Arquivo da tag: carta

Carta às minhas filhas Lana e Patrícia

Por Inácio Augusto de Almeida

Eu tenho mania de criar aforismos. E já criei prá mais de 500 deles. Tem um que eu gosto muito.

Tempo é uma questão de preferência. A gente sempre tem tempo para as coisas que gosta.

Este pensamento nasceu da observação do comportamento das pessoas. Eu nunca vi um jogador de baralho sem tempo para o jogo, um corrupto sem tempo para maracutaias, um boêmio sem tempo para a bebida, um bom estudante sem tempo para a leitura. E por aí vai.

Mas a vida, minhas filhas, não se resume a fazer apenas o que se gosta. O sucesso está diretamente ligado à nossa capacidade de fazer, também, as coisas que não gostamos. Isto porque há uma tendência no ser humano, tendência natural, de buscar o prazer em tudo.

É bom, claro que é bom, mas é preciso ter consciência de que nem sempre nos é permitido só fazer aquilo que gostamos.

Aí entra uma coisa chamada disciplina.  Pois é através da disciplina que vencemos nossas paixões e, consequentemente, submetemos nossa vontade ao objetivo pré-determinado.

É preciso então separar um pouco do nosso tempo para as coisas que PENSAMOS que não gostamos, quando na realidade nós temos é MEDO de realizar estas coisas. Medo do desconhecido, medo de não sermos bem sucedidos, medo do medo. Medo que muitas vezes  é colocado para que nos tornemos escravos de determinadas situações.

Sabe filhas, nem sei por que estou falando isto para vocês. É que às vezes eu sinto vontade de externar estes meus pensamentos. E como gosto de conversar com vocês…

Mudando de assunto.

No ano de 1964 ia muito ao Rio. Tinha um irmão meu, o Laerson, que morava num hotelzinho bem perto do Palácio do Catete. Em frente ao Palácio havia um barzinho-restaurante que, aos sábados, servia uma feijoada muito boa.

Do barzinho a gente saía caminhando até o Largo do Machado, onde havia várias sinucas. Perto do hotel havia também um cinema, o Bruni Flamengo, se não me engano. Foi lá que vibrei com o James Bond, na época o grande sucesso de bilheteria.

Eu conheço esta área muito bem. O Rio é uma cidade linda. Uma cidade desenhada para o desfrute da terceira idade, já que a cada dia a pessoa pode inventar um passeio, tantas são as opções de lazer. Lazer, o Rio é a Cidade do Lazer, nada nessa cidade lembra trabalho.

Seu pai por lutar pelas crianças mais pobres e combater a corrupção em cidades do Nordeste terminou condenado a pagar danos morais a quem está condenado por prática de corrupção. O meu crime foi prática de calúnia, injúria e difamação, mesmo sem nunca ter dito uma só mentira.

O dinheiro que seria usado nas compras de Natal teve que ser destinado ao pagamento dos danos morais. Pior seria, minhas filhas se eu tivesse feito uma retratação. No Natal deste ano vocês ganharão os seus tênis e as suas novas mochilas.

Não consigo esquecer vocês gritando “a polícia veio prender o papai”, quando um agente de polícia bateu tão forte no portão e gritou tão alto POLÍCIA para me entregar uma simples citação. O objetivo era causar escândalo e assustar a todos. Vocês ficaram traumatizadas. Tão traumatizadas que toda vez que alguém bate na porta ainda pensam que é a polícia que vem buscar papai.

Peço perdão a vocês pelo que aconteceu. Eu poderia ter ficado caladinho ante a corrupção. Tão caladinho como os outros.

Sigo para uma hospitalização em Natal. Vou tentar o tratamento de uma doença que desconheço, mas que imagino ser grave. Deus sabe sempre o que é melhor para nós.

Estudem, estudem sempre. E nunca se esqueçam de que quem estuda tem tudo, quem não estuda não tem nada. Quem não estuda não tem nada, mesmo que consiga dinheiro através de meios espúrios. A história está cheia de corruptos que sustentam filhos e genros malandros.

Do seu pai,

Inácio.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

Carta a um desconhecido ignorante

Por François Silvestre

Um aviso: Se você não é ignorante nem desconhecido, não leia esta carta. Caso a receba, não abra o envelope. Não é de boa educação ler correspondência alheia.

Difícil é a educação superar a curiosidade. Se não é destinada a você, contenha-se. Mesmo que você diga a si mesmo: “quem disse que eu quero ler essa bosta”?

Cumpra sua pose de destinatário equivocado e rasgue o envelope sem retirar a carta. Consegue? Duvido.

Esta carta não é para você. Ao lê-la, revela má educação. Não conhece nem cumpre as regras da civilidade na cultura das correspondências. Não se lê correspondência alheia. O que danado você tá fazendo? Tá lendo isso? É um maleducado!

Essa carta não é sua. É pra um desconhecido ignorante. Se chegou ao seu endereço, foi equívoco dos Correios. Ou resultado da greve dos carteiros. Portanto, não leia.

A menos que você não saiba ler. Aí pergunte ao carteiro furador da greve, do que se trata. E se ele souber ler, vai dizer que não pode fazê-lo, pois não é um ignorante desconhecido.

Essa carta, missiva dos tempos outros, destina-se apenas e tão somente aos ignorantes. E ainda por cima se estiverem por baixo.

Você é ignorante? Se sim, continue lendo. Você já esteve por cima? Se sim, continue lendo. Você agora está por baixo? Se sim, continue lendo.

Você não é ignorante? Se não, vá ler outra coisa. Você nunca esteve por cima? Se não, vá ler outra coisa. Você sempre esteve por baixo? Se sim, tá perdendo seu tempo.

Você acredita em jornal? Se sim, continue lendo. Você acredita em político? Se sim, continue lendo. Você acredita em justiça? Se sim, continue lendo. Você acredita em mula sem cabeça? Se sim, leia e releia.

Você não perde tempo com besteira? Se não, por que tá lendo isso?  Você perde tempo com besteira? Se sim, pode abrir o envelope, talvez a carta seja pra seu vizinho. Todo vizinho é meio estúpido, né não? Então jogue essa carta no seu (dele) quintal.

Pus o “dele” entre parênteses porque talvez seja você o vizinho estúpido do outro vizinho menos bocó. Basta perguntar se ele leu isso. Se ele tiver lido, vocês se merecem. Se não, o bocó é você.

Pois bem. Gastei tanto tempo tentando localizar um destinatário que se nivele ao remetente, que quase não sobrou espaço para o assunto da carta.

Se você quer saber o assunto é sinal de que abriu o envelope e tá lendo. Ou não? Tantantantaaamm!

O assunto é uma graninha por fora. Não se assuste. Nada de telefone. Nem de e-mail. Nem encontro à noite. Mesmo que você seja chegado num encontro noturno.

Vamos conversar pessoalmente.

Diga ao Temer, pessoalmente, que não receba mais seus amigos bandidos no Jaburu. Venham pra cá. Aqui temos triturador de voz, fala todo mundo ao mesmo tempo; não há gravador ou perito que consiga separar as falas.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.