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Uma história da vida real

Por Honório de Medeiros

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Nas Seleções do Reader Digest que meu pai colecionava na década de 50 eu lia, anos depois, entre menino e adolescente, uma seção cujo título era “Histórias da Vida Real”.

Não mais me recordo de qualquer dessas “histórias”, exceto uma: durante a Segunda Guerra Mundial, as moças americanas eram incentivadas a participarem do esforço comum americano escrevendo para seus compatriotas combatentes mundo afora.

Um desses combatentes começou a se corresponder com uma garota do interior de um daqueles estados americanos do Oeste.

Passaram-se os anos e as cartas, que começaram cordiais, mas distantes, assumiram um teor cada vez íntimo, com troca de confidências, sonhos, planos e tudo quanto diz respeito a, finalmente, uma correspondência amorosa.

Tudo corria perfeitamente bem, exceto pela recusa obstinada da moça em enviar, para seu correspondente, uma fotografia e o nome da cidadezinha na qual morava. Todas suas cartas eram enviadas da Estação Central de Trem da capital do seu Estado.

Ele argumentava dizendo que gostaria de ter, perto de si, não apenas suas cartas e tudo quanto de bom elas lhe traziam, mas, também, uma imagem sua para a qual pudesse olhar naqueles momentos terríveis pelo qual estava passando.

Ela lhe respondia, justificando-se, que o amor, entre eles, começara pelo espírito, e assim deveria continuar até o momento em que, finalmente, pudessem se encontrar frente a frente, e uma fotografia poderia lhe dar uma falsa impressão que a realidade viria desmascarar.

Finalmente a guerra terminou. Ele lhe escreveu para combinar o encontro e ela lhe pediu que estivesse em certo dia e hora marcados, na Estação Central de Trem da capital do seu Estado, quando seria reconhecida por trazer, nas mãos, um ramo de rosas.

Essa era a única forma de reconhecê-la que ele dispunha: não sabia nada dela, de sua aparência, família, em qual cidade vivia, e, mesmo, se seu nome era real ou fictício. Todas as conversas mantidas por correspondência diziam respeito a aspectos da guerra e abstrações sentimentais.

No dia e hora combinados, meio-dia em ponto, lá estava ele. Para o trem e ele salta e olha, ansioso, para todos os lados.

Há poucos transeuntes na Estação. Ninguém que aparente ser uma moça desacompanhada portando um ramo de rosas nas mãos. Começa sua frustração.

Será que foi enganado ao longo de todos os anos? Será que tudo quanto ela lhe dizia por carta, o amor que nascera, os planos construídos, eram mentiras?

Parado, a maleta aos pés, a expressão ansiosa, ele olhava em todas as direções tentando encontrar uma explicação para um possível atraso, tal qual um acontecimento de última hora, um obstáculo inesperado…

O tempo passou. Uma hora depois, convicto que tinha sido iludido, ele começou a se dirigir para o guichê de vendas de passagens. Pretendia ir embora o mais rápido possível. Quando se aproximou do guichê viu, sentada, próxima ao local, uma senhora de aproximadamente sessenta anos trazendo, em suas mãos, um buquê de rosas.

“Então é isso?”. “Ela é esta senhora, e por essa razão não teve coragem de me enviar uma fotografia sua?”

Parado, perplexo, pensou em se esconder – não era possível aceitar que aquela senhora fosse sua amada! “E agora?” perguntou a si mesmo, deveria honrar o amor espiritual com o qual se comprometera e que independia de idade ou poderia justificar sua fuga alegando ter sido manipulado?

Não resistiu. Aproximou-se. “Senhora, seu nome é Lucy?”, indagou usando o nome usado por ela nas cartas.

“Não, ela me pediu para ficar aqui algum tempo, com essas rosas na mão, aguardando que alguém viesse a sua procura; ela está ali”, e apontou. Um pouco além, vindo em sua direção, com outro buquê de rosas nas mãos, uma belíssima mulher lhe sorria, enquanto acenava discretamente…

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

Liège

Por Bruno Ernesto

Cartas de Valèrie, Liège/Bélgica (Foto de autoria de Bruno Ernesto)
Cartas de Valèrie, Liège/Bélgica (Foto de autoria de Bruno Ernesto)

Em outras oportunidades registrei um costume que tenho: enviar cartões postais.

Quem ainda, de fato, os envia?

Embora nossa Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos  – segundo noticiam – ande moribunda, do ponto de vista empresarial, a crise é do próprio mercado postal, somada a outros fatores que você pode se inteirar com mais propriedade em outras fontes de mercados de capitais e de política. Quanto a esta última, muito cuidado com a fonte.

Sim, por ser uma empresa estatal, além dos serviços padrões, mantém serviços que a iniciativa privada despreza solenemente, como por exemplo, transcrição em Braille e o chamado registro módico, que custa a metade do valor convencional de uma encomenda e é muito utilizado para envio de livros e material didático.

Os próprios Correios divulgaram que foi graças a essa modalidade de envio que muitos livreiros conseguiram manter seus negócios durante a pandemia da COVID-19. Os sebos e leitores agradecem penhoradamente.

Eis um dos papéis distintos que uma empresa estatal, numa área tão particular, preserva sem se ater tanto resultado comercial.

Por ser millennial, ainda alcancei as cartas de papel.

Era todo um processo: envelopes, papel pautado, caneta esferográfica de ponta fina, selos, cola e muita inspiração.

Numa carta manuscrita, não há curtidas ou seguidores, como nas redes sociais digitais. Leva e traz notícias boas, ruins ou indiferentes. É uma relação sinalagmática entre remetente e destinatário.

De tão sagrada, seu sigilo é um direito fundamental protegido constitucionalmente no artigo 5º, inciso XII, da nossa Constituição Federal de 1988.

De fato, há muito tempo não escrevo nem envio uma carta pessoal pelos correios. Me falta destinatário.

Recentemente, pus minhas mãos em mais de duas dezenas de cartas que troquei nos anos noventa e início dos anos dois mil, com uma querida amiga de Liège, na Bélgica, que conheci no colégio e criamos um grande laço de amizade durante o seu intercâmbio aqui no Brasil, há quase três décadas: Valèrie Warnier.

Embora tenhamos trocado correspondências por anos a fio, as cartas cessaram. Há anos não mantemos mais contato.

Das últimas notícias que recebi dela, soube que havia concluído a graduação como restauradora de obras de artes e ia se casar. Estava radiante.

A última carta que escrevi para ela – quase vinte anos após as últimas que trocamos -, escrevi poucos meses após o falecimento do meu pai, em 2019 – ela sempre perguntava pelos meus pais -, e dava conta de muitos anos sem notícia alguma minha. Entretanto, nunca postei. Ainda não.

Antes disso, estive próximo de sua casa em Liège, apenas com o seu endereço de memória. Porém, não lembrava o número de sua casa e não pude procurá-la.

Nos últimos anos, por quatro vezes, estive a pouquíssimos quilômetros da sua cidade, que fica nos arredores de Bruxelas e Antuérpia. Novamente não foi possível procurá-la.

Até procurei nas redes sociais, e não a encontrei.

Quem sabe numa próxima oportunidade, muito em breve, possa reencontrá-la e, pessoalmente, entregar a próxima carta.

Espero que só tenha notícias boas.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

Cartas do reformatório

Por Marcos FerreiraCartas do reformatório

Peço desculpas aos interessados em amenidades, porém hoje quero discorrer sobre algo um tanto travoso, meio amargo. Mas um amargor diferente do amargor da amargura. Não. Isso não tem nada a ver com tristeza. O travo aqui é puramente abstrato, semântico. Nem tudo o quanto é amargo é desagradável.

Muito bem. Vivemos entre as paredes de um vasto e singular reformatório, invisível a outros que estão trancados em si mesmos. Cada um possui as chaves dos seus portões, contudo quase ninguém se atreve a sair, a encarar o mundo externo. Tal instituição metafórica (ou psicológica) é o nosso porto seguro, o que nos mantém centrados, nos trilhos. É isto que impede que descarrilhemos.

Esse lugar metafísico, fugindo à acepção comum, não acolhe apenas pessoas na menoridade. É outro tipo de espaço, também voltado para elementos adultos, de vários níveis e desníveis mentais. Nele somos amiúde reformados e registramos nossas lembranças desde sempre, sujeitos às suas normas e regras.

Consciente ou não, todo indivíduo vai emitindo suas correspondências nos mais recônditos porões de si próprios. Alguns, entretanto, por “razões que a própria razão desconhece”, como no dizer do filósofo Blaise Pascal, conseguem anular sua psique e aí findam não se tornando uma coisa nem outra, descambando para um abismo de esterilidade e solidão. Esses estão condenados ao nada.

Por meio de algumas cartas, exibo meu ponto de vista sobre o assunto proposto lá no início deste monólogo. Não creio que exista uma plateia interessada em saber o que busco com essa história de missivas. Também não estou bem certo do intuito desta narrativa sem objetividade. Todavia julgo correto sabermos o que somos ou desejamos ser. É mais ou menos o ser ou não ser de Shakespeare.

Então escrevam (embora desprovidos de talento) tudo aquilo que representa a essência de vocês. Até porque, segundo José Saramago: “Todos nós somos escritores, só que alguns escrevem e outros não”. Assim compartilho minhas impressões. Sem pressa nenhuma ou desejo de abandonar o reformatório.

Marcos Ferreira é escritor

O mesmo escritor fantasma

Acho que as cartas de políticos denunciados por corrupção, no Brasil, são escritas pelo mesmo “ghost-writer”.

Estilo melodramático é o mesmo.

Todos são inocentes.

Todos são vítimas da imprensa.

Ah, tá!

* Ghost-writer  significa “escritor fantasma”, expressão de origem inglesa que denomina alguém que escreve texto para um assessorado, como discurso e até livro.

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