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Deus me proteja

Por Bruno Ernesto

Santuário da Divina Misericórdia em Cracóvia, na Polônia Foto: Bruno Ernesto)
Santuário da Divina Misericórdia em Cracóvia, na Polônia Foto: Bruno Ernesto)

Aviso ao eventual leitor desavisado que, antes que ele perceba, não me julgo tão religioso quanto você pensa. Todavia, tenho fé e não sou ateu, embora creia genuinamente em Deus.

Após minhas férias e, pois, retomar o rumo da vida terrena da minha insignificância que alguns tantos julgam ser – embora, íntima e nitidamente, tenham sentido minha ausência -, logo que coloquei os pés na minha amada cidade, rumei para o templo sagrado do elixir mais democrático que existe – mais até que as famosas “Landsgemeinde” dos Cantões suíços -, me pus a saborear um café espresso bem prensado, tão reconfortante, feito quem volta o berço em busca de afago materno.

Há três coisas que são excelentes, quando bem prensadas: café, livros e paçoca de carne seca.

Já registrei em outras oportunidades que as cafeterias são um mundo à parte e você, não raro, se depara com toda sorte de gente, assuntos e acontecimentos: ordinárias e extraordinários.

Lembro ao querido leitor que também já mencionei em outras crônicas, que há pessoas que não têm qualquer cerimônia ao conversar em viva-voz em ambientes públicos, de modo que, nos ternos das normas sociais e jurídicas, o que se fala passa a ser de domínio público. Ninguém pode obrigar o outro a desescutar. E digo, caro leitor: a maldade de gente boa é tão pior que a bondade de gente ruim.

Explico: tudo girava em torno de um portão quebrado. Não suportavam tanto descaso do condomínio com o portão de acesso dos veículos que ora quebrava, ora voltava a quebrar.

– É um absurdo! Total falta de absurdo! Diziam.

Pelo menos a reunião semanal no salão de festas do condomínio para mais um ciclo de orações estava mantida.

Vez ou outra, sussurravam contorcendo conto da boca, rogando a Deus que certos vizinhos não fossem orar dessa vez. Por fidelidade à informação, quase indaguei o motivo da insurgência. Por sorte, pontuaram que nem todos do ciclo, são tão fervorosos.

Foi aí, então, que avisaram no grupo de whatsapp do condomínio que o portão continuaria “enteditado” até o início da noite.

– Absurdo! Disseram.

– Faz dois anos que ele diz portão entedidato!

Quando falaram sobre a casinha do lixo, pelo fato de um dos sacos de lixo ter se rasgado acidentalmente no dia anterior e deixado cair seu conteúdo no chão da casinha, disseram que o lixo deveria ter caído bem no meio da sala do condômino, como castigo, ao invés de sujar a casinha do lixo do condomínio.

– Absurdo! Quem já se viu, sujar a casinha de lixo do condomínio! Que suje o seu apartamento como merecido! Multa! Deveriam olhar as câmeras!

A par da situação, ouvindo aquela destilação de ódio bem ali na minha frente, sem maior cerimônia, reverberava na minha mente o que o saudoso Rubem Alves dizia a respeito de religiosidade.

Dizia ele ninguém oferece à Deus algo de bom. As pessoas pensam que Deus é sádico. Sempre oferecem sofrimento em troca de uma bênção – subir quatrocentos degraus de joelhos se alcançar uma graça -, quando Deus – dizia Rubem Alves –, em verdade, quer apenas um jardim de delícias, e não sofrimento.

Ao que parece, ao invés de estar florido pelo ciclo de orações semanal, o jardim permanece verde, no que pertine à genuinidade religiosa de alguns de seus frequentadores mais fervorosos.

Vendo isso, apesar do medo escatológico, vejo que eu, que não participo de nenhum ciclo de orações, talvez escape do inferno.

Crer, orar e agradecer a Deus sozinho e sem alarde, dentro ou fora de um templo religioso, me parece mais genuíno.

Como Chico César canta: Deus me proteja de mim, e da maldade de gente boa. Da bondade da pessoa ruim. Deus me governe e guarde, ilumine e zele assim.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

De um amigo que encontrou a fé

Por Honório de Medeiros

Ilustração da Biblioteca do Pregador
Ilustração da Biblioteca do Pregador

Certo amigo meu, até recentemente ateu, me contou acerca de sua conversão.

Disse-me ele que na meia-idade do conhecimento, na qual chegou por caminhos tortuosos, após perambulações de toda a ordem no universo da vida e dos livros, deu-se conta que era o momento de fazer um balanço em regra de sua vida passada e fazer um planejamento, mesmo que capenga, para o resto dos seus dias.

Um assunto, em especial, clamava por atenção: sua relação com a Fé.

Após esse primeiro ponto firmado, pôs-se a examinar o tema por um viés, digamos assim, oblíquo: entendeu que o importante era pensar acerca do mundo tal qual o estava encontrando, naquele momento. Colocou as mãos à obra.

Em sua procura, olhando para os lados, para trás e em frente, por todos os ângulos, de todas as formas, somente encontrou o horror, a escuridão mais negra, uma história de sangue e dor, excetuando-se um ou outro ponto de luz a sobreviver sabe-se lá como, nem por quê.

Explicou-me essa constatação fazendo um paralelo: “imagine”, disse ele, “o milagre da sobrevivência da Igreja no auge da Alta Idade Média, após a queda de Roma, quando iniciou o período que os historiadores antigos chamavam de ‘Idade das Trevas’”.

“O mundo se transformara, então, em um caos. A Igreja, entretanto, sobreviveu graças aos monges irlandeses, que no silêncio e na solidão de seus monastérios, copistas que eram, crentes integrais, legaram ao futuro a doutrina de Cristo”.

“É como se hoje em dia vivêssemos um período semelhante. Horror e escuridão, novamente, ou sempre, e o mal lutando com unhas-e-dentes para dominar, para ser hegemônico. Guerras, genocídios, estupros, roubos, torturas, infanticídios… A lista é infindável”.

“Se há o mal”, disse-me ele, para concluir, “então há o Bem. Se há o Bem, então há Deus”.

E, assim, por intermédio dessa estranha conclusão, de forma alguma absurda, ele chegou à Fé. E que Deus o tenha em seu regaço.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

*Crônica extraída do livro De uma longa e áspera caminhada, pela Editora Viseu.

Não sou ateu

Por François Silvestre

Não. Ninguém é. Até quem não crê em nada, crê no nada. E o nada é um deus. Cada povo, cada gente, cada tribo, cada aldeia, cada ser pensante tem um deus. Mesmo negando os deuses dos outros. Por que deus é angústia. E a humanidade, angustiada, é uma fornalha de parir deuses. Uma maternidade de deuses. Enfermaria de crenças, com berços de amparo aos desvalidos que tentam explicação do que não entendem. Deus, céu, mar, luz do sol, fé

Nasci e me criei sob o tacão do deus hebraico. Nunca viajei com Abraão saindo de Ur, da Suméria, em busca do Golfo Pérsico. Não. Nasci no sertão mais peba dos sertões. Que nem é o de Guimarães Rosa. Mas, fui obrigado a dobrar os joelhos pro deus de Abraão.

Contar pecados no confessionário para emissários do deus hebraico. Punhetas e troca troca. Rezar orações sem saber o que significavam.

Aí, cresci. Aprendi e descobri o meu deus. Que não possui templos, não tem padres castos de mentira nem pastores picaretas. Bandidos que em nome do deus hebraico, coitado deus, enganam, roubam e assassinam o próprio deus.

Aprendi ainda jovem, com Spinoza, quem era Deus. A Natureza. Deus onipresente, que está em todos os lugares. Não há lugar onde ele não esteja. Não há. Ele é a rosa que desabrocha e é também a erva daninha que mata a roseira.

E como todos os lugares têm seu deus; os deuses da China, da Índia, do Tibete, das tribos africanas, dos hebreus, dos judeus, o Brasil também tem seu deus original. É Tupã. Sem templos, sem orações, sem cobranças.

Sua túnica é a sombra do jacarandá, no sol. Seu amparo é o caramanchão de bambus, na chuva. Taí meu deus. Tupã. Que não ampara nem justifica hipócritas santificados de exploração dos tolos.

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Ateu com a graça de Deus

Por François Silvestre

Todos os deuses existem. Mas Deus não existe e nem por isso tudo é permitido. A existência de Deus não é condição imprescindível para limitar as ações humanas. O deísta mau caráter pode viver a “glorificar” Deus e assim mesmo não tê-lo como barreira para a prática do mal.

O ateu bom caráter tem no remorso o mais terrível dos deuses. E aí morre a argumentação de Dostoievsky.

Não existe monoteísmo. Todos os crentes, de todas as seitas, fatiam sua fé. E disfarçam. O cristianismo desmembra Deus na trindade misteriosa. Tanto que os evangélicos nem sabem mais da existência do Deus hebreu. Basta-lhes um dos testamentos e todos os arrecadamentos. O uso do velho testamento só serve quando o texto interpretado justifica dízimos e outras prebendas.

Zé Maria vai me telefonar para corrigir. E mandar que eu leia Isaías. No Islã, Alá só é único no verso de abertura do Alcorão. “Láh iláhá illa Alláh, Muhammad rasúl Illáh”. Na prática, Maomé é deus e são deusas todas as guerras “santas” desde os embates de Saladino com templários, cruzados e sucessores de Balduíno.

Deus existe até no ateísmo. Por quê? Porque se não existe na forma de criador, existe no formado de mito. O mais exuberante, imortal e universal de todos os mitos. Só que nesse caso ele é criatura e não criador.

Os deuses gregos só diferiam dos humanos na força específica de cada destinação e na imortalidade. Dispensavam as Academias. No resto, carregavam as mesmas paixões, fraquezas e grandezas humanas.

A beleza de Afrodite e a embriaguez de Dionísio, Vênus e Baco latinos, sempre fascinaram o imaginário da literatura de ficção. Ou até da literatura de ensaios.

Não gosto do deus hebreu porque ele me assustou na infância. Eu não rezava por admiração. Rezava por medo. Medo de almas e das suas barbas saindo das nuvens, nos “santinhos” que o padre alemão distribuía na igreja dos Domingos.

Só depois descobri que alma só assusta se for nova e conhecida. Nas aulas de história, todos estavam mortos. Mas eu não temia as almas de Deodoro, de D. Pedro nem de Anchieta. Almas velhas, distantes, desconhecidas. Morria de medo das almas de colegas ou vizinhos mortos. Almas novas é que assustam.

Hoje eu tenho medo do medo. Não o quero de volta. Troquei o medo pelo desprezo. Apenas olho com olhos frios e descaso essa parafernália de igrejas vendendo lotes no céu aos desesperados.

Não me vanglorio do ateísmo. Gostaria de acreditar. Mas a fé não se encaixa no recipiente da razão. Se eu pudesse manobrar a fé, me incluiria nela. Tenho inveja dos que acreditam honestamente. Digo honestamente, porque não creio na fé dos vendilhões de salvação.

É angustiante não crer na própria alma. Se a minha existe, que duvido muito, ela não acredita nem nela mesma. Té mais.

François Silvestre é escritor