões nos tornaram meros replicadores e digladiadores na arena, que se entende sem regras, das redes sociais.

Desse modo, é inegável que a divergência é salutar para o enriquecimento do debate, desde que haja argumentação contra os fatos, e não agressão às pessoas.

Odemirton Filho é professor e oficial de Justiça

Padre Charles admite, no futuro, ingressar na política partidária

Entrevistado da semana da série “6eis Perguntas” do Blog da Chris, de Christianne Alves, o padre Charles Lamartine – diretor do Colégio Diocesano Santa Luzia (CDSL) de Mossoró – admite desembarcar na política partidário-eleitoral no futuro. Não fixa prazo nem aponta qualquer tipo de obsessão nessa conjectura.

Padre Charles é atualmente diretor do Colégio Diocesano Santa Luzia de Mossoró (Foto: Célio Duarte)

No ‘confessionário’ da Chris, ele afirma: “Talvez, num pensamento para longo prazo, me vincularia a um partido e a um projeto, caso se fizesse necessário, em prol do bem comum, mas jamais por pensar num projeto pessoal e unicamente meu.

Política, religião e educação

Blog da Chris – A gente percebe que o senhor é um “animal político”, como bem definiu o filósofo Aristóteles. Isso significa dizer que pode ser um nome para a política um pouco adiante?

Padre Charles Lamartine – Nenhum cidadão sensato pode ignorar a política. Não é a primeira vez que me perguntam se é possível que um dia eu venha a ter uma atuação partidária e eu diria não é prudente qualquer negação absoluta, e recorro ao que o Papa Francisco citou nos últimos dias, de que “a política é um excelente modo de se fazer caridade”. Insistimos tanto que as coisas precisam mudar, que é preciso repensar, mas muitas vezes não nos implicamos no processo de mudança. Talvez, num pensamento para longo prazo, me vincularia a um partido e a um projeto caso se fizesse necessário, em prol do bem comum, mas jamais por pensar num projeto pessoal e unicamente meu. Afirmo, sobretudo, que meu atual projeto é fortalecer a educação de onde estou atuando. Hoje, meu vínculo e minha dedicação pessoal, humana e profissional, o meu compromisso é para com a causa da educação.

Veja entrevista na íntegra clicando AQUI.

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A marca das oligarquias

Por Paulo Linhares

Há vinte e cinco séculos, o filósofo Aristóteles enquadrava em dois grupos as formas de governo: normais (aquelas que têm por objetivo o bem da comunidade) e anormais (aquelas que visam somente vantagem para os governantes). Assim, reconheceu a existência de três formas normais de governo ou de organização daquilo que conheciam como polis, a cidade: monarquia, aristocracia e democracia.

A democracia teria como características a participação de todos os cidadãos no exercício do poder e a isonomia (igualdade de direitos) entre eles; a aristocracia traduz a participação de uma minoria no poder e na titulação de direitos; e, a monarquia, que é o governo de um só, o rei ou soberano.

As formas anormais seriam meras degenerações daquelas: tirania (da monarquia), oligarquia (da aristocracia) e demagogia (da democracia).

Nesta amena conversa de domingo, interessa tomar e examinar uma dessas formas: a oligarquia, a degeneração da aristocracia. Interessante notar a diferenciação que o pensador contemporâneo Moses FINLEY, na obra Democracia antiga e moderna (Rio de Janeiro : Graal, 1988, p. 26), sentencia:

“( … ) a diferença entre democracia e oligarquia é a pobreza e riqueza. Onde quer que os homens governem devido à sua riqueza, sejam eles poucos ou muitos, há uma oligarquia, e onde os pobres governem, há uma democracia.”

No Houaiss, a oligarquia é definida como “regime político em que o poder é exercido por um pequeno grupo de pessoas, pertencentes ao mesmo partido, classe ou família”.

Atualmente, no Brasil, oligarquia passou a ser entendida simplesmente como o compartilhamento de cargos públicos eletivos por um grupo familiar. A política brasileira ainda hoje é dominada por oligarquias, em todos os quadrantes do território nacional.

No momento atual, aliás, experimenta-se um recrudescimento do espírito e das práticas oligárquicas, no sentido dado por último, merecendo destacar o exemplo do Rio Grande do Norte em face das eleições para presidente, governador, senador, deputados federais e estaduais, que acontecerão em outubro de 2010.

A tirar pelos registros deferidos pelo TRE/RN, as oligarquias locais demonstram um enorme apetite para abocanhar os cargos eletivos em disputa. Uma dúzia delas disputam praticamente quase todos esses cargos. E pelo caminhar do andor o poder político do Rio Grande do Norte não lhes escapará, com a continuidade das práticas clientelísticas que, infelizmente, estão na base dos costumes políticos dos potiguares.

Inegável que esse domínio político das oligarquias enfraquece a democracia e impõe um enorme atraso às questões da cidadania e da participação popular nos negócios do governo. Mais arrasador afigura-se relativamente aos partidos políticos, que jamais ganharão consistência se aparecem como meras expressões desse grupos familiares.

Por fim, a ordem oligárquica atinge um dos preceitos mais importantes do Estado Democrático de Direito, que é o princípio da igualdade (ou isonomia) entre os cidadãos, que segundo José Afonso da Silva, “porque existem desigualdades, é que se aspira à igualdade real ou material que busque realizar a igualização das condições desiguais”.

Em sendo a igualdade um elemento essencial da democracia, a sua inexistência é a negação desta. Óbvio.

O resto é conversa para boi dormitar.

Paulo Linhares é professor e advogado

* Texto originalmente publicado pelo autor há mais de sete anos, continua atualíssimo. Por isso, o Blog Carlos Santos considerou tão oportuno sua veiculação, a pouco mais de um ano de mais uma eleição estadual e à Presidência da República.

Do Estado Democrático de Direito ao Império do Crime

Por Carlos Santos

“Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes (…)”. – Artigo 5º, Constituição do Brasil.

No dia 11 de outubro deste ano, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) decidiu “punir” a juíza Clarice Maria de Andrade com pena de “disponibilidade”. Ficará afastada recebendo salários, mas pode ser convocada a atuar, a qualquer momento, depois de pelo menos dois anos da punição. Está em stand-by (modo espera), digamos.

Quanto aos salários, doutora Clarice continuará os recebendo normalmente, sem maiores dilapidações.

Em contraponto, a Associação dos Magistrados do Brasil (AMB) emitiu nota considerando a punição “desproporcional” e prometeu reagir em sua defesa. Sobre a vítima paraense, os caríssimos judicantes da AMB não abriram o bico. Devem ter considerado normal o que narrarei abaixo.

O que levou doutora Clarice à punição foi o fato de ela ter determinado o alojamento de uma menor de 15 anos numa cela na cidade de Abaetetuba no Pará. Por 26 dias, em meio a 30 homens, essa menor foi queimada com pontas de cigarros, espancada e estuprada incontáveis vezes pelos marginais aglomerados no local.

O episódio e a “punição” nos remetem à celeuma no Congresso Nacional, em torno das “10 Medidas Contra a Corrupção“, resultado de mobilização nacional puxada pelo Ministério Público do país. Na prática, a proposta foi desfigurada na Câmara Federal (veja AQUI) na calada da madrugada e teria o mesmo destino numa votação às pressas, no Senado da República (veja AQUI), quando algumas vozes na Casa reagiram à esperteza.

É princípio constitucional de que ninguém está acima da lei. Mas na prática o cidadão comum não enxerga nem sente isso. O episódio da doutora Clarice prova que existem, sim, alguns figurões acima da lei. Acima em vantagens pecuniárias descabidas e em anteparos à própria lei.

Mas daí partirmos para a tentativa de criminalizar juiz e promotor, há uma profunda diferença.

Eles não devem estar acima da lei, precisamos ter instrumentos mais ágeis de averiguação e sanções contra eventuais abusos que venham a cometer, ao mesmo tempo que é descabido tolher os primados do Judiciário e do Parquet (expressão francesa para representante do Ministério Público) em nome da democracia.

O episódio que resultou na suposta punição à doutora Clarice ocorreu em 2007. Quase dez anos para se ter uma definição, que na verdade pune novamente a menor e seus familiares. Se Clarice fosse uma bancária, comerciária, professora, pedreira etc., estaria presa e não aquinhoada com descanso remunerado numa confortável casa. Portanto não há isonomia perante à Constituição.

O QUE boa parte de deputados e senadores deseja, de verdade, não é assegurar o nivelamento legal perante a Constituição, de juízes e promotores, mas principalmente intimidá-los e garroteá-los. Isso é mais do que óbvio.

Uma necessidade da República Democrática é impedir privilégios, seja lá de quem for, para que realmente não tenhamos que testemunhar o Estado servir a uma minoria em detrimento da maioria sem direito à Educação, Saúde, Segurança Pública e à própria vida.

Também não é sensato que procuradores da República queiram submeter o Congresso Nacional às suas vontades, dando chiliques em entrevistas, como se a proposta anticorrupção apresentada às casas legislativas fosse uma obra-prima “imexível”.

Eles não são donos da verdade nem legisladores.

O parlamento tem o dever de discutir, questionar, legislar, sugerir, se contrapor, apresentar substitutivos/emendas ou não. Ou os senhores procuradores querem também cumprir essas prerrogativas do poder legalmente constituído para esses fins?

É certo que boa parte dos congressistas não possui condição moral para o debate, mas existe legitimidade que foi dada nas urnas, pelo mesmo cidadão que se queixa deles, das leis e da situação de desmanche dos serviços básicos ofertados à sociedade. O Executivo sangra nesse contexto, ainda sem firmeza no pisar.

A concepção da separação dos poderes que de forma elementar fora lapidada por Aristóteles há mais de 2.400 anos, para depois ser vitaminada por John Locke e Montesquieu (O espírito das leis), muitos séculos depois, só funcionará numa civilização marcada pela tolerância e diálogo. Ninguém pode ficar à margem ou acima da lei.

O poder “Moderador” que tivemos sob a batuta da Constituição imperial de 1824, não pode e não deve ser reinventado sob outros artifícios, em pleno Século XXI. Devemos nos valer do bom senso, de um novo iluminismo que nos livre de novas trevas e não nos empurre às mãos de outros tiranos, sob a égide da “lei”.

Meu temor é que desse duelo de interesses, em que uns tentam se proteger da lei e outros parecem interessados em impor a lei que entendem ser sua, messiânica e indiscutível, sejamos tragados pela barbárie e pela anarquia. Há sinais de revolta que vão além dos grupos organizados e mexem com o homem de bem, que não aguenta mais tanto descaso.

Com poderes e instituições de Estado em choque e duelando entre si, abaixo ficam os ‘sem poder’ que podem reagir à força, como forma de sobrevivência. Teremos nossa própria Bastilha para botar abaixo? Talvez.

Particularmente, não acredito em êxito do “Frankstein” aprovado na Câmara Federal, com apoio dos principais partidos que se transformaram em organizações criminosas. A tentativa de criminalizar juiz e promotor, é cesarista, porque se propõe a impor o terror para dificultar a real supremacia do Estado Democrático de Direito, o “Estado de Leis”.

Por outro lado, eles não são donos de um Novo Estado ou Estado Novo – reitero.

Estejamos atentos. Se os delinquentes do Congresso conseguirem vencer essa cruzada, mais adiante vão tentar impor até a criminalização do delegado civil. Não duvido. Promoverão o terror para que esse não indicie ninguém, sob o medo de ser processado cível, administrativa e criminalmente.

Aí chegaremos ao estágio final da República e dos seus primados, com a preponderância do Império do Crime.

Carlos Santos é editor e criador do Blog Carlos Santos